Ano XIII | Edição 757 | 27 de Junho de 2017

ARTIGOS

28 de Outubro de 2011 às 12h02

As Ciências

Tomislav R. Femenick - (Autor do livro "Para Aprender Economia")

 

Um dos conceitos da história como ciência está sendo revisto: a civilização do ser humano não se iniciou isoladamente na Mesopotâmia, como se presumia até há poucos anos.  Parece ter acontecido concomitantemente, ao mesmo tempo, na Mesopotâmia, na China e, provavelmente no Vale do Rio Indo, hoje território da Índia e do Paquistão. Entretanto esse desenvolvimento que estamos falando - embora comporte alguns elementos cognitivos, como conhecimentos técnicos, percepção, memória e raciocínio - não incorporava um saber capaz de analisar percepções, concatenar ideias, deduzir conceitos. As civilizações mesopotâmicas, chinesa e harappeana (do Vale do Indo) desenvolveram técnicas de fazer coisas e normatizaram alguns procedimentos administrativos, jurídicos, religiosos etc. As incursões que fizeram na arte do raciocínio lógico foram esporádicas e não tiveram grandes repercussões ao longo da historia. 

Foi na Grécia antiga que o processo civilizatório tomou forma com base na percepção, na dedução, na indução e, principalmente, na lógica. Os gregos foram os precursores em quase todos os campos do saber, tomando consciência dos elementos do meio ambiente através das sensações físicas, porém primordialmente por produzir representação intelectual da realidade; fazendo indagações e focando a razão. Foram tão profundas e amplas as incursos dos filósofos gregos que moldaram a forma de pensar do homem ocidental e, por decorrência, a forma de pensar da humanidade. 

Uma característica da filosofia grega é a multiplicidade de temas, de tal forma que incluía aquilo hoje não chamamos de filosofia: a religião e as ciências - pois o filosofo era o sábio "que refletia sobre todos os setores da indagação humana". A religião era tratada como ética, história etc.; as ciências eram investigadas por conclusões lógicas. Ai estava o problema. Algumas ciências exigem testes empíricos, demonstrações práticas que comprovem seus postulados, impossíveis de serem realizadas com simples elementos de discussão, por mais racionais que sejam. Nas ciências exatas, as chamadas ciências duras - tais como a física, química, matemática - essas provas são obtidas em laboratórios, onde as experiências repetidas apresentam sempre o mesmo resultado. Tantas vezes se junte duas porções de hidrogênio a uma porção de oxigênio, tantas vezes sem obitem água.

Todo esse preâmbulo é simplesmente para delimitar o comportamento dos pensadores das ciências humanas, ciências cujas teorias e leis não podem ser comprovadas em laboratórios. As ciências econômicas, contábeis e da administração encontram-se nesse caso. Como, então, procedem os pensadores dessas ciências? O trabalho desses cientistas é realizado com o uso do método construtivo, que utiliza uma cadeia de processos que se alimentam e se entrelaçam, com avanços e recuos constantes, até se encontrar a verdade do fato pesquisado. Esse sistema tem quatro etapas distintas. A primeira delas é a "Observação", que consiste na coleta de dados a respeito de determinados fatos, sobre os quais se propõe fazer um estudo científico. Esses dados devem ser representativos da vida real. Em seguida vem a fase de elaboração da "Hipótese". Isto é, de posse desses elementos formula-se um modelo, que nada mais é do que uma explicação provisória para o conjunto de fatos a ele relacionados. É um pressuposto teórico simples que ainda deverá ser comprovado. 

As etapas seguintes são as decisórias. A terceira delas, a "Experimentação", é a fase em que se testa a consistência da hipótese e se procura encontrar falhas em sua proposta, estrutura e conceito, bem como verificar se suas afirmações são aplicáveis, sempre que o fenômeno acontecer nas mesmas circunstâncias. A experimentação é o confronto da hipótese com o mundo real, quando há oportunidade de se fazerem alterações e correções. Quando suas afirmações não são comprovadas, a hipótese deve ser abandonada. A última é a aquela em que se constrói a "Teoria". As teorias científicas são modelos que procuram representar a realidade de forma organizada. Uma teoria em particular é, então, uma abstração racional que explica um determinado fenômeno ou uma série de fenômenos. Para isso ela deve passar por todas as etapas anteriores e se basear em todos os conhecimentos necessários e disponíveis. As teorias são as bases lógicas e racionais de todas as ciências e fazem com que elas deem ao ser humano a possibilidade de conhecer a si mesmo e a natureza, bem como de fazer as coisas. 

Aqui está o bizarro da coisa toda. Para se confirma a integridade das teorias das ciências humanas, há que se voltar à filosofia, que se recorrer à epistemologia, um ramo da filosofia que analisa "cientificamente" as formulações teóricas dessas ciências. Também identificada como a teoria do conhecimento, ela tem como ferramentais, entre outras, a metafísica e a lógica, com o que valida ou não a consistência das premissas, dos métodos, das teorias e das leis dessas ciências. Os pressupostos das ciências econômicas, contábeis e da administração somente têm consistência, quando comprovados pela epistemologia.  


JM