Ano XIII | Edição 757 | 27 de Junho de 2017
Valério Mesquita

Valério Mesquita

mesquita.valerio@gmail.com

07 de Agosto de 2015 às 12h56

BEM-VINDOS AO BARBARISMO

Bem-vindos ao novo mundo do exagero! A mulher ideal, festejada, é aquela bombada, coxas grossas e quadris enormes. Morreu o modelo feminino clássico, comportado, que foi decantado em prosa e verso. E viva o rap, onde a animalidade, a macaquice dos gestos humanos são interpretados como manifestação cultural pelos cariocas. Bom mesmo, até chegar ao orgasmo, é a histeria adolescente que promove o trote universitário. Nele, vê-se um desejo mórbido, doentio, sádico dos jovens que sentem no sofrimento humano, na dor, um prazer sexual que só Freud explica. Só pode ser tara. O problema não é só da polícia mas da psiquiatria. E o bullying?

Bem-vindos ao novo mundo do transtorno de conduta. A prática da virtude é vaiada na rua e banida dos lares, trocada pela patifaria do programa Big Brother. O maníaco sexual, hoje, está dentro de sua casa. A juventude continua enferma, sôfrega, cantando forró erótico de letra pobre e homicida, pois assassinaram a memória musical de Luiz Gonzaga e toda aquela corte formidável de intérpretes da verdadeira mentalidade nordestina. Tudo é abuso, transgressão, subversão da ordem social, cultural e política. 

A criança, na escola ou em casa, aprende logo a dançar, remexer o traseiro, a ensaiar os passos promocionais do rap, rumo ao estrelato, para gáudio dos olheiros pedófilos. Ninguém quer ser honesto. Meretriz, em vez de atriz. Eu sei, eu sei que o tempo muda os costumes, o mundo gira, uma geração difere da outra num rodízio interminável. Mas, não poderia mudar pra melhor? Por que os vícios permanecem e triplicam a nocividade no ser humano que cada vez mais sucumbe e se bestializa? 

Bem-vindos ao trágico, ao catastrófico e ao sinistro das estatísticas do pós-carnaval nas estradas, nas ruas, nas praias, onde tudo é subvertido em nome da velocidade, do alcoolismo e da vulgaridade. Quantos inocentes não morrem no lugar dos maus? O fabricante do cenário do crime é sempre o próprio homem, pela ganância do dinheiro, pelo prazer indecoroso do sexo e, enfim, toda permissividade inclinada eternamente para o ilícito. Isso vem da gênese e do Gênesis. Aliás, o pecado não mora ao lado e sim, dentro de nós. 

Não pensem que sou contra o carnaval, a música, a dança, os divertimentos públicos. Absolutamente. Critico o excesso na bebida, o consumo de drogas, a degradação dos costumes pelo modismo em nome de uma falsa modernidade. Esquece o passista que o chão onde pisa é também o repouso da carniça. 

São coisas minhas, muito minhas. Imaginar que as festas ditas profanas reúnem milhões de foliões com gastos e gostos extravagantes! E as festas beneficentes em prol dos oprimidos, dos sem tetos, sem planos de saúde, desempregados e famintos não chegam nem a agrupar um terço de gente e de recursos? Em dezenas de capitais do Brasil o carnaval dura de sete a oito dias. Feriado religioso é mais comemorado nas praias que nos templos. Pode ser que a fé cristã esteja perdendo a parada para o mundo cão. Mas, como o Salvador falou em "benditos do meu Pai", o processo seletivo se resume numa minoria. "Muitos são chamados e poucos os escolhidos", apesar da imensa misericórdia de Jesus Cristo.

Mas, afinal, quem for partidário do barbarismo que me desculpe: a leitura da Bíblia, como um hábito, é fundamental para evitar e se defender do caos. Seja íntimo, pois, do Senhor.

Amém. 

24 de Julho de 2015 às 14h55

GRÁCIO GUERREIRO BARBALHO

Lembro-me velório do acadêmico Grácio Barbalhoonde havia pouco número de pessoas que lhe foram dá o último adeus. Da Academia, apenas um terço dos imortais compareceram. São José de Mipibu, terra natal do médico e acadêmico, ignorou-o completamente. Se fosse de Mossoró, falanges de mossoroenses encheriam todos os compartimentos da Casa de Câmara Cascudo. 

Autoridades principais dos órgãos representativos do Estado e do Município de Natal não os vi, exceto o presidente da câmara municipal. Enfim, apenas médicos, amigos, intelectuais e admiradores do mestre Grácio compareceram. Mas, a vida é assim mesmo. Quem passa de 60 ou 70 anos torna-se estatística. O nome, a importância do que fez em vida desaparece. É a cidade que perde a memória e o sentimento.

Mas, deixemos os queixumes prá lá porque Grácio Guerreiro Barbalho, é maior que os ausentes. Ele que foi em vida um homem solidário, disponível, calmo e silente. Não tinha pressa de viver. Nem com o tempo. Agora não me recordo se usava relógio. Grácio era pontual e presente onde os amigos estivessem. Era uma característica sua prestigiar os amigos. E muitos faltaram ao seu último encontro.

Pesquisador e colecionador de discos e fatos da música popular brasileira, a discoteca de Grácio tornou-se referencia nacional e já foi visitada por musicistas, compositores, cantores e estudiosos do Brasil inteiro. Simples e até humilde, não buscava os refletores da propaganda ou do elogio fácil. Era parcimonioso  e consciente do acervo que detinha porque é patrimônio da cidade de Natal e do Rio Grande do Norte. O mérito paciente e pedagógico de estudo e de coleção é todo seu.

Não tenho a menor dúvida que Grácio esteja sendo recebido no céu pelos maiorais do nosso eterno samba, agradecendo-lhe o muito que fez em favor da MPB. E dá prá imaginar daqui Silvio Caldas, Orlando Silva, Chico Alves, Dircinha e Linda Batista, Ataulfo Alves, Cartola, Elizethe Cardoso, Assis Valente, Carmem Miranda, Ary Barroso, Herivelton Marins, Dalva de Oliveira, João de Barros, Luiz Gonzaga e tantos outros que povoaram com canções os dias e as noites do velho pesquisador.

"Nunca vi Grácio apressado ou afobado!". Disse-me um colega nosso do Conselho Estadual de Cultura onde cumpriu quase quinze anos de mandato. Respondi-lhe brincando que ele não tinha sistema nervoso. E rodava a sua vida em sentido contrário aos seus discos apressados de 78 rotações. Devagar, com um sorriso de sábio nos lábios, cumprimentava os amigos como um sacerdote suspendendo as mãos em bênçãos profusas. Ney Marinho e Raimundo Lacerda Cavalcante, seus amigos de boemia e uísques imemoriais irão recebê-lo. Foram amizades fieis aqui na terra e agora nas muitas moradas celestiais. Dos seus amigos da Academia, do Conselho de Cultura e do Instituto Histórico restará a saudade inconsolável porque Grácio Guerreiro Barbalho cumpriu a sua missão com a medicina e a cultura e nós, vamos, agora, fazer a nossa parte. Não esquecê-lo e batalhar para que o seu acervo permaneça à disposição dos estudiosos e pesquisadores. 

 

17 de Julho de 2015 às 12h49

ALCIDES CID VARELA

Alcides Cid Varela, casado com D. Silvéria, ambos já falecidos, residiam perto da ponte sobre o rio Jundiaí, à Rua Nair de Andrade Mesquita, antiga rua do comércio. 

Dos anos quarenta até o final de 1960, Alcides desempenhou o papel de "médico" da cidade de Macaíba. Tinha a iniludível vocação profissional, menos o diploma. Fui por ele consultado inúmeras vezes. Curou-me de sarampo, catapora, papeira e resfriados sem fim. Segundo experientes pacientes, Alcides tinha faculdades mediúnicas para adivinhar diagnósticos, excetuando-se a aplicação de injeção. Uma Benzetacil ou Gripionase na seringa, pela munheca do "doutor", levantava um catombo proeminente após uma dor aguda de gravidez. Alcides era magro, semicareca e trajava, usualmente, terno claro como se fosse uma bata médica de um hospital imaginário. Sua voz anasalada e os olhos miúdos emprestavam-lhe uma característica nascida do almanaque Capivarol das doenças corriqueiras.

Não era político, mas gostava de política. Trabalhou nos Correios e Telégrafos em Natal, por onde se aposentou. Foi amigo de Alfredo Mesquita desde a sua época de solteiro. O noivado de Alfredo e Nair  teve como palco a casa de Silvéria e a lua cheia do rio portadora de esperanças e sonhos.

Do casamento de Alcides e Silvéria apenas conheci o filho Edílson Cid Varela, macaibense ilustre jornalista e diretor do Correio Brasiliense da cadeia dos Diários Associados, também falecido. Visitei-o várias vezes quando ia à capital federal. Alcides ficou viúvo e foi morar em Natal na década de sessenta. Foi seu amigo também em Macaíba o comerciante José de Baltazar Marinho, com quem tomava porres homéricos. Alcides era o único macaibense que ousava ser passageiro do jeep guerreiro de Baltazar nas visitas etílicas pelos bares da cidade. O sábado era o dia preferido para ablução na água benta das garrafas do bar de Zé Distinto, ou da mercearia de Zé de Lima. Conhecedor da medicina, o velho Alcides anestesiava-se com o próprio álcool. Foi um tempo e uma fase áurea da boemia local. A estrada estadual asfaltada que liga Macaíba a São Gonçalo tem o seu nome desde o governo Lavoisier Maia. Nunca o DER colocou uma placa. Já pedi e nunca fui atendido.

 

 

10 de Julho de 2015 às 13h07

É PRECISO DESARMAR OS RESSENTIMENTOS

O conhecimento e as razões dos fatos da vida pública nós já temos. Mas, qualquer pessoa que procure entender é suspeito de estar contra eles. Não temos nenhuma idéia preconcebida sobre as pessoas e as coisas que nos rodeiam. Não serão as versões de terceiros que irão impedir que tenhamos nossa própria opinião. O orçamento estadual para 2015, por exemplo, foi tão convulsivo que não impediu que fosse desligado o redutor de ansiedades. Mas é isso mesmo, em estado depressivo foram criadas sinfonias, poemas comoventes e pinturas imortais. Da maneira como o legislativo concebeu e aprovou desembocou em questionamentos. Virou para o executivo potiguar um monólogo hameleteano: ser e não ter. Passamos a compreender que orçamento público é metamorfose. São constituídos de números cheios de contradições.

Não vamos exagerar a impressão de parecer medíocre, trivial, para ser popular. Quem absolve o político não é o povo, é a confissão. Na complicada arte de governar ser natural é a mais difícil das poses. Nenhum político e/ou empresário são suficientemente ricos para comprarem o seu passado. Quantos não podem dizer "nada anseio, nada temo - sou livre". Por isso, é que definem dinheiro como adubo: só serve quando espalhado. O escritor Oscar Wilde colocou na boca de um rico, a seguinte frase: "não quero ir para o céu. Nenhum dos meus amigos está lá". Ora, como no Jardim do Éden, Franz Kafka disse que "a mediação da serpente foi necessária. O mal pode seduzir o homem, mas não pode se transformar em homem". Delírio kafkeano, delírio, apenasmente...

O homem social hoje virou ambiguidade ficcional. Previna-se o leitor: não confundir amizade social com solidariedade humana. São manifestações caracterológicas do vivente completamente heterogêneas. O egoísmo, a acomodação, modificados pelo tom da luz reinante destruíram o sentimento cristão do mundo. O homem cresce, vive e morre numa jaula, limitado às imposições de sua vida miúda, repleta de frustrações e às circunstâncias. Há pessoas que pensam que não vão morrer nunca. Principalmente os que são ricos ou que, pelo menos, pensam. Assim imaginam muitos empresários, políticos, socialites, médicos, usineiros, juristas e outros nomes, renomes e pronomes suspeitos.   

Às vezes, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras no mais profundo silêncio e na mais abominável indiferença. A postura ante o mundo é de desamparo e desalento. Não há lógica própria nessa conduta centrada unicamente na anormalidade do desvio comportamental porque a amizade virou interesse, esbulho, vantagem, lucro.

E eu pensava nesse turbilhão do tempo, dos modismos, que o exercício da amizade fosse contínuo, mas é tão "imortal" quanto a hipocrisia de acreditar nos homens que integram as instituições públicas e privadas (culturais, políticas, empresariais etc). Daí deduzir que toda celebridade no Rio Grande do Norte quando não é célere e celerada. A corrosão cotidiana da busca pelo dinheiro e pelo poder enferruja com rapidez as "glórias e grandezas" de alguns profissionais que se julgam donos do mundo, quando pensávamos justos e coerentes. As mutações históricas dos valores da personalidade humana, ao que me parece, foram provocadas pela "revolução" dos costumes sociais, principalmente o comodismo, a apatia pelo semelhante, o medo de morrer, as fobias e a falta de religiosidade.

Aí, instaura-se um jogo de buscas. O coração desumanizado do selvagem habitante da cidade, que segrega o próximo jamais conhecerá qualquer modalidade de amor, principalmente na noite sem face e derradeira do ataúde, porque em vida foi ausente, insensível, reduzido à condição de bicho. Esse será o calvário do insensato, do que utiliza a amizade como negócio, como moeda de troca. Vai vagar como Caim na noite gelada do tempo sem jamais achar abrigo. Isso tudo porque desamou os frutos e deixou prevalecer os rancores. 

19 de Junho de 2015 às 14h05

PERDEMOS O CANTO E O ENCANTO

Claro que me refiro as campanhas políticas eleitorais nas ruas, nas praças, nos dias e noites, nas estações de rádio e televisão. Se comparada as dos anos sessenta, setenta e colocadas na vitrine a performance, a beleza plástica, humana, visual e emocional - a de hoje não vai valer sequer 1,99. A oratória fluente, candente e sedutora de ontem que enfeitiçava o povo, dividido nas cores e gestos dos seus lideres, apontava caminhos e ideais que não retornam mais. Enquanto a de agora forma uma grossa cascata de interesses, os lideres daquele tempo sabiam atravessar as noites escuras como se soubessem mais do que o próprio peso, o peso das sombras, a cor do vento e o segredo das estações da política. Aluízio, Dinarte, Georgino, Lamartine, José Augusto, catalisavam e irradiavam energias criadoras, como Djalma Marinho, Dix-Huit Rosado e Cortez Pereira ofertavam cultura e saber jurídico.

Se alguém redarguir que o melhor político é o político morto, respondo que não. Vale, atualmente, aquele que sabe humanizar o horror do mundo. Silenciar a memória de um líder ou o seu tempo, é a maior revelação de nossa omissão e covardia. Aluízio Alves, por exemplo, com suas músicas, passeatas, carreatas, sabia decifrar os signos da política. Traçava as marcas do seu talento vasto no mesmo tom de sua ira, modelando aí a sua imagem pessoal, naquele mundo de temperaturas e temperamentos em que viveu - de pressões e tensões, tal e qual um meteoro lírico da natureza humana, impossível de ser reinventado. Já Dinarte Mariz foi fiel a palavra dada e a humanidade tida. Em sua vida viveu as descobertas sucessivas dos homens e das coisas do Rio Grande do Norte. Os dois líderes acharam a palavra que dita nas ruas, nas estradas e nos campos envolvia a unidade do gênero humano.

Hoje não. Reina a dispersão. A alma não é vasta e a obra é imperfeita, parafraseando Fernando Pessoa. Teríamos perdido os caminhos e os sonhos? São raros os sobreviventes do carisma, do glamour, do charme, das passadas tradições da arte política potiguar, emocional e lírica. Mas, concordo com a assertiva de que a legislação eleitoral pôs freios e desligou a alta voltagem da vibração popular e os curtos-circuitos da classe política, caída na vala comum da improvisação, da futilidade e da "lei de Gerson". Participei desde 1960, de muitas lutas políticas sem nunca haver perdido na memória e nos olhos o brilho das multidões em delírio, sem medo de atravessar as ruas. Isso tudo se acabou. Pode o leitor averiguar, pois é difícil achar hoje a íntima e apaixonada identificação entre o eleitor e o candidato. Morreu aquela parceria de relação amorável  e confiável que preside a sensibilidade de cada um.

Eu afirmo isso porque é o que fica e se difunde na condição humana de optar, escolher e votar no candidato. O político parece haver largado o sotaque do povo e dos seus costumes, que o "feiticeiro" Aluízio sabia fazer com humor e ironia. Embora, entenda que o político, às vezes, é como o fogo ("se renova das cinzas"). Vemos hoje na propaganda novos vultos e ambientes difusos, mas também a sociedade viúva ainda de lideres verdadeiros. As lideranças viraram sublegendas. Parece haverem desaprendido o caminho das pedras e das veredas dos votos. A minha esperança é a de que os agentes partidários da atualidade possam reinventar o fluxo virtual da sua atividade, sem a politiquice militante, inspirando-se na autenticidade de espírito dos velhos líderes, com grandeza interior. Porque eles foram dotados de poderes mágicos, ao ponto de terem no semblante e nos gestos o sentido e o rumor do humano, da paisagem e do tempo. Sem nostalgia, ouço ainda as canções eternas e chego a conclusão, apesar de tudo, que todos eram felizes e não sabiam. E viva Lulu Santos: "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia...". 

12 de Junho de 2015 às 12h38

VIRUSMUNDO

Segundo o Mestre Aurélio, VÍRUS é "um diminuto agente infeccioso, invisível, com algumas exceções, pela microscopia óptica, e que se caracteriza por não ter metabolismo independente e ter capacidade de reprodução apenas no interior de células hospedeiras vivas". Existe desde que o mundo é mundo. No estudo da virologia dois avultam virulentos e fatais: o HIV, transmissor da AIDS e o Ebola, incrustado no pelo de determinados tipos de  macacos africanos. 

Bem, tudo antes era: sarampo, catapora, caxumba, resfriados virais, coqueluche, papeira, etc. O HIV e o Ebola, para alguns, são castigos divinos nessa virada de milênio. O mundo de hoje está tão empestecido quanto o de ontem. Desde o de ontem: peste negra da Idade Média, das febres viróticas que dizimavam milhares na Antiguidade. 

A fragilidade humana nunca sobrepujou totalmente a purgação dos vírus ciclópicos. Mas, no Brasil eles chegaram por via aérea e aquática: assim foi o boeing 357-300 Aedes Egipty que pousou naquele tempo no vasto aeroporto da careca de José Serra, então ministro da saúde do "sul e sudeste brasileiro", lembram-se? 

Pela TV, ainda assisti a indefectível entrevista ministerial, saindo de uma visita hospitalar ao então ministro Serjão. "Isso é um absurdo", ensinou o economista, "o Serjão  foi vítima de um vírus proveniente de aparelhos de ar-condicionado sujos e sem conservação." "Vou cuidar disso e exigir um plano de  manutenção  de todos os aparelhos existentes no país".  

Mas, segundo a imprensa da época, o vírus transmissor que atingiu o Serjão veio do pêlo dos cachorros que ele criava em sua fazenda. Com fulcro no dizer de renomados cientistas potiguares, gatos, tucanos, bacuraus, periquitos e papagaios, tudo que tem pêlo ou  plumagens multifárias transmite vírus. Essa tese até hoje não foi contestada por ninguém. Mas, o vírus está na política, na pasta dentifrícia, no sabonete, na carne de conserva, pela via retal, no assento do alternativo, no espirro, no beijo, nos copos e nas xícaras de cafezinho dos restaurantes e bares da vida. 

O vírus deixou de ser um caso de saúde para ser de polícia, de calamidade, de vergonha. Igual ao vírus do mosquito da dengue que incomoda o Brasil, espanta turista e desbota a pose de "estadista mundial" da presidente Dilma. Todos conhecem os vírus do lava jato, da Fifa/CBF, etc., que deixam o país na posição de cócoras. Petróleo e bola são viróticos.

Para o nordestino doente e faminto dos hospitais infétidos e sem leitos, essa fama não poderia ser pior. O governo não se indignou com o quadro da dengue afetando e fazendo sofrer o povo brasileiro (dengue, zika e chikungunya).

 As doenças tropicais e viróticas que matam o brasileiro comum não fazem bater os olhos côncavos e convexos dos gestores da saúde pública. O mundo pode não ter eira nem beira mas vírus dá em eira e beira na gestão pública brasileira. 

05 de Junho de 2015 às 00h00

A SABEDORIA VEM DE LONGE

01) O advogado José Uziel Santiago, nos seus quase dois metros de altura, com voz de locutor de rádio FM, iniciava-se na vida pública como candidato a vereador em Assu. Fã de filosofia, Uziel citava sempre Diderot, Sócrates, Voltaire, etc. Em seus quilométricos discursos, quando terminava, aportava no primeiro barzinho e haja "mé"! Isso o relaxava mas a turma sempre o tirava do pagode. Era de índole mansa. Certa noite, ao discursar, o candidato ouviu alguém na multidão gritar: "Saia daí, cor de piche!", Uziel emendou: "Piche é bom pois é produto da Petrobrás!". Gritaram novamente: "Sai daí negro da cor do pneu!".Uziel, sem perder a calma, aproveitou: "Também  é bom! O pneu conduz as riquezas da nossa terra!". Aí, gritaram mais uma vez: "Cala a boca preto c. de burro!". Uziel parou um instante e ponderou: "O distinto aparteante só lembrou o anel do burro. Todavia o melhor ele encontra no conjugado que também é negro e a égua da sua genitora adora, cabra safado filho da p...".

 

02) A vida toda com a prefeitura em seu poder o prefeito João Pedro de Guamaré, não queria ouvir falar em oposição. Chico de Júlia, vereador oposicionista, batia forte no prefeito e sua equipe. "É tempo de mudanças, meus senhores!". Pregava o edil. "Vamos fazer a alternância do poder em Guamaré!". Aí o prefeito, na sua ignóbil sabedoria, dizia no mercado: "Alternância de poder é trocar o certo pelo duvidoso. É muito parecido com fralda de bebê... Pode dar na mesma bosta...".

 

03) O prefeito de Grossos, Raimundo Pereira, cansado de guerra, lastimava-se com alguns: "Pois é amigos, faço tudo o que posso por todos. Agora me sinto com a saúde alquebrada, recebo poucas visitas e pelo que estou vendo, até para o meu enterro poucos irão". "Que é isso, "cumpadre"  Raimundo!? "Nun" diga isso!", exclamou um correligionário. "O senhor não vai morrer tão cedo, mas se o senhor morrer fique "traquilo" que os seus amigos vão tá presentes...!". É foi mais além. "Eu mesmo faço questão de com a pá na mão cobrir com terra um pedaço!". Raimundo Pereira arregalou os olhos e bateu de frente: "Você ta bêbado cabra sem vergonha... Vá enterrar seu pedaço lá na p.q.p.".

 

04) Um jovem advogado, sob a tutela de uma grande empresa, com a mala preta cheia de "tutu", pegou as estradas do oeste, em busca de votos que o elegeria deputado federal. Uma linda loira, pernas torneadas, secretariava o candidato barbudo. Chegando a cidade, o moço procurou o prefeito Chico Carlos de Dix-Sept Rosado para uma conversa dentro dos figurinos. A reunião foi marcada no salão nobre da prefeitura. A loira, com varias pastas, além da mala, acomodou-se numa poltrona, com o cuidado de cruzar as pernas. Isso de frente para o prefeito Chico Carlos até então distraído nas "verdinhas". Depois dos acertos, o neodeputado sugeriu: "Prefeito, carece agora marcar um bom comício na praça pública, não? O senhor é só dizer a data...". O prefeito de olhos fitos, agora, na minissaia da mulher, falou sem convicção: "Tá certo deputado, vou providenciar. Agora grave ai: discurso é como saia: quanto mais curto, mais melhor!".

 

05) Pra terminar, os Alves elegeram o terraço da empresa Santos e Cia, lá na Tavares de Lyra, para os colóquios e papos em família. O local era acolhedor, tranquilo, vizinho a Tribuna e acima de tudo: um "túmbalo". Todo assunto tratado morria ali mesmo. Certa manhã, um político falando com Aluízio fez a seguinte colocação: "Aluízio, na família Alves todos são políticos e jornalistas. Muito interessante, não?". O sábio líder, franzindo a sobrancelha, respondeu: "Em nossa família, tem muitos políticos e apenas um jornalista. Agnelo o é. Ele fala como escreve e escreve como fala". Muitos estavam presentes. Erivan França procurou Neco querendo massagear-lhe o ego, porém, não encontrou nem o pescoço. Só o "Cigano" conhecia pelo talento os laços de família e os afins. Hoje, ele faz falta. Agnelo está quase só e cansado. 

29 de Maio de 2015 às 19h56

DESLIZES

01) Patrício Português é uma figura lusitana largamente conhecida em Mossoró, sua segunda pátria. Anos atrás era proprietário de um avião bimotor e navegador aéreo de longo curso das galáxias oestanas. Certa vez, partiu de Natal pilotando a aeronave com destino a Mossoró. Durante a penosa travessia do "dorso do elefante" tomou umas doses do "escocês legítimo", deixando-o fora de órbita. Quando sobrevoava Mossoró para aterrissar, da torre do aeroporto recebeu o alerta convencional: "Atenção BV-116, torre pedindo a rota! Atenção BV-116 torre pedindo a rota!". "O quê?", responde o nosso rico português. "A rota!", retorna a torre. Patrício, zonzo, confundiu as coisas e soltou um longo e sonoro arroto: "Barrrrr".

 

02) Um cidadão muito conceituado na cidade de Mossoró foi ter com Joca Bruno, o tabelião. "Seu Joca, eu quero me separar porque minha mulher tá me chifrando". Joca, cheio de macetes, disse: "Amigo, você escutou o gemido?". "Não", responde o confesso cornudo. "Então, pode não ser verdade. Só se separe de sua mulher se você escutar o gemido". O cornaço desistiu da separação. Mas ficou de plantão. Para Joca gemido é coisa séria e fazia parte do seu código penal.

 

03) O Grande Hotel era o máximo em termos de hospedagem em Natal nos anos quarenta e cinquenta. Theodorico Bezerra, homem simples, mas de larga visão, logo se tornou arrendatário do prédio da Ribeira. Os anos foram passando e o sucesso do empreendimento deixava o "majó" feliz da vida. Com o tempo, o aluguel tornou-se irrisório, mas contrato é contrato. Certo dia, um empresário local botando os olhos no negócio do deputado, perguntou: "Theodorico, quanto você paga de aluguel por esse prédio?". O "majó" pessedistamente explicou: "Eu pago o que o governo me cobra". Ponto final na boca do especulador.

 

04) De Boa Saúde chega-me notícia de dona Alzineide, que montou um bar do tipo "Pega bêbado". O comércio ia de vento em popa, apesar do estoque limitado. Quando as poucas garrafas de cachaça secavam, a  proprietária colocava à disposição dos clientes, a famosa "perua". A perua era um composto de duas porções d'água e uma de álcool. Certa vez, um cliente tomou um gole a mais e ensaiou uma sessão de vômitos. Dona Alzineide orientava: "Meta o dedo na goela, Joca! Bota pra fora!".  Joca respondia com dificuldade: "Não. Esfregue minhas costas! Eu paguei pra 'chamada' ficar aqui dentro".

 

05) O saudoso padre Normando Delgado, da igreja São Camilo, sempre usava os momentos finais da missa dominical para conclamar os fiéis a ajudarem inúmeros projetos assistenciais. "O muro de contorno precisa de reparos e estamos precisando de tijolos e de mão-de-obra; alguns ventiladores queimaram e necessitam urgente de consertos"; e por aí foi. Ao final, sentenciou para uma plateia atenta e devocional: "E o dinheiro, de onde vai sair?". Alguns imaginaram da Arquidiocese, outros do Vaticano e outros mais de qualquer país europeu. Mas, o experiente vigário deu a penitência: "Do bolso de vocês!!".

 

06) Raimundo Soares, depois de eleito prefeito, foi ter com Dix-Huit para lhe pedir uma orientação. "Sabe o que, é Dix-Huit", falou Raimundo, "estou em dúvida com os nomes para compor o meu secretariado e quero a sua ajuda". Dix-Huit, pensativo, sugeriu: "Raimundo, Vargas dizia que ministério, secretariado, etc. se compõem de dois grupos: um formado por gente incapaz e outro por gente capaz de tudo". Vida bem vivida é o que se pode depreender desse conselho. 

22 de Maio de 2015 às 12h24

NARRATIVAS DO MEU OFÍCIO

01) Do saudoso amigo Pery Lamartine recebi essa faceta hereditária de Manoel de Neném, figura folclórica e muito querida pela população caicoense que deu o seu nome à estação rodoviária da cidade. Era brincalhão, folião e envolvia a todos com suas trapalhadas. Certa vez, foi ao gabinete do juiz local doutor Pereira da Nóbrega com o seguinte problema: "Como se deve proceder para comprovar paternidade?". O juiz ficou surpreso. Parou, pensou, pois, naquela época, não havia o exame de DNA. Enquanto conversavam quis  saber de Manoel de Neném seu interesse neste assunto. Resposta surpreendente: "Doutor Pereira, minha mãe Neném foi rapariga durante muitos anos em Jardim de Piranhas. E morreu lá na região onde  mora o abastado fazendeiro Marinheiro Saldanha. Tenho sérias dúvidas de que sou filho dele." Só aí é que o juiz compreendeu a brincadeira. Com um riso amarelo, mandou Manoel de Neném baixar noutro terreiro.

 

02) Transcorria em Ponta do Mel uma festa para os colonos, sob a direção do então prefeito Cortez Pereira. A Superintendência da Petrobrás foi convidada, pois falava-se na possibilidade de petróleo naquela área. Uma moça muito bonita, filha de um vereador, dava as boas vindas a todos. Ao ser apresentada a um engenheiro bonitão, a moça sentiu-se atraída pelo rapaz. "Muito prazer, senhorita", disse o profissional. "Quanta beleza numa só pessoa. Muito prazer, mesmo", fechou o cumprimento beijando a mão da jovem embevecida. A moça, encantada e inebriada soltou essa pérola de orgasmo: "O gozo é todo meu".

 

03) João  Gago,  personagem  macaibense, pontificava na  esquina do antigo cinema Cometa como o rei do carteado e do pano verde. Cobrava a "casa" e administrativa o vício. Mas era gago, mesmo, conforme a  alcunha recebida. Certa noite, entregue  às  tarefas  comuns de asseio e higiene  do salão, como de costume, pegou a bacia com água usada e suja e jogou-a  mecanicamente na rua sem olhar para onde. O aguaceiro atingiu em cheio uma conhecida professora da cidade, que berrou na hora: "Você tá cego, tá?". Sem perder a bonomia João Gago não pensou nem em desculpa: "Tô, tô, tô não. E, e, e, eu não acertei!!".

 

04) Recentemente houve uma decisão do campeonato estadual de futebol envolvendo ABC x América. Tal fato me fez lembrar outra refrega entre vermelhos e alvinegros. Jogo renhido, difícil. Só a vitória interessava a ambos. Faltando cinco minutos para o final da partida, o árbitro marca alguma coisa dentro da área do mecão. Foi meio mundo pra cima do juiz. Aí começou o festival de empurrões, chutes, tapas, etc. Todo mundo brigava em campo. O locutor de "pista" da emissora  gritou para o seu comandante: "Zé Ary, você aí em cima, que tem uma melhor visão, diga o que está acontecendo. Fala meu comandante". Zé Ary muito empolgado, soltou o verbo: "Meus  amigos, eu não sei quem começou... Só sei que aqui na área do  América, ta formado o maior "c... de  burro" da história do nosso futebol". A emissora saiu do ar na hora.

 

06) O bispo de Mossoró, dom João Costa, pediu que dona Maria Maia - parenta próxima de Lavô - e a senhora Véscia Maia, sua sobrinha,  trouxessem de Patu pra Mossoró a  mãe e a irmã dele. A veneranda mulher, já idosa, trazia com ela uma gata angorá, de estimação, dentro de  uma  caixa de  sapatos. Na hora de passar pela borboleta para pegar o trem,  a gata saltou da caixa, miando alto. Dona Maria Maia, mulher severa e espartana não encontrou outra saída: apertou a gata de baixo do braço. Aí começou a discussão até certo ponto antológica: "É proibido viajar com gato no trem". Maria Maia corrige de pronto: "Não é gato, é gata." "Não importa: gato ou gata, não pode viajar!", disse o funcionário da ferrovia. "Ora, meu amigo", replica a respeitável madame, "deixa de besteira, que aqui, nesse trem, viajam cachaceiro, ladrão, trapaceiro, corno, viado, quenga, f.d.p como você, por que é que não pode viajar a coitada de uma gata angorá criada pela mãe do bispo de Mossoró, um santo homem?". O fiscal achou por bem sair pra outro vagão e deixou tudo pra lá...

 

15 de Maio de 2015 às 13h53

TODOS IGUAIS

01) O presidente a câmara municipal de Pedro Avelino, vereador Chico Cadó, começou a notar o esvaziamento no plenário de certos colegas nas sessões ordinárias. Cadó adotou a chamada nominal no plenário. Certa manhã, mal começava os trabalhos, o microfone (único) da mesa pifou. O presidente não entregou os pontos e avisou no grito: "Não tem "probrema"... Eu "mermo" faço a chamada "bocoral" (verbal) e os dois retardados (retardatários) venham falar comigo depois da sessão. Tá legal?".

 

02) As calçadas largas e os fins de tardes amenizados pela mornidão do vento norte, sempre fizeram do cotidiano de Mossoró de outrora. Certa vez, observou-se a luta de um carroceiro que auxiliava o seu animal, que arrastava uma enorme carga. Toinho Rodrigues, postado entre Vingt Rosado e o monsenhor Raimundo Gurgel, observou: "O trabalho espanta três grandes males: o vício, a pobreza e o tédio. Palavras de Voltaire", finalizou Toinho. Antes que alguém falasse algo, olhando para Vingt e para Raimundo Soares, o vereador Zadock Xavante filosofou: "Doutor Vingt que o diga: ele conhece bem Brasília".

 

03) Numa noite de tédio regada a gin, vários amigos botavam pra fora mágoas e desventuras, coisas que o casamento quase sempre atrai. Costa Leitão, arrumando a enorme pança, indagou: "Professor João Marcolino quem danado foi que inventou o dinheiro? Isso foi obra do tal capeta, não foi?". João Marcolino, rábula e estudioso da história "arrumando o gogó", foi pedagógico: "Não prefeito. Isso vem de antanhos, quando um esperto, criou uma moeda e cunhou sua face na mesma. Isso e só isso, tinha valor para troca e pagamento. A coisa evoluiu com  tempo". "Sabe o que é?", insistiu Costa, "é que lá em casa não tem dinheiro que chegue. A mulher torra tudo! Se esse tal cara dos seus "antanhos" tivesse aqui hoje e fizesse dinheiro de barro não dava nem tempo enxugar...". Não deu nem tempo de terminar a frase. Dona Marroquinhas, a esposa, foi chegando e profetizou: Um dia vou ser prefeita e você vai me pedir as coisas!". Não deu outra. Com o tempo, ela se elegeu prefeita. Consumou-se a premonição. Até o casamento acabou. Muito dinheiro ou falta dele, fazem essas consequências.

 

04) Tarcísio Maia quando dava as cartas no tabuleiro da política no Rio Grande do Norte enquanto um familiar governava (Lavô), ele já preparava outro para a sucessão, o filho José Agripino. Numa reunião na cidade de Baraúnas, Tarcísio falava ao grupo que tendia apoiá-lo.  "Meus amigos, sinto com pesar, o abandono a que está jogado esse bravo povo! Mas isso, Jajá vai acabar. Amanhã em Natal tomarei providências e poremos fim a essa fome, essa miséria". (Aplausos). E continuou: "Mudaremos essa fisionomia "sorumbática" do nosso prefeito Moisés Oliveira. Eu garanto isso!". No dia seguinte, na praça, o líder Moisés, tentou se explicar: "Eu não sei se esse troço de "sorumbático" é macho ou fêmea. Só sei que isso não dura uma semana...".

 

05) O senador Agenor Maria queria aparecer a todo custo para toda a nação. Certo dia, usando o grande expediente, Agenor pintava o estado de miséria no nordeste e principalmente no Rio Grande do Norte, ante a seca que dizimava homens e animais. Depois de tantas repetições, a coisa já pendia para o cansaço. Um senador gaúcho, interrompeu: "O nobre colega já falou a mesma coisa três vezes. Assim não dá tchê!...". O senador Agenor, enxugando o suor (ele suava até na chuva), enfatizou: "Eu quero falar aqui pela "intransigente e infalível lei da morte" que se faça alguma coisa meus senhores". O gaucho gozador, cochichou com um colega: "Será que ele não está errando de porta?".

 

30 de Abril de 2015 às 12h03

O HUMOR VALE A PENA

01) Logo que abriram os trabalhos, numa agitada sessão vespertina, a balbúrdia tomou conta do plenário na Câmara Municipal de Natal. Estava em discussão uma lei, e, o bate boca corria solto com propostas e emendas por todos os lados. De repente, para pôr ordem na casa, o vereador Franklin Capistrano, subiu numa cadeira: "Parem com isso! Parece um bando de loucos! Vamos colocar o respeito no plenário, porque quem entende de doido aqui sou eu!". Quando lembraram que Franklin é psiquiatra tudo voltou a paz.

 

02) O vereador Geraldo Alves, após dois mandatos em Mossoró, saía da política, com uma mão na frente e outra atrás. Sem alternativas, Geraldinho colocou uma máquina fotográfica à tiracolo, e, montando uma bicicleta, mandou-se a tirar fotos. Certo dia, foi entregar as encomendas. Uma senhora, pelo fato de não ter o dinheiro no momento, passou a achar defeitos na lide profissional do fotógrafo. "Mas o que é isso?", disse a mulher. "Esse retrato não é do meu marido!... Mais parece um macaco!". Já perdendo a paciência, ele retrucou: "Quantos anos a senhora tem de casada?". "Dezesseis anos". Na hora, Geraldo explodiu: "E só agora a senhora descobriu que casou com esse animal!!".

 

03) O cemitério São Sebastião em Mossoró, estava superlotado. Os vereadores discutiam um local onde surgiria novo campo santo. As opiniões variavam e sempre esbarravam no fator distância. De repente, o então vereador Antônio Duarte, o Rockfeller, gritou: "Eureka! Eureka! Pra vocês que não sabem", explicou Toinho, "Essa é uma palavra grega que significa: achei. A solução é criar uma lei, onde os defuntos sejam enterrados em pé!". Um oposicionista protestou: "Como pode? Nem depois de morto se tem o direito de descansar? Ficar em pé?". Rockfeller foi didático: "Meu nobre colega, enterrar em pé, ganha espaço. E depois, quando as trombetas soarem, o defunto já estará de prontidão para a ressurreição...".

 

04) A família Xavier, comemorava as bodas de ouro do velho patriarca Jacinto Xavier, em Santo Antônio do Potengi, município de São Gonçalo. Jacinto na verdade, era um ancião e não sentia mais tanto gosto pela vida. A velha Lourdes, sua esposa, ainda mostrava-se sassaricada. Em dado momento, perguntaram: "Seu Jacinto, se o senhor fosse casar de novo, quem escolheria?". O oitentão respondeu: "Ela". "E a senhora, dona Lourdes, escolheria ele?". A resposta veio lenta, mas em cima da bucha: "Eu queria lá esse couro veio...". E como coro da resposta risos em profusão.

 

05) Bairrismo ao extremo vira piada. Foi o que aconteceu com João Batista Macedo, defensor de Mossoró em qualquer instância e circunstância. Certa vez, conversava no campus universitário com Jaime Lima, gozador por natureza de tudo e de todos. Batista Macedo, preocupado com o tempo quis saber o que o meteorologista da Emparn, senhor Bristot dissera sobre o calor insuportável em Natal. Jaime Lima, irônico, de pronto comentou: "Rapaz, eu ouvi ele falando que isso é uma "frente fria" que vem de Mossoró". O tempo esquentou ali mesmo, com sol abrasador. 

 

06) Um reporte político perguntou a Luizinho Barbudo, figura folclórica da política: "O senhor tem umas colocações interessantes. O senhor lê muito?". Luizinho, com voz característica, quente e rouca, respondeu: "Não, meu rapaz, eu não leio muito. Monteiro Lobato já dizia que a literatura é como cachaça, vicia o homem. Eu já me considero um viciado". "Na literatura?", indagou o jornalista. "Não. Na 51 mesmo!".

 

24 de Abril de 2015 às 13h27

O SENTIDO DO HUMANO E DO DIVINO

Quem leva o ser humano ao sofrimento é o mundo. Essa reflexão me vem à propósito, quando assisto o abandono dos enfermos nos hospitais da rede pública do país. Deus criou todas as maravilhas do mundo: a natureza, o crepúsculo, a aurora, o mar, a vida, o oxigênio e mandou o seu Filho Unigênito morrer por nós para remissão dos nossos pecados. Mas, Ele não exercita o seu sobrenatural e formidável poder sobre o profano, sobre o mundano, como se quisesse repetir o que Jesus falou: "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Daí os erros, os equívocos, os abusos, as omissões dos próprios homens pelos seus semelhantes oprimidos, por não saberem governá-los, protegê-los, curá-los, assisti-los e educá-los.

Deus se permite a está presente mesmo quando não o vemos. E quantas vezes Ele não age, mesmo quando não vislumbramos os seus atos, corrigindo e nos dando livramentos. Alguns imaginam que o Senhor não se importa com os perigos e os traumas malignos da potestade satânica na terra. Os que confiam no Senhor são vitoriosos, mesmo diante de circunstancias desfavoráveis. Deus continua convocando servos fiéis, dispostos a serem poderosamente usados em suas mãos para a própria salvação deles. Na leitura e pesquisa das Antigas Escrituras, observamos o quanto Deus condenou reis e puniu governantes inescrupulosos por conduzirem o povo ao descaminho e a iniqüidade. Com o advento de Jesus Cristo, o Pai legou a humanidade o caráter e o exemplo do Filho como modelo ideal a ser seguido para todos que Nele crer. Jesus passou a ser a luz do mundo deixando-nos o Espírito Santo.

Quero dizer que o padecimento dos humanos decorrem das obras criadas pelo próprio homem, tanto pela desobediência aos postulados da Bíblia quanto pelas suas inversões, consumismos, perversões, modismos, tudo isso, protegido por leis amorais e decadentes. O homem deve sempre olhar para trás e ver que as pegadas que contempla não são suas, mas do Senhor que o carrega em seus braços. Desastres aéreos, quedas de edifícios e de pontes, terremotos, tsunamis, violências urbanas, doenças, concupiscências, guerras, são descaracterizações diabólicas da gerencia espiritual dos humanos que nunca conseguiram vencer o mundo mas por ele foram vencidos. O único que venceu o mundo foi o Cristo que deixou o ensinamento para muitos mas poucos atendem o chamado. Sim, porque somente Jesus Cristo tem o poder do Pai para transformar o caráter e a conduta daqueles que se entregam a sua santidade pelo amor.

E que valores triunfantes do Cristo nós herdamos e deles nos afastamos? Somente através dos frutos do Espírito Santo é que o homem pode ser transformado. Tais frutos são opostos às obras da carne que influenciam muitos administradores a se distanciarem de Deus. E quais os frutos do Espírito Santo que podem corrigir o mundo? O amor, a paz, a caridade, a longanimidade, a benignidade, a mansidão, o perdão, a fidelidade, a temperança, a humildade e a justiça. Gálatas 5.23: "Contra essas coisas não há lei". Por fim, o cristão deve revestir-se das qualidades santas e justas de seu Mestre. Deus faz tudo perfeito. O diabo põe os defeitos. O homem vil e servil aceita. 

17 de Abril de 2015 às 11h54

QUANDO TUDO COMEÇAR A APODRECER

O homem social hoje virou ambiguidade ficcional. Previna-se o leitor: não confundir amizade social com solidariedade humana. São manifestações caracterológicas do vivente completamente heterogêneas. O egoísmo, a acomodação, modificadas pelo tom da luz reinante destruíram o sentimento cristão do mundo. O homem cresce, vive e morre numa jaula, limitado às imposições de sua vida miúda, repleta de frustrações e às circunstâncias. Há pessoas que pensam que não vão morrer nunca. Principalmente os que são ricos ou que, pelo menos, pensam. Assim imaginam muitos empresários, políticos, socialites, usineiros, juristas e outros nomes, renomes e pronomes suspeitos. Fenelon já dizia "que ninguém dê crença a felicidade presente. Há nela uma gota da baba de Caim". As fortunas inexplicáveis de alguns, da noite para o dia, cabem no raciocínio do pensador francês. Essa categoria de novos ricos torna-se perfeita, apenas, na ruindade e nem na morte é solidária.    

Às vezes, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras no mais profundo silêncio e na mais abominável indiferença. A postura ante o mundo é de desamparo e desalento. Não há lógica própria nessa conduta centrada unicamente na anormalidade do desvio comportamental porque a amizade virou interesse, esbulho, vantagem, lucro. Lembro a minha mãe, que algumas vezes rebatia a solidão centenária com uma frase humilde, sábia e confortadora: "meu filho, se eu fosse uma pessoa rica a minha casa estaria repleta de visitas".

A humildade e a caridade cristã teriam sido substituídas pelo messianismo dos "pobres de espírito"? Seria ataraxia, morbidez ou equívoco trágico imaginar que ninguém seu morrerá nunca? Mas a vida é um labirinto movida por difusa fluidez temporal, constituída de fases e de fezes (no sentido consumista, digestivo da palavra).

E eu pensava nesse turbilhão do tempo, dos modismos, que o exercício da amizade fosse contínuo, mas é tão "imortal" quanto a hipocrisia de acreditar nos homens que integram as instituições públicas e privadas (culturais, políticas, empresariais etc). Daí deduzir que toda celebridade em Natal quando não é célere e celerada. A corrosão cotidiana da busca pelo dinheiro e pelo poder enferruja com rapidez as "glórias e grandezas" de alguns profissionais que se julgam donos do mundo, quando pensávamos justos e coerentes. As mutações históricas dos valores da personalidade humana, ao que me parece, foram provocadas pela "revolução" dos costumes sociais, principalmente o comodismo, a apatia pelo semelhante, o medo de morrer, as fobias e a falta de religiosidade.

Aí, instaura-se um jogo de buscas. O coração desumanizado do selvagem habitante da cidade, que segrega o próximo jamais conhecerá qualquer modalidade de amor, principalmente na noite sem face e derradeira do ataúde, porque em vida foi ausente, insensível, reduzido à condição de bicho. Esse será o calvário do insensato, do que utiliza a amizade como negócio, como moeda de troca. Vai vagar como Caim na noite gelada do tempo sem jamais achar abrigo. Aos ricos materiais mas pobres em espírito, ofereço a reflexão do poeta Mário Quintana: "Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se apenas Presente e tem a duração do instante que passa".

 

10 de Abril de 2015 às 15h37

RELEMBRANDO B - B - B

Negativo. Não é o Big Brother Brasil, horrível e superficial. Nem coisas do Banco do Brasil ou do Banco do Nordeste. Quero me referir ao mais notável trio da política do Rio Grande do Norte, das décadas de cinquenta a setenta. Do tempo em que não existia marqueteiro, mas feiticeiro. O voto milagroso era do milagreiro. Conquistado mas, também, fabricado, produzido, trabalhado no mapismo, nos porões e no estrabismo do presidente da secção eleitoral. O trio B-B-B era soturno, noturno, taciturno, no segundo turno da apuração dos votos. Nasceram no mesmo ventre: O Partido Social Democrático, o velho PSD de Theodorico e Jessé. O partido majoritário, marca registrada de uma fase de eleições duvidosas mas de políticos verdadeiros.

Antes de revela-los, direi mais: o exercício do voto daquele tempo era superior ao processo da atual eleição norte-americana e, quiçá, ao virtual da urna eletrônica dos nossos dias. O triunvirato era Bessa, Bosco e Besouro. Prenomes simples: José, João e Assis. Três reis magos das boas novas, da brejeira anunciada em prol do sujeito oculto do sufrágio eleitoral. José Bessa, alto e simplório, escondia-se por trás de aparente timidez. Olhos miúdos mas penetrantes como se adivinhasse o dia de amanhã. O Grande Hotel do "majó" Theodorico era o quartel general. Ali, cedeu o cetro e a coroa ao jornalista João Bosco Fernandes, de fisionomia tensa e intensa, como se estivesse saindo permanentemente de noites indormidas. Era gordinho e, em pé, abria os braços costumeiramente para ouvir e envolver o problema do partido. E Assis Besouro, único sobrevivente dessa tríade, olheiro e vidente da política, foi estafeta de Jessé Freire e exorcista de capitulações impossíveis.

O curioso de tudo isso, é que escreveram em jornais. Expuseram suas idéias. Jornal do Comércio (da Ribeira, do PSD), Jornal de Natal, entre outros, foram veículos de seus pensamentos. Eram letrados, instruídos e não meros cabos eleitorais. Profetas das urnas e simuladores de resultados. Um trabalho, uma devoção e uma ação gratulatória. Hoje, bostalizaram a atividade política, da capital ao interior. A qualidade nostradâmica dos três expoentes da prédica eleitoral, da capacidade de orientar o líder maior, vaticinar, prognosticar, predizer sobre a eleição, o eleitor, o município e o chefe político - ela sumiu do mapa do Rio Grande do Norte.  Porque eles agiam mais por convicção do que por conveniência.

Viviam para desarmar presságios e administrar as circunstâncias da política. Para eles a atividade era encarada como um fascínio. Tinham o senso da sobrevivência.  Os três somados possuíam a força da mídia deles propriamente. Quando os antigos costumes políticos sucumbiram e a legislação eleitoral mudou, ficaram, todavia, nas paragens onde atuaram, em etapas diversas, passagens esparsas de vidas, que hoje relembro para aqueles que respiram o mesmo ar, pisam o mesmo chão e participam da mesma natureza. Registro a trajetória, rapidamente, da existência de José Bessa, João Bosco e Assis Besouro, como quem fotografa um instante de um universo perdido de sonhos, travessuras e ilusões. Uma canção ligeira em louvor de figuras simples mas sábias (e sabidas) - atualmente - sombras, nada mais. A todos: saudações pessedistas!!

 

20 de Março de 2015 às 12h15

MACAIBA: LIRISMO E HUMOR

01) Macaíba sempre foi rica em tipos populares, figuras humildes que marcaram o cotidiano simples da cidade. Em crônicas passadas, e, em livros, registrei a profundidade vital de muitos caracteres, através de tiradas espirituosas mas espontâneas saídas da humana contradição de ser. Epifânio, surge hoje, lembrado por um amigo comum. Alto, narigudo, Epifânio ganhava a vida fazendo fretes de mercadorias no seu carro de madeira. Era homem bom e crédulo, apesar de sua mulher "costurar pra fora" em alta rotatividade. Toda a cidade o sabia menos Epifânio. Dia sim, dia não, a mulher aparecia em casa com um liquidificador, um ferro elétrico, um rádio de pilhas e, ao ser indagada pelo marido sempre se saia com um desculpa inapelável: "Tirei no bingo, meu filho!". Certa vez, no bairro Alto da Raiz, onde moravam, faltou água. Do banheiro a mulher grita para o marido: "Epifânio, traga água para o meu banho!". O obediente maridão, já no prelúdio de desconfiança, trouxe-lhe a água num caneco de óleo de cozinha. "Mas, filho", reclama a esposa perua: "assim não dá!". Foi aí que Epifânio resolveu chamar a pedra noventa: "Pelo menos dá pra lavar a cartela!". 

 

02) Napoleão Feitosa, "O Bispo de Braga", era sapateiro próximo as Cinco Bocas, centro de Macaíba. Barrigudo, óculos de pernas remendadas, "Napole" como era chamado na bodega de seu Alfredo Almeida, nunca perdeu o expediente diário de três "lapadas de cana" até os oitenta anos. Família numerosa, sustentava os filhos com o suor do seu ofício. Morava no Alto do 35, hoje rua Dom José Joaquim de Almeida. Mas, o fato marcante do "Bispo de Braga" era o seu vocabulário próprio de palavras criadas e disparadas conforme o assunto. Para classificar um indivíduo que estava embromando ou falando demais, "Napole" sapecava um diagnóstico "essa é uma 'pilostenia vagante'". Quando queria justificar uma ausência ou a sua falta a determinado compromisso, aí vinha com a desculpa "foi um crospício vagatório".

 

03) O Bar Gato Preto, sempre foi povoado por imensa galeria de vultos inesquecíveis que faziam ali o território sentimental da cidade. Era o balcão do cidadão que consagrava e desconsagrava, julgava e punia os que fossem achados em culpa. Na sinuca consagraram-se Perequeté, Banga, Geraldo Alcapone que maravilhavam os "pirus" com jogadas cerebrais. Antonio Assis, Waldemar Diógenes Peixoto, Né Macena, Paulo Marinho e Sabino eram frequentadores que também excursionavam na barbearia do cirurgião Zuca, PhD em escalpo de couro-cabeludo. Havia ainda outras figuras hoje impregnadas nas paredes do bar e nas esquinas das Cinco Bocas comentando as ocorrências do seu tempo, dois idos de cinquenta e sessenta como chamas votivas que não se apagam.

 

04) Macaíba é rica em figuras folclóricas. Já fiz desfilar na galeria infinda inúmeras personagens. O "gango", por exemplo, era o famoso cabaré macaibense onde pontificou um plantel digno de fazer inveja ao técnico da atual seleção brasileira de futebol. E de lá emerge Pirôba, rapariga de longo curso e discurso intermináveis nas campanhas políticas pelas ruas e bares da vida. Nos idos de oitenta, Pirôba não perdia uma carreata. Era "valerista" de carteirinha. Numa peregrinação política motorizada (ônibus, caminhões, automóveis, motos, etc.), Pirôba foi advertida que deveria se retirar do ônibus, pois estava reservado somente às mulheres casadas. Discriminação intolerável que Pirôba reagiu matando a pau: "E mulher casada não f... não?". E ficou.

 

13 de Março de 2015 às 12h49

CAUSOS QUE NÃO ESQUECI

01) Muito se fala na defensiva da cidade ao bando do famigerado cangaceiro Lampião. O velho Deoclides fez parte desse exército montado por Rodolfo Fernandes, corajoso prefeito nos anos vinte. Deoclides fez barricada numa janela da estação ferroviária, hoje estação das artes. Junto com um companheiro, ficaram de tocaia aguardando o sinal. O amigo de Deoclides todo o tempo falava em morrer e só pensava na família, que, a essa altura, estava em Porto Franco, rumo a Areia Branca. Mulheres e crianças foram tiradas da cidade por ordem do prefeito. O telegrafista da estrada de ferro Mossoró/ Souza, recebeu o aviso do colega da estação de São Sebastião (hoje Governador Dix-Sept Rosado) no seguinte teor: "Lampião acaba de passar aqui". A notícia correu rápida e uma hora depois, ouviu-se o tiroteio. Uma bala, não se sabe de onde, atingiu a parede mais ou menos a um metro da janela da tocaia. "Compadre, chegaram os bandidos", gritou Deoclides. Quando olhou de lado o amigo soltara o rifle e o mau cheiro invadira a calça do combatente com um único estampido intestinal.

 

02) De Boa Saúde chega-me notícia de dona Alzineide, que montou um bar do tipo "Pega bêbado". O comércio ia de vento em popa, apesar do estoque limitado. Quando as poucas garrafas de cachaça secavam, a proprietária colocava à disposição dos clientes, a famosa "perua". A perua era um composto de duas porções d'água e uma de álcool. Certa vez, um cliente tomou um gole a mais e ensaiou uma sessão de vômitos. Dona Alzineide orientava: "Meta o dedo na goela, Joca! Bota pra fora!". Joca respondia com dificuldade: "Não. Esfregue minhas costas! Eu paguei pra 'chamada' ficar aqui dentro".

 

03) Tilon Gurgel, nos idos de 1963, sofreu um derrame cerebral que o fez ficar um tanto esquecido. O detalhe mais comum era fazer xixi e esquecer de fechar a braguilha. Certa vez, seu Tilon, quando caminhava pelas ruas de Felipe Guerra, uma comadre, em sentido contrário, chamou-o e disse: "Compadre, seus 'teréns' tá de fora". Tilon não se preocupou. "Besteira comadre... pra boi morto, cancela aberta!".

 

04) Numa sessão antiga do Tribunal de Contas, antes do período momesco, ao final, presidida pelo conselheiro Renato Costa Dias, este desejou aos presentes "um carnaval tranquilo com responsabilidade". Comentário imediato do seu colega Tarcísio Costa: "Só se for embriagado, dormindo".

 

05) O prefeito Dix-Huit voltava de São Paulo, depois de uma bem sucedida cirurgia. O que surpreendeu a cidade foi o velho guerreiro pisar na terrinha apoiado em uma bengala. A oposição fez tremendo alarde. Um repórter aproximou-se e perguntou: "Prefeito, parece que a coisa foi grave, né? O senhor de bengala às portas de uma campanha...". Dix-Huit não gostou da insinuação, e bateu de frente: "Eu sempre andei de bengala. Esta, apenas substituiu a outra, cuja rigidez a flacidez dominou". O repórter despreparado saiu sem jeito e sem eixo.

 

06) Manoel Suzano, funcionário na antiga estrada de ferro Sampaio Correia, em Natal, era por demais estourado. Tipo que não levava desaforo pra casa. Certo dia, chegou ao setor de trabalho um novo chefe. O sujeito era chato e gostava de aparecer. Tudo com ele mandava fazer relatório. Em poucos dias, cismou com Manoel Suzano. "Seu Manoel", disse o chefe, "não estou gostando do seu trabalho. Se cuide, senão EU CO MU NI CO ao diretor! Eu CO MU NI CO!". Encerrou o assunto. O velho Suzano replicou: "Olhe, eu tenho quarenta anos aqui. Nunca recebi reclamação. O senhor pode comer Nico, macaco, papagaio, até a praga! Agora, você não vai me comer!". P.S: Nico era o nome de guerra de um gay, morador do beco da feira das Rocas.

 

27 de Fevereiro de 2015 às 12h01

DIÁRIO DE UMA TRAVESSIA

Empreendi a travessia do carnaval coletando máximas do Antigo e do Novo Testamento. Uma maneira de orar. De refletir sobre a vida com os seus erros e equívocos. "Porque o temor do Senhor é o princípio da ciência" (Provérbios 1.7). Por isso, "Louvarei ao Senhor enquanto viver" (Salmo 146.2). Neste mundo em que aspessoas permutam os templos pelas praias, shows e queima de fogos, lembrei-me do profeta Amós 8.11 e 12: "Eis que, vêm dias, diz Jeová,em que enviarei fome sobre a terra, não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor. Correrão por toda a parte, buscando a palavra do Senhor e não acharão". A justificativa fui achar no livro de Jeremias 17.5: "Maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do Senhor". Continuei a viagem de circunavegação espiritual. Entrei no Novo Testamento pelas mãos de Mateus no portal 11.28 a 30,ouvindo Jesus dizer uma das mais impactantes palavras do seu amor pela humanidade comum: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliarei. Tomai sobre vós o meu julgo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve". E lá no capítulo 24.13, arremata: "Aquele que perseverar até o fim, será salvo". O universo profano, movido pelo livre arbítrio de Deus, começava a ser ouvido. Seriam bem-aventurados os ruidosos deste mundo? Dirigi-me ao Evangelho de Marcos, 8.34 a 38: "E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará. Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate de sua alma? Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos".

O evangelista João, no capítulo 36, resume pela voz de Jesus Cristo, quase todo o conteúdo de sua mensagem: "O espírito é o que vivi fica, a carne para nada aproveita, as palavras que eu vos disse são espírito e vida". E lá adiante, complementa Jesus, através de João 10.10: "Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância", 10.30: "Eu e o meu Pai somos um". Capítulo 16.33: "No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo". E referindo-se aos discípulos e pedindo por eles ao Pai, no capítulo17.16: "Não são do mundo, como eu do mundo não sou". Eis aí a essência de Jesus Cristo cem por cento homem cem por cento Deus - o único de todas as religiões do nosso planeta que realmente ressuscitou.

Nessa travessia faltava-me ouvir Paulo, ainda entre outros, igualmente cheio do Espírito Santo. Paulo veio me servir, afirmando em Romanos 1.16: "Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê..." Se os seres viventes dissessem isso em toda parte e em qualquer lugar, o mundo seria melhor. Seguindo para o capítulo 6.23, de Romanos, o grande Paulo, assistido pelo Espírito Santo proclama que o "Salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna..." Mas, na Primeira Epístola aos Coríntios (capítulo 1.18 e 19), o leitor resplandecerá diante da inquietante revelação: "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós que somos salvos, é o poder de Deus porque está escrito: Destruirei a sabedoria de sábios e aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Eis aí mais um insondável mistério da fé". Lá no versículo 27, aduziu: "Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir os sábios, e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir os fortes". No versículo 29, conclui: "Para que nenhuma carne se glorie perante Ele". Terminei tudo, ouvindo, sem ler mais a Bíblia, de forma retrospectiva, a palavra de Jesus antes de subir para o Pai: "Eu vosdeixo a paz; eu vos dou a minha paz". Aí refleti: "Tudo posso naquele que me fortalece".

 

20 de Fevereiro de 2015 às 13h35

LUGARES E VEREDAS

01) O prefeito de Coronel João Pessoa é Francisco Alves da Costa, o simpático "Pachica". Ele independe de refletores para fazer suas campanhas políticas. Prova disso é que no último pleito não havia oposição no seu município. Pachica já explica: "Minha campanha é feita durante quatro anos. O povo é a prova maior. Nessa campanha, só meu salário desse mês já se foi em sacolão, caixão de defunto e outras coisas pedidas e atendidas". "Outro dia", prossegue, "Uma eleitora me procurou, precisando com urgência de R$ 1.800,00 para uma cirurgia. Eu falei: "Minha filha, uma importância dessa você tem que falar "antes de ficar doente". Onde eu vou arranjar esse dinheiro? Os candidatos que podiam ajudar nós, "tomaram doril". Nem o Papa dá notícias deles. Faça o seguinte: vá bebendo um chazinho por uns dias que eu vou tomar "chá de cadeira" por aí e vê se consigo lhe ajudar...". É esperando muito que não se recebe nada. 

 

02) Todo e qualquer pensamento, toda e qualquer viabilidade, o ex-governador Cortez Pereira mirava rumo à sua criação: Serra do Mel. Ali estava o seu El Dorado, sua paixão. Mais uma batalha estava sendo travada: levar as perfuratrizes da Petrobrás e ali encontrar água. A grande redenção! Chegaram as máquinas. Cortez era só alegria junto aos colonos. Um amigo palaciano vendo a euforia do governador tocou de leve o seu ombro e sussurrou: "Amigo, você esta suando felicidade não é?". Cortez, limpando a lente dos óculos, emocionado falou: "O fato é que desejo multiplicar essa felicidade e o melhor meio é dividi-la com os outros...". Cortez foi um permanente sentimental incompreendido.

 

03) Nos tempos áureos do mercado de Igapó, Manoel Xavier era o rei das carnes nobres. Era comum nos fins de semana o ajuntamento de três ou quatro amigos para degustarem uma saborosa picanha na brasa, regada a uma caninha e similares. Entre esses amigos, encontrava-se sempre o deputado Valmir Targino. Certo dia, por sugestão de Manoel, o grupo foi conhecer um rest-bar de uma senhora que preparava uns bolinhos de carne muito saborosos. Começaram os trabalhos e a senhora, muito prestativa, estava um pouco nervosa. O motivo: nunca recebera antes uma visita tão ilustre: um deputado. Lá para as tantas ela chegou à mesa e disse: "Senhor, desculpe aí, pois o meu barzinho é um pouco apertado". E completando. "Mas é limpinho, pode confiar". Na hora Valmir abriu o verbo: "Taí, Manoel. É do jeito que eu gosto: apertado e limpo".

 

04) Transcorria em Ponta do Mel uma festa para os colonos, sob a direção do prefeito Cortez Pereira. A Superintendência da Petrobrás foi convidada, pois falava-se na possibilidade de petróleo naquela área. Uma moça muito bonita, filha de um vereador, dava as boas vindas a todos. Ao ser apresentada a um engenheiro bonitão, a moça sentiu-se atraída pelo rapaz. "Muito prazer, senhorita", disse o profissional. "Quanta beleza numa só pessoa. Muito prazer, mesmo", fechou o cumprimento beijando a mão da jovem embevecida. A moça, encantada e inebriada soltou essa pérola de orgasmo: "o gozo é todo meu".

 

05) As Rocas sempre foram o celeiro de grandes nomes do nosso futebol. Entre alguns destacou-se "Pancinha", que jogou pelo América Futebol Clube. Pancinha logo foi convidado a fazer testes no Fluminense do Rio de Janeiro. A primeira semana nas Laranjeiras foi de treinos de dia e farra à noite. Numa dessas noitadas, nosso craque arranjou uma pesada doença venérea. Não obstante o bom futebol apresentado, o atleta foi mandado de volta. Um jornal de Natal estampou a seguinte manchete: "PANCINHA VAI PRO RIO DE AVIÃO E VOLTA DE MULA".

 

13 de Fevereiro de 2015 às 12h44

A SOMA DE TODOS OS MEDOS

Eu não disse? Começou o extermínio da juventude de Macaíba. Continua aceso o estopim da droga e ele já se expande e se torna crescente a cada mês. O alvo predileto são os jovens infelizes que se envolvem no tráfico por falta de uma estrutura idônea de educação, de saúde e segurança. Não existem nesse território de espanto e sofrimento, ações à nível estadual e municipal unificadas de combate eficaz contra o tráfico e de policiamento ostensivo nas ruas, bairros e distritos. A situação é tão grave e delicada nas periferias e bolsões da cidade, que menores são treinados e formados para o crime comum obsessivamente organizados como se fosse uma guerra civil. Está provado que a polícia continua despreparada para combater e a justiça desarmada para punir, pois a legislação penal é débil e ultrapassada.

Sair à noite em Macaíba é uma temeridade. Aliás, em qualquer parte do Rio Grande do Norte e do país. O lamento maior é constatar que a nossa terra, que antes era da cultura, do comércio e da paz hoje é a quinta no Estado na estatística de homicídios. O nosso tempo que era de grandiosidades, hoje é de tragédias. A vida humana se tornou fuleira. Criança, idoso, jovem, mulher - para o transviado, o drogado - tudo virou carniça. Mas, à luz do dia, os assassinatos também se tornaram rotina e boletins de ocorrências em ondas médias e curtas das emissoras de rádio além das telas de tv's. O macaibense está perdendo a sua auto-estima. Vive-se sob o signo do medo. Por que os órgãos de inteligência e investigação  das policias não descobrem de onde vem, por onde entra a droga e se sabem por que não agem?

Ações criminais que agridem a vida, como o terrorismo, o tráfico de drogas, o crime organizado, devem ser prioridade em qualquer gestão pública, tal qual, a educação, a saúde, a segurança, o desemprego, o transporte publico, etc. A gente tem a impressão que tudo vai acabar pelo falecimento paulatino predador de vidas e putativo dos valores humanos negados e omitidos. Se se pensar que a solução dos crimes hediondos da droga e de outras etiologias virá da classe política ou partidária, tal expectativa não pode ser confiável porque o dinheiro muda tudo. Viver hoje em Macaíba é extremamente perigoso e não existe ninguém confiável. O município envileceu. Tudo caminha no diapasão do salve-se quem puder! A classe privilegiada é a rica e comissionada. O pobre que se lasque e morra nas ruas do obituário das  omissões.

As minhas reflexões sobre o tema nasceram de um desejo e, porque não dizer de um sonho macaibense de humanizar o horror do mundo, que perdeu o canto e o encanto de viver com medo de atravessar as ruas. Creio que providências concretas ainda podem vir, mesmo que não possam enxugar o pranto das famílias dos adolescentes que já se foram. Acredito na frase de Fernando Pessoa, escritor português e espírito superior de que: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena". Ou, do contrário, Deus salve Macaíba!

 

06 de Fevereiro de 2015 às 17h32

PALAVRAS VOAM, PALAVRAS FICAM

01) A escritora Mirian Gurgel, famosa pela sua literatura de prosa fescenina, e mais ainda, pela proverbial irreverência, jamais silenciava diante de qualquer provocação. Certa vez, o alvo foi o saudoso ex-governador Tarcísio Maia. Este, em tom de brincadeira, para calar suas apimentadas anedotas a um grupo de amigos e familiares em Catolé do Rocha (PB), observou, amigavelmente: "Mirian, comporte-se, pois, daqui estou vendo a sua calcinha". A escritora devolveu em cima da bucha: "Mentiroso!! Nesse momento estou sem ela!". Dias atrás, no shopping, informou que lançará brevemente outro livro: "Eco do Povo". O título pronunciado ligeiro produz outro eco.

 

02) Em Bom Jesus, o mestre Pimenta, que casava e batizava na política desde os anos sessenta, me passou mais uma do seu repertório. Candidato a deputado estadual em 1970, levou para a sua cidade a fina flor do MDB da época: Odilon Ribeiro Coutinho, Henrique Eduardo Alves, Iberê Ferreira, Roberto Furtado, etc. e tal. Sem ninguém de expressão política local para discursar, Pimenta escalou o folclórico vereador João Vicente que iniciou dessa forma a sua fala: ""Dotô" Odilon "Coitinho", deputado "Anrique" Eduardo, quero dizer a todos que aqui em Bom Jesus foi eu e Pimenta que afundou primeiro o MDB!". Risos profusos e difusos espalharam-se na noite de Bom Jesus que apenas começava.

 

03) A irreverente senhora Maria Maia, foi passar umas férias na casa dos parentes políticos, no Rio de Janeiro. Por lá, ela passou mal e levaram-na a um médico. Gozador como todo carioca, o profissional quis tirar uma casquinha com a nordestina. Com a ficha da paciente à mão, ele passou a indagar: "Quer dizer que a senhora é do Norte?". "Não senhor. Sou do Nordeste. Parece que aqui, no Sudeste não se estuda muito geografia, não é doutor?". "E lá no Norte, isto é, Nordeste, já tem posto de gasolina?", provocou de novo. "Tem sim, senhor", retruca D. Maria, já enfarada. "Tem televisão?". "Tem, sim, senhor". "Tem telefone?". "Tem, sim, senhor". "Tem avião?" "Tem, sim, senhor". "Afinal", disse o gozador, "o que é que não tem no seu Nordeste?". Maria Maia nocauteou-o impiedosamente: "Lá não tem médico corno, f.d.p, como o senhor!!!".

 

04) Seu Dionísio, homem de idade, evangélico, estava sentado em sua calçada examinando as escrituras. Era tarde de domingo. Parou um coletivo e ali desceu um sujeito altamente embriagado. Atravessou a rua, chegou perto do Dionísio e disse: "É aqui o forró do gesso?". Dionísio respondeu: "Não senhor, aqui é minha casa. Não tem isso aqui não". O ébrio insistiu: "É aqui sim. A que horas começa?". "Meu amigo", retruca o pacificado Dioniso, "o senhor tá mal informado". "Desinformado o que? Você num tá vendo aí no poste, a placa indicando que é aqui". Na verdade, o cartaz com uma seta apontando o caminho, dizia: "Forro de Gesso". E logo adiante, um moço trabalhava com esse material. Engano para nenhum cristão botar defeito. E haja paciência...

 

05) Francisco Dantas ou Chico da Prefeitura, como era conhecido em Mossoró, ingressou no folclore político local por haver se elegido "vereador" sem concorrer a eleição. Passava o tempo todo na calçada da câmara municipal varrendo aqui e acolá, convidando os amigos para conhecer o seu "gabinete". Após longos meses de "legislatura", foi flagrado pelo presidente da Casa com três amigos ao redor o seu birô, ligando para o ramal da copa: "Dona Raimunda? - (a copeira) - Por favor, traga aqui três "cafezes" para o meu gabinete por "obeseque"". Ali mesmo, perdeu o "mandato". 

 

30 de Janeiro de 2015 às 14h28

CAUSOS DAQUI E DALI

01) O vereador Severino Galvão era o capataz dos mistérios e abrangências do Alecrim. De grandes eventos à briga de galo, lá estava presente o indomável edil. Em um trecho da avenida 16, nasceu a famosa "Coréia do Nilo". Era um forró da pesada, estilo gafieira carioca. O forrozeiro e cantor sertanejo Elino Julião, imortalizou numa composição com a música que dizia: "Só tem "véia", só tem "véia", no forró da Coréia, só tem "véia", só tem "véia"...". Severino Galvão, frequentador emérito, já "melado", adentrou na dança e pegou pesado. Nilo, o dono da casa, mandou parar o som e advertiu: "Vereador, vá mais devagar. Conforme os "estatutos" da Coréia, aqui não se dança com "coca-cola" no bolso! O senhor vá lá fora, e quando estiver "desarmado", aí pode voltar ao salão". Obediente às "leis estatutárias", Severino cumpriu  a liminar por livre e espontânea pressão.

 

02) A cassação dos direitos políticos do ex-governador Aluízio Alves eclodiu no Rio Grande do Norte como uma bomba, principalmente no seio do povo. A tristeza era visível no rosto dos correligionários. O "cigano" nada dizia (nem podia dizer), sobre a arbitrariedade que o atingiu. Alguém da imprensa buscando um furo jornalístico, dirigiu-se ao então governador Walfredo Gurgel, instigando-o: "Monsenhor, o que diz sobre o silêncio de Aluízio, o seu grande amigo?". O padre, passando a mão sobre a cabeleira branca, respondeu olhando para o nada: "Ser amigo é entender o silêncio, a ternura e o mistério! Nesses momentos, é preciso calar e meditar nos desígnios das circunstancias". Ele estava em Caicó de onde Aluízio o tirou para ser governador.

 

03) Na Câmara Municipal de Natal, um dos nossos vereadores (cujo nome vou preservar), teve uma idéia no mínimo inusitada. Uma criatividade de encucar qualquer gênio político. Vejam só: anos passados, os homens faziam fila para engraxar os sapatos a fim de assistir as vesperais do Cine Rex ou do cinema Nordeste. Hoje essa classe (os engraxates), caíram de moda. E até que faz falta. Surgiram os "flanelinhas" e os "catadores de lixo". Simples humildes, mas estão aí. O nosso bravo e referido vereador, depois de várias reuniões nos bairros periféricos, resolveu botar a mão na massa literalmente. Da tribuna discursou: "Vocês engraxates, terão uma classe e uma profissão a zelar. Serão registrados como "ilustradores de sapatos", principalmente nas ruas João Pessoa e Rio Branco. Os flanelinhas, surgirão como "massagistas de autos", com direito a colete e tudo! Os catadores de lixo terão crachás com o título de "selecionadores de resíduos sociais". Afinal meus nobres párias, valeu ou não valeu a inovadora promoção social?". Encerrou o legislador natalense de primeiro mandato entre aplausos e abraços da plebe rude, sob a ovação da platéia. 

 

04) Imitação na política sempre foi lugar comum entre os iniciantes. Alimentando o sonho de um dia ser eleito, frente ao espelho, copiavam trejeitos e falas. Como Getúlio, alguns repetiam: "Trabalhadores do Brasil!...". Djalma Maranhão iniciava sua oratória com o famoso: "Brasileiros de Natal!...". Aluízio Alves arrepiava a multidão com a voz rouca: "Rio-grandenses do Norte!...". Mas, na Salinésia Potiguar, o líder Venâncio Zacarias criou o seu brado retumbante: "Povo de Macau Cus (com os) de Areia Branca!", e prosseguia: "Como Luiz Gonzaga, eu vos dou xaxado, baião e mais embarcação! É rabo cheio ou não?! Eu vos peço: "me "aleijam" deputado estadual na próxima "inleição". Se é de dá ao rato, dê ao gato que é menos ladrão!". Venâncio não chegou lá mas liderou muito tempo a política de Macau e municípios vizinhos.

 

09 de Janeiro de 2015 às 11h47

RESENHAS

01) Diógenes da Cunha Lima é depositário fiel não  só  de estórias do humano folclore potiguar mas de alhures, como bem diria  o nosso Paulo Macêdo. E logo me vem a mente a consulta - interrogatório do  Senador  Ronaldo  Cunha Lima diante do médico  curioso  e grave: "Ronaldo você bebe?". "Isso é uma pergunta ou um convite?", detonou  o poeta também  grave e curiosíssimo.

 

02) Sem  sair da Paraíba, o nosso, Ronaldo mais uma  vez é submetido a interrogatório. Dessa vez, uma mulher protesta aos seus ouvidos: "Você, Cunha  Lima não liga mais para o povo! Depois de governador, senador, esqueceu-se de que foi garçom! Não se lembra mais não?", bravejou a eleitora inconformada. "Exatamente, minha senhora", reagiu o senador, placidamente, "De lá prá cá até hoje, nunca perdi  o jeito de servir".

 

03) Ainda sobre Ronaldo, Ticiano Duarte, chegado daquelas bandas, me passou uma história interessantíssima. Todos se lembram do episódio do atrito Ronaldo versus Tarcísio Burity, há uns anos atrás. Mas, a verve popular brasileira gosta mesmo é de fazer humor em cima de fato desagradável. Como o combustível do faroeste dos dois foi o álcool, um eminente pau d'água paraibano narrou o conflito assim: "O senador Ronaldo Cunha Lima, chegou acompanhando de um tal Jonnhy Walker, montado num Cavalo Branco deu três Bellantines no Buchanas de Tarcísio Burity". Foi dose.

 

04) Sem sair do porre, logo me lembro da figura  poética e etílica do grande Newton Navarro, mergulhando nas madrugadas profundas das  Rocas, Quintas, Canto do Mangue, sem se aguentar mais em pé, sem companhia,  sem proteção, sem taxi, exposto ao perigo, naquele baixo clero. De repente impetra um inaudito habeas corpus que só aos poetas do seu  porte  é dado o privilégio: chamou o carro  da polícia para deixá-lo em casa. E sempre foi obedecido. Era a proteção do Estado a incolumidade física e intelectual do poeta da cidade.

 

05) Por último, uma piadinha cinematográfica. De leve. Tarzan, o inesquecível astro do cinema americano, a convite  da Fundação Eco-Natal  esteve ultimamente em nossa capital. Foi entrevistado por conhecido jornalista  da província. Na primeira pergunta esclareceu que hoje não se faz mais cinema como antigamente. Os crimes ecológicos, a devastação das florestas, a poluição dos rios, enfim, roubaram o espaço, o cenário natural para os novos filmes. "E como vai Jane?" Interrogou o repórter. "Ora, Jane mora  nos E.E.U.U. Trabalha numa lanchonete e vive modestamente". "E o Boy?", insiste o curioso entrevistador. "Trabalha num banco", responde Tarzan,  "é oficce-boy e passa a  vida levando e trazendo  papéis. Coitado". "Mas...", continua o interrogatório e obsessivo jornalista potiguar: "E Chita?". "Ahh, essa vai muito bem!", suspirou Tarzan. "Casou, tem três filhos maravilhosos. Um é ministro, outro é prefeito e a mulher é senadora". Pano rápido. 

24 de Dezembro de 2014 às 15h33

A CONSERVAÇÃO COMO NECESSIDADE PERMANENTE


O exercício perene da conservação deve ser revelada em todos os seguimentos da atividade humana. Seja pública ou privada. Como navegar - conservar é preciso. A conservação dos bens administrativos, culturais, patrimoniais, econômicos, morais, de uma sociedade dignifica a própria condição de humanidade. Os ativismos do processo da atual gestão pública de muitos prefeitos e governadores, têm induzido manter a estrutura urbana e suburbana das cidades em completo descaso e predação incessantes. É raro o gestor público que recupera obra herdada do seu antecessor. O prejuízo é contundente para a família e a comunidade. Seria inveja mórbida? Monocratismo perverso, porque não está ali refletido o seu ego?

O ser humano está em constante evolução como tudo no planeta e no universo. Mas, o que existe de bom e de bem, em favor da sociedade, e ainda de belo, de amor à vida, não pode ser desdenhado. Tapar buracos em ruas e estradas; conservar as escolas e os hospitais, deixando-os aptos a prestar os seus serviços; conservar as ruas limpas, iluminadas, abastecidas com água e gás; conservar, restaurando o patrimônio histórico da cidadania popular dos seus casarões; conservar a conquista da ética, dos direitos individuais, lembrando o passado com gratidão, alegrando-se com o presente e encarando o futuro sem medo; conservar as crenças cristãs principalmente aquelas nascidas do Novo Testamento; conservar a natureza, as praças e os jardins que os outros construíram é sempre preferível essa conduta do que o mito administrativo de ser único.

Não sou conservador, nem tradicionalista. A conservação que me refiro não é hostil às inovações políticas ou sociais. Mas àquelas que propugnam resguardar de danos, decadência, deterioração, prejuízo, etc., os prédios do domínio da união, estado e municípios constituídos de edificações tombadas pelo patrimônio histórico ou não. Observe o caro leitor, a situação das repartições oficiais hoje, frente, fundo, verso e inverso. São construções de vinte, trinta, quarenta anos passados. Compare com as de outros entes federativos. Natal, que já recebe e divulga suas potencialidades turísticas; armazena em suas ruas, praças e logradouros, lixo, fezes, fedentina, drogas, violência e corrupção. Conservação, por conseguinte, invertida da que se espera e se propõe.

Por fim, tudo é relativo. Tem causa e efeito. O orçamento estadual é hoje refém do colossal tamanho da máquina funcional, verdadeiro monstro Leviatã do qual falou o teórico político filosofo inglês Thomas Hobbes no século XVII. Sem comentar os desperdícios do estuário caudaloso da má gestão explícita e implícita que sempre atormentaram os governantes de todos os níveis (de federal à municipal), depreende-se que é difícil e distante o conserto ou reparo da máquina. O arcabouço legalista que gerou todo esse emaranhado é um "nó de jabá" indesatável, catimbado, mijado em cima porque foi criação do homem, pelo homem para o homem. Fisiológico, pantagruélico, corporativo, elitista, fome zero.

 

12 de Dezembro de 2014 às 12h22

POR QUÊ?

A TV Record exibiu que brasileiros ensinam samba e carnaval em Taiwan, nação de povo chinês, disciplinado, organizado e rico. Espero que não aprendam essas coisas para não desmoralizarem os seus rígidos costumes determinantes de sua formação e desenvolvimento. É temeroso para qualquer país imitar os folguedos e o caráter do brasileiro. Entendo aí que a Bíblia, ainda é um livro relevante no mundo complicado de hoje. Cheio de dúvidas, procurei o Antigo Testamento e achei no profeta Jeremias, capitulo 17, versículo 5: "Assim diz o Senhor: maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do Senhor". Jeremias tremeria nas bases se morasse em Tenente Laurentino (RN), e municípios similares, assistindo o comportamento eleitoral do povo do norte e do nordeste nessa eleição. Caso ele não queira falar na maldição do homem que confia em mulher, porque antes dele, Eva já havia "pebado" Adão e Dalila traído Sansão, sem falar na mulher de Putifar.

Mas a pergunta que não quer calar é o "por quê?" Por que agora se pensa privatizar o Banco do Brasil para debelar a crise econômica, e não a Petrobras, toda arrebentada, semi-falida, cabide de empregos, covil de afilhados políticos, e ainda perdida no bojo de um vendaval de corrupção, considerado o maior em alcance no mundo ocidental. E o pior: o prejuízo moral do Brasil é superior ao montante do dinheiro desviado. Nem o petróleo é nosso, nem o dinheiro também. Por que nos "protestos sociais" a ira dos baderneiros somente atinge os ônibus - meio de transporte coletivo?  Pode haver resposta para tal burrice, mas nunca suficiente para explicar a eliminação de quase uma centena de policiais em todo Brasil. Alguma Casa do Congresso ou instituição de defesa dos "direitos humanos", por acaso, já protestaram contra os homicidas, traficantes e ladrões? 

E por que quando um policial militar, em legítima defesa da sua vida e de terceiros, mata um fora da lei, logo é punido, execrado e expulso da corporação?

Já em Natal, perigosa e periguete, o por quê se dirige ao festival de multas de trânsito, cujas cifras parecem concorrer com as dos buracos da Petrobras. Se efetivamente, arrecadadas, há de se esperar que sejam pintadas as paredes do prédio da secretaria municipal da tributação, construção histórica, que precisa ser preservada. Nas ruas e nos canteiros das avenidas a pergunta recai nos caminhões tanques que teimam em aguar os jardins centrais sempre no horário de pique, congestionando o trânsito e favorecendo acidentes. Por quê? Outra indagação pertinente, que não se reveste de censura - como nenhuma das outras -, diz respeito ao uso e abuso do estádio de futebol "Arena das Dunas". Há poucos dias "fabricaram" um embate entre craques do futebol argentino e brasileiro, de mundiais passados. O público natalense acreditou e foi lesado, pois assistiu uma "pelada" com jogadores mediúnicos, de perucas e pileques. Houve alguma providência contra os responsáveis para punir o engodo? Não se sabe. Permito-me sugerir, com toda pompa e circunstância, antes de terminar o ano, um reencontro na "Arena das Dunas" das seleções do Brasil e do Uruguai, que tanto emocionaram o Maracanã em 1950. Já pensou em Natal: Barbosa, Danilo, Friaça, Zizinho, Ademir...

Há muitas outras coisas a perquirir. Por exemplo, quantos meses levarão o Brasil e o Rio Grande do Norte para equilibrarem as contas e os compromissos no exercício de 2015? Por que o atraso no pagamento dos aposentados do Estado? Por que a discriminação? Semana passada a turma da reserva remunerada perdeu o "Black Friday"... Por tudo isso e por outras tantas: Por quê? 

20 de Novembro de 2014 às 14h28

DO FOLCLORE POPULAR

01) Padre Julio Bezerra caminhava cerca de dez quilômetros no lombo de um jumento para celebrar missa na freguesia do município de Assu. Certa feita, ao passar debaixo de uma frondosa oiticica foi surpreendido pela voz de uma criança. Era uma mocinha de mais ou menos doze anos. Ela havia subido num galho e falava em voz alta: ""Abenção", padre...". O bom vigário olhou para cima, e, respondeu: "Deus te abençoe... Desce daí menina!". Metendo a mão no bolso, emendou: "Pegue dois mil réis! Mande sua mãe comprar uns panos para fazer uma calcinha pra você! Quem já viu isso!". A menina contou a mãe o acontecido, e esta, esperta, esperou a volta do vigário. Na chegada do padre, a "coroa" em posição estratégica pediu: ""Abenção"" seu padre...". O vigário olhou para cima, e, horrorizado disse: "Deus te abençoe... Desce daí mulher! Tome um conto de réis, compre uma gillete, raspe esse bicho feio...".

 

02) A praça Rodolfo Fernandes em Mossoró, era o ponto de encontro, todas as noites, da classe política da cidade. Ali saía de tudo. A vida alheia, então, era o prato preferido de uma meia dúzia de edis. Certa vez, Expedito Bolão abordou um assunto de maridos traídos. Esse tema rendia muita prosa. Bolão comentou: "Minha opinião, é que só existem duas espécies de cornos no mudo. Primeiro: aquele que é, e sabe; segundo: aquele que é, mas ainda não sabe!". Dita a sentença, Expedito olha para o vereador Zadock, e interrogou: "O amigo concorda comigo? Qual das duas classes você está enquadrado?". Foi um segundo de silêncio e uma gargalhada geral, que evitou sérios constrangimentos.

 

03) Voltando ao interior, chega-me a história de Luís, empregado do misto de São Tomé. Para os que não sabem, misto era um caminhão de duas boléias que imperava no transporte de feirantes lá pelos idos de 50 e 60. D. Maria, tia de Levi, ex-bancário natalense, hoje radicado em São Tomé, possuía um terreno ao lado de sua casa, que oferecia banho aos caminhoneiros e feirantes, calcinados pela poeira e sol escaldante dos tempos de seca e falta d'água. Chegado de viagem, Luís foi procurar o banho. D. Maria, porém, advertiu que "a água estava escassa". Luís insistiu. "Só se for economizando muito", resumiu D. Maria. Ao cabo de alguns minutos, observando por perto que não ouvia o barulho da água derramada pela cuia, preocupou-se e bateu à porta do banheiro. "Seu Luís, ô seu Luís, tá acontecendo alguma coisa? Não tá tomando banho, não?". Uma voz tranquila veio lá de dentro: "A senhora não falou prá não gastar a água. Tou tomando banho dentro do tanque...".

 

04) O professor Luiz Soares, considerado o "pai do escotismo" no Rio Grande do Norte, dependendo do momento, uniformizava-se de forma impecável. Um dia, precisou ir ao quartel da Polícia Militar do Rio Grande do Norte onde tentaria conseguir um ônibus para excursão. Um soldado novato estava de serviço. O coitado não havia assimilado ainda a problemática das patentes. Um colega seu, passara pouca coisa.  Por exemplo: duas estrelas, três estrelas, em seguida, o tratamento, prestar continência, apresentar arma, coisas dos milicos. Luiz Soares chega, enfim, ao corpo da guarda. O sentinela, vendo aquele homem com quase dois metros de altura, porte altivo, estrelas e medalhas por todo o peito, ficou atordoado. Deu dois passos à frente, ajoelhou-se e estendeu a mão: "Abenção meu pai!!.". 

31 de Outubro de 2014 às 13h37

MINHAS REENCARNAÇÕES

De notações feitas à hora do crepúsculo em livros idos e vividos, pincei uma frase que me remete ao delírio das coisas de querer ter sido e não fui: "Eu que tantos homens fui, não fui aquele em cujos braços desfalecia Matilde Ubach". Pensamentos fluidos, na verdade, de reencarnações em lugares e tempos, sonhos e fugas do real ou transposições de corpo e espírito para lugares onde nunca naveguei, muito além da ponte de Igapó.

Ter sido, por exemplo, acompanhante do Cristo nas peregrinações e presenciado seus milagres para não me dividir hoje, nos conflitos das igrejas do mundo; gostaria de ter sido expectador do teatro shakespeareano e tê-lo conhecido de perto e acompanhado todos os seus porres nas tabernas escuras da Londres elizabetana; como amaria a passagem pelos estúdios de cinema dos anos trinta e quarenta só para ver Charles Chaplin, Stan Laurel e Oliver Hardy; ter aspirado o odor do charuto de Getúlio Vargas e escutado em dó maior a gargalhada prazenteira; ou como figurante dos filmes de John Ford, viajado nas diligencias do tempo pelas pradarias do oeste; de Juscelino a companhia e as conversas dele com o que havia de melhor no PSD naquela época: Israel Pinheiro, Amaral Peixoto, José Maria Alkamim, Benedito Valadares, Tancredo Neves; ou de um pólo para outro, muito me ufanaria haver morado no Rio de Janeiro só para ouvir os discursos do bruxo Carlos Lacerda e acompanhar as suas ações como governador com "m" maiúsculo do Estado da Guanabara; eu, que tantos homens fui, não fui aquele que conviveu mais tempo com Câmara Cascudo, pois considero privilegiados os que receberam essa oblação; quantas vezes não me vi nos shows dos Beatles e como "macaco de auditório", no começo do yê-yê-yê, no programa Jovem Guarda das tardes de domingo; e quanto fascínio não exercem sobre mim as cidades interioranas da Paraíba, Pernambuco, Ceará, Minas, Bahia, das moças namoradeiras, das praças, dos olhares furtivos e trepantes como se eu quisesse, de repente, paquerá-las todas ou me compensar, ao menos, em contemplá-las lindas e infinitas, renascidas de minhas ilusões de adolescente.

Ah! Como esse mundo de hoje dói. Não há mais ídolos. A violência urbana e a guerra mataram os sonhos e as ilusões castas dos nossos pensamentos. É um mundo de aparências, de vaidades e iniqüidades. "Olhe, aquele ali é Machado de Assis e com ele Eça de Queiroz!". Faltou-me alguém que apontasse, naquele tempo, essa visão dos dois monstros insuperáveis da literatura luso-brasileira; e se o sonho triunfar sobre a verdade, posso dizer nesse final que assisti Padre João Maria sarar os enfermos; preguei com Frei Damião na noite litúrgica e estrelada de Monte Alegre; que vi subir o balão de Augusto Severo e que assisti o último suspiro de Auta de Souza. E se o leitor me acreditar, conheci Lincoln na guerra da Secessão; vi Roosevelt, Getúlio, Tyronne e Evita na Ribeira de guerra. Se todas essas reflexões são febris ou invrossímeis, é preferível crê-las e esquecer as bestas do apocalipse estão soltas no Irã, no Iraque, na Síria e no "estado" islâmico, cujas imagens na televisão sujam de sangue as nossas ilusões por um mundo de paz. Vírus como ebola, nasce da miséria e da fome.

 

24 de Outubro de 2014 às 12h26

DA TERRA DE PISA NA FULÔ

01) Corria o ano de 1973. Nova safra de prefeitos oriundos das urnas de 1972, administravam seus respectivos municípios. Esta aconteceu comigo em Natal. Numa manhã quente daquele verão, prorrompe escritório a dentro, a figura bizarra, empírica e ruidosa de Chico Bomba, novo prefeito de João Câmara. Estava preocupadíssimo com a seca em seu município e queria, pressuroso, levar um ofício à SUDENE, pedindo água e alimentos, do mesmo modo que vira proceder um município vizinho. Como não havia chegado ao Escritório de Contabilidade e Assistência Municipal o seu diretor, Chico, apressado, mandou o datilógrafo sentar à máquina que ele ia ditar assim mesmo. Assumiu um ar pensativo como quem buscasse sublime inspiração, e me perguntou, à queima-roupa: "Ô "dotô" Varela, hospício é com 'o' ou com 'h'?". Deixei a leitura do jornal e respondi: "Chico, hospício é com 'h'". "Pois então escreva aí", virando-se para o rapaz: "sobre os hospícios da SUDENE..." O datilógrafo parou, sem tirar os olhos de Chico e sem saber que ele queria dizer "auspícios" e não "hospícios". 

 

02) José Jeep era uma das mais populares figuras de Macaíba. Chamado assim pela sua baixa estatura, ele foi engraxate, palhaço de pastoril e trombonista. No carnaval de 1962, José Jeep foi contratado por um bloco de elite da cidade. Num dos "assaltos", ocorreu uma tragédia com seu famoso instrumento na residência do comerciante Edmilson Dias, na hora dos "comes e bebes". José Jeep deixara o trombone sobre o sofá e nisso, o Bridenor Costa Jr., vulgo Costinha, sempre obeso e rotundo, passou mal com um porre de lança-perfume e desandando foi despencar os seus "quadris de jamanta" em cima do pobre trombone. Para consolar José Jeep e continuarmos a "jornada carnavalesca", o amassado instrumento foi amarrado de esparadrapo, o que obrigou a soprá-lo com muito mais força. Na visita seguinte, na casa de Seu Mesquita, o nosso José Jeep querendo impressionar o chefe político, soprou o trombone com tanta veemência que liberou um irreprimível e estrondoso peido. Comovido com o desempenho heróico do seu correligionário assustado, o velho Mesquita, ao seu lado comentou placidamente: "José, o seu trombone está soltando notas demais. Mas pra carnaval tá bom demais!!!".

 

03) Pedro Luiz de Araújo, o famoso Mestre Pedro das tiradas espirituosas e jocosas, comparece hoje com mais uma estória do seu rico folclore. No período eleitoral, a política macaibense fica densa, tensa e intensa. Nos idos de 1970, Mestre Pedro era vereador e desenvolvia oposição cerrada ao então prefeito. Discursando na Câmara contra os gastos excessivos da prefeitura e procurando atingir o prefeito e o tesoureiro, Mestre Pedro saiu-se, na tribuna, com esta frase lapidar: "Dois "piriquitos" numa quenga não tem "mio" que chegue!!!".

 

04) Por último, me ocorreu a do batizado do filho do preto e fanático aluizista João Curador. Corriam os anos sessentas. Aluízio Alves era governador a quem o padre Alcides não via com bons olhos. O batizado foi marcado para as 17 horas. Igreja cheia. Aluízio no auge. A família de João Curador toda vestida de verde. O menino, que se chamava Aluízio, vestia enxoval verde, toca verde, bubu verde, sapatinhos verdes, tudo verde. Aluízio deu uma maçada de duas horas, para desagrado e irritação do padre Alcides. Quando o governador chegou, de repente, todos se reuniram em volta da pia batismal e aí o padre Alcides, possesso, se referindo à criança, soltou aquele seu vozeirão: "Tragam o gafanhoto!!!".

 

17 de Outubro de 2014 às 11h24

CENAS EXPLÍCITAS

01) João Pedro Tavares, relatou-me um episódio ocorrido durante a construção da Vila Naval, ali no Alecrim. Para vigiar o material de construção colocado na via pública, a base escalou um marinheiro para o serviço. Todavia, sempre à noite, uma escolta motorizada circulava pelas imediações a fim de apoiar a determinação superior. Certa noite, o pessoal constatou o sumiço do vigilante. Preocupação no ar. Avisos difusos e profusos ao comandante, com suspeitas de sequestro e assassinato. Intensificada a busca, flagraram o gentil marinheiro num beco escuro das proximidades, fazendo "amor" com uma jumenta. Estupefação geral. A escolta deu voz de prisão ao notívago militar e na parte enviada à base naval constava no texto, o seguinte dizer: "Foi encontrado em colóquio amoroso com uma jumenta". Além da punição exemplar e correcional do marinheiro, o comando tomou outra de cunho administrativo: acabou com esse negócio de vigia.

 

02) O saudoso Luiz Gonzaga, em seus versos, cantarolava: "Sertão de mulher séria e homem trabalhador". Mas, em algumas regiões, a coisa se modernizou. O  sertão hoje imita os grandes centros. A esposa de um fazendeiro, por exemplo, pôs em prática as "dicas" das novelas é começou a "enfeitar" a cabeça do marido. O "felizardo" era o vaqueiro do esposo. A coisa estava ficando explícita demais. O fazendeiro, como não tinha pulso para tomar uma atitude, passou a menosprezar o empregado que, por sinal era jovem alto e robusto. Certo dia, por conta de uma ordem não obedecida, o patrão aproveitou a situação para humilhá-lo e disparou diante de várias pessoas: "Vaqueiro f.d.p., corno, venha cá!". O moço aproximou-se e com muita calma ponderou: "Quem sou eu pra ser tudo isso! O senhor, sim, que tem 500 cabeças de gado no curral, fora os da várzea. Eu não sei nem quantos pares de chifres isso soma...". No mais, após ligeira reflexão do marido, tudo terminou em paz: muito barulho para nada, como diria Shakespeare.

 

03) Lázaro, vereador mossoroense, bastante conhecido em Natal, inteligente e gozador, era também patrulheiro da polícia rodoviária federal. Certa feita, estando em serviço, um jovem estacionou o seu veiculo no posto para averiguações. Alem de velho, o carro estava totalmente irregular com a documentação, além do proprietário. Ao ser cobrado o rapaz deu brabo: "Olha seu guarda, eu sou vereador em Campo Grande. Tenho pressa e não vou perder tempo com explicações".  O policial, com calma, convidou-o a descer e a se dirigir ao escritório. Lázaro vendo que a coisa ia engrossar foi em socorro do colega: "O que está havendo, Jorge?". Explicado o problema, o guarda Jorge acrescentou que além de totalmente errado, o seu condutor alegava que o carro não podia ser detido porque era "otoridade" vereador em Campo Grande, etc., etc. Lázaro, irreverente e brincalhão falou taxativamente: "Jorge, sabe qual a diferença de um vereador desse tipo para um tambor de bosta?". O guarda respondeu: "Não!", Aí Lázaro baixou o nível: "A diferença é só o tambor. Encosta essa merda aí".

 

04) De Mossoró vamos à Baraúna onde Moisés de Oliveira exercia liderança política no município. A sua filha era bonita e o pai, de tão orgulhoso de sua beleza afirmava sempre: "Minha "fia" só casa com o cabra que for prefeito. Vereador num é nada". Moisés, mal sabia que a filha curtia uma paixão secreta pelo motorista da prefeitura. Numa noite festiva com parque de diversão, serviço de som e suas mensagens musicais "de alguém para outro alguém". A jovem Rosália, sorrateiramente, chegou ao "estúdio" da amplificadora e endereçou uma "jóia musical" sob o título "Amor proibido". A oferenda estava assim escrita: "De um alguém de saia azul para outro de iniciais "OX"". Aí, o locutor curioso, se interessou e puxou conversa só para desfrutar da presença da linda mulher. "Quem é esse felizardo?", quis ele saber. Rosália para se camuflar cada vez mais confidenciou: "É segredo e não diga a ninguém. "OX" quer dizer "Ontônho Xofer"". 

02 de Outubro de 2014 às 11h48

ALTERNÂNCIA DO PODER

Na modernidade, a alternância do Poder é um imperativo categórico. A quadrilha que se infiltrou na maior e melhor empresa pública do país - a Petrobras - causou danos financeiros e morais a sua história. O abalo do seu prestígio no mundo econômico, é algo que deve ser levado em alta conta. Se ela é pública a responsabilidade é do Governo Federal. Ele foi omisso, conivente e complacente. A Petrobras, constituída de pessoal e servidores da melhor qualidade técnica, não merecia esse enxovalhamento e lixo tão desonroso. Os fraudadores vieram de fora, se infiltraram e mantiveram com os escalões superiores do governo diálogos e relações promiscuas. 

O mensalão, por exemplo, deixou marcas indeléveis de corrupção na história política nacional. O fato ocupou as manchetes dos principais jornais do mundo, tanto quanto, a perda da copa do mundo com a falência do futebol brasileiro. Aliás, a Confederação Brasileira de Futebol - CBF, é outra história de luxuria e atos libidinosos.

Por tudo o que foi dito, o que se exige hoje, é uma mudança de mentalidade, de comportamento nos costumes políticos, inclusive nos quadros administrativos do país, ocupados por funcionários partidários comprometidos com a atual elite dirigente.

Quando Luís Inácio Lula da Silva foi eleito presidente, o paredão do tucanato foi rompido. À época, o povo acreditou em um líder originário de suas hostes, do proletariado, do sindicato dos metalúrgicos. Lula foi reeleito porque no primeiro mandato realizou algumas mudanças que o povo ansiava e outras tantas que Fernando Henrique Cardoso havia concebido mas não implementado. No governo Dilma Rousseff as expectativas se fragmentaram, rendidas que foram por métodos controversos aplicados nas alianças partidárias através de criações multifusas de novos e desnecessários ministérios. Essas coisas complexas e contraditórias, sem rumo nem prumo, precisam ser mudadas radicalmente.

O povo quer um governo a sua imagem e semelhança. Dilma perdeu esse clichê e ainda quer se eleger, apesar de tanto haver se distanciado do ex-presidente e copiado o pior dele. Ela não tem o sotaque do povo nem do seu chefe. Lula era presidente e Dilma é autoridade, para não dizer autoritária, no falar e agir. O continuísmo de um governo é o seu reflexo negativo no futuro. Percebe-se que há uma fadiga. Um mesmismo causado pelo estresse dos erros repetidos. Oligarquia personalista, partidária ou ideológicas, jamais se perpetuam.

Nesses doze dias que antecedem ao pleito, é impossível não distinguir a mudança pretendida. Na presente conjuntura, ela recai e se expressa na pessoa de Marina Silva e não em Dilma que engrossou a voz, diferente do Lula que saiu limpo de São Paulo naquele tempo, depois sujou-se em Brasília. Marina se assemelha mais ao popular, ao carisma, a mudança, porque nasceu pobre, é simples, modesta, segura, humilde, descomprometida com a ambição de continuísmo. A grande frustração de Dilma é ter sido ela própria. A alternância do Poder é salutar em todo e qualquer processo democrático, ontem, hoje e sempre.

 

26 de Setembro de 2014 às 13h28

LAMÚRIAS E LOROTAS

01) Nicanor Albuquerque é tão bonach?o e gozador que rir até de si próprio.  Aqui e ali comentava com os amigos: "Lá em casa, éramos cinco irmãos. Somente eu levei os estudos a sério.  Superando as dificuldades da época, tornei-me bancário (Banco do Brasil). Isso era tudo o que eu queria. Dinheiro certo, status, etc. Aposentei-me, enveredei pelos caminhos da política. Fui vereador e prefeito de Várzea. Nada arranjei, quer dizer, ganhei dois títulos: enrolão e ladrão.  Tudo o que fiz pela cidade não valeu nada. Meus irmãos, sem estudo, hoje estão todos ricos, donos de casas comerciais na capital. Quanto a mim, ganhei apenas o direito de ir e vir. Tenho uma paradinha, num banco de aposentados da rua Princesa Isabel. Só quando leio os jornais, relaciono os políticos que furtam e fazem aquilo que eu não tive a coragem." Ao seu lado, no banco das lamentações, um amigo exclamou; "Então pegue "mio" burra cega!...:.

 

02) "É o padre! É o padre! É o padre!", esse era o grito de guerra democrática, que ainda ressoava na mente do monsenhor Walfredo Gurgel.  Exilado da política deixara a direção do rebanho. Certo de que dera de si o melhor. "Voltaria um dia aos palanques, ruas e praças?", perguntaram.  "Não sei. A saúde, as circunstâncias, falariam melhor". A igreja do seu tempo, ainda batia de frente com outras denominações e até "excomungava" os de liturgia divergente. O ex-governador passava ao largo sobre isso. Nos tempos em que a indústria cinematográfica exibia, por exemplo, "Deus e o diabo na terra do sol", ele no seu retiro lia e via tudo. Enquadrando a vida religiosa com o passado político, ele refletia: "Não podemos voltar o tempo para corrigir erros do passado, mas podemos seguir em frente escolhendo um novo caminho". E fechando, a memória falava ao interlocutor: "Meu filho converse com o seu anjo de guarda. Você vai errar menos".

 

03) Vicente Lopes de Lima, ex-presidente da câmara de Mossoró, lembra os tempos do regime ditatorial em que teve os seus direitos civis e políticos cassados. Foi arrastado de dentro de casa por um soldado. A esposa e os filhos também foram agredidos. Vicente recorda o que disse naquela hora: "Tenente eu sou vereador e presidente da câmara". Resposta: "Você era tudo isso ai. Agora você não passa de um comunista safado". "Tudo foi dito ao som de um tremendo tapa "no pé do ouvido" o qual, até hoje, - há mais de vinte anos depois -, sinto dificuldades de ouvir. "Esse relato aconteceu no plenário do poder legislativo local na presença de várias autoridades, na semana da pátria". O ex-vereador entre lágrimas, resumiu: "Senhores eu não tenho nada a comemorar nessa data. Foi nessa oportunidade, que eu fui espezinhado por essas fardas que hoje desfilam. Perdi tudo, menos a vergonha!". Dix-Huit Rosado, prefeito de Mossoró, com voz forte, de pé, trovejou: "Amigo Vicente Lopes: a partir de hoje, você será assessor do meu gabinete e a prefeitura irá reestruturar sua casa e sua vida! Meu pai faria o mesmo. Ele disse uma vez, o que eu não fizer um filho meu fará". Dito e feito.

 

04) O inverno castigava Natal. A então prefeita Vilma de Faria visitava as áreas alagadas e tomava as devidas providências.  Ao seu lado, lideranças comunitárias, vereadores e até deputados engrossavam a comitiva, pois a campanha se aproximava. No auge, o "líder comunitário" Miguel Mossoró, que gostava de pegar um microfone, (ficava mais inflamável que gasolina de avião), agradecia em nome do bairro: "Obrigado prefeita! A bondade nada sabe de cores, credo ou raça. Aqui estamos sofrendo muito, mas todas as pessoas nascem iguais!". De repente, olhando de lado e vendo um certo deputado com o qual não simpatizava e que respondia processos na justiça comum, remendou: "Embora tem alguns que  "descambam"!". O povo gostou e aplaudiu a filosófica alfinetada de Miguel.

 

19 de Setembro de 2014 às 12h00

SUBTERRÂNEO DA SUCESSÃO

Qualquer subterrâneo tem os seus subterfúgios. Ninguém pode desconhecer que a sucessão governamental do Rio Grande do Norte transa e transita nos escaninhos das dúvidas dos votos brancos e indecisos. "Ora, direis ouvir estrelas", pode comentar algum astuto e cético cientista político. Mas, o desfecho emblemático das últimas pesquisas eleitorais continuam ouriçando as mentes preterintencionais da paróquia de dom Jaime. No melhor estilo mediúnico, cogita-se como vai proceder o mágico Luis Inácio para acomodar no mesmo palanque os dois principais disputantes. Com a luta prosseguindo o seu curso natural, é possível que numa noite brasiliense - com a lua coando as sedutoras janelas do Palácio do Planalto - a sua suave luminosidade conclua por uma visita passageira de Dilma, numa solenidade, em vez de comício ou caminhada, a fim de sustentar, no mesmo bojo, o equilíbrio dos contrários.

Todos são navegantes de longo curso. Mas o que tem a ver a sucessão do nosso RN, com toda essa teatralização? Ora, não foi à toa que Dinarte Mariz com aquele sotaque arrastado cunhou uma frase: "Geraldo Melo é aquele menino besta que achou uma usina...". Vale dizer que, nos dias atuais, nenhum dos candidatos ao governo e ao senado são meninos e garotas que não conheçam o caminho das pedras. Para os quatro litigantes tudo está justo e perfeito em ambas colunas pluripartidárias. Política é a arte da acomodação. Sempre há lugar para dois ou mais, em nome da governabilidade.

As pesquisas eleitorais continuarão a refletir o fluxo e o refluxo da maré da opinião pública. Especular nunca foi pecado. Até na Bolsa. São essas reflexões que nos dão visibilidade para o dia cinco de outubro. Tão caliente e certo quanto o fenômeno Marina Silva que tanto incomoda as estruturas passionais dos dois vintenários inquilinos do Alvorada: petistas e tucanos. Desde que o mundo é mundo, sucessão política, em todas as esferas, sempre se exercitou através dos atos implícitos, nos subterrâneos do poder público. Daí a voracidade pelo controle da máquina pública em vez de debater os principais problemas do estado. Nessa eleição, por exemplo, está saturada o círculo familiar com candidatos da mesma linhagem e algumas igrejas evangélicas se transformando em currais eleitorais.

Outro comportamento inconfiável que agride a lisura do pleito reside no processo de reeleição. Encastelado no poder de mando e desmando, o gestor é capaz de cometer qualquer improbidade para nele permanecer. E se perpetuar. Vejo longe, muito longe, a reforma política para corrigir esse mal, visto inexistir vontade nos congressistas e no executivo. Os parlamentares federais jamais admitirão corte de privilégios. Dá para enxergar, mesmo na escuridão da sucessão, que ainda não será desta vez a queda da bastilha que tanto humilha e perverte a democracia. Eu me bato por mudanças. Por um novo sistema de vida para o brasileiro, pobre e desassistido. Nos subterrâneos da sucessão, o cardápio continua servindo hipóteses e fantasias, à moda da casa. O sufoco já chegou a camada do pré-sal e a Petrobras virou Casa da Dinda. 

12 de Setembro de 2014 às 13h17

CENAS POPULARES

01) Um tenente-delegado destacado na região do ex-deputado Valmir Targino, entendeu de "passar os pés adiante das mãos". Seus atos abusivos não agradavam a população. Alguns amigos foram se queixar ao parlamentar. Um dia de feira livre, o tenente e mais três soldados, policiavam a feira onde dois cidadãos foram presos por estarem armados de faca-peixeira. A ocorrência chegou aos ouvidos do deputado, que, por sinal, estava na cidade visitando os amigos. "Vamos à delegacia, esse cabra tá metido a besta". Entrando na sala do delegado sem pedir licença, Valmir ordenou: "Solte meus dois compadres já!". O tenente assustado, rebateu: "Eu sou o representante da lei". O deputado retrucou: "Eu sou a lei!". Na queda de braço "a lei" foi obedecida. Na volta, um dos detidos comentou: "Obrigado deputado. Minha faquinha é só prá cortar fumo". O deputado botou mais lenha na fogueira: "Esse soldadinho de pilha precisa aprender a trabalhar...". Era o que queriam ouvir.

 

02) Valmir Targino gostava de brincar ao seu estilo e fazia colocações como bem entendia. Participava, certa vez, de um simpósio, onde um baiano preto-cor-de-quixaba, ao fazer uso da palavra, quase não soltava mais o microfone. Valmir estava quase explodindo. "O negão entrou num oito", zombava para um amigo ao lado. Encerrado o ato, alguém comentou: "E aí, o que achou?". Valmir que era preconceituoso, ironizou: "Mas, eu queria saber quem cortou o rabo e ensinou esse bicho a falar". Era a verve demolidora do ex-deputado. 

 

03) O velho Afrodízio, passarinheiro por demais conhecido, estava com suas gaiolas na feira, quando chegou um moço perguntando: "Quanto é o golinha?".  Afrodízio: "O macho, é dez contos, a fêmea é cinco contos". O neófito comprador, depois de especular outras espécies e ouvindo sempre os preços, sendo o macho mais caro, perguntou: "Como o senhor sabe quem é o macho e a fêmea?". O velho impaciente, responde: "É fácil. Eu ponho a minhoca fêmea, o golinha macho come... E ponho minhoca macho, quem come é a golinha fêmea". O rapaz achou interessante, mesmo assim, arriscou: "E como o senhor sabe qual a minhoca fêmea e o macho?". Afrodízio respondeu: "Rapaz eu entendo de passarinho; de minhoca não. Tá me desconhecendo camarada? Aonde você quer chegar....".

 

04) João Pedro Tavares, relatou-me um episódio ocorrido durante a construção da Vila Naval, ali no Alecrim. Para vigiar o material de construção colocado na via pública, a base escalou um marinheiro para o serviço. Todavia, sempre à noite, uma escolta motorizada circulava pelas imediações a fim de apoiar a determinação superior. Certa noite, o pessoal constatou o sumiço do vigilante. Preocupação no ar. Avisos difusos e profusos ao comandante, com suspeitas de seqüestro e assassinato. Intensificada a busca, flagraram o gentil marinheiro num beco escuro das proximidades, fazendo "amor" com uma jumenta. Estupefação geral. A escolta deu voz de prisão ao notívago militar e na parte enviada à base naval constava no texto, o seguinte dizer: "Foi encontrado em colóquio amoroso com uma jumenta". Além da punição exemplar e correcional do marinheiro, o comando tomou outra de cunho administrativo: acabou com esse negócio de vigia.

 

29 de Agosto de 2014 às 12h44

ALGUÉM ME DISSE

01) Quando o então deputado estadual Antonio Rodrigues de Carvalho frequentava a Assembleia de segunda a sexta-feira, sábado e domingo, permanecia nos bares de Mossoró. "Para matar a saudade", dizia ele. Certa vez, um amigo perguntou: "E ai Toinho? Você ta gostando da nova vida de parlamentar?". "Que nada", disse o representante de Mossoró. "É hipocrisia demais. Quando um deputado chama o adversário de "Vossa Excelência", soa falso que só uma quenga chamando o parceiro de "meu amor". Eu só aguento esse mandato!". Assim, fechou o firo Toinho, o "capim".

 

02) João Jales Dantas, prefeito tantas quantas vezes quis, tinha um modo de hipnotizar os eleitores e assim ver seu nome sufragado sempre nas eleições municipais. Chegavam as cobranças de promessas de campanha e João Jales sempre dizia ao eleitor: "Agora, no entanto, não vou esquecer dos 500 tijolos que lhe prometi". Essa conversa, soava nos ouvidos dos eleitores e de tanto quantos viessem em busca do cumprimento do trato ou de qualquer ajuda. Certa feita, uma velhinha foi a óbito. A família era muito pobre. Um filho da coitada foi a casa de João Jales. "Prefeito, a velha minha mãe faleceu ontem à noite e eu vim aqui lhe pedir uma ajuda para comprar o caixão". Ele coçou a cabeça, passou a mão no queixo e respondeu: "Meu filho, hoje ainda é 20 do mês. Num dá pra ajeitar esse enterro lá pro final do mês? Hoje eu não tenho condições". Essa história não poderia faltar ao folclore político municipal.

 

03) A cratera continuava semiaberta em Mãe Luiza. Depois da enxurrada, "choveu políticos" à beira do abismo. Ato contínuo, ocorreram reuniões e promessas. Pessoas da comunidade tais como: Pedro Grilo, pintor-cantor em vários idiomas, Zé "Galo Assado", Zeca, "Choram por Merda", entre outros, não respeitaram as presenças dos políticos notáveis e outros menos votados e soltaram o verbo. "Galo assado" sacou: "Essa foi uma tragédia anunciada. Há muito que se fala aqui e nunca ninguém deu bolas! A culpa não foi só da chuva". Predro Grilo, por sua vez, chutou: "Aqui "era" para ser "feita" galerias pluviais e esgotos sanitários de vergonha, aliás, só quem cuidou de esgotos do estado foi Cortez Pereira! O resto dos políticos que passaram pelo governo, rezam a mesma cartilha de José Ribamar ou melhor, Zé Sarney. Os maranhenses dizem que obra enterrada é obra que não dá voto, nem dá foto!".

 

04) O velho Chico de Clara, popular liderança política na região salineira, não sabia fazer um "X" com uma tesoura, porém "gravava" todas as palavras que achava interessante e que poderia servi-lhe posteriormente. Em um acidente domestico a esposa do velho prefeito sofreu várias queimaduras e foi preciso trazê-la a Natal. Alguns dias de internamento, o médico recomendou: "Senhor prefeito, sua esposa está melhorando gradativamente. Caso queira, o senhor pode ir para o interior. Ela irá passar uns dias hospitalizada". Chico de Clara viajou para Grossos. Os amigos buscavam notícias de dona Isabel e o marido dizia: "Belinha tá bem. O doutor disse que ela tá "miorando" gradativamente. Veja bem", recomendava Chico, "ela tá "miorando" gradativamente. Espalhe aí! Por falar nisso", emendava o prefeito, "diga ao povo que gradativamente eu vou mandar levantar os quartos dos sem casa lá do córrego e mando a madeira ainda esse mês. Isso vai ser feito com calma e gradativamente".

 

 

22 de Agosto de 2014 às 16h47

COMÉDIAS DA VIDA

01) Tertuliano Pinheiro é fã número um dos causos e acontecências folclóricas do nosso mundo e submundo político. Soube em Patu de um diálogo surpreendente entre um candidato a deputado federal e a irreverente e emblemática Maria Preta, figura popular da urbe patuense. Atraída pelo foguetório, aproximou-se da festiva caravana, tendo à frente o postulante à Câmara Federal Múcio Sá. Maria Preta, useira e vezeira na arte de explorar os políticos foi logo estendendo a mão. Múcio, sempre sorridente e simpático, abraça-a e lhe entrega uma nota de hum real. A mulher rabugenta e malcriada devolve-lhe sem contemplação, em cima da bucha: "Fique com esse dinheiro deputado e dê pro seu secretário comprar pipoca".

 

02) Ainda o mestre "Tertúlio" me passa essa do distante 1994, quando se feria a campanha majoritária para governador entre Lavoisier Maia e Garibaldi Filho. Luta difícil e catimbada para Lavô, cujas pesquisas não lhe favoreciam. Envolvido na refrega eleitoral de corpo e alma, o nosso herói jejuava até das suas boas práticas de alcova. Em Mossoró, triste e enfezado, enfrentava um quilométrico corpo à corpo sem jeito e sem jaça. A assessoria de marketing, de repente, descobriu a fraca perfórmance de Lavô e despachou o "aspone" mais esperto e ágil para, naquela noite, contactar os serviços de uma antiga empatia sexual do candidato, à época, casada. A abordagem no início foi difícil mas, como sempre, exitosa tendo em vista que em Mossoró ele se presumia vitorioso. Avisado antecipadamente, Lavô virou menino. "Mossoró é es-pe-ta-cu-lar!!", silibou o candidato diante da equipe feliz e renovada de esperanças. No palanque não lhe faltava inspiração cada vez que fitava ao lado o mulheraço. Registre-se, para terminar, que a noite bonita de Mossoró estava apenas começando.

 

03) Muitas foram as atribuições enfrentadas pelo ex-presidente da Fundação José Augusto. Pedidos de emprego eram rotinas que desafiavam a capacidade do escritor François Silvestre. Certa vez, foi procurado por um pai extremado que defendia com ardor um cargo comissionado para a sua filha. "Dr. François, a minha filha fala corretamente quatro idiomas. Onde o senhor pode colocá-la?". Sem se perturbar, com a mão esquerda segurando a cabeça, silencioso, François, suspirou: "Só se for na Torre de Babel".

 

04) Recém-formado em medicina pela Faculdade do Recife, no ramo da psiquiatria, foi clinicar em Mossoró o doutor Alcimar Torquato de Almeida, ex-deputado e ex-presidente da Assembléia Legislativa. Jovem, charmoso, cabelos longos dos anos setenta, tornou-se o médico preferido de todos. Certo dia, um rapaz o procurou no consultório em busca de socorro. "Doutor, eu vivo um problema existencial muito grave. Só o senhor pode me curar". "Qual é o problema?", indaga o psiquiatra. "Eu sou homossexual e não quero aqui em Mossoró que o meu pai saiba. Seria a maior vergonha para ele, a família e para mim também", contou o desesperado paciente. "Não há como você reprimir esses impulsos?", interrogou Alcimar. "Doutor, é coisa que não posso evitar. Já faço isso há muito tempo. É da minha natureza". "Então", disse o médico, "como não há jeito na medicina, só tem uma saída: T'áqui o dinheiro da passagem, vá para São Paulo dar o cedenho longe do seu pai". 

08 de Agosto de 2014 às 12h36

DESÍGNIOS E CHARADAS

01) Cauby Barroca, líder emergente da velha Rocas boêmia, respirava política e transpirava perfume francês, mesmo do mais barato. Conduzia-o no bolso do paletó e mais um vidrinho de gin que, vez por outra, ingeria onde quer que estivesse, quase sempre bem acompanhado. Assim, o famoso Cauby fazia sua campanha o ano inteiro. O vereador do povo, era infaltável pro todas as ruas e vielas do bairro, de sábado a quinta-feira. Sexta era o dia de dois "M": "Mulé" e "Moté". A idade avançou, a velhice chegou e Cauby teve que entregar os pontos. Jogar a toalha. Os amigos mais chegados gracejavam: "Vereador, amanhã é sexta-feira e ai?". O aposentado garanhão, respondia: "Mas, já? Depois vem o sábado e eu estarei revendo os amigos na feira do Alecrim". Uma boa saída pela esquerda.

 

02) O prefeito de Areia Branca Expedito Leonez recebia em sua residência o então deputado federal Antonio Florêncio de Queiroz, que fazia uma visita à chamada "costa branca" do Rio Grande do Norte. Um garotinho, filho do prefeito, vez por outra, adentrava no escritório e exclamava: "Painho, vamos vê televisão!". Depois de várias interrupções, Leonez ponderou: "Filho, papai está conversando. Quando iniciar o noticiário venha me chamar". Meia hora depois, começou o horário político. O garoto voltou ao escritório e gritou espavorido: "Chega painho! Vai começar os "trapalhões"!!". Florêncio, desconfiado e tímido, acompanhou Leonez ao martírio da programação.

 

03) A seca grassava e o sertão sofria primeiro. O governo federal prestava socorro às populações com a chamada "emergência". Pequenas sacolas de alimentos de primeira necessidade eram entregues via prefeitura. O prefeito Aliatá fazia questão de acompanhar de perto a distribuição. As filas eram enormes. Uma senhora de melhor nível social, adversária política do prefeito, entrou na fila. E provocava: "Esse bando de ladrões paga a gente assim!". Ela recebeu o sacolão e saiu feliz da vida. Um puxa-saco do Aliatá foi de pronto enredar. "Prefeito, aquela fulana é nossa adversária. Não precisa disso e levou um sacolão. Saiu da fila sorrindo". O obeso e bonachão alcaide justificou: "Foi mesmo? Quanta humildade dessa senhora. Vá chamá-la. Eu mesmo vou doar outro sacolão pra ela...".

 

04) Quando presidente do Instituto Nacional do Desenvolvimento Agrário - INDA, Dix-Huit Rosado fazia parte da comitiva do presidente Jango (João Goulart) e em seus planos estava a idéia de vender café brasileiro aos chineses. Explicava Dix-Huit: "Se cada chinês tomas um cafezinho por dia será uma renda fenomenal. As várias negociações aconteciam no grande salão vermelho de Pequim, quando Mao-Tsé-Tung, descontraindo o ambiente, falou: "Mas, dizem que o café "tira o sono" das pessoas? Está provado isso cientificamente?". Dix-Huit cochichou no ouvido de Jango: "Será que ele não sabe que "tira o sono" também dos americanos?". Os dois riram discretamente. Mao, já com os músculos do rosto endurecidos, perguntou ao intérprete: "O que ele disse ao baixinho"? (Jango). O intérprete submisso, respondeu: "Apenas banalidades, Excelência".

 

18 de Julho de 2014 às 12h16

RESPOSTAS PONTUAIS

01) Mozart Romano, depois de aprovado por média, em medicina legal do Curso de Direito, encontrou um colega de turma que indagou: "Mozart, até você passou por média?". "E você passou?", retruca Mozart. "Não", responde o indiscreto. "Então", falou Mozart, "retire o "até" que, no caso, soa pejorativo".

 

02) Mozart Romano, recém formado, montou escritório na Ribeira. Advogava tudo: civil, criminal, fiscal, etc.. A pedido de uma jovem que o procurara, Mozart foi a uma delegacia e, lá encontrou um irmão da moça detido pelo fato de ter "batido" uma carteira de cédulas dentro de um coletivo. Veio o "habeas corpus" e o rapaz foi solto. Duas semanas, o quadro se repetiu. Mais uma vez Mozart tirou o moço da cadeia. Mas, quinze dias depois, eis que apareceu no escritório do advogado, o próprio delinqüente. "Doutor", disse o rapaz, "o senhor é massa. Eu quero lhe contratar "interisso"... O senhor é bom e, eu quero lhe pagar por mês". "Meu jovem", responde Mozart, com aquela filigrana diplomática: "Se eu aceitar essa sua proposta, quem vai preso sou eu, por conivência, meu caro jovem".

 

03) Tilon Gurgel, nos idos de 1963, sofreu um derrame cerebral, que o fez ficar um tanto esquecido. O detalhe mais comum era fazer xixi e esquecer de fechar a braguilha. Certa vez, seu Tilon, quando caminhava pelas ruas de Felipe Guerra, uma comadre, em sentido contrário, chamou-o e disse: "Compadre, seus "teréns" tá de fora". Tilon não se preocupou. "Besteira comadre... prá boi morto, cancela aberta!".

 

04) Soldado Catôta, figura folclórica da polícia militar em Mossoró, depois de 22 anos de praça, foi promovido a cabo. Um cidadão encontrando-o na rua, cumprimentou: "Meus parabéns, Catôta, você agora é cabo, não é?". Catôta, passando a mão nas fitas, encheu o peito e sentenciou com orgulho: "E eu drumo dotô?".

 

05) Georgino era um sujeito bonachão e amigo de todos. Tinha um pequeno comércio e um certo recurso financeiro. Entregue a bebida, aos poucos foi acabando com tudo, inclusive a saúde. Restou-lhe uma meia dúzia de "companheiros de infortúnio", isso porque ele garantia a cana de cada dia, graças a uma aposentadoria. Georgino prostrou-se. A cada dia definhava a olhos nus. Sua turma, todo dia, ia visitá-lo. À noite, armava-se o tradicional "quarto ao moribundo". Vela e fósforo na cabeceira. Todos esperavam a hora de Georgino viajar pro beleléu. Certa noite, o estado do paciente piorou. Um dos bebuns comentou: "De hoje ele não passa". Georgino, num grande esforço, abriu os olhos e balbuciou: "Eu vou, mas venho buscar de um em um! O primeiro vai ser...". Ninguém ficou para ouvir o resto. E foi grande o atropelo para cruzar a porta...

 

06) Patativa do Assaré concedia entrevista na sala do cafezinho do Senado em Brasília. Repleto de jornalistas, pergunta vai, pergunta vem, Assaré, cansado, voz embargada, falava com certa dificuldade. Um deles bateu em suas costas e indagou: "Assaré, você ainda faz sexo?". Ele virou-se e devolveu com ironia: "Meu filho, eu ainda faço, mas no momento não quero fazer. Pode dá a outro". O repórter queimou ruim.

 

07) Cego Aderaldo era um repentista de primeira linha. Dentro de casa, encontrava certa dificuldade para se locomover em virtude de manter uma pequena creche com onze crianças adotivas. Contava com o repentista José Alves Sobrinho, que o aconselhou a se casar ou arranjar uma mulher para tomar conta da creche e assim se dedicar mais à cantoria. O poeta ouviu o conselho e versejou: "Eu já pensei nisso, não nego! / Mas em batata quente eu não pego! / Pois já vi muita gente com vista / Levando chifre quanto mais eu que sou pobre e cego".

 

11 de Julho de 2014 às 12h17

CAUSOS INDIGESTOS

01) Uma senhora obesa e ranzinza, viajava no ônibus que fazia a linha Natal/Macau. Ao aproximar-se das Quintas, ela puxou o cordão da cigarra, pois ia desembarcar ali. O motorista distraído, não atendeu o pedido. A mulher andando um pouco mais à frente, puxou novamente o cordão e, desta vez, segurou prá valer. O condutor com paciência, estacionou. "Você é surdo!", reclamou a passageira. "Faz tempo que eu puxo essa merda e você não pára". O rapaz com desdém respondeu: "A senhora puxou a descarga. A merda vai descer agora". Ali mesmo, o pau comeu prá valer.

 

02) A bodega é o que podia se dizer: "De tudo tem". De freio prá gato à suspensório prá cobra, o freguês encontrava. Certa vez, Zé Inácio de Ipanguassu, exagerou na comida e passou mal. Não permanecia quinze minutos no balcão, ele disparava para o banheiro no fundo do quintal. Enquanto isso, ficava na mercearia sua filha, jovem de 17 anos, meio retardada. Só pastorava o comércio. Numa dessas saídas, uma senhora perguntou: "Rita", - era o nome da moça - "cadê seu pai?". A menina respondeu inocentemente: "Foi ali, vem já. Foi "desovar"... Mas já saiu pipocando!".

 

03) Um fiel eleitor do sistema do saudoso deputado Valmir, em Messias Targino, exagerou na coalhada com rapadura e viveu maus momentos. A barriga do setentão mais parecia um zabumba. Depois de uma noite de fermentação, só o médico daria jeito. O deputado Valmir Targino ajudou a colocar o paciente no carro e fez questão de acompanhá-lo rumo a Mossoró. Estrada de barro, muito solavanco, o coitado no banco traseiro, sofria com os balanços e os "embrulhos" no intestino. Nos vômitos, o ancião mesmo trincando os dentes, não evitava os salpicos dos resíduos estomacais nas costas do parlamentar. Em certo momento, "a coisa" ficou demais. Valmir olhou para trás chateado. Aí o velho balbuciou: "Calma compadre. O soro vai, mas "quaiada fica"".

 

04) Padre Mota, em Mosorró, recebia na sacristia uma "moça" já apresentando dois ou três meses de gravidez. A mãe da criatura, ao lado, dizia: "Padre, eu queria que o senhor rezasse na barriga de Joana. Passe a mão pro senhor vê como esse negócio é duro". Padre Mota, já fulo com o calor e mais com a ingenuidade da velha, rasgou o verbo: "Claro, só um negócio muito duro faz uma desgraça dessas!".

 

05) Chico Fininho, mestre de obras renomado de Serra do Mel, tinha como lazer: caçadas. Em período do chamado "pombeiro", Chico ficava vários dias onde as avoantes faziam pousadas. Certa vez, o caçador acabara de chegar, depois de oito dias fora de casa. "Arme uma rede na área para mim. Faça uma farofada grande que eu quero comer bastante arribação", ordenou à esposa. A comida não foi bem digerida por Chico Fininho. As crianças - eram seis - caíram na rede, rolando por cima do pai que, estava soltando gases de afastar urubu. Os meninos acusavam uns aos outros. O pai se agüentava à força. Cobria o rosto com um lençol e quedava-se rindo baixinho. De repente, tentando levantar-se alertou: "Esse foi demais! Ô peido danado". A mulher ali mesmo, alarmou irada: "Chico vá pro cemitério. Você morreu e não sabe". 

 

27 de Junho de 2014 às 13h12

VOZES DO POVO

Nada a ver com o imensurável Nelson Rodrigues, escritor, jornalista, autor de teatro e um dos maiores censores dos humanos e dos costumes. O jornalista Paulo Francis, também falecido, que se radicou nos EEUU, dizia que "o mundo é constituído de grandiosidades e tragédias. Só a nossa vida é fuleira." E logo me vem a primeira história provinciana, simples, igual aos viventes e a vida comum como ela é, no dia a dia.

 

01) Em Caicó, cidade que mais se dividiu naquele tempo entre o vermelho e o verde, a farmácia de Gilson, no centro, havia se transformado no grande ponto das discussões políticas. A reunião, sempre à tardinha, passou a se chamar de a bulandeira. O Dr. Abílio Medeiros, médico, dinartista histórico e do pé roxo, gostava de se retirar impreterivelmente às 17 e 30. O fato despertou a curiosidade dos circunstantes. Um deles, se atreveu perguntar: "Dr. Abílio, qual o motivo do senhor somente sair exatamente a essa hora?". Alto, esbelto, corado, cabelo branco, o velho Abílio soltou o verbo: "Vou assistir o programa de Agnelo Alves. Não perco um. Só para ter mais raiva dele".

 

02) Toda cidade que se presa tem seus tipos populares. Uns doidos, outros doidinhos e outros tantos doidões. Em Assu, entre tantos, havia um que atendia pela alcunha de "Bonzinho". O rapaz passava o tempo fazendo mandados dos comerciantes. Qualquer coisa que lhe rendesse parcos trocados. Certo dia, o então prefeito Costa Leitão conversava com amigos na entrada da prefeitura. Bonzinho começou a importuná-lo por dinheiro. "Hei, prefeito, hei seu Costa, me dá uma nota aí?". O impoluto Costa Leitão, querendo se livrar do conterrâneo chato, mandou que ele fosse na praça para ver se lá estava. E o doidinho se foi. Após uns dez passos, deu meia volta e provocou o prefeito dizendo: "Seu Costa, me dê uma corda. Pois, se o senhor estiver lá, eu lhe trago amarrado". Pela saída esperta ganhou cinco cruzeiros.

 

03) O amigo e ex-colega deputado Lauro Bezerra é um exímio colecionador de fatos e causos da nossa história política. Eis alguns da melhor tradição do nosso parlamento estadual, lá pelos idos de noventa. Vale a pena ler de novo. 

 

04) A lei antifumo, criada pelo deputado Lauro Bezerra e sancionada, teve um efeito vapt-vupt. Os deputados fumantes, principalmente José Adécio, Leonardo Arruda, Frederico Rosado, não tiveram outra alternativa: deixaram o plenário para curtir as tragadas no salão nobre. Os oradores da tarde, Júnior Souto e Antônio Capistrano, terminaram falando sozinho. Jornalistas e a maior parte do público presentes às galerias, também não resistiram e fumaram do lado de fora.

 

05) Mais uma do impagável "Majó" Theodorico Bezerra. Estava ele na sacada do seu velho Grande Hotel - hoje Fórum do Tribunal de Justiça na Ribeira, ao lado do sobrinho, o deputado Lauro Bezerra observando um grupo de pessoas que o esperavam. Depois de uma hora, Lauro, impaciente cutuca o tio: "Majó, vá lá falar com o povo, faz mais de uma hora que esse pessoal ta esperando". Theodorico, sem perder a tranqüilidade, retruca: "Se eles estiverem com algo do meu interesse e forem embora, perco eu. Mas se o interesse for deles e eles forem embora, quem perde são eles e não eu. Por isso podem ficar esperando aí mesmo...".

 

06) Certa feita, o deputado Francisco Brilhante resistiu a todas as pressões para que votasse a favor da mensagem do governo que converteu os salários dos servidores para a URV. Os telefonemas do Palácio Potengi não pararam de tocar ameaçadores, mesmo assim ele votou com a oposição. Quando deu voto favorável a um substitutivo do deputado Júnior Souto, o parlamentar do PFL foi aplaudido pelas galerias, interrompidas pelo presidente Raimundo Fernandes que proibiu as galerias de se manifestarem. Mas o deputado Lauro Bezerra não se conteve: "As galerias não podem, mas eu posso". E começou a aplaudir o gesto de independência de Brilhante.

 

20 de Junho de 2014 às 13h38

RECORDANDO O INESQUECÍVEL ALCAIDE

01) O nosso Hirohito que viveu e trabalhou vários anos em Mossoró nos envia mais algumas poucas e boas. Dix-Huit Rosado costumava sempre que podia, visitar sua fazenda "Bamburral" na velha "Studebaker", que não ultrapassava os 40 km/h. Certo fim de semana "o velho alcaide" como se auto-proclamava, ao cruzar suas terras presenciou meia dúzia de trabalhadores que brincavam agarrados uns aos outros, como se estivessem praticando atos um tanto quanto indecentes. Ao chegar à casa da fazenda, Dix-Huit chamou o capataz e perguntou: "Você mandou aqueles rapazes fazer o quê?". "Doutor, eles foram cuidar do novo lance de cerca para a apartação", respondeu o encarregado. Dix-Huit franziu a testa e disse por vias das dúvidas: "O que eu vi foi diferente. Parece que simulavam atos obscenos. Meu dinheiro dá pra tudo, heim?". O capataz chocado com o que ouviu indagou: "O senhor quer que eu os dispense?". O velho rebateu: "Não. Amanhã você pague a quinzena, mande-os pra casa e, que só voltem a trabalhar quando estiverem saciados e "maneiros". Era o espírito salomônico do alcaide.

 

02) O Cine-Teatro Cid, propriedade de Dix-Huit Rosado, entrava numa nova era. Testavam o som estereofônico. Coisa de primeiro mundo na época. No salão, apenas Dix-Huit e mais uma meia dúzia de amigos. Tudo nos conformes, disse o alcaide: "O som está de ótima qualidade. Manda o rapaz que opera, lançar o "Bolero de Ravel", conforme já solicitei". Lá da cabine saía tudo. Até "Eliane e Chico Lopes", menos "Ravel", que era a paixão do velho líder. Em certo momento, o prefeito levantou-se da poltrona e esbravejou: "Filho de uma égua! Parem com essas porcarias e toca o Bolero de Ravel!". E baixando a voz confidenciou diplomaticamente a um amigo: "Você já viu cabra mais F.D.P que esse?". O burgo-mestre saíra dos trilhos.

 

03) Henrique Alves substituía o pai, cassado pelo A.I.5. Em Mossoró, travava-se a primeira grande vigília comandada pelo "filho". "É o filho, meu filho", gritavam os "bacuraus". As "araras" não deixaram por menos. Organizaram grande passeata. Também, iriam varar a noite. Vingt e Dix-Huit, em cima de um caminhão, comandavam a "nação" vermelha. Sete da manhã do domingo, era o fim da festa. Os pés de Dix-Huit estavam em bolhas e inchado. Os "leões de chácaras" usaram cabo de colher, palhetas, uns segurando o pé, outros puxando o sapato. E nada. Um vereador teve uma idéia. "Vamos cortar a parte do calcanhar do sapato?". Aceita a opinião, foi efetuada a cirurgia no sapato Fox de Dix-Huit. O velho suspirou aliviado, e fitando o sapato rasgado, comentou: "Lá se foi o meu sapatinho novo. Que cabritinho esse vereador... Esse sujeito é igual ao pai!". O pai do cabritinho era adversário e apelidado de "vira casaca". Moral da história: "Em Mossoró política aperta mais do que sapato".

 

04) O prefeito Dix-Huit retornara de uma viagem ao Oriente Médio. Visitou Jerusalém e, embora, cético, voltou impressionado com as ruínas da cidade santa e seus pontos históricos como o Monte das Oliveira, o rio Jordão, as ruínas dos templos judeus, etc. Mas, o que mais o chocou foi a marca de um pé sobre uma rocha. "Segundo o guia", esclareceu Dix-Huit, "aquela marca seria o pé do Cristo". Presente na reunião o ex-prefeito de Governador Dix-Sept Rosado, José Ferreira, um dos grandes admiradores do prefeito mossoroense não era muito dotado de cultura geral e saiu-se, de repente, com essa pergunta em cima da bucha: "Dr. Dix-Huit, tem certeza que era mesmo o pé de Cristo naquela pedra?". O velho alcaide que detestava bobagens foi enfático. E com aquele vozeirão reprimiu: "Eu sei lá Zé Ferreira. Eu não estava lá naquele tempo...".

 

13 de Junho de 2014 às 12h46

SAÍDAS DE EMERGÊNCIA

01) As idéias dos políticos para engabelar o eleitor é um coisa fora de série. O cacique Juruna adotou o rádio gravador e se deu bem. Aqui no nosso Rio Grande do Norte o feirante Agenor Nunes de Maria conquistou o senado com aquela conversa de "cerca - Lourenço" e mais uma máquina fotográfica tipo polaróide. A máquina tirava foto instantânea e se constituía na grande novidade. Quase ninguém possuía. Agenor chegou a vender dez sacas de farinha para adquirir uma jóia dessas. Fazia a festa por onde passava. Na feira livre, todos queriam tirar uma foto com ele. E o eleitor a levava para casa na hora abraçado com o marinheiro. A matutada espalhava a novidade: "Corre, vai lá na esquina que a máquina de Agenor tá cuspindo retrato. Olha aqui o meu!". De São Vicente a Currais Novos o fato era a foto. E o voto, depois.

02) O vereador Clidenor Almeida, pai da irreverência no município de Lagoa Salgada, participava de uma festa beneficente patrocinada pela paróquia local. Na mesa ao lado, uma senhora um tanto quanto obesa, tomava cerveja, sem os cuidados estéticos exigidos com a forma de sentar. Ao ar livre o vento encanava nos costados da gorda, deixando a calcinha à vista. Clidenor começou a dizer alto sua ladainha: "Sopra forte São Lourenço! Sopra mais um vento forte!". A sua esposa que estava ao lado, ficou curiosa: "O que foi Clidenor?". "Minha mãe dizia que São Lourenço é o santo que cuida dos ventos. Eu tô só pedindo uma forcinha para poder vê o resto da "vestimenta"". A esposa pegou o copo de cerveja e o derramou no bolso do paletó. Clidenor ficou sério mas o santo só fazia rir. Saída de emergência.

03) No decorrer do seu último mandato frente a prefeitura de Mossoró, Dix-Huit Rosado teve alguns entreveros com certas ramificações da família. O velho repetia sempre: "O que me interessa é o povo!". Certo dia, sentindo-se ameaçado através do rádio, Dix-Huit chegou ao seu gabinete portando um revolver calibre 38. Alguém indagou: "Que é isso prefeito?". O velho alcaide respondeu: "Eu tenho oitenta anos. Não dá para correr. Morrer em pé, eu não vou!". E como de costume, filosofou: "Joubert dizia: "O medo depende da imaginação. A covardia, do caráter!". Meu caráter é forte por demais. Eu não consigo imaginar o que é medo. Se o agressor cruzar essa porta, não voltará com os próprios pés!". Em Mossoró, em se tratando de política nunca aconteceu "chuva de balas". Nem Lampião lá entrou incomodado pelo silêncio.

04) O vereador Edson Coelho, de São Gonçalo do Amarante, o "Maninho", de saudosa memória, perdia o controle se pintasse um rabo de saia pela frente. Certo dia, num supermercado, ele fazia pequenas compras, sem tirar os olhos dos quadris de uma jovem mãe que levava o filho no braço, escolhendo mercadorias. Maninho estava ali perto, quando, de repente, surge uma micose testicular que não podia ser adiada. Tem que coçar já. Quando já estava atingindo "o auge da coceirinha", sem ligar pro resto do mundo, eis que à jovem mãe vira-se de repente para o filho que tentava alcançar uma bandeja de ovos e grita: "Juninho, não puxe os ovos não!". O vereador quase em transe, entendeu chamar "Maninho". Ele voltou à tona e de pronto dirigiu-se a jovem senhora: "Desculpe. Não deu pra eu segurar!".

 

23 de Maio de 2014 às 11h54

REGRAS E CONTRARREGRAS

01) Diz-se que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. O prefeito Antônio Rodrigues de Carvalho, querido dos pobres da cidade de Mossoró, pouco ligava para o título de doutor, que usava antes do nome. Era um contumaz boêmio e no meio do povão era conhecido como dono dos bares da cidade. Certa vez, Toinho extrapolou a regra: passou a noite da sexta, do sábado e do domingo numa farra. Ao chegar em casa, a esposa de cara fechada, sequer deu bom dia. Ele sentindo o clima e assumindo o erro, resolveu falar: "Tou errado. Agora duvido que nessa ou na outra encarnação você encontre e case com um homem igual a mim!". A mulher apenas respondeu: "Deus te ouça!".

 

02) O senador Dinarte Mariz tinha na fazenda "Solidão" o seu recanto de repouso e meditação. O velho não gozava cem por cento de tal regalia, pois quase sempre via-se cercado de amigos e curiosos. E assim se expressava: "Esse ano, tudo farei pela educação. Os jovens do meu estado terão mais sorte que eu. Estudei no Ginásio Senador Guerra (Caicó) apenas até o quarto ano primário. Não me envergonho disso. O senado foi o meu maior aprendizado. Quero que os nossos jovens nas horas da adversidade repitam as palavras de Churchill nos anos quarenta: "Nunca nos renderemos"". "Seu" Dida era fenomenal.

 

03) Outro dia, lendo algo que falava em Luiz de Rosa, voltei no tempo, até Assu. Luiz Gonzaga de Melo, "Luiz Rosa", era um próspero comerciante, dono de um grande armazém de secos e molhados. Ao perder todo o empório, acabou como ambulante vendedor de avoêtes nas feiras livres de Natal. Quando visto por conterrâneos naquela situação, Luiz apenas dizia: "Tudo é comércio, tudo é comércio". Certa noite, Luiz fazia hora na casa de um parente, cuja figura tinha uma filha que trabalhava como "secretária do cais". Avalie!! Poucos sabiam e quem sabia na família, fingia não saber. A jovem altamente produzida chegou à sala e pediu a benção a mãe e vendo Luiz de Rosa sentado ao lado, falou: "A benção tio Luiz!". O velho enfadado de um dia de feira, murmurou baixinho: "Deus te dê fortuna minha filha". E fechando a oração: "Bons negócios, tudo é comércio! Tudo é comércio!".

 

04) Com a inflação nas nuvens, o então presidente Sarney tentou fazer do povo "fiscal do seu governo". Na câmara municipal de Mossoró, o tema diário era um só: a cesta básica, gêneros subindo de preço, etc., etc.. Em dado momento, o vereador Expedito Mariano, o "Bolão", aos gritos protestou: "Falam de ruins que são. Essa oposição não vê o lado bom da coisa. Lá no mercado central os "ovos" do "véio" Juca, baixou! Ninguém vê isso! Ora bolas...". A vereadora Dodoca, indignada, única mulher com assento na câmara, levantou-se num pulo e gritou: "Mais respeito vereador Expedito! Aqui não se trata de próstata não senhor! O assunto em pauta é a inflação". Expedito na maior cara de pau, sorriu e disse: " É uma questão de interpretação...".

 

05) Essa história tem mais um lado filosófico do que humorístico. Feito governador, Fernando Freire buscava a reeleição com um discurso repetitivo. Seu governo era bastante criticado pela imprensa e a população. Mesmo assim, ele não perdia o fôlego. Certa feita, na praça de São Gonçalo do Amarante, davam início a uma sonora vaia, quando alguém gritou bem alto: "Fora seu tratante! Você está mentindo". A turba e coro acompanhou. Já no automóvel, de partida para Natal, um jornalista que o acompanhava falou: "Chata recepção, não é governador?". Aborrecido, sério, compenetrado, apenas respondeu: "Sempre se aprende muito, quando se escuta o povo!".

 

25 de Abril de 2014 às 13h02

AS TRANSFORMAÇÕES DO MUNDO

Permaneçam atentos às transformações do mundo. Há um sentido firme e forte de irreversibilidade nos fatos e fenômenos. O meu tio materno, poeta Clóvis Jordão de Andrade, já chamava atenção, há décadas, para o "clamor do mundo". Não do ponto de vista esotérico ou profético. O dominó de ocorrências de terremotos atinge os quatro pontos cardeais da terra. Os abalos, os maremotos, os tsunamis, danificam, assustam e vitimam milhões em toda parte. Continentes aonde as destruições não chegavam, são atingidos com frequência. As estações sismográficas criaram até "caçadores de catástrofes". As chuvas torrenciais, as inundações, os tufões, os ciclones, a superpopulação, tudo é fruto da desorganização do ecossistema global, provocada pelo homem. O calor insuportável nos trópicos e o frio nas regiões temperadas dão a tônica da subversão dos elementos.

Por outro lado, as religiões estão em crise. Via de conseqüência, a fé. As igrejas, além de não se entenderem, são estigmatizadas pelo pecado do corpo e da alma dos obreiros. O chamado pecado inafiançável, sem direito ao habeas corpus da bondade divina. Hoje, são pouquíssimas as instituições públicas e privadas que merecem fé. Mas, as de caridade cristã estão postas em dúvida. Talvez, pelo fato do seu reino não ser deste mundo, e, desgraçadamente, alguns ministros - por ganância de dinheiro e pela paixão da carne - desmoralizam o Livro e lambuzam a Cruz. Assiste-se ao começo da decadência prevista como sinal dos tempos. Enfim, duas naturezas em conflito desesperador: a geofísica e a humana. Fazer o que? 

Alguém poderá alegar: a humanidade sempre viveu em crise, fome, guerra, violência, extermínio, morte. E ainda: o mundo sempre tremeu, sofreu inundações, cataclismos de todo jaez!  Ora, bolas; na intensidade e na frequência dos nossos dias ninguém pode ser tão infantil que não suspeite "algo podre no ar, mais do que sonha a nossa vã filosofia?" Cego, tudo bem; aleijado, vá lá; indiferente pode ser; mas desinteligente, nunca!!

A sinistrose no mundo de hoje mora perto e até dentro de nós. Caminhamos sob o signo do malefício. Afinal, para onde vamos?

Já ouvi que o ser humano foi a pior invenção de Deus. Porque destrói o meio ambiente, corrompe o próximo e a si mesmo. Cadê que os animais (mesmo os selvagens), são responsáveis pela degradação ambiental? A ciência humana que sempre se opôs à Bíblia - a começar pela teoria criacionista - continua no banco dos réus da história. A ciência inventou tudo que é problema na atualidade. Na proporção que inventa remédios, gera mais doenças através da dinâmica do lucro fácil, da agressão ao solo, às florestas, aos mares, sem falar nas chaminés poluidoras provocando o contínuo desequilíbrio no clima do globo terrestre. O que foi fazer se a poeira do deserto africano do Saara já chegou a longínqua Grã-Bretanha? E o funk fazendo apologia do crime e a degradação dos costumes?

A verdade é que o ser humano jamais se conformou com a sua finitude. Atitude desoladora que o faz agredir aquilo que representa espírito e verdade. A ciência evoluiu em muitas direções mas ainda não tornou o homem indestrutível. Eis o mistério da Fé e o motivo pelo qual - apesar de tudo - nunca deveremos abandonar a Palavra de Deus. Ante as transformações do mundo, é preferível agir e crer no invisível a se suicidar no palpável. O visível encerra vícios escondidos. O ser humano transgride na vida pública, privada e religiosa. A meu ver, o seu erro não atinge a honorabilidade da instituição à qual pertence, porque ele pagará aqui e lá, duas vezes. Pois, continua a ser o ponto mais frágil e vulnerável da Criação.

 

17 de Abril de 2014 às 13h30

ORA ABRINDO, ORA FECHANDO O FIRO

01) Mossoró estava em ritmo de festa. A Arena fazia sua convenção. Medalhões do partido enchiam os salões. Ao lado, repentistas e violeiros animavam jogando confetes nos candidatos. Oliveira de Panelas, advogado e cantador pernambucano, tentava puxar uma conversa com os parlamentares Vingt Rosado e Antonio Florêncio, sem obter êxito. Adiante, afinando a viola, o poeta cantarolou sob protesto: "Cuidado meus deputados, o dia amanhece e anoitece; observem que o povo que consagra é o mesmo que um dia esquece...". Estava dado o recado.

 

02) Clidenor Xavier era muito irreverente e gostava de ironizar os seus pares da Câmara Municipal de Lagoa Salgada. João da viúva, vereador, "rapaz velho", nunca de "inxiriu" pro lado de namoro ou casamento. O que sempre apreciou mesmo foi brincar de boneca, até chegar à maioridade. Residia na cidade o comerciante Josias, bastante religioso que se tornou professor. Era puro e um tanto refinado. Palavrão na sua boca, nem pensar. Quando necessário falava "excrementos" para na dizer "bosta". Clidenor Xavier ia ao comércio de Josias, só para tentá-lo proferir uma indecência. "Amigo Josias, sabe da nova?", provocava Clidenor. "A rua tá cheia que o vereador João da viúva tava lá na areia do rio "fazendo fila" com uns meninos. Agora ele desmunhecou de vez! Vão cassar o mandato dele ! O que você acha disso?". Depois de se benzer três vezes, o puro Josias defendeu: "Eu não acredito. Quando nós éramos meninos, a gente saía do catecismo e dizem, não sei, que ele gostava de dá a "cauda" aos meninos. Mas, faz tanto tempo! Sei não Clidenor...". O rio era caudaloso desde muito tempo.

 

03) Em Pedro Velho, o então vereador Gilberto Targino era por demais espirituoso. Tinha saída pra tudo. Certo dia, respondendo ataques ao seu partido, Giba mandou o malho num colega metido a advogado. A certa altura, fuzilou: "Aquele fela da p...., só sabe falar mal de todo mundo!". Encontrando-se no dia seguinte com o dito cujo, esse já sabedor de tudo, via terceiros, foi logo rebatendo: "Doutor Gilberto, que é isso? O senhor me tratou de f.d.p várias vezes no plenário?!". O vereador Giba fez um ar de riso e relaxou: "Não meu nobre. Quem lhe contou é que gostaria de tratá-lo assim. Eu apenas o chamei de "aquele fela!". O resto, fica pro conta de quem fez a fofoca. É assim que está nos anais da Câmara." Saída sem fechar o firo.

04) As igrejas condenam, em vários países a bigamia. No Brasil de mãe "Preta" e pai "João", não tem como se evitar desde muito tempo. O vereador-capeta Domício Soares, em Assu, em conversa informal com o padre Júlio, foi repreendido. "Vereador", perguntou o vigário, "dizem que você é adepto da bigamia?". O edil se fez de entendido e respondeu: "Que é isso padre? Isso faz tempo. Hoje sou adepto até da "trigamia". "Que é isso, meu filho?", rebateu o sacerdote assustado. "Ora padre... Fui arrastando asas pros lados da Claudinha, aí ela me apresentou umas primas que vendiam polí (picolé). Aí eu gamei pelo produto. E daí, "polí-gamia"". Padre Júlio, de olhar fixo em Domício, irado, detonou: "Qualquer dia desses eu vou te excomungar!". O herege ainda sorrindo, gracejou: "Mas, padre, antes chupe polí pra esfriar a cabeça!". 

11 de Abril de 2014 às 12h27

OS INTOCÁVEIS

Quem tem medo do "movimento "rural" dos sem terra"? O fim colimado é mesmo a reforma agrária? O fato é que hoje não podemos falar com segurança da tipologia do seu objetivo. Os limites do respeito a constituição federal foram ultrapassados e desfigurados. A paisagem do campo virou ruínas, escombros, destroços. O governo federal tem sido tolerante e vacilante com as providências enérgicas no tocante as invasões violentas. Em vez de fechar o cofre que financia as hordas de badernagem o caminho que se abre, ao contrário, é o do contágio, o da contaminação. A presidenta, apenas, deplora e classifica de "vandalismo" mas não age, parecendo que os dois corpos perderam o controle de suas fronteiras e entraram em estado de mútua infecção. Começa-se a perceber que existem canais de irrigação que se interligam tal e qual o movimento circulatório, levando ao país a dúvida da identidade dos protagonistas. São as ligações perigosas.

O que é a reforma agrária? Como fizeram os outros países de maneira pacifica e ordeira? O proprietário rural, hoje no Brasil, o que quer, ou o que ainda pode querer para tornar a sua terra produtiva, diante da ficção e a dicção da presidenta quando fala sobre a terra, o campo, o grande sertão e as veredas? A sua linhagem, capta-se logo, fica sob suspeita e a dinamite nas mãos dos grupos de ataque. O governo federal esculpe uma máscara oca e simulada, sustentando e frustrando tudo isso com a goma da autoridade deletéria. Por exemplo: na invasão da fazenda produtiva do grupo Crutale, quem vai apurar a destruição perpretada pelo MST é a polícia civil e não a federal. Isto porque, o crime maior praticado foi o desrespeito frontal a constituição federal e não apenas um ilícito comum de quadrilhas de esbulhos possessórios. Daqui que ouça e indicie cada um dos participantes e a polícia técnica conclua os laudos serão transcorridos meses e anos sem punibilidade.

A proliferação dessas ações sem freio da presidenta da república que tem a força hercúlea de ofuscar os escândalos da Petrobrás, de sepultar comissões parlamentares de inquérito contra o seu governo; de escalar o time do Corinthians; de derrotar Barack Obama nas olimpíadas de 2016; de transformar a embaixada brasileira em Tegucigalpa em abrigo para o retorno de um político hondurenho deposto; de surfar sobre as marolas da crise econômica mundial, com simulado gosto de aventura - por tudo isso em meio as agonias e suspeitas - não consigo compreender porque o banditismo desastroso do século passado voltou, mascarado e estimulado financeira e oficialmente por cânones e contas secretas. Não é necessário mais adjetivar o MST que se expande e desafia. Dilma não está sendo iludida pelas miragens da novidade, do choque e da desordem. O que se pede é a disposição para assumir a defesa da constituição e a coragem para enfrentar as incertezas que as depredações acarretam ao futuro da nação.

Tanto os habitantes da urbe como os do interior vivem a mercê da violência. Perplexidade que deve ser enfrentada, não com as muletas da demagogia, ou com o apego aos chavões repetidos. Quando os ministros falam sobre o assunto, vacilam, hesitam em dizer a verdade para não perderem os cargos. Já não basta escrever por se indignar, para contestar ou se opor. Todos os brasileiros retidos e/ou contidos na escuridão opinativa, devem se lembrar que a grande crise mundial que virá em seguida será a da falta do alimento. Isto, pelo mau uso da terra, da sua distribuição, da falta de ordem e justeza dos programas oficiais, que manipulam a ocupação do solo e a produção rural. São mais por razões políticas do que por objetivos técnicos. O campesino é usado, treinado e municiado mais para impor revolução social, em vez da ocupação pacifica e planejada da terra. A falência rural é gradativamente incentivada por decretos, atos e omissões.

 

14 de Março de 2014 às 12h58

NÃO PRECISA SER PROFETA

Determinismo histórico dizem que existe. Há dezenas de casos na política brasileira. Nunca foi tão fácil adivinhar a destruição do nosso planeta, num futuro não muito distante, vítima da poluição da atmosfera, dos mares e da natureza. Prever a paz na África e no Oriente Médio, por exemplo, é mero exercício de retórica. A gênese da questão palestina não é territorial, apenas, mas religiosa; desde o tempo do sultão Saladino e as Cruzadas do Vaticano. Óbvio ululante. Profecia é coisa séria. O dom de profetizar só ocorre com o apoio do Espírito Santo. Assim falou Malaquias. E antes dele, Zacarias, Ageu, Sofonias, Hebacuque, Naum, Daniel, Oséias, etc., sem falar em Isaías, o maior deles. Não foram adivinhos mas profetas de verdade.

Após essa viagem de circunavegação polar em torno do assunto, chego a Natal, a cidade dos Reis Magos, adventícios, visionários, adivinhos e proficientes. Não se torna necessário recorrer a eles para distinguir ou antever nada em Natal. Se assim fosse, eles teriam se estabelecido nas Rocas e deixado uma banca invejável de cartomantes e curadores. Baltazar, Gaspar e Belchior ficaram mesmo perdidos no deserto das arábias em vez das dunas da Redinha.

Não precisa ser profeta para chegar a conclusão que não emplacará 2014 sem que as avenidas de Natal se tornem intransitáveis. O número de veículos que circula já é maior, hoje, que a capacidade de sua malha viária. Estão financiando carros para pagar em sete anos (oitenta e quatro meses). Qualquer pessoa, com apenas um salário, sai de uma loja ou concessionária, sem avalista, lenço ou documento, dirigindo por aí. Quando acontecer uma crise econômica no país, quem vai para o beleléu: a financeira ou a seguradora? Já prevejo filas de carros abandonados nas vias públicas por inadimplentes enlouquecidos. Não desejo que isso ocorra mas o calote vai ser geral. Já imaginou uma entrada de vinte por cento no valor do bem e somente pagar a primeira prestação em 2014? É caso de B.O (Boletim de Ocorrência).

Outro tema para o qual não se exige douta profecia está nas religiões. Algumas modificam o cristianismo ao seu bel prazer e conveniência. A boa nova para arrebanhar seguidores reside no apelo musical. A conversão está no tom. Jesus Cristo é fulanizado em forró, axé, lambada, brega, carimbó, swing e pagode. Em breve, em vez de MPB, surgirá a MPR (Música Popular Religiosa). Segundo os ruidosos desse mundo nada mais espiritual, após a palavra, que dançar um relabucho na igreja. Dizem eles que a unção é contagiante. Não precisa ser profeta para antever que essas religiões tendem a fazer desaparecer o Cristianismo. Não é por aí o caminho. Estão profanando o nome de Deus.  

07 de Março de 2014 às 11h19

ASSALTO ORGANIZADO AO PODER

Cada dia, cada ano, a eleição municipal se configura como uma disputa voraz pelo controle da maquina pública. Com o apoio da comunicação de massa que induz e seduz o eleitor, o município brasileiro transformou-se em projeto de ampliação do círculo familiar. É bastante colocar parentes próximos e confiáveis em secretarias para garantir a continuação do mando dos descendentes da mesma linhagem. O pior é que a súmula vinculante permite. Secretário municipal ou estadual é caracterizado como um cargo político. Pode? Daí, se conclui, que dessa maneira, jamais se saneará a vida pública dos vícios do nepotismo e do assalto organizado ao poder público.

Outro componente inconfiável que agride a lisura do pleito eleitoral reside no processo da reeleição. A fragilidade e a imaturidade desse sistema alimentam a ambição do político brasileiro. Encastelado na prefeitura, o gestor desonesto é capaz de qualquer improbidade para nele permanecer. E se perpetuar. Vejo ainda longe, muito longe, a reforma política para corrigir esses males, visto não existir vontade nos congressistas, nem no poder executivo porquanto não deseja se aprisionar. O programa "Bolsa Família", por exemplo, é a institucionalização oficial de uma contravenção política ou uma falsa moeda que garante ao dono do poder a medalha de ouro das olimpíadas eleitorais. Se o estado e/ou o município criarem um programa dessa natureza com certeza cairão nas malhas da lei.

Tenho perfeito entendimento de que os juristas sinalizam constantemente o aperfeiçoamento das nossas regras eleitorais. E de que já se avançou bastante. Mas, paulatinamente. Concebo que negociar o novo tratado político-eleitoral com a classe política é o mesmo que malhar no ferro frio. O congressista jamais admite corte nos seus privilégios. Quando da discussão recente da lei contra o nepotismo, um deputado sugeriu ao Supremo Tribunal Federal o estabelecimento de uma cota de cargos públicos, só para atender a parentela da Câmara Federal e do Senado.

Por outro lado, existem prefeituras que se fortaleceram tanto, política e economicamente, alimentadas fortemente pela facilidade da moeda político-eleitoral denominada "emenda parlamentar", que hoje, se constituem em verdadeiras cidadelas, feudos, bastilhas, símbolos do absolutismo familiar. Aí o nepotismo campeia. E, no entanto, foram poupados pela legislação como se já não bastasse a permissividade da reeleição. De que adianta a propaganda oficial veiculada constantemente na televisão que pede ao eleitor a renovação na escolha do candidato, a insubmissão ao voto comprado e que recuse a chantagem eleitoral de qualquer natureza? No momento em que, a política de coalizão partidária, nascida do monstrengo da pluralidade - colocou nas mãos dos parlamentares a faculdade de canalizar benesses financeiras para os municípios - criou-se uma terrível moeda de troca. A venenosa teia de aranha que dá sustentabilidade política aos governos cobra um preço muito alto, cuja fatura é impagável, à medida que robustece o controle de perpetuação da máquina dentro do mesmo círculo familiar. O direito fundamental do eleitor-cidadão é a queda total da Bastilha que ainda o humilha e perverte a democracia.

Do contrário, a cada dia, a cada ano, vai se legitimando o velho brocardo ademarista e malufista do "rouba mas faz". No mais, são conhecidos os contracheques que propalam na imprensa notícias e pesquisas duvidosas.

 

28 de Fevereiro de 2014 às 14h48

BEM-VINDOS AO "CARNABAL"

Bem-vindos ao novo mundo do exagero! A mulher ideal, festejada, é aquela bombada, coxas grossas e quadris enormes. Morreu o modelo feminino clássico, comportado, que foi decantado em prosa e verso. E viva o rap, onde a animalidade, a macaquice dos gestos humanos são interpretados como manifestação cultural pelos cariocas. Bom mesmo, até chegar ao orgasmo, é a histeria adolescente que promove o trote universitário. Nele, vê-se um desejo mórbido, doentio, sádico dos jovens que sentem no sofrimento humano, na dor, um prazer sexual que só Freud explica. Só pode ser tara. O problema não é só da polícia mas da psiquiatria.

Bem-vindos ao novo mundo do transtorno de conduta. A prática da virtude é vaiada na rua e banida dos lares trocada pela patifaria do programa BigBrother. O maníaco sexual, hoje, está dentro de sua casa. A juventude continua enferma, sôfrega, cantando forró erótico de letra pobre e homicida, pois, assassinaram a memória musical de Luiz Gonzaga e toda aquela côrte formidável de intérpretes da verdadeira mentalidade nordestina. Tudo é abuso, transgressão, subversão da ordem social, cultural e política.

A criança, na escola ou em casa, aprende logo a dançar, remexer o traseiro, a ensaiar os passos promocionais do rap, rumo ao estrelato, para gáudio dos olheiros pedófilos. Ninguém quer ser honesto. Meretriz em vez de atriz. Eu sei, eu sei que o tempo muda os costumes, o mundo gira, uma geração difere da outra num rodízio interminável. Mas, não poderia mudar prá melhor? Por que os vícios permanecem e triplicam a nocividade no ser humano que cada vez mais sucumbe e se bestializa?  

Bem-vindos ao trágico, ao catastrófico e ao sinistro das estatísticas do pós carnaval nas estradas, nas ruas, nas praias, onde tudo é subvertido em nome da velocidade, do alcoolismo e da vulgaridade. Quantos inocentes não morrem no lugar dos maus? O fabricante do cenário do crime é sempre o próprio homem, pela ganância do dinheiro, pelo prazer indecoroso do sexo e, enfim, toda permissividade inclinada eternamente para o ilícito. Isso vem da gênese e do gênesis. Aliás, o pecado não mora ao lado e sim, dentro de nós.

Não pensem que sou contra o carnaval, a música, a dança, aos divertimentos públicos. Absolutamente. Critico o excesso na bebida, o consumo de drogas, a degradação dos costumes pelo modismo em nome de uma falsa modernidade. Esquece o passista que o chão onde pisa é também o repouso da carniça. 

São coisas minhas, muito minhas. Imaginar que as festas ditas profanas reúnem milhões de foliões com gastos e gostos extravagantes!! E as festas beneficentes em prol dos oprimidos, dos sem tetos, sem planos de saúde, desempregados e famintos não chegam nem a agrupar um terço de gente e de recursos? Em dezenas de capitais do Brasil o carnaval dura de sete a oito dias. Feriado religioso é mais comemorado nas praias que nos templos. Pode ser que a fé cristã esteja perdendo a parada para o mundo cão. Mas, como o Salvador falou em "benditos do meu Pai", o processo seletivo se resume numa minoria. "Muitos são chamados e poucos os escolhidos", apesar da imensa misericórdia de Jesus Cristo.

Mas, afinal, quem for partidário do barbarismo que me desculpe: a leitura da Bíblia, como um hábito, é fundamental para evitar e se defender do caos. Seja íntimo, pois, do Senhor. Amém.

 

21 de Fevereiro de 2014 às 12h38

TUDO DEPENDE DE ESTRATÉGIA

01) Chico goleiro, popular figura que diz saber tudo, e, questiona até o que não sabe, é fã incondicional do jogador Zinho, de renome nacional. Num domingo esportivo, o bom são-gonçalense, comentava sobre a seleção brasileira. Chico goleiro saiu na frente: "Eu só dou valor, "cum" Zinho fechando atrás! Aí sim o pau canta!". A estratégia de Chico goleiro na técnica futebolística não combinava muito com o idioma pátrio e com a ética social.

 

02) O deputado Valmir Targino, dizia sempre não gostar de fazer negócio com homem que "tivesse duas casas", isto é, "duas mulheres". "Um elemento desse é difícil de se encontrar", enfatizava. "Quando se procura ele em casa "A", ele está na casa "B". Além disso, o sujeito vive muito preocupado, pensando nos possíveis chifres advindos, ora da direita, ora da esquerda ou de ambos os lados". Completava sarcástico com seu o proverbial bom humor. 

 

03) Belmont, um pernambucano radicado em Mossoró (não confundir com J. Belmont), tornou-se pioneiro no ramo de transporte coletivo. Trazendo ônibus já sucateados do Recife, a frota do Belmont fazia sucesso do Alto de São Manoel ao centro. O empresário fazia a rota num velho jipão, prestando socorro mecânico junto aos seus motoristas. Era comum vê-se Belmont debaixo das "latas" remediando o problema. O departamento de tráfego da prefeitura passou a pressionar o "empresário", exigindo melhores carros. Um dia, o secretário Chico Monte aconselhou: "Belmont, troque ao menos a metade da frota!". "Doutor", retruca o proprietário, "prá carregar cornos e chifreiras, esses aí tão no jeito; dando prego é bom porque atrasa a viagem...".

 

04) No alpendre da casa de Manoel Sotero, na Redinha, entre comes e bebes, comentava-se sobre a alta temperatura. O verão chegara prá valer. Luiz Sotero, trinta anos morando em São Luiz, falava para o irmão Manoel aos presentes: "Vocês falam em calor aqui, calor macho sente-se no Maranhão". Ao notar que ao lado, estava um grupo GLS, Luiz Sotero desculpou-se: "Foi sem intenção. Nada pessoal".

 

05) O dr. Leandro, de saudosa memória, residia em Natal, lá pelos anos noventa. Tinha por lema: viver o hoje. Gostava de proclamar: "Bebo, fumo, jogo, danço e sou perdido por mulher". Leandro beirava os setenta, e, um amigo aconselhava: "Leandro, é tempo de se cuidar. A tal da AIDS anda solta". "Que nada", disse o doutor, "se eu já tiver, não importa; se não tiver, não tenho inveja de quem tem".

 

06) Antonio Libório de Assu, era um velho fantástico. Suas estórias superavam a imaginação da turma da Disney. Libório criava um gato, que todo dia consumia um litro de leite. Era na verdade um lindo angorá. Certo dia, o produto escasseou e o leiteiro reduziu pela metade a distribuição, para poder atender a freguesia. Libório completou o litro com água, para que o gato estivesse alimentado pelo dia todo. A surpresa veio ao fim da tarde. O gato bebera só o leite, deixando meio litro d'água na tigela. Em vez do pulo do gato, leia-se o "puto do gato".

 

31 de Janeiro de 2014 às 11h12

FESTA NO INTERIOR

01) Cabo Ladislau, inspetor de quarteirão da ZBM - zona do baixo meretrício - conhecido como "café do povo", era "brabo de morrer enganchado". Certo dia, prendeu um valente que promovia um quebra-quebra. "Guarda esse cabra aí", ordenou aos seus comandados. "Só sai quando pagar tudo que destruiu". Duas horas depois, chegava a delegacia um rapaz trazendo um envelope. "Dá licença cabo Ladislau?", disse o moço. "Doutor Vingt mandou entregar esse envelope ao senhor. Parece que é prá soltar Zé Chorão. Esse da briga de hoje.", finalizou o portador, retirando-se rapidamente. O cabo-delegado atendeu rápido: "Solta esse sujeito! Já apareceu um padrinho. Mas é bom. Se eu precisar de um favor do deputado...". Na manhã seguinte, um soldado lendo o bilhete pedindo a liberdade do preso, descobriu que era simplesmente uma "nota para conferência" de um armazém de sal existente no bairro. O cabo deu "a gota serena" na delegacia. A conclusão é que o cabo Ladislau não fazia um "x" nem quando votava.

 

02) É sabido e consabido que o majó Theodorico Bezerra tinha suas técnicas de comandar a política em sua região e alhures. As suas façanhas viraram lendas. Os seus adversários acusavam-no de dividir as cédulas em duas partes. Quando o eleitor pedia um par de sapatos, ele fornecia o do pé esquerdo e o outro só depois do resultado da eleição. Em determinado pleito o majó estava encaminhando o seu povo para votar. Era o tempo das chapinhas. O eleitor já saia preparado. E para teatralizar ainda mais o compromisso do voto, Theodorico solenizava: "Venha compadre João. Leve essa chapa e bote na urna. Corra homem que você já está atrasado!". Na volta, o eleitor encabrestado resolveu perguntar: "Majó, eu votei em quem prá governador?". Matreiro, o deputado aconselhava: "Ora, compadre, deixe de fazer pergunta. O voto é secreto...".

 

03) Petronilo, velho motorista de caminhão, pessoa querida dos assuenses, possuía um antigo misto de "duas buléias". Fazia a linha Assu/Angicos, dia sim, dia não, de acordo com o itinerário do trem, ramal Natal/São Rafael. Certo dia, o Chevrolet gigante deu "prego" - coisa comum aliás. Os passageiros desceram para "estirar as pernas" enquanto Petronilo tentava consertar o seu veículo. Um dos viajantes tirou a camisa e coloco-a numa cerca de arame farpado ao lado da estrada. Algum descuidado, soltou uma ponta de cigarro no capim seco ao derredor. Com a ajuda do vento da tardinha, logo a chama se propagou, queimando inclusive a camisa do inditoso passageiro que se queixava: "Não me interessava tanto a camisa. Só lamento uma poesia que estava no bolso. Ela só falava em merda. Esse mundo é uma merda. Nós vivemos numa merda... Essa vida é uma merda", reclamava sem parar. Petronilo, já p. da vida com o problema do carro, olhou de lado e disse: "Merda grande é tá ouvindo esse seu lamento. Saia aí pelo pé da cerca no cheiro das cinzas dessa bosta. Quem sabe você encontre sua porcaria de poesia...".

 

04) O velho Chico Potengi, de Pedro Avelino, não perdia um comício. Fosse de quem fosse, ele estava lá, ouvidos atentos. Gravava tudo. Dominado por essas e outras manias, Chico Potengi entrou em parafuso. Aqui ou acolá, pensava em dizer uma coisa e acabava dizendo outra. Em 1964, quando a palavra da moda era subversivo, Chico foi para a praça assistir um comício. Estava, como sempre, armado com uma peixeira de 12 polegadas. O delegado vendo isso, foi até ele: "Chico, dê-me essa arma!". "Não dou de jeito nenhum", respondeu. "O que o senhor tá pensando? Eu sou um homem subversivo!". O delegado assustou-se com a palavra. Deu meia volta e foi embora.

 

24 de Janeiro de 2014 às 11h12

POLÍTICA: ESTILOS E TEMPERATURAS

01) A campanha estava no auge. Dinarte cobriu literalmente o Alecrim de vermelho. No palanque só os "cobras". Discursaram Tarcísio Maia, Vingt Rosado, Djalma Marinho candidato oficial, entre outros. Dinarte Mariz estava chegando acompanhado de Dix-Huit, senador de peso tanto corpóreo quanto eleitoral. Anunciaram o líder mossoroense que, diante da multidão se expressou condoreiro: "Djalma, quase cheguei tarde para falar, mas cheguei em tempo para ajudar a construir sua vitória. Diante desse mar vermelho humano, diante dessa "fleborragia" sem controle, eu afirmo: você está eleito!!!". Agnelo Alves, que da redação da Tribuna do Norte, rádio ligado na emissora adversária, ouvia os discursos, passou duas horas procurando no dicionário Aurélio Buarque de Holanda, o significado da palavra "fleborragia". Para o leitor desse causo, fleborragia é o escoamento de sangue (ruptura) proveniente de uma veia. Com essa oratória, estava escrito, Djalma não podia ganhar essa eleição.

 

02) O deputado Valmir Targino, em uma de suas andanças pelos redutos eleitorais, gostava de levar de carona alguns conterrâneos. Muita conversa animada no percurso principalmente sobre a "sêca verde" que se prenunciava. Já se aproximando da propriedade do parlamentar, via-se o milharal clamar aos céus, curvando o caule por falta de inverno. Uma passageira avisou: "Doutor Valmir, eu fico logo ali". Estacionado o veículo, a mulher complementou: "Quanto é a passagem?". Exclama Targino: "Que é isso comadre? Vocês todos (eram quatro) não me devem nada. Alem de meus amigos, vocês encurtaram a viagem com boa e agradável conversa". "Muito obrigado doutor", responderam felizes os caroneiros. "Vamos orar para que suas coisas aumentem ainda mais", concluíram. O deputado, entre sisudo e descontraído, replicou: "Não! Pelo tamanho, eu não tenho nada que reclamar. Ore pra ver se levanta ao menos o talo".

 

03) Angicos é cidade pequena, mas rica em filhos ilustres da seara política do Rio Grande do Norte. Como exceção, gerou também José Barbosa, conhecido por "Zé Doido". Era inteligente, porem "os neurônios", como diziam na cidade, estavam desalinhados. Barbosa lia muito, mas não dava bolas para o dicionário e ai, embolava o meio de campo das palavras. Sabedor que o seu líder político e amigo Vander Lindem, ferrenho adversário de Aluízio, revelava-se homem de boa cultura, teve a idéia de presenteá-lo com um livro. O presente escolhido: "Minha Luta" de Adolfo Hitler. No oferecimento Zé escreveu: "Ao meu grande amigo e "indefecável" guerreiro, lutador das causas públicas e privadas do povo pobre e "comprimido pelos abastados" afirmo que essa "luta" de Hitler tem a sua cara. Saudações partidárias, Zé Barbosa". Vander Lindem perdeu a guerra no primeiro tiro.

 

04) No calor dos palanques políticos, Aluízio batia forte no "majó" Theodorico. Entre tantos ataques, sobressaí-se a frase: "Theodorico rouba pra se eleger e se elege pra roubar". O mestre das frases de efeito, ele espalhou esse discurso aos quatro ventos e através da imprensa. O tempo passou. Theodorico fortalecido politicamente, por Juscelino Kubitschek em 1960, Aluízio sentiu que precisava do apoio do "majó" no Trairi. Acordos e conchavos foram celebrados e chegou o momento de falar o porquê da união ao povo. Aluízio queria dá o ponta pé inicial na sua cidade natal: Angicos. Era meio mundo de gente. Até quem não acreditava foi ver para crer. Aluízio, depois de muito blá-blá-blá, pôs a mão no ombro do pessedista e decretou: "Aqui estou com Theodorico, nessa nova aliança por que os nossos propósitos são iguais". No dia seguinte, o angicano Zé Doido propalava: "E agora? Com quem vai ficar a pecha de roubar pra se eleger e, se eleger pra roubar?".

 

10 de Janeiro de 2014 às 10h36

LIÇÕES DA VIDA PÚBLICA

01) O tenente Clodoaldo vivia em permanente "estado de caça às bruxas" nos idos de 64, em Mossoró. Se o MDB programasse qualquer manifestação, lá estavam o cabo Ladislau, com seus milicos prontos para agir, batendo e prendendo. Certa noite, o deputado Odilon Ribeiro Coutinho, valente e destemido, prometia triturar a Arena, em praça pública. Tenente Clodoaldo chamou o cabo Ladislau e ordenou: "Esse deputado é brabo e é rico. Vamos com calma! Com ele tem que ser um tratamento VIP. A gente só age se derem um escorrego!". O cabo Ladislau, grosso feito apito de navio, assim reproduziu aos seus soldados: "Pessoal, a ordem é tratamento VIP! Quer dizer: vamos "impurrar" o pau!".

 

02) O "majó" Theodorico Bezerra planejava há três anos buscando a melhor forma de como vencer determinada eleição municipal. "Meu filho", dizia, "uma eleição se ganha no dia. Na hora do voto. Com muita estratégia". Lá na frente, o "majó" venceu essa eleição que seria seu último embate. Alguém comentou: "Deputado, o senhor não se acha velho para tamanha maratona que é uma campanha eleitoral?". Mão nos quadris, como se segurasse o cinto, não se alterou: "Olhe... A gente só envelhece, quando deixa de amar, sonhar e se indignar. Não é isso mesmo?". O interlocutor ficou mudo.

 

03) A caravana de Djalma Marinho tinha agenda a cumprir na região do Seridó. Agenor Maria, preocupado, perdeu o sono e a vontade de comer. Seu grupo de apoio orientava: "Vamos contra-atacar. Na política também, a melhor defesa é o ataque!". Corria o ano de 1994 e a disputa para o senado. No palanque e na rádio Brejuí de Currais Novos Agenor Maria proclamava: "Que venham os "embosteiros"! Venha Djalma debater comigo, a seca da região! Você não vem porque não conhece a fome nem a sede! Você só sabe o que é os "ares condencenados" dos gabinetes pagos pelo povo!'. Noite de sábado, a praça lotada, Djalma Marinho discursava: "Não é do meu feitio ludibriar ninguém. Nunca vendi feijão, nem farinha, nem algodão por veludo. A melhor coisa que tenho para lhe oferecer, é sempre a verdade dita na melhor correção gramatical...".

 

04) Naquele tempo não havia concurso, o chefe político dava o nome e o governador nomeava por decreto. O então deputado Ângelo Varela, da oposição, e por isso fiscalizando ao máximo, certa vez, enviou cerca de sessenta quilos de peixes a Natal, onde seriam presenteados com alguns amigos e correligionários. A semana santa se aproximava. O automóvel do parlamentar foi parar na coletoria. O coletor "importado" durão todo, sorriu e exclamou: "Sem nota fiscal heim!? Esse eu vou lavrar com todo prazer!". Feitas as anotações de praxe, o coletor chegou aos finalmentes do ato de infração. Todavia, escreveu "Macal" com "L". O motorista do deputado Ângelo Varela, ignorou: "Que é isso doutor? Macau escrito com "L"?". O coletor pouco letrado, olhou por cima do óculos e rebateu: "Grande bosta... Natal que é a capital, se escreve com "L" por que é que "Macal" também não pode? O senhor se "cale-se", senão eu "almento" a multa!".

 

05) Na Câmara Federal, o então deputado Djalma Marinho alongou-se no seu pronunciamento e um dos seus pares, senhor de muitas terras no norte do Brasil, já se entediava. Começou a debochar baixinho, tratando Djalma de "raquítico, óculos de fundo de garrafa", etc., etc. Sentindo o clima, Djalma deu outro rumo à fala e acentuou: "Eu conheço um colega que cabia intencionalmente nessa máxima: Ele é tão pobre, tão pobre, que a única riqueza que tem é o dinheiro demais...". Aplausos de todos, menos um. Foi uma aula gratuita.

 

03 de Janeiro de 2014 às 12h13

SEM NOVIDADES NEM EFEITOS COLATERAIS

O novo aumento no preço dos combustíveis já era previsto desde a ascensão e queda da Petrobrás. Nem porisso ninguém deixará de comprar carros. As carretas com modelos 2014, todo dia chegam a Natal piorando cada vez mais o trânsito. Na política a bolsa de apostas continua em queda livre. Aspirantes apenas, porque continua difícil decifrar os signos e desígnios da política. A vida partidária do Rio Grande do Norte é um mundo somente de temperaturas e temperamentos. Vejam as entrevistas. Toda semana prefeitos do interior lançam nomes. Gente de vida pública breve e sem talento vasto. Os atores políticos de hoje não possuem a flegma da intemporalidade.

Ainda dentro dos mistérios das claridades e das sombras interiores da política local, consultei a constelação de Orion a fim de saber se a torrente caudalosa de inserções na mídia global, diariamente, da imagem e atuação do deputado federal Betinho Rosado - a que se deve tanto? Seria ele candidato a governador em lugar de Rosalba, caso lhe seja negada a legenda? Não sei, mas algum astrólogo arbitrário deseja dizer alguma coisa. Não tá demais, não? 

Por outro lado, lembrei-me de um fato ocorrido ao tempo de um determinado governo, cujo secretariado era constituído, na sua maioria, por figuras soberbas intragáveis que não atendiam telefonemas nem concediam audiências, a não ser aquelas que atendessem as conveniências pessoais. Cansado de tanto ser evitado e repelido, um prefeito do agreste potiguar foi preciso e certeiro na sua verve: "Gestor público que não dá feedback (retorno) de ligação ou de audiência é porque dá o boga!".

Mas, isso aí hoje não constitui nenhuma novidade no front. Existem intangíveis ilhotas incrustadas no oceano da administração pública emergidas do degelo polar da impopularidade. Tem maus políticos, animais predadores por excelência, que escapam de escândalos por linhas tortas e entrelinhas certas da fugaz legislação penal brasileira. Quem não sabe - e também não representa novidade - é que o tamanho da máquina estatal geradora de escândalos, rombos e extravios, inflou tanto que hoje prejudica a carta geográfica da província e do país. No governo federal só ministérios são trinta e nove entregues aos partidos políticos grandes e nanicos. Mas, vem aí 2014. E com ele o ciclo das invasões por terra, ar e mar.

Não confundir, nessas premissas, com máquina lubrificada. Lembre-se de que quem faz eleição é o agente político e não o burocrata. E já se foi o tempo de distribuir benesses. Assim está escrito. A prefeita de Mossoró tem passado por muita provação. Também, não é nenhuma novidade. Apenas, o que se deve ter em mente como rumo e prumo, é que ninguém pode ser dono de nada e todos os eleitos têm patrão: o povo. Ele é o verdadeiro dono do mapa. E da mina. Também não é novidade. Somente o tempo tornará as coisas mais claras. A classe dirigente encontra-se em total descrédito. Já teoriza a eliminação de políticos e a desestruturação do Estado. Cuidado com essa novidade. Enquanto isso a Controladoria Geral da União (CGU) comemorou, semana passada, o "dia internacional contra a corrupção". O problema reside nos 364 dias restantes. 

20 de Dezembro de 2013 às 14h10

O NATAL: DEUS SE FEZ CRIANÇA

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO 

pe.medeiros@hotmail.com

 

 

Um velho anacoreta, que viveu no Egito, assim descreve: "Quando a noite estava no meio de seu curso e fazia-se profundo silêncio: as folhas que farfalhavam cessaram; o vento que sussurrava, ficou parado no ar; o galo que cantava suspendeu o seu canto; as águas do riacho que corriam, paralisaram; as ovelhas que pastavam, ficaram imóveis; o pastor que erguia o cajado para golpeá-las, ficou petrificado; nesse momento tudo parou e silenciou, porque nasceu um Menino, o Salvador da humanidade".

O Natal e a retórica do presépio querem comunicar-nos que Deus não é uma figura severa e de olhos penetrantes para perscrutar nossas vidas. Não. Ele surge como uma criança. E esta não julga nem condena, deseja tão somente revelar a ternura e o doce afeto divino. O presépio sussurra-nos uma profunda mensagem de paz. Vivemos na civilização do medo, até mesmo do Senhor. Por isso, perguntamos: Oh, criatura humana, por que tens medo de Deus? Ele fez-se criança. Maria enfaixou seu corpo delicado e frágil. Escutemos seu chorinho brando de recém-nascido. É o Emanuel, que significa "Deus conosco". Não podemos esquecer as palavras dos anjos aos pastores: "Não tenhais medo, eis que vos anuncio uma grande alegria, nasceu para vós o salvador do mundo" (Lc 2, 10). O termo usado foi salvador e não juiz.

O Natal cala-nos diante da bondade divina. Nada podemos expressar e resta-nos tão somente parar e dar lugar ao coração que sente, se compadece e ama. Não poderíamos fazer outra coisa diante desta Criança, sabendo que é o Deus humanado. Vale lembrar Fernando Pessoa, quando descreve: "Ele é a eterna criança, o Deus que faltava. Ele é o divino que sorri e que brinca. É a criança tão humana que é divina". Mais tarde vieram as tradições de São Nicolau e Papai Noel. Os nomes talvez importem pouco, porque no fundo, o que conta mesmo é o espírito da bondade, da doçura que encanta, da pureza que enche a alma de graça, da presença divina que nos enriquece e, de certo modo, encontram-se nessas figuras.

O editorialista Francis Church do jornal The New York Sun, respondendo a uma menina de oito anos, que lhe perguntara: "Prezado Editor: diga-me de verdade, o Papai Noel existe?" Ele sabiamente escrevera: "Sim, Papai Noel existe, porque Deus veio ao mundo e é real. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Como seria triste o mundo, se não houvesse Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir crianças. Não haveria pureza, nem poesia e fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus, ele vive e viverá sempre enquanto houver crianças grandes e pequenas, que aprenderam a ver com os olhos do coração".

Na festa deste Natal, somos todos convidados a ver com os olhos do coração, pois fomos educados a olhar com os olhos da razão. Por isso, muitas vezes, somos frios, insensíveis e indiferentes. O Pequeno Príncipe já dizia: "Só se vê bem com o coração". E o Papa Francisco está aí, dando-nos o exemplo de que o cristianismo é feito muito mais com o coração. Neste Natal, vamos resgatar nossa afetividade; deixar-nos comover com nossas crianças interiores, permitir que elas sonhem e nos encham de encanto diante da Divina Criança, a qual sentiu prazer e alegria, querendo ser um de nós. "E o Verbo de Deus se fez homem e habitou entre nós" (Jo 1, 14). Fora esse Menino, já adulto, que nos lançou o convite à infância espiritual, ao pregar: "Se não vos fizerdes, como crianças, não entrareis no Reino dos Céus" (Mt 18, 3). Natal é isso também.

A todos desejamos um Natal cheio de Luz. Precisamos dela neste mundo em voo cego rumo a um futuro incerto e desconhecido. Tenhamos fé, também para nós Deus dar-nos-á uma estrela, como a de Belém, que nos mostrará o caminho do Salvador.

 

 

13 de Dezembro de 2013 às 12h59

LUIZ TAVARES DE SOUZA, UMA MEMÓRIA INAPAGÁVEL

Quando Luiz Tavares partiu para o desconhecido levou consigo as boas coisas da vida. Lembranças da família e de quem quis e saudades do que amou fazer na sua luta. Com ele convivi na atividade funcional por algum tempo e na lide social. Garanto que ouviu boas músicas e cantou a vida em prosa e verso. Cultivava excelentes amizades com os cantores Silvio Caldas, Braguinha, Márcio Reis entre outros. Amigos não sabe nem quantos deixou. Foram muitos. Nesta celebração centenária do seu nascimento, percebo que Natal não lhe homenageou ainda como deve, convincentemente.

Mas a vida é assim mesmo - quem passa dos setenta, oitenta anos torna-se estatística. O nome, a importância do tanto que amou a cidade e o que fez em vida - não se julga mais. É o costume humano que perde a memória, a mentalidade e o sentimento do mundo.

Luiz era um homem bom, humilde, solidário, que não buscava os refletores. Mas, foi um patrimônio emocional e social da cidade pela sua história e estórias.

Do tempo, ele foi um viajor de longo curso e detinha o selo de sua experiência funcional desde o Rio de Janeiro, além do senso comum de observação acerca da província e dos seus habitantes.

Era fiel às amizades tidas com a coragem de dizer o que pensava, tornando-se a mídia dele próprio.

Era fiel aos amigos, obstinado, além de bom esposo e pai. Sua marca registrada era ser intransigente nos seus pontos de vista e a honestidade inatacável.

Não pode sua data centenária, ser olvidada totalmente. Luiz Tavares, um verdadeiro esgrimista de pelejas, perseverante, deixou marcas e exemplos indeléveis através dos seus gestos e de suas atitudes autênticas. 

Admiro-o, diante de tudo que vi e dele conheci como um ser especial, disponível, abordável, tanto nas intransigências como nas concessões. Encantou-se aos sessenta e nove anos. Nascimento: 29 de Novembro de 1913 e falecimento dia 21 de dezembro de 1982.

À dona Áurea, in memoriam, e aos seis filhos: Amaro, Arlindo, Augusto, Álvaro, Ana Lígia e Ana Flávia, por último, afirmo, que podem se orgulhar do pai que os criou com carinho e amor. 

22 de Novembro de 2013 às 14h10

FLAGRANTES DA GRANDE NATAL

01) Muito antes da "era cibernética", quando até emissora de rádio "era luxo", vários municípios montavam suas "divulgadoras", a "Voz do Município", etc. Com Parnamirim não foi diferente. O locutor oficial Douglas Silva - nome artístico - deitava falação. No quadro "mensagens musicais", o moço mandou o verbo: "Atenção Maria Lúcia, assim como as flores se abrem para receber o orvalho matinal, "também se abra" para receber "Cabeça Inchada". O vinil rodava "Estou doente morena, doente tô morena, cabeça inchada morena, tô, tô e tô". O disco parou de rodar e, Douglas parou na delegacia para explicar o real com o subentendido.

 

02) O cabaré da 15 de Novembro na Ribeira, foi palco de muitas badernas, principalmente entre soldados do Exército e de marinheiros. Numa dessas brigas, um marujo bom de rasteiras, deu um trabalho imenso a patrulha. Dominado, foi levado à presença do coronel chefe da antiga "ordem social". O marujo se dizia graduado e queria ser levado para a base naval. Chegando na sala do comando, o moço explanou ao coronel que lia um jornal: "Ô bicho, manda teus "bichanos"  tirar as mãos de mim. Eu quero ir pra minha base. Sou carioca e tô à passeio. Vê lá. Borraram minha farda. Vamos lá ô meu!". E haja xingamentos. O coronel levantou da cadeira e, do alto das botas disse: "Eu sou herói de guerra. Voltei da Itália com duas medalhas. Sou coronel do Exército, advogado, chefe deste departamento e acho que ainda não sou merda nenhuma". E arregalando os grandes olhos: "O que você pensa que é seu imbecil?". O marujo baixou a vista e o facho: "Desculpe coronel. O bosta daqui sou eu mesmo".

 

03) Um famoso pai-de-santo, fez assento com seu terreiro em Natal. A fama do homem era de norte a sul. Um mecânico de nome Zé Galego, procurou o médium, um tanto perturbado. "Diga meu filho", falou o pai-de-santo, "o que te faz bater a minha porta?". Zé Galego explicou: "Olhe, roubaram meu macaco e, eu quero ele de volta custe o que custar". O "painho" impôs: "A consulta custa cinqüenta reais". Galego, rápido, tirou do bolso uma nota de cinqüenta reais e a pôs sobre a mesa. O médium concentrou-se, olhando para um copo cheio d'água, vaticinou: "Já tô vendo o seu macaco!!!". Zé Galego animou-se. "Olhe, o seu macaco tá na cidade de Macau". "Vou buscar", vexou-se o cliente. O médium se encolhendo, completou: "Ai coitadinho, acaba de levar três cipoadas do domador do circo. Ele tá aprendendo a contar dinheiro". Zé Galego ouvindo isso segurou a nota que ainda estava sobre a mesa e detonou: "Seu "painho"  de araque, meu macaco é o de lá da minha oficina,. Vá roubar outro".

 

04) Numa solenidade altamente concorrida com o teatro municipal de São Gonçalo lotado, o engenheiro  Aldo Tinôco Filho descrevia sobre o "Plano Diretor". De repente, um celular na platéia dispara em quentíssimo forró. O orador parou por um instante e todos olharam rumo ao barulho. A dona do equipamento, nervosa, tentava desligar "a caixa de som" mas não obtinha sucesso. Alguém tentou ajudá-la e com muita luta conseguiu controlar o aparelho. Depois de tudo, já na calçada do teatro, um vereador aproximou-se da amiga e disse: "Você viu, que velha burra, não conseguiu desligar o celular. Atrapalhou até o orador". "Burra é a p.q.p", disse a senhora, "aquele celular é meu. Alguma coisa "enganchou" na mensagem e eu fiquei nervosa. Bicho nojento é celular e você também...". Caiu a cortina.

 

14 de Novembro de 2013 às 12h46

OBSERVAÇÕES À MARGEM

01) Venâncio Freitas, irmão do falecido prefeito de Pendências Levanir de Freitas, é assíduo leitor dos meus artigos. Trouxe-me alguns relatos hilários de pessoas simples de sua região. Nonato Aranha, era comerciante em Jardim de Piranhas. Hora do almoço saiu de fininho e disse ao empregado Cicinho que ia para casa. No caminho, preconcebidamente, quebrou a esquina e foi receber uma "promissória" no lupanar local. A luz do cabaré ainda não havia nele se apagado. Sua preferida era Chica Preta, carnuda, ao gosto de Nonato. Terminada a "fricção", travou-se um áspero diálogo com relação à cotação do mercado. Chica contestou que o pagamento era pouco. Nonato retruca, já impaciente: "Vou deixar o dinheiro aqui em cima da cama". A mulher bateu o pé e ameaçou: "Se deixar vou levar essa merda na sua mercearia!". Nonato colocou a grana lá e se mandou. Ao voltar de casa para o seu comércio, o empregado Cicinho foi diligente no recado: "Seu Nonato, Chica Preta deixou esse dinheiro para lhe entregar". Aí Nonato velho de guerra, não titubeou: "Ô nega honesta pagadeira. Emprestei essa importância de manhã e ela já veio pagar!". 

 

02) João Tomaz da Silva, de Pendências era gordo. Comerciante, possuía uma camionete que dirigia com dificuldades devido a obesidade. Numa viagem seu neto pediu-lhe dinheiro para comprar bombons. Sem parar o carro, Tomaz iniciou procedimentos de contorcionismo para achar o bolso. "Mas vô, que dificuldade sair esse dinheiro!". Aí o avô contesta ofegante e com voz arrastada: "Mais difícil, meu filho, é entrar...".

 

03) Sezildo Câmara foi líder estudantil no Atheneu nos idos 67/68. Estudante rebelde, foi perseguido e preso pelo regime. Por conta desses problemas políticos, prejudicou a sua juventude. Anos mais tarde, o seu primo Eduardo Moura se elegeu prefeito de Patu e o nomeou para ser uma espécie de assessor de imprensa da prefeitura. Como não existia rádio em Patu, foi montado um programa que ia ao ar através do serviço de som da igreja católica, com grande audiência na comunidade. Na primeira viagem do prefeito, ele se esmerou na divulgação: informou o horário do vôo, a companhia aérea, o número da poltrona, etc., etc. Dia seguinte, o prefeito telefonou comunicando que a aeronave sofrera uma pane muito séria entre Recife e Fortaleza. O assessor não perdeu tempo: colocou no ar um dobrado militar e passou a detalhar o fato pela amplificadora. No final do relato, já emocionado dizia: "O nosso prefeito se comportou como um verdadeiro herói; em momento algum demonstrou medo; suava muito; tremia muito; sua face empalideceu, teve náuseas, mas não chegou a chorar, apesar de sentir nó na garganta. Finalmente quero enfatizar que a palavra medo não existe no vocabulário do nosso prefeito." Não precisa dizer que o relato dúbio e hipócrita do assessor provocou na cidade incontornável crise política.

 

04) Mossoró foi a Pasárgada do prefeito Dix-Huit Rosado. Seu encanto, fascínio e sedução. Nessa época, ele era o seu alcaide o domador da fúria das águas do rio Mossoró que nas invernadas inundavam parte da cidadela. Implementado o seu projeto de dicotomia do rio Mossoró julgou superado o problema das enchentes definitivamente. Mas, como era do seu espírito indômito, na época do inverno, permanecia vigilante caminhando altaneiro pelas margens buscando notícias de chuvas caídas na região da tromba do elefante. Numa tarde, João de Malaquías, vigia dos depósitos das lojas Checernay que ficavam próximos ao rio Mossoró e pastorador primeiro dos anúncios de enchentes, foi assim interrogado pelo prefeito Dix-Huit: "Alguma notícia João, de águas provindas do município de Pau dos Ferros?". Na sua sapiente humildade, João de Malaquías foi profundo: "Não dá prá saber Dr. Dix-Huit, porque as águas estão chegando misturadas..." 

 

08 de Novembro de 2013 às 12h17

RESENHA E DESAFIOS DA CULTURA POTIGUAR

A crise que atravessa a atividade cultural do Rio Grande do Norte não é uma questão de numerologia. A visível decadência tem sido causada principalmente por modelos enganosos de gestão. A começar pelo próprio Ministério da Cultura que tem aplicado minguados recursos do seu orçamento em produtos e eventos que nada têm a ver com bens culturais móveis e imóveis. No nosso Estado os projetos são acanhados, canhestros e ocupam as últimas prateleiras da oferta governamental.

Falta, de início, uma política efetivamente cultural. Não  a censuro por culpa unicamente dos dirigentes, mas da confecção do orçamento, onde a cultura sempre ocupa o rabo da fila das prioridades.

O "corredor cultural" da cidade de Natal que vai da Igreja do Galo na Cidade Alta, passando pelos seguintes monumentos tombados: Museu Câmara Cascudo, antiga Catedral, Instituto Histórico, Palácio Potengi, praça André de Albuquerque (marco histórico da fundação de Natal), Museu Café Filho, sede da prefeitura (o véu da noiva), a antiga sede do Tribunal de Justiça, já descendo a antiga Junqueira Aires, a Casa de Câmara Cascudo, a antiga "A República", o Solar Bela Vista, o casarão João Galvão, a velha Escola Doméstica, a antiga Faculdade de Direito, o Teatro Alberto Maranhão, não existe nesse chão de antepassados, uma ação permanente de revitalização e preservação.

E ganhando o bairro da Ribeira até a Rampa (somente agora atendida), depreende-se que Natal é rica em história mas paupérrima em sensibilidade.

Em 2014, fala-se mais em Copa do Mundo do que em eleição. Até casamentos têm acertos para durante e/ou depois da Copa. Mas, no plano histórico/cultural o perfil do turista somente é enxergado e dirigido para as dunas e litoral. Só desembarcarão aqui, banhista e vilões dos estádios madrilenhos e britânicos?

A programação de eventos culturais semanais é domingueira e gospel, porque não existe dinheiro para fazer mais. Tudo é circunstancial, apesar dos ingentes esforços da Secretaria da Cultura.

As Casas de Cultura no interior do Rio Grande do Norte foram praticamente abandonadas. Poderiam abrigar manifestações culturais importantes de inúmeros municípios, todavia - muitas delas viraram pardieiros.

Outro desafio importante é a praça Padre João Maria que se transformou em um camelódromo, que agride o "corredor cultural". E bem próximo dali o tradicional e histórico "Grande Ponto" foi desfigurado pelo comércio de "cigarreiras" e outras poluições visuais.

Outro desafio para a Copa e depois dela, é que não temos museus organizados que restituam a nossa história. O do IHGRN está misturado com documentação, livros e jornais. No momento, há nove meses, período de uma gestação, ainda não foi recebida a dotação de duzentos mil reais colocada no orçamento de 2013.

O IHGRN objetiva, por exemplo, restaurar o prédio de 1906, construído pelo então governador Tavares de Lyra. A instituição tem cento e onze anos de fundada. A sua rede elétrica interna corre risco de um iminente incêndio, por carecer de nova fiação elétrica para receber climatizadores e aparelhos de informática.

Dentro do edifício patrimonial estão entulhados três séculos e meio de documentos históricos do período colonial, imperial e republicano. São mais de cinquenta mil títulos expostos ao perigo do fogo. Há desafio maior?

Por último, urge mencionar que "a cultura é o que permanece quanto tudo o mais passar". Não há atividade mais nobre do que essa.

 

01 de Novembro de 2013 às 12h15

A ILUSÃO DOS ASES

Macaíba possuiu muitas casas de jogos. Da proibida roletagem ao jogo de baralho. Esse último pontifica até os dias de hoje, em pequenas casas freqüentadas por modestos aficcionados, principalmente nas travessas que dão acesso a rua Dr. Francisco da Cruz (Cinco Bocas). O "jogo do bicho", por exemplo, era representado por Cabecinha e Pirralha, remanescentes de antigos cambistas como Zé Leiteiro, Lupicinio Araújo, José Solon, Pedro Pixilinga, entre outros. Mas, a banca freqüentada pelos "endinheirados" de Macaíba dos anos cinqüenta aos oitenta era a de Manoel Samuel de Araújo, localizada à rua João Pessoa onde residiu Jorge Leite da Costa, proprietário de um bar (hoje Panificadora Industrial do comerciante José Nilson). Nesse local também funcionou uma importante "casa de jogo de tavolagem e baralho", habitada por políticos, comerciantes, funcionários públicos e até delegados de policia. Era uma casa globalizada de ansiosos poliglotas.

A de Samuel foi a que mais durou sem esquecer a primeira que operava nos fundos do antigo bar de Zé Distinto, o famoso Zé Fradinha. A casa de jogo do Samuca, figura simpática e respeitada, era uma verdadeira Arca de Noé. Lá "baixaram" as mais polivalentes personalidades que buscavam no carteado os momentos de lazer e de ilusão que a mística do baralho oferecia sem nunca enriquecer ninguém. Leonel Mesquita, Alfredo Mesquita, Magno da Fonseca Tinôco, João Justino Filho, Luiz Tomaz do Nascimento, Severino Tavares, Pedro Cascudo, Omar Vilar de Queiroz, Francisco Falcão Freire, Chicaca e Tião (marchantes), José Álvares, Pedro Álvares (Pedroca), Genésio Rocha, Pedro Luis de Araújo (Mestre Pedro), Sinval Azevedo (gerente da Nóbrega & Dantas), Francisco Pereira dos Santos (Chico Cobra), Belchior, todos servidos pelos garçons Luis Bicho Feio e Tota Passarinho.

Essa atividade refletia uma situação econômica e social que Macaíba viveu em mais de três décadas. Depois, houve um declínio. Samuel adoeceu e quando veio a falecer com ele viajou todo aquele mundo de diversão, de encontros e desencontros. Até porque, antes, foram desaparecendo paulatinamente os seus fiéis habitantes, o que enfraquecia sobremaneira o quadro social da casa, o fluxo e o contrafluxo dos investimentos da sorte.

Na memória guardo a fisionomia e os gestos de todos os náufragos desse rio que passou pelos olhos de minha vida de menino e adolescente. Até alguns fatos hilários guardei como relicário de espertezas, cacoetes e sortilégios dos seus humaníssimos protagonistas.

Lembrei-me de João Justino que sempre anunciava, após "alisar", a existência do seu touro "Portugal", reprodutor afamado, que passaria doravante a cobrir suas apostas. Isso dia após dia, mês após mês, sem que nunca dele, na verdade, se comer o churrasco. De Alfredo Mesquita que jogava barato e, certa tarde, para fugir aos estresses da política, procurou e não achou parceiro. Ao ver o cabreiro de jogo Belchior a um canto convidou-o: "Seu Mesquita eu não tenho uma prata", respondeu o profissional. "Eu empresto e vamos jogar", retrucou. O velho perdeu, Belchior capitalizou-se e ainda se deu ao luxo de "gozar" o parceiro. Inopinadamente, recebeu uma baralhada nos peitos com uma exclamação indignada: "Tá bêbado, seu f.d.p, eu empresto o dinheiro para você jogar comigo, perco e ainda sou levado ao deboche?". O jogo terminou mas Mesquita perdeu o que emprestou. Aprendeu que no jogo de baralho não existem esportividade, amigo e nem eleitor que se preze.

 

25 de Outubro de 2013 às 12h24

ALGUÉM ME DISSE

01) A Bíblia preceitua que "não se deve jogar pérolas aos porcos". De outro ponto, lemos que "o homem é produto do meio". Daí, conclui-se que não é bom sermos muito culto para com os incultos, nem sermos incultos para os cultos. O então governador Cortez Peireira curtia esse propósito. Demonstrava a sua cultura onde quer que estivesse. Certa vez, falando aos colonos da sua querida Serra do Mel, em dado momento, salientou de forma persuasiva: "Segundo um filósofo alemão, "o homem não é nada além daquilo que a educação faz dele!"". Chico Josino, líder emergente turrão da Serra, cochichou com o vizinho ao lado: ""Num seio"" bem o que ele "falô". E "ole" que eu já puxei "treis vêz" a manga da camisa dele para pedir um negócio e ele nem olhou para mim. Deixa ta, "bichim"!". Cortez tinha razão: Josino ali era o próprio brutamontes.

 

02) A sede do PMDB, recentemente, era o que podia se chamar o "Ninho Bacurau". Novos e velhos, encontros e reencontros. Tinha aluizista para todos os gostos. Esperavam sair, o nome a ser trabalhado para o futuro governo. Garibaldi ali não era ministro. Era simplesmente "Gari. Nosso governador!". A aclamação foi geral. Em sua fala, o senador foi enfático: "Esqueçam meu nome. Já dei a minha contribuição!". Nesse momento, Chico Araújo, prefeito do município de Espírito Santo, bacurau usucapiônico, emocionado e quase em lágrimas, levantou-se no meio da multidão e bradou: "Ministro Gari, pelo amor de Deus, atenda nosso pedido, nosso apelo! Não é só o Espírito Santo que pede. Nós estamos todos órfãos!!".

 

03) O velho líder de Grossos, Raimundo Pereira, perdeu a eleição mas não perdeu as forças pra lutar. Tão logo o eleito assumiu, Raimundo ergueu uma forte frente de oposição. Afinal, a maioria foi mínima. O velho não se conformava. Na praça foi montada uma confusão que ele (Raimundo), chamava de trincheira da verdade. No cancioneiro popular surgiu uma marchinha, que, em um trecho, dizia: "Se disser pega ladrão, não fica um meu irmão...". E era esse o prefixo do programa de Raimundo Pereira. No entando, Zé de Bilau, vereador da situação, não conseguindo o que pretendia, abandonou o prefeito, passou para o lado de Raimundo. Como o Zé de Bilau não era lá tão honesto, a turma do prefeito dizia que o prefixo caía bem na carapuça do vereador. Zé de Bilau, certo dia, foi a casa de Raimundo e sugeriu: ""Cumpade" Raimundo, que tal "nóis" modificar a abertura com outra música: "... Ladrão que rouba ladrão, não merece castigo...".

 

04) Padre Antas, era vigário bonachão de Santana do Matos de quem se dizia haver nascido além do seu tempo. Sempre que viajava para Natal, fazia uma breve parada em Angicos onde trocava idéias com o seu irmão e vigário local padre Pinto. Antas era totalmente o avesso do mano angicano. No velho jeep, ele trazia sempre uma sanfona, que, dedilhava muito bem e em chegando iniciava logo um forró em família, junto com os alunos internos. Padre Pinto, não adepto da liberalidade do Irmão de Ordem, ressalvava: "Eu não acato isso. Eu proíbo certas coisas!". Antas, respondia: "Logo você, que é o melhor francês do nosso clero! Veja bem: Montaigne dizia que "proibir algo é despertar o desejo". Por isso é que vemos tantos meninos de quinze, dezesseis anos, todos com "calos" na palma da mão, naquela famosa luta desigual de "cinco contra um"!". Padre Pinto, mudava logo de assunto: "A propósito, a que horas você viaja?".

 

18 de Outubro de 2013 às 10h31

O PODER DO VERBO E DA VERBA

01) Antonio Rodrigues de Carvalho foi tudo o que quis ser em Mossoró. Inteligência ímpar, Toinho - como gostava de ser tratado - pretendia mesmo advogar. Coisa que fazia com maestria e prazer, quase sempre de forma gratuita. Certa feita, foi ao fórum onde defenderia um pobre coitado. Na acusação, funcionava um advogado oriundo de Fortaleza que pousava de importante. Toinho, cheio de "meropéia", pouco ligava portar-se amarrotado e descabelado. O causídico almofadinha, querendo tirar partido da situação, ironizou: "Peço desculpas ao meritíssimo juiz e aos senhores jurados por estar constantemente usando o lenço. É que o cheiro etílico aqui é muito forte e eu não tenho o hábito de conviver com tal coisa." Instante depois, usando o seu tempo, Toinho, devolveu: "Quero pedir licença ao meritíssimo juiz, para me deslocar até o WC. Apenas para lavar as mãos. É que na entrada desta Casa de Justiça tive que cumprimentar o nobre advogado e ao passar a mão no seu paletó, ele impregnou em mim um cheiro horrível daquele inseto onívoro, que não quer largar o meu olfato apurado. É comum essa catinga nas roupas de quem assim se veste de ano em ano".



02) Numa solenidade no Cine-Teatro Cid em Mossoró, o então prefeito Raimundo Soares, explanava sobre certo assunto e lá para as tantas, citou um pensador: "Donald Adams, estudioso americano mencionou um dia que nada é mais vivo do que a palavra!'. Diante da eloquência de doutor Raimundo, a platéia explodiu em fervoroso aplauso, por sabê-lo bom orador. José Andrade - o Zé Gago, rindo, debochando, falou ao vizinho do lado: "Eh, eh, eh, esse tal de Ad, Ad, Adams, nã, não conhece Aluízio Alves. Vi, vivo, é ali".



03) Se existe uma figura que faz jus a um busto na praça pública de Campo Grande é Mané Mocó. Em termo de política partidária, Mocó foi a fidelidade personificada. Sempre repetia: "Meu voto é de Aluízio. Voto até contra meu pai se Aluízio mandar". O governador sempre que chegava a cidade, sua primeira visita era ao seu "vereador sem mandato": o fiel Mané Mocó. O tempo passou, Aluízio queria eleger os seus gêmeos Henrique e Ana Catarina. O povo fazia a guerra: "E agora Mocó? Aluízio não é candidato!". Ele respondia de pronto: "Não voto em ninguém!'. Nas famosas carreatas, Aluízio chegou a Campo Grande. Grande expectativa. O governador em reunião, falou: "Mocó, estou dividindo meus votos com Ana e Henrique. Quero que meus amigos aqui, votem em Ana Catarina. Se você é meu amigo?...". Mané Mocó, interrompeu. Sentia-se injuriado pelo que dissera. Em plena reunião, tirou a camisa com o nome "Aluízio", vestiu a camiseta de Ana e foi para casa, cabisbaixo e debaixo de chacotas. Apenas, uma disfarçada mudança de hábito.



04) O major Theodorico Bezerra dispensava o maior zelo ao seu eleitorado da região do Trairi. Certo dia, o vereador Joca de Simão procurou o velho líder para reivindicar: ""Majó", eu venho lhe "torná" ciente que vou ser o candidato a prefeito". Theodorico surpreso, ponderou: "Compadre Joca, aqui quem decide sou eu. E já tenho em mente quem será o nosso prefeito. Vai ser Josias. Ele está mais preparado para o cargo". "Eu também", disse Joca. "Cinco "vêis" "veriador". Ta bom demais. E tem mais: se o "sinhô" quiser eu vou, se não quiser eu sou!". E fechando a indignação, desfechou: "O risco que corre o pau, corre o machado!". Theodorico franziu o cenho com aquela calma peculiar, fechou o firo: "Olhe, aqui não tem risco nem pau. E o machado se encontra na minha mão. Você tem oito dias para pensar e afastar essa rebeldia. Volte aqui, depois, para me dizer que tirou essa doidice da cabeça. Até mais vê compadre Joca". O major não admitia "trairagem" no Trairi.

 

11 de Outubro de 2013 às 11h22

ESTRIPULIAS INTERIORANAS

01) O vereador Gladstone Maia, nos lembra um fato ocorrido no seu município, Encanto. O IBGE promovia na região o seu trabalho de estatística. Uma mocinha, devidamente identificável com cara, crachá e tudo, batia à porta de uma casinha na zona rural. Um idoso, respondia as questões. Sentado num banquinho, o velho, pouco ligava que estavam expostas suas partes íntimas. A moça indagou: "Essas quatros crianças são suas?". "Não. São netos. Minhas filhas ganham o mundo e eu cuido deles", disse o entrevistado. "Como o senhor sobrevive com um salário mínimo?". "Ora, eu compro três caixas de ovos, um fardo de cuscuz e pronto. Dá pro mês". Um dos garotos passando duas vezes entre os dois, avisou: "Vovô, seus testículos estão à vista". O velho se "arrumava" mas não tinha jeito. O bicho arriava. Terminada a entrevista, a moça agradeceu e sublinhou: "O que eu mais gostei foi a educação que o senhor dá aos meninos. Se expressam bem. Gostei da "lembrança dos testículos". Parabéns seu José!". "Pois é minha filha... se eu disser que aquilo também se chama ovo, eu corro o risco de amanhecer capado", disse o velho Zé.



02) O então deputado Arnóbio Abreu, considerava o poeta Renato Caldas como grande aliado. As "duas sombras" simpáticas rendiam dividendos eleitorais. Numa manhã de sábado, passeavam os dois pela feira livre de Assu e entre acenos e apertos de mãos, consolidavam os apoios. Um feirante aproveitando a passagem de ambos frente à sua banca, onde vendia batatas, assim falou: "Renato, diga uma loa com minha mercadoria. Quem sabe melhora as vendas!". O poeta, com a mão esquerda pousada no ombro de Arnóbio e com a direita, segurou uma batata bem volumosa e glosou: "Batata, batata doce, essa é boa e o povo gosta. Um quilo desta batata, produz dois quilos de bosta". Os que estavam em volta riram. O deputado também rindo, quis saber: "Renato, o que tem isso a ver com a minha campanha?". O poeta-gozador respondeu: "Batata e política é a mesma merda....!".



03) No passado se dizia: "Se ficar, o bicho come. Se correr, a bala pega". Zé Ambrósio, sujeito truculento, só pelo fato de possuir uns dez moradores em suas terras, entrou na política, contando com o apoio do então deputado Valmir Targino. Zé foi eleito vereador e aí a coisa piorou. O velho revestido de "otoridade", acabava até com a feira. Era só não gostar dos preços. Certo dia, chegando à casa do prefeito, seu correligionário, foi logo lhe dizendo, no momento em que conversava com o padre de Janduís: ""Cumpadre" prefeito, eu tava na feira e o cabra Josino tava falando do "sinhô". Eu não aguentei  e dei-lhe um tiro!". O prefeito baixou a cabeça e pôs a mão na testa. O vigário ficou horrorizado e exclamou: "Meu filho! O que é isso? Você errou?". O vereador Zé Ambrósio replicou de pronto: "Errei o quê?! Acertei no "mei" da testa. Ele tá lá, mortinho da silva".



04) Final de tarde e fim de sessão na Câmara Municipal de Mossoró. Expedito Mariano expelia toda sua irreverência sobre o suplente do PMDB, Altivo Paiva. "Você bem que pode ser lembrado pelo seu partido para um posto nas docas, lá no cais do porto. Você é forte, tem a cabeça grande, o pescoço atarraxado..." Ai alguém interrompeu o orador: "E isso é sinal de inteligência para assumir uma direção?". O gozador Expedito consertou o aparte repentino: "Não falei em direção. Esse bacana aí pode ser aproveitado para carregar fardos para os navios". Altivo olhou o parceiro e devolveu o desaforo: "E a senhora sua avó vai estar por lá, entregando as portarias né não?!". Que os vereadores mossoroenses não se preocupem com o fato. No Supremo Tribunal Federal o debate é muito pior do que esse.

04 de Outubro de 2013 às 12h00

FIGURAS INESQUECÍVEIS

01) Zé Jeep era engraxate, tocador de trombone e palhaço dos pastoris suburbanos de Macaíba. Figura lírica que chamava a atenção pelo seu pequeno porte de um metro e meio. A sua cadeira ficava na rua João Pessoa, centro. Vez em quando, era flagrado em imperturbáveis cochilos, frutos da boêmia noturna. Gostava de beber mais do que podia e cabia o seu invólucro corpóreo. Certa vez, tocava num bloco carnavalesco de assalto que visitava a casa do então prefeito Alfredo Mesquita, de quem era correligionário, e colocou-se ao lado do seu líder soprando forte o trombone para impressionar. De repente, Zé Jeep deixou escapar um ruidoso estampido intestinal. O velho político não dispensou o comentário: "José, o seu trombone tá vazando som desnecessáriamente". A grande performance da sua vida, gravada na memória de tantos que o conheceram, não foi somente a do engraxate, ressacado, mas a do pequenino homem da noite pobre dos pastoris da cidade, que entre dianas, pastoras e contramestres, sustentou a alegria brejeira, limpa e simples dos humildes, da periferia, que hoje não se vê mais. Zé Jeep faleceu há cerca de quarenta anos passados.




02) Manoel Guedes da Fonseca Filho foi farmacêutico. Filho de São Paulo do Potengi, estabeleceu-se em Macaíba, elegendo-se vereador várias vezes pelo seu espírito solidário e prestativo, principalmente em relação aos mais pobres. "Guedinho", como o chamavam na cidade, era dotado de permanente bom humor, brincalhão e se realizava quando o convocavam para atender um doente pobre da periferia da cidade. Comerciante, vivia em dificuldades financeiras porque não recebia dinheiro de quem não pudesse pagar o remédio. Faleceu de repente, numa manhã clara, em plena farmácia, assistido pelos familiares e amigos. Guedes deixou uma imensa saudade e inúmeras histórias bem humoradas, entre elas, a de Zé Buchudo, antológica, que vale a pena contar de novo. Zé Buchudo era um comerciante, proprietário de um pequeno açougue, nos fundos do mercado. Certa feita, numa dessas manhãs chatas da cidade, foi convidado pelo farmacêutico Manoel Guedes e patota a empreender uma viagem de circunavegação pelos bares da cidade. Guedes, capitão de longo curso, dirigiu logo a nau dos insensatos à cidade de Parnamirim, onde ancoraram no famoso cabaré de Tibinha. Desnecessário dizer das abluções profundas e repetidas ate à hora vespertina, quando pressentiram que o náufrago Zé Buchudo havia mergulhado a estibordo, em abismal sono etílico. Retornaram a Macaíba e entregaram a domicilio, em pré-coma, o que restou do nosso herói. Estirado no sofá da sala, Zé Buchudo sobreviveu a todos os exercícios de ressurreição ministrados pela esposa e filhos. Findos alguns minutos, aí então veio a cena patética: Zé Buchudo abriu os olhos, viu a esposa inclinada sobre si, soltou a catastrófica exclamação denunciadora: "Mas, fia que é que você está fazendo aqui no cabaré de Tibinha?" Depois dessa, Zé Buchudo era a imagem do próprio cristão trucidado.




03) Zé Bomba, apelido comum que podia está associado ao do posto de gasolina ou ao popular soltador de traques juninos das ruas e das praças. Não. Zé Bomba era alcoólatra contumaz que vagava por Macaíba proferindo discursos de esquina em esquina. Os temas eram comuns, mas a entonação de voz parecia com a de Aluízio Alves e chamava a atenção dos ouvintes, nos anos sessenta e setenta, acostumados à sonoridade vocal do ex-governador. Mesmo sem dizer nada, falando vago, vazio e vadio, Zé Bomba foi um boêmio sem freios, orador e plantonista de todos os dias e noites, às vezes, sozinho, falando às estrelas. No aceso dos períodos eleitorais, Zé Bomba vestia-se de verde para caracterizar melhor a sua performance oratória. Nas passeatas carregava imensos galhos verdes com os quais gostava de parar em frente à casa das "araras". Na maioria das ocasiões, quando não saia agredido, levava um banho completo de águas poluídas. No final dos anos oitenta a saúde de Zé Bomba começou a emitir sinais de fraqueza. Emagrecida, a patativa macaibense recolheu-se a sua casa à rua Dr. Pedro Matos (Aliança). A voz já não atendia mais os impulsos do orador candente e cadente. O álcool devorava-lhe o fígado velho de guerra. O guerreiro ensarilhou as armas: aguardentes, nunca mais. Aposentou-se. Jovem gastara a saúde, o físico e o tempo. Hoje, no silêncio da noite, quando a voz errante de um ébrio triste ecoa nos becos, quem está em casa relembra Zé Bomba, o discurso que ficou, o boêmio que se fez ouvir.

 

27 de Setembro de 2013 às 12h32

NOS PORÕES DA MEMÓRIA

Eu me lembro, eu me lembro das antiguidades como forma de renascer o espírito adormecido em todos nós. Não adianta enfrentar somente e sozinho o mundo novo das descobertas tecnológicas. É preciso, sempre que possível, retroceder ao tempo do "Melhoral", da "Emulsão de Scott", do "sal de frutas Eno" e do "Calcigenol Irradiado". Ah, o perfume do "sabonete Ross" no corpo úmido da namorada antiga. Aquele sorriso emoldurado pelo "batom Colgate" e o brilho nos dentes da "pasta Odol". Como eram mágicos aqueles dias do "óleo Glostora", da "pasta Colype" e da "brilhantina Coty". Não precisava de "Saridon" nem "Instantina" para dor de cabeça. Vivia-se forte com o "Biotônico Fontoura" e as "pílulas de vida do Dr. Ross". 

Eu me lembro, eu me lembro que tudo aquilo era um estágio esplêndido de ilusória felicidade. Como era gostoso o "Vinho Reconstituinte Silva Araújo". E o jingle: "A dor logo passa quando se passa Gelol". Na cozinha, a "Cônsul" a querosene, e na sala, o rádio a bateria fazia "reclame" do "sabonete Eucalol" patrocinador do programa "Balança Mas Não Cai", da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, e do programa de auditório do César de Alencar. Ah, os anos cinqüenta das novelas "O Direito de Nascer" e "O Vento Levou..." e a propaganda da "cera Parquetina", a "amiga da Etelvina". Que alegre retorno aos faroestes de Gene Authry, Roy Rogers, John McBrow, Durango Kid, Buck Jones, Hopalong Cassidy, Tom Mix ou os seriados do Capitão América, Batman e Robin, A Mulher Tigre ou a Deusa de Joba.

Em busca do tempo perdido me envolvo na fumaça da "Souza Cruz", dos Cigarros "Continental", "Astória", "Lincoln" e os mais baratos "Asa", "Iolanda", além do "charuto Valquíria". Um mundo velho de memória olfativa, vai, cada vez mais, me conduzindo às ternas lembranças do "almanaque Capivarol" ou o da "Saúde da Mulher" que recomendava o "Regulador Xavier": número 1, excesso e número 2, escassez, para aqueles dias do sexo frágil. Relembro as aguardentes "Dois Tombos" e "Olho D'água" e os não menos famosos "Ron Merino" e os conhaques "São João da Barra" e "Macieira", que eu misturava no leite cru, ao pé da vaca, para curar tosse, bronquite e resfriado. E o "talco Palmolive", o "talco Gessy", o sabonete "Vale Quanto Pesa" que era "grande, bom e barato" e não são mais fabricados como antigamente. Sapato era "Fox, bico fino". 

A farmacologia era abundante e que hoje não se vê mais nas prateleiras: "Iodone Robin", "Maitenil", "Gotas de Carvalho" (ainda existe?), "Takazima", "Bromil", "Alcachofra", "Chophitol" (que ainda existe), "Mezarin" e tantos outros que só uma pesquisa pode me acudir. 

O fato é que esse universo de produtos, imagens, e equipamentos desaparecidos registram uma época, balizam um tempo que foi modificado por novas invenções e tecnologias. São marcas que se foram, substituídas pelas descobertas e mudanças de um mundo que se renova. Vale a pena registrar porque todas essas coisas impregnaram a vida de muitos, hoje maiores de cinquenta anos.

 

20 de Setembro de 2013 às 12h21

POLÍTICA É CIRCUNSTÂNCIA

01) A política sempre foi pródiga de segredos sondáveis e insondáveis. As revelações nem sempre acontecem nos grandes momentos das gentes e agentes, mas nascem da rotina de fatos miúdos da política interiorana, fruto da observação paciente e anônima. Precisou uma tarde longínqua do ano da graça de 1962 para conhecer e decifrar dois temperamentos políticos, e mais do que isso: demasiadamente humanos. Refiro-me aos ex-governadores Dinarte de Medeiros Mariz e Tarcísio de Vasconcelos Maia, ambos candidatos ao senado da república. Campanha difícil com cinco disputantes para as duas vagas. O cenário era a rua Francisco da Cruz, centro de Macaíba, onde o líder local, prefeito Alfredo Mesquita Filho, os esperava para jantar e, em seguida, comício. Foguetões, bandeirolas, algazarras, banda e o refrão da música do momento: "Foi o próprio povo que chegou à conclusão, o velho tinha razão, o velho tinha razão". No ar, um cheiro de combustão, de carbureto, digno do melhor pastoril. A ala moça numerosa, trajava um vermelho vivo, da cor da paixão e do ódio dos litigantes. Dinarte e Tarcísio, no meio do povão, desmanchavam-se em beijos e abraços festivos. Foi aí que notei um contraponto: o velho senador era mais entusiasticamente saudado pelo povão e Tarcisio pelo mulheril embevecido com seus ademanes corteses e disciplinados. Deduzi, como espectador atento da cena, no senso dos meus vinte anos, que Dinarte Mariz tinha carisma tanto quanto razão, e, Tarcísio, infundia mais glamour tanto quanto impressão pessoal. Pensei que ali, havia matado a charada dos dois, o segredo individual da conquista do voto.  Mas a festa continuou. Após o jantar os candidatos se dirigiram ao palanque armado nas "Cinco Bocas", confluência de igual número de ruas, sob o calor de novas manifestações populares. Postei-me estrategicamente para ouvir os discursos sem abandonar as conclusões preliminares que foram robustecidas durante a refeição. Dinarte continuaria a se constranger por não querer parecer ou ser tratado como mais velho que seu parceiro? Não sei, não sei. Seria tudo criação de minha mente indagativa e curiosa? Mas, logo veio a resposta. Ao ser anunciado para falar, antes de Dinarte, que, por ser o líder, sempre encerrava as concentrações, Tarcísio quedou-se maravilhado com os suspiros e gritinhos juvenis da brava ala moça macaibense. Aí fendeu o ar como um relâmpago logo na primeira exortação: "Saúdo as meninas, de vermelho e branco, namoradas, neste reencontro em Macaíba... eu e o veeelho!!..". 

02) Comício em Brejinho, terra do folclórico ex-prefeito Avelino Matias, vulgo "Meu Pai". Avelino discursava inflamado no palanque: "Nós vai melhorar a educação do município. Agente vamos melhorar a saúde do povo de Brejinho.  Agente vamos trabalhar pelos mais pobres e nós vai ajeitar as estradas". Nisso, a sua filha, prefeita do município, ao seu ouvido, resolveu corrigir: "Pai, empregue o plural". Aí Avelino soltou-se todo: "Nós vai arranjar emprego por plural, o pai do plural, a mãe do plural, pra famia toda!!". Foi pior. 

13 de Setembro de 2013 às 10h41

QUANDO AS APARÊNCIAS ENGANAM

01) O Recife boêmio do final dos anos sessenta para o começo da década de setenta não se apagou da memória do então universitário de medicina Alcimar Torquato de Almeida. O bar do Derby foi o quartel da resistência da turma de estudantes da época. A frequência tornou-se matéria curricular. Uma ida a Recife, Alcimar sempre incluía uma passagem pelo Derby para matar a saudade. O tempo passou. Alcimar foi clinicar em Mossoró e elegeu-se deputado estadual pelo Oeste, chegando à presidência da Assembleia Legislativa. Na gestão de Tarcisio Maia assumiu o governo e enfrentou a primeira barra: ir a Recife participar da reunião da SUDENE como primeiro mandatário do estado. Governava Pernambuco o irrequieto e ruidoso governador Moura Cavalcante. Qualquer visita federal ou interestadual a sua Recife, ele armava um ostensivo esquema de segurança e assim aconteceu com o governador em exercício do Rio Grande do Norte Alcimar Torquato. Era a moda. Ao descer no aeroporto dos Guararapes, Alcimar entrou num automóvel oficial preto com batedores e sirenes em alarme. Perguntado sobre o roteiro, Alcimar sugeriu uma ligeira parada no bar do Derby. Era o seu prazer cósmico satisfeito. Barulho, buzinaço, aí o bairro entrou em agitação. Povo à porta das casas e no bar os garçons aflitos pensavam no pior quando viram o carrão estacionar. Desce o "maguinho" - como é chamado na intimidade - , acompanhado do militar ajudante de ordens. Aí o fiel garçom dos velhos tempos não conteve a preocupação: "Doutor Alcimar, o que aconteceu, o senhor está preso?". "Preso porra nenhuma, felá da puta. Eu sou o governador do Rio Grande do Norte. Bote logo uma aí que estou indo prá uma reunião!".

 

02) Com ternura, vale relembrar uma do saudoso Antônio Dantas ou Antônio Careca para os amigos. Toinho como diretor geral da Assembleia Legislativa durante muitos anos tornou-se imagem e semelhança dos gregos e troianos que habitavam a casa de José Augusto ao longo do tempo pela esperteza, pela raposice e até pelo talento de haver se tornado uma unanimidade entre os seus colegas. Certa vez, a renovação da Mesa do Poder Legislativo fez perigar a sua recondução ao cargo. O seu protetor deputado Alcimar Almeida viajara para descansar após reeleito e fugir, também, do assédio dos novos pretendentes ao cargo. O parlamentar armou uma eficiente estratégia para ficar incógnito e tudo daria certo, não fosse a matreirice de Careca, aprendida nos bancos universitários do PSD e da UDN dos velhos tempos. Procurou a bondosa mãe de Alcimar, única pessoa a saber do dia, hora e vôo do retorno do filho com a família. Inventou junto à senhora que Alcimar lhe pedira sem falta para ir aguardá-lo. E no desembarque, à noite, certo de que viva alma não lhe aguardava, com uma filha nos braços, o deputado escuta uma voz indisfarçável: "Seja bem-vindo, meu presidente!". Como se de repente, adivinhasse tudo que estava acontecendo, o "mago" não teve alternativa: "Boa noite, diretor". Estava confirmado no cargo.

 

06 de Setembro de 2013 às 11h49

TEMPOS ÁUREOS

01) O Ministro da Educação ao tempo de João Goulart, Júlio Sambaquy que gostava de pileques, estava em Natal. De pronto foi apresentado ao corpo docente da UFRN pelo reitor Onofre Lopes. Quando chegou a vez do doutor Pedro Segundo, professor e urologista, o ministro ao ouvir o seu nome murmurou: "Eu conheço esse nome não sei de onde". Resposta pronta do médico: "O senhor está me confundindo com o Imperador".

 

02) O grande e saudoso mestre Mário Moacir Porto se deparou certa vez, como promotor de Currais Novos, com uma cena inusitada. Conversava com o vigário local, em frente a farmácia, quando pela rua soldados do destacamento conduziam um pobre homem a prisão debaixo de pancadas. Apanhava sem piedade de "rabo de galo", um "equipamento sutil de persuasão" da briosa polícia militar daquele tempo. Indignado o padre e o promotor protestaram: "Não faça isso com esse cristão!". E o soldados continuavam o espauderamento. Num desabafo de indignação total, Mário Moacyr Porto ouviu do padre uma exclamação desesperada: "Mate-o logo, mate-o logo!". Da rua, caído aos pés dos militares, o preso respondeu: "Não senhor padre, do jeito que vai, vai bem!!".

 

03) O escritor e folclorista Veríssimo de Melo, o nosso saudoso Vivi, certa vez autografava placidamente o seu livro numa noite verânica e perdida da cidade. Nisso, se depara com o então major do Exército Cleanto Siqueira, seu amigo, para o procedimento de praxe. Autógrafo do acadêmico, presenciado por Diógenes da Cunha Lima: "Ao major Cleanto, herói de Monte Castelo e do Restaurante Universitário, oferece, Vivi".

 

04) O poeta e escritor Sanderson Negreiros é um permanente capataz dos mistérios circundantes da vida. Sabe perfeitamente que viver é extremamente perigoso. Certo dia, recebeu um telefonema do seu amigo e colega João Batista Machado indagando, como de costume fazem os profissionais da imprensa: "Alguma novidade?". Sanderson, exasperado e reticente: "Machadinho, tenho horror a novidade...".

05) Era o ano de 1970. Esboçava-se a nova equipe do governo Cortez Pereira. As especulações surgiam de toda parte. Numa manhã clara de dezembro, um matutino publica a foto e a notícia do primeiro secretariável do futuro governo: o compositor e professor Roberto Lima. A ala dinartista afanosa por novidades para informar ao seu líder, liga imediatamente para Brasília, através de Joanilo de Paula Rêgo: "Dinarte, temos novidade. Saiu o nome do primeiro secretário do governo. É um músico". "Um músico?", surpreso, interroga Dinarte. E com aquela voz arrastada do Seridó e fazendo esforço de memória para adivinhar, o senador pergunta: "É Paulo Lira?". Para quem não conhece, Paulinho era uma figura muito estimada e conhecida em Natal, da geração de Dinarte e tocou piano em inúmeras casas, cinemas, teatros e restaurantes de Natal. 

30 de Agosto de 2013 às 13h12

PARÁBOLAS POLÍTICAS

01) O deputado Valmir Targino visitava sua região, num período em que se desenhava uma seca. O parlamentar conversava com uns amigos no comércio de Janduis, quando chegou um moreno alto, seguido de umas quinze pessoas. "Deputado", disse o rapaz, "nóis aqui, vota no sinhô! Mais se o sinhô num der um sacolão a cada um, agora, ninguém vota mais!" Valmir fitou bem a todos, chamou o proprietário do mercadinho e ordenou: "Despache um sacolão para cada um deles, menos para esse rapaz aí", apontando para o "líder". Em seguida, virou-se para o moreno e deu uma targinada: "O senhor pegue o seu voto e coloque-o naquele lugar (citou o lugar) que eu não preciso dele para ser eleito!". Targino depois, comentou com um amigo: "Eu ainda saio da política por conta desse tipo de coisas." Profecia cumprida lá na frente. 

 

02) O moço Dix-Sept Rosado partia do oeste com obstinação e ousadia rumo ao palácio Potengi. O bairrismo era muito forte e as forças adversárias não aceitavam um "governador de Mossoró". A igreja católica não se pronunciava, pois seguia o preceito: os políticos cuidam do corpo, nós cuidamos da alma. O bispo Dom Marcolino era tentado pelos jornalistas a dar sua opinião e o velho pastor sempre saía pela tangente. Certo dia, um jornalista forçando a barra disse: "Dom Marcolino, só tem nós dois aqui. Por favor, se a eleição fosse hoje, quem o senhor aconselharia para governador?". Dom Marcolino sabiamente respondeu: "Meu filho, se eu Dix-Ser, você diz Maia...".  Meses depois, Dix-Sept Rosado Maia, foi eleito governador. 

 

03) Mário David Andreazza, quando ministro, visitou o Porto Ilha. Recepcionado por vários prefeitos da região salineira, um deles teve a idéia de levar dez crianças, cada uma com uma flor para o ilustre visitante. Ao receber as flores, Andreazza beijou uma das crianças e exclamou: "Que coisa linda! São naturais?", referindo-se as rosas. O prefeito Geraldo Alves aproximou-se e disse ao ouvido do ministro: "São sim senhor; mas eu vou registrar os bichinhos, depois..."

 

04) Luiz Porfírio, vulgo "Carrapicho", era um mulato, cria do velho Dinarte Mariz. Eleito governador, Dinarte trouxe para Natal o afilhado, que cuidaria dos jardins oficial. Com pouco tempo de cidade, Carrapicho empolgou-se com a farda e falou ao patrão: "Padrinho, eu quero "sentar praça" na polícia". Tanto insistiu que foi encaminhado para o batalhão. Menos de um ano, o afilhado reclamou ao padrinho: "O quartel não dá pra mim não. Todo mundo manda em mim... Quero sair de lá". O governador chamou um oficial para cuidar da dispensa do protegido. "Mas governador", ponderou o graduado, "esse rapaz jurou a bandeira à pouco; não pode ser dispensado". Dinarte retrucou: "Mas eu quero a dispensa dele!". "Desculpe, excelência, não pode...", repetiu o oficial, "um soldado fora, faz falta a guarnição". "Dispense o rapaz hoje e traga uma farda pra mim que eu fico no lugar dele! Agora pode?". O soldado Carrapicho foi dispensado, na hora....

 

05) Doutor Zé Leão, médico mossoroense, gozador por natureza, postava-se  na fila do cinema. De repente, chegou um rapaz e interpelou: "Doutor Zé Leão, por favor não se mexa." Zé Leão sentiu um choque. "Não é nada demais não", explicou o jovem, "é só um besouro daqueles fedorentos aqui no seu paletó". Em seguida, deu um capilé no coitado, que foi cair longe. Zé Leão devolveu: "Obrigado". O conterrâneo esperou um instante e falou: "Doutor dá prá o senhor arranjar aí dois contos para eu "enterar" a minha entrada?". Zé Leão olhou o moço e detonou: "Vá buscar o besouro e bote o bichinho aqui no meu ombro". 

23 de Agosto de 2013 às 10h48

É PRECISO DESARMAR OS PRESSÁGIOS

O conhecimento e as razões dos fatos da vida pública nós já temos. Mas, qualquer pessoa que procure entender é suspeito de estar contra eles. Não temos nenhuma idéia preconcebida sobre as pessoas e as coisas que nos rodeiam. Não serão as versões de terceiros que irão impedir que tenhamos nossa própria opinião. O orçamento estadual para 2013, por exemplo, foi tão convulsivo que não impediu que fosse desligado o redutor de ansiedades. Mas é isso mesmo, em estado depressivo foram criadas sinfonias, poemas comoventes e pinturas imortais. Da maneira como o legislativo concebeu e aprovou desembocou em questionamentos. Virou para o executivo potiguar um monólogo hameleteano: ser e não ter. Passamos a compreender que orçamento público é metamorfose. São constituídos de números cheios de contradições.

Não vamos exagerar a impressão de parecer medíocre, trivial, para ser popular. Quem absolve o político não é o povo, é a confissão. Na complicada arte de governar ser natural é a mais difícil das poses. Nenhum político e/ou empresário são suficientemente ricos para comprarem o seu passado. Quantos não podem dizer "nada anseio, nada temo - sou livre". Por isso, é que definem dinheiro como adubo: só serve quando espalhado. O escritor Oscar Wilde colocou na boca de um rico, a seguinte frase: "não quero ir para o céu. Nenhum dos meus amigos está lá". Ora, como no Jardim do Éden, Franz Kafka disse que "a mediação da serpente foi necessária. O mal pode seduzir o homem, mas não pode se transformar em homem". Delírio kafkeano, delírio, apenasmente...

O homem social hoje virou ambiguidade ficcional. Previna-se o leitor: não confundir amizade social com solidariedade humana. São manifestações caracterológicas do vivente completamente heterogêneas. O egoísmo, a acomodação, modificados pelo tom da luz reinante destruíram o sentimento cristão do mundo. O homem cresce, vive e morre numa jaula, limitado às imposições de sua vida miúda, repleta de frustrações e às circunstâncias. Há pessoas que pensam que não vão morrer nunca. Principalmente os que são ricos ou que, pelo menos, pensam. Assim imaginam muitos empresários, políticos, socialites, médicos, usineiros, juristas e outros nomes, renomes e pronomes suspeitos.   

Às vezes, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras no mais profundo silêncio e na mais abominável indiferença. A postura ante o mundo é de desamparo e desalento. Não há lógica própria nessa conduta centrada unicamente na anormalidade do desvio comportamental porque a amizade virou interesse, esbulho, vantagem, lucro.

E eu pensava nesse turbilhão do tempo, dos modismos, que o exercício da amizade fosse contínuo, mas é tão "imortal" quanto a hipocrisia de acreditar nos homens que integram as instituições públicas e privadas (culturais, políticas, empresariais etc). Daí deduzir que toda celebridade no Rio Grande do Norte quando não é célere e celerada. A corrosão cotidiana da busca pelo dinheiro e pelo poder enferruja com rapidez as "glórias e grandezas" de alguns profissionais que se julgam donos do mundo, quando pensávamos justos e coerentes. As mutações históricas dos valores da personalidade humana, ao que me parece, foram provocadas pela "revolução" dos costumes sociais, principalmente o comodismo, a apatia pelo semelhante, o medo de morrer, as fobias e a falta de religiosidade.

Aí, instaura-se um jogo de buscas. O coração desumanizado do selvagem habitante da cidade, que segrega o próximo jamais conhecerá qualquer modalidade de amor, principalmente na noite sem face e derradeira do ataúde, porque em vida foi ausente, insensível, reduzido à condição de bicho. Esse será o calvário do insensato, do que utiliza a amizade como negócio, como moeda de troca. Vai vagar como Caim na noite gelada do tempo sem jamais achar abrigo. Isso tudo porque desamou os frutos e deixou prevalecer os presságios.

 

16 de Agosto de 2013 às 07h59

GREGOS E TROIANOS (TRIBUNA DO NORTE)

01) Cortez Pereira com sapiência, dominava a palavra no oportuno tempo. Entendia que estava entre os dez governáveis do seu grupo. Todavia, suspeitava pelo temor advindo, que nove "convencionais" não perderiam a oportunidade de puxar o seu tapete e defenestrá-lo. Cortez crescia no conceito da opinião pública. Isso não era bom para os caciques. O calendário passava e estava próxima "a hora da onça beber água". A cúpula partidária estava reunida sob o comando de Tarcísio Maia. O nervosismo era patente. Tarcísio, manso feito cordeiro, alertou: "Daqui sairá o nome do nosso candidato! Espero que os demais abracem a luta como se o nome fosse o seu!". Vendo que Cortez estava à ponto de explodir, ele suavizou à sua maneira: "Cortez, tenha calma. Relaxe. Não medre com o barulho que fazem os maus nas ruas e praças". Este, levantando-se, foi direto e certeiro: "Faço minhas as palavras de Luther King: "Não me amedronta o barulho dos maus. Preocupa-me o silêncio dos bons!"". Dito isso, arrumou alguns papéis e retirou-se. O sobrenome do bolso do paletó era Maia, outra vez.

 

02) Aluízio não dizia publicamente, mas alimentava. Por outro lado, Dinarte não escondia o ressentimento que tinha de Aluízio. Sentindo a saúde declinar, o velho foi aconselhado pelos médicos a cultivar o repouso. Nesses dias, na fazenda Solidão, um grande amigo ponderou: "Dinarte, chega de rugas. Enterremos o passado. Que tal convidarmos Aluízio para um almoço e aí comemorarmos o dia da paz!". Dinarte olhou de lado e vaticinou com sotaque que Serra Negra: "Prefiro ir para o inferno sozinho que ir para o céu com ele!". Antes do interlocutor fazer algum comentário, emendou: "Eu quero é comer uma buchada de carneiro". O seu correligionário logo preveniu: "Você não pode comer essas coisas. Fazem mal a sua saúde". Dinarte, passando a mão na cabeleira grisalha, fitou o horizonte e respondeu: "Meu filho, o que faz mal é a fome".

 

03) O advogado Raimundo Soares dava inicio a sua campanha rumo a prefeitura de Mossoró. Além de grande orador, Raimundo contava com a força inconteste dos Rosados. O cigano Aluízio, com a "cara e a coragem", saía em defesa dos seus correligionários. Em noite memorável, Raimundo Soares proclamava na praça pública: "Qual o cacife que esse "cigano" tem para vir falar nas praças de Mossoró? Ele deve ter a memória fraca e suja". Dias depois, veio a resposta de Aluízio: "Ele (Raimundo) que se diz culto, peço que não lave a memória suja em seu rio de lama!".O rio Mossoró, que corta a cidade estava bastante poluído. Verdadeiro caos.

 

04) Os caciques da política davam a largada na corrida pelo poder, com palestras, reuniões partidárias, etc., etc. Esta seria a noite do então presidente do Instituto Nacional do Desenvolvimento Agrário - INDA, Dix-Huit Rosado, que sonhava ser governador do Rio Grande do Norte. Nas primeiras filas, um grupo de oposição de amigos, todos de agenda em punho, faziam anotações. Garibaldi Filho, jovem ainda, não perdia nada. Ao seu lado, sentou-se o marujo Agenor Maria, que se preparava ainda para debutar na política estadual. As perguntas e colocações de Agenor, enchiam a paciência do principiante jornalista. Dix-Huit, pensado mil anos luz à frente, trouxe à baila um assunto novo. Falava sobre material biodegradável. Agenor, já querendo cochilar, até porque não estava entendendo nada, cochichou ao ouvido de Garibaldi: "Vamos "simbora", pois "Dizuite" só fala em "biodesagradavel"! Arre égua!". 

09 de Agosto de 2013 às 11h36

LIÇÕES DE HUMILDADE

Alguns que se professam príncipes do modismo hodierno consideram as igrejas cristãs empíricas e falidas. Hoje, os maus costumes foram redefinidos como "direitos da minoria". No mundo erotizado pelo verniz da modernidade acreditam e defendem que ser inteligente ou intelectual significa subverter os valores morais e religiosos. Desconhecem que essa questão é tão antiga quanto o planeta. Trata-se da história da degeneração da raça humana desde quando ela perdeu para o pecado, pela desobediência, a Deus. Partindo-se da premissa de que Deus é o princípio de tudo, criador do céu e da terra, ser Aquele por quem clamamos na hora da dor - por que, atualmente, os que se dizem cristãos estimulam e promovem a dissolução dos valores fundamentais da família a favor do casamento homossexual?

Trata-se de uma modernidade de segunda mão, que remonta aos tempos de Sodoma e Gomorra. É preciso que a geração cética ou agnóstica que defende essas coisas aceite uma reconciliação com a inteligência. Nem Stalin, Hitler, Mão Tsé-Tung ou os fundamentalistas, ao longo da história da civilização, conseguiram destruir os ensinamentos da Bíblia. Não advogo a postura de censurar ou perseguir a prostituição, a impureza, a lascívia, a heresia, o homossexualismo, o lesbianismo etc., nas suas diferentes perfórmances, tanto públicas quanto privadas. Filio-me aos que utilizam para esses temas os remédios espirituais da caridade, da temperança, da assistência, do diálogo, da benignidade, da longanimidade e, principalmente, da fé. Tudo está em Gálatas 5.22, 24 e 25. A doutrina de Jesus Cristo sempre condenou as obras da carne. Os desvios de conduta profissional, política, educacional, religiosa, etc. - tais como as do sexo - podem e devem ser tratados à luz do Evangelho e da ciência humana, porque não há outro caminho.

Todavia, quando o Poder Público e segmentos importantes da sociedade divulgam e estipendiam as nuances e formas da pederastia, há de se convir, que não são um exemplo a ser seguido pela infância e juventude, já tão assoladas pelo perigo da droga e da pornografia. Na crônica escandalosa dos césares de Roma e de outras nações do mundo antigo, ninguém que cultivou e explorou a depravação dos costumes ou a profanação do corpo, teve fama duradoura ou reconhecimento uníssono da história. Foram tiranos, loucos e assassinos. Os erros, a leniência, as cisões, as carências e os cochilos do cristianismo durante o processo de mais de dois mil anos são atribuídos à própria falibilidade humana. Nem todos os seus protagonistas nos cargos diretivos da mensagem eram dotados do Espírito Santo. Muitas vezes o maligno sobrepuja e domina o fraco. Fraco de fé, de caráter, de formação ou de auto-afirmação. E até de cultura.

Aceitar o casamento de pessoas do mesmo sexo é inadmissível. Significa a destruição da família, que está consagrada na Constituição, nos códigos de Direito e em toda legislação pertinente. É crime contra a humanidade e a natureza. É violação à Bíblia e aos bons costumes. Por outro lado, atirar pedra nos que fizeram opção sexual diferenciada dos padrões éticos não representa o caminho ideal a seguir. A humildade do cristianismo e dos entes públicos em reconhecerem as falhas é o primeiro teste de paciência. Caem o homem e a mulher porque a sociedade, como um todo, não os ampara convenientemente. E, por isso, agora, algo tem que ser feito. Evoluir não significa atropelar postulados e conquistas eternas. A queda moral que o capitalismo moderno impõe à humanidade é ultrajante e desastrosa pela excessiva abertura às aberrações sexuais transformadas em caldo cultural pela mídia em todo o mundo. Tanto os católicos quanto os evangélicos sabem que a carne é podre e só o espírito vivifica.

Está na hora de todos meditarem sobre isso e se lavarem no tanque de Siloé. Que o momento difícil que o país atravessa, seja uma oportunidade de reflexão sobre o Salmo 11.3: "Se forem destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?". 

02 de Agosto de 2013 às 14h23

O DOMÍNIO DAS MASSAS

01) Ao assumir o governo, o monsenhor Walfredo procurava arrumá-lo como desejava. Muitos eram os problemas e por cima era preciso encaixar os amigos e correligionários de alguma forma. Certo dia, o sol já declinava no horizonte, tingindo de vermelho a verde alcatifa das decisões palacianas, quando entra na sala o valoroso causídico e deputado, líder do Oeste, Diniz Câmara. “Meu querido Diniz”, disse o padre levantando-se para os cumprimentos. “Estava lembrando do amigo para pedir sua ajuda numa secretaria do governo, lógico na sua área de atuação”. Diniz era um sorriso só. “Sente-se, sente-se”, convidou o governador. “Vamos conversar”. Depois de muito blá, blá, blá, o maneiroso sacerdote abriu o jogo: “Diniz, amigo, ainda bebe?”. Limpando as grossas lentes do óculos, Diniz respondeu: “Bom, eu pensei em fazer uma paradinha. Mas não posso fazer essa desfeita. Se for questão de três ou cinco doses, eu lhe acompanho.” O governador apenas tirou a piteira da gaveta e, enigmático, sorriu de leve.

 

02) O radialista José Janildo Belmont, o Jota Belmont, comandava as manhãs de Natal, com um programa tipo povão. Foi tamanho o sucesso pela rádio Cabugi que o grupo Alves deu carta branca para ele ir a Mossoró e lá ganhar a audiência do rádio local pela Difusora e principalmente, bater de frente com a rádio Tapuio, de propriedade do grupo Rosado. J. Belmont ganhou a simpatia das empregadas domésticas e das fábricas. No primeiro ano elegeu-se vereador. Fazia o programa “ao vivo”, em frente às fábricas; Era um escândalo à época. Os do contra diziam: “É uma baixaria”. Certa feita, já vereador, J. Belmont disse: “Esse é o programa da gentinha! Programa sem vergonha de ser feliz!”. No dia seguinte, a rádio Tapuio bradava: “Tá sobrando “sem vergonha” na rádio do Cigano lá de Natal. Eles estão exportando para cá!!”.

 

03)  Discorrendo sobre uma série de fatores, onde segundo ele, “o futuro já chegou”, o então governador Cortez Pereira empolgava os colonos e convidados na Serra do Mel. “Aqui, também jorrarão leite e mel! Desbravemos essa serra e dessa serra descerrará um futuro promissor. O Brasil é um país grande, buscando ser um grande país!”, sublinhava Cortez nos seus trocadilhos. Depois de muito fraseado domingueiro, o colono Chico Viana que já se sentia “o escolhido prefeito” do futuro município, comentava com um amigo: “Eu não entendi porra nenhuma o que disse o doutor Cortez. Será “qui” “num” dava pra ser mais “quilaro”?!”.

04) O saudoso amigo deputado e médico Arnóbio Abreu, bastante popular, não esquecia suas raízes e frequentemente visitava sua querida Assu. O deputado avistava os amigos e lembrava as peraltices de quando criança e adolescente. Certa vez, chegando à “calçada da fama”, casa do poeta Renato Caldas, deu as boas vindas e abraçou a todos. Renato resolveu falar: “Hoje minha conversa vai ser com o doutor Arnóbio. Quero aqui e agora uma consulta”. “Que é que há, amigo”, saudou Arnóbio. “O que você sente?”. O poeta irreverente, explicou: “Um doutor aqui diagnosticou que eu estava com problemas intestinais. Falou que eu tenho de tomar vinte injeções para dissolver uns nós nas tripas. Pensando bem, eu resolvi mandar buscar cinco litros d’água e tomar de uma vez para “ver se eu cozinho por dentro”. O que você me diz, Arnóbio?”. O deputado-doutor, pensou, pensou, e descobriu a gozação do poeta. “Renato vai a p.q.p. seu sacana”. O riso foi geral. 

26 de Julho de 2013 às 15h26

A VERVE DE BRITO

O ex-deputado, secretário de estado e ex-conselheiro do Tribunal de Contas Manoel de Medeiros Brito é dono de um repertório de histórias, nascidas do seu "fair-play", "savoir vivre" e bom humor. São necessários três idiomas para definir a extraordinária espirituosidade de uma vivencia tão rica de situações e fina hilaridade. O jornalista João Batista Machado que o chama de "Brito Velho", alusão ao ex-deputado federal gaúcho, possui um longo repertório e causos e acontecências colhidos ao longo de sua vida pública. Eis alguns:

 

01) Certa vez, estava no interior quando veio o apelo irresistível de uma cachacinha. O seu fiel escudeiro era Raul, motorista. "Raul", recomenda Brito, com parcimônia, "veja se encontra nesses botecos uma cachaça pelo menos razoável". Empreendida a busca, volta Raul com a recomendação protocolar: "Doutor Brito, tem umas mas não são de boa qualidade". Brito, sediço e aliciador, sentencia: "Seu Raul, ruim é não ter".

 

02) Brito é excelente apreciador da "pinga" nordestina. Degusta o precioso liquido como se fosse um príncipe do semi-árido. Como secretário do Interior e Justiça, gostava de integrar a comitiva oficial às reuniões da Sudene em Recife. E explicava ao jornalista Machadinho: "Eu vou porque lá é tudo muito bom e barato". Mas nunca perdia o paladar de uma branquinha. Na capital do frevo, encontrava sempre o amigo Raimundo Nonato Borba, chefe da Representação do Rio Grande do Norte junto a Sudene. Como é do seu hábito arranjou-lhe logo um apelido: Borba Gato. E no trajeto do aeroporto à Sudene, do banco traseiro Brito  avisava: "Borba Gato não se descuide de parar antes num boteco para eu beber um "rabo de lagartixa".

 

03) O Palácio Campo das Princesas, em Recife, era o local refinado nas reuniões da Sudene para os convescotes e rega-bofes, do mundo oficial do Nordeste. Num desses eventos gastronômicos, estava presente o então secretário da Indústria e Comércio do Rio Grande do Norte Jussier Santos, conhecido pela sua finesse, foi logo servindo-se de champion e sugerindo a Brito para provar aquela delicia. E esse responde de bate pronto: "Jussier, eu não como frieira".

 

04) Em outro almoço, alguém da comitiva oficial do Rio Grande do Norte provoca Brito ao avistar apetitosos camarões: "Brito, sinta o cheiro inconfundível". Este, com aquele olhar jardinense do Seridó corrige:  "IN não. Cheiro confundível!".

 

05) Numa conversa descontraída, perguntaram a Brito qual a sua definição sobre o casamento. De bate pronto, fulmina: "Uma ilusão gratulatória". De outra feita, Afonso, um dos seus motoristas da atividade oficial, recebeu dele um apelido que exprimia fielmente o significado de suas proezas de paquerador. Afonso era baixinho, entroncado, mas era querido do mulheril funcional que beirava a menopausa. E Afonso "passava" as gordinhas, mal-amadas, pernetas, num comovente "ofício de caridade". Sabedor de suas façanhas, Brito desfechou-lhe um apelido definitivo: "Areia de Cemitério". Come tudo.

 

06) Certa vez, um colega de governo, foi lhe pedir um conselho. Já se casara duas vezes e estava na iminência da terceira mulher. Brito cofia o bigode e alerta: "Cuidado Totó, você já é reincidente!".

07) Outro secretário de estado estava apaixonado fora do casamento. Num almoço, sapecou-lhe a pergunta: "Como está de arrumação?". Silêncio. Insiste Brito: "Deu no aro?". Resposta tímida do interlocutor: "Deu". "Então é separação consumada", vaticina Brito Velho de Guerra. 

19 de Julho de 2013 às 12h18

A VIDA COMO ELA É

01) O vereador Altivo Paiva (MDB), trocava de companhia como se troca de camisa. Num desses rodízios, engrampou-se com Amélia, cabocla valente feito cobra choca. Em Mossoró, era fase de "assustados carnavalescos" e o edil festeiro disse em casa que iria a importante reunião do partido. Estava tudo pré-acertado. Num clube da cidade, a turma já o esperava com as respectivas "gatas". A cerveja e os amassos rolavam. Passava da meia-noite quando Altivo avistou, ao longe, Amélia que o procurava pressurosamente no salão. Alguém, todavia, o dedurou. Vendo que ela caminhava em sua direção e, no mínimo viraria a mesa, Altivo bradou em alto e bom som: "Salve-se quem puder! Lá vem a minha mulher!". O vereador desceu os degraus de três em três. Amélia não conseguindo alcançá-lo, voltou e soltou a macaca: virou a mesa, distribuiu tapas, bordoadas e impropérios.

 

02) O movimento das Ligas Camponesas de Miguel Arraes e Francisco Julião, crescia no nordeste, distribuindo panfletos e tablóides. A igreja católica tomava suas providencias. Em Natal, Mossoró e Caicó, detinha duas emissoras de Educação Rural. Logo foi criado o "Jornal Rural de Integração Regional", sob a responsabilidade da arquidiocese. Em Mossoró, o saudoso "Seu Mané" (Manoel Alves), depois que registrou seu nome à vereança, não perdia a parada. Ele que só fazia programa à base de forró, agora utilizava o jornal falado. Certo dia, lidas as manchetes, Manoel aumentou o vozeirão: "Este é o Jornal Rural da Integração! Aqui em Mossoró, são precisamente, 14 horas! E aí Rural de Natal?". O outro vereador J. Soares, que era grosso, mas, nem tanto, comentou: "Ué? Daqui de Mossoró pra Natal tem fuso horário?!".

 

03) Depois que desceu os degraus do Palácio Potengi pela última vez, o monsenhor Walfredo Gurgel mergulhou num profundo recesso, excluindo-se de tudo e de todos. Pouquíssimas pessoas o visitavam. Seus livros eram inseparáveis companheiros. Certa feita, um velho amigo aconselhou: "Monsenhor, vamos dar um passeio. Que tal à Argentina. Não se preocupe. O pacote fica por minha conta. Acabe com essa solidão, homem!". O padre com o olhar distante, respondeu: "É amigo.... Madre Tereza já dizia: "Mais terrível que a pobreza é a solidão e o sentimento de não ser amado". Todos que se diziam amigos e irmãos, ficaram no lugar que eu deixei... o palácio do poder".

 

04) Também vendo aproximar-se o ocaso do poder, o prefeito Chico Carlos do município de Dix-Sept Rosado, comentava e se lastimava com alguns amigos, por sinal, poucos que lhe restavam: "Veja como são as coisas", filosofava. "Eu muito moço, enveredei na política. Até os babões, eu escalava o dia de plantão. Hoje, vendo o poder escoar pelos dedos das mãos, sem dinheiro e sem saúde, eles me cospem de longe! De quebra, a velhice chega junto, batendo forte como maré de agosto no quebra-mar". Política é como medicamento. Tem prazo de validade.

 

05) Avelino Matias, ex-prefeito de Brejinho, vulgo "Meu Pai" é presença obrigatória nas histórias folclóricas do Agreste potiguar. Certa vez, discursava calorosamente na solenidade de formatura dos concluintes do 2º grau, de sua terra, quando num arroubo estatístico, enfatizou: "Isso aqui, "dotô" João "Fostino" é que é educação. Minha "fia", por exemplo, em Natal estuda medicina na faculdade de Direito!". Foi o contraponto da oração que João não queria ouvir. 

05 de Julho de 2013 às 00h00

FILOSOFIA E FISIOLOGIA

01) O jornalista Vicente Serejo passou-me esta história ocorrida numa tarde verânica natalense. Na avenida Rio Branco, Cidade Alta, acontecia a inauguração da nova agência do Banco do Brasil. Presente, o mundo social, político e empresarial do estado. Durante os discursos, o então prefeito de Natal Jorge Ivan Cascudo Rodrigues descobriu, ao seu lado, que algo poderia acontecer de pior ao deputado federal Djalma Marinho. O alcaide revelou-se providencial: "Doutor Djalma as cinzas do seu cigarro estão caindo sobre o seu terno!". Djalma, sem perder a mansidão da postura, ponderou profético: "Meu filho, não se preocupe. Esse é o único fogo que ainda me resta".

 

02) Por telefone, Diógenes da Cunha Lima relembra a figura humana e esquisita do poeta e escritor Walfran Queiroz. Vim a conhecê-lo mas sem aproximação. Ou melhor, de vista. De muitas vistas quando passava mergulhado em si pelo efervescente Grande Ponto dos idos de 50 e 60. Poucos desfrutaram do privilégio de sua fala, companhia ou conversação. Circunspeto, fisionomia de mormaço, além de inabordável, eram suas característica marcantes. Conta-me Diógenes que ele caminhava no calçadão da praia circular de calça, sapato e meias, fumando e de olhar perdidamente fixo em nada. Certa vez, abordado por um transeunte para lhe acender o cigarro, reprimindo-se, detonou secamente: "Use o fósforo para evitar a intimidade do cigarro". 

 

03) O abastado João Salustino, pecuarista famoso no município de Augusto Severo, tinha por hábito recepcionar o vigário Militino. A coisa ficou tão trivial que o sacerdote já tomava café e almoçava na fazenda em horas certas e incertas todos os dias. O tempo passou, e um dia, o fazendeiro faleceu. Padre Militino, no entanto, não mudou os hábitos e os costumes. Uma manhã, Salustino Neto, garoto de doze anos de idade, perguntou: "Padre daqui até ao céu, é muito longe?". "É Netinho", sintetizou o religioso. "Você tá vendo aquela rocha alta?", apontou para uma pedra enorme. "Tou", disse o menino. "Pois bem, se fosse possível jogar essa pedra rumo ao céu, ela passaria milhões de anos para chegar lá...". O jovem, de repente, cortou a "via Láctea" da pedra, e corrigiu: "Mas se rebolasse o padre de lá pra cá, o senhor, ainda chegava antes do almoço, num era?". Militino emudeceu.

 

04) No tempo em que Tibau era praia, hoje virou cidade, o dr. José Holanda, de Mossoró, consultava no alpendre o "velho lobo do mar", João de Chagas. "O que o senhor tem?", perguntou o médico. "Doutor eu tenho uma dor vinda dos gorgomilos do peito e responde na cruz entre uma pá e outra". "E o que tem mais?", indagou o médico. "Fora isso", continuou João das Chagas, "tenho uma rural 68 e Chica Côco, uma quenga lá de Macau. Mas só vou lá por quinzena". Para o doutor foi mais difícil achar o diagnostico do que a rapariga de João das Chagas.

 

05) Raul, foi um dos últimos motoristas de Manoel de Medeiros Brito. Em Mossoró, na residência do casal Edith/Soutinho foi servido um lauto jantar a comitiva política que visitava Mossoró. Raul, muito displicente e acanhado, perdeu o jantar que D. Edith, mulher política e sensível, fazia questão de estender aos motoristas as mesmas iguarias que eram servidas aos convidados. Às 11 da noite, Brito dá o sinal de largada com retorno à Natal. No caminho, impressionado com o lauto rega-bofe, ao lado de Machadinho, indaga a Raul: "Jantou bem?". "Não senhor", reponde o tímido motorista. "O quê? Um belo jantar desse você perdeu?". Já em Natal, Manoel de Brito não conteve o comentário: "Raul, amigo velho, pomba mole nem no céu entra!!". Raul aprendeu a lição.

 

28 de Junho de 2013 às 15h14

ILUSÕES GRATULATÓRIAS

De anotações feitas à hora do crepúsculo em livros idos e vividos, pincei uma frase que me remete ao delírio das coisas de querer ter sido e não fui: "Eu que tantos homens fui, não fui aquele em cujos braços desfalecia Matilde Ubach". Pensamentos fluidos, na verdade, de reencarnações em lugares e tempos, sonhos e fugas do real ou transposições de corpo e espírito para lugares onde nunca naveguei, muito além da ponte de Igapó.

Ter sido, por exemplo, acompanhante do Cristo nas peregrinações e presenciado seus milagres para não me dividir hoje, nos conflitos das igrejas do mundo; gostaria de ter sido expectador do teatro shakespeareano e tê-lo conhecido de perto e acompanhado todos os seus porres nas tabernas escuras da Londres elizabeteana; como amaria a passagem pelos estúdios de cinema dos anos trinta e quarenta só para ver Charles Chaplin, Stan Laurel e Oliver Hardy; ter aspirado o odor do charuto de Getúlio Vargas, Winston Churchill  e escutado em dó maior as gargalhadas prazenteiras; ou como figurante dos filmes de John Ford, viajado nas diligencias do tempo pelas pradarias do oeste; de Juscelino a companhia e as conversas dele com o que havia de melhor no PSD daquela época: Israel Pinheiro, Amaral Peixoto, José Maria Alkamim, Benedito Valadares, Tancredo Neves; ou de um pólo para outro, muito me ufanaria haver morado no Rio de Janeiro só para ouvir os discursos do bruxo Carlos Lacerda e acompanhar as suas ações como governador com "m" maiúsculo do estado da Guanabara. Eu, que tantos homens fui, não fui aquele que conviveu mais tempo com Câmara Cascudo, pois considero privilegiados os que receberam essa oblação; quantas vezes não me vi nos shows dos Beatles, na fila do gargarejo, ou no programa Jovem Guarda de Roberto Carlos das tardes de domingo; e quanto fascínio não exercem sobre mim as cidades interioranas da Paraíba, Pernambuco, Ceará, Minas, Bahia, das moças namoradeiras, das praças, dos olhares furtivos e ofertantes como se eu quisesse, de repente, paquerá-las todas ou me compensar, ao menos, em contemplá-las lindas e infinitas, renascidas de minhas ilusões de adolescente.

Ah! Como esse mundo de hoje dói. Não há mais ídolos. A violência urbana e a guerra mataram os sonhos e as ilusões castas dos nossos pensamentos. É um mundo de aparências, de vaidades e iniqüidades. "Olhe, aquele ali é Machado de Assis e com ele Eça de Queiroz!". Faltou-me alguém que apontasse, naquele tempo, essa visão dos dois monstros insuperáveis da literatura luso-brasileira. E se o sonho triunfar sobre a verdade, posso dizer nesse final que assisti padre João Maria sarar os enfermos; preguei com Frei Damião na noite litúrgica e estrelada de Monte Alegre; que vi subir o balão de Severo e que assisti o último suspiro de Auta de Souza. E se o leitor me acreditar, conheci Lincoln na guerra da Secessão; vi Roosevelt, Getúlio, Tyronne e Evita na Ribeira de guerra. Se todas essas reflexões são febris ou inverossímeis, é preferível crê-las e esquecer as bestas do apocalipse que estão soltas no Brasil, no Oriente e no Ocidente as imagens na televisão sujam de sangue as nossas ilusões por um mundo de paz. 

21 de Junho de 2013 às 13h15

NA MIRA DA VERDADE

Aprendi a me contentar com o que sou e com o que tenho, como falava o apóstolo Paulo. Não me compraz abordar esse tema que representa, apenas, uma despretensiosa opinião entre milhares. Falo para lembrar que o mundo precisa é de um bom retorno à moral, aos bons costumes e às boas maneiras. O Brasil está grandemente desacreditado no exterior, tanto do ponto de vista político e esportivo, bem assim com relação a segurança e a moralidade pública. Hoje, se a polícia agir para manter a ordem social é logo acusada de repressora. Se ela prender o criminoso ou o viciado, a legislação penal permissiva e retrógada coloca nas ruas para repetirem tudo outra vez. O país parece que não está mais acreditando em si mesmo.

Os princípios basilares da constituição de uma família, obra de Deus, estão sendo confundidos e modificados pela opção individual de vida com pessoas do mesmo sexo, em nome de falsa modernidade. Modernidade para mim é o progresso da ciência médica, da informática, da engenharia, das comunicações, etc. Mas, em desagrado com o que é sagrado e consagrado é degradação, degenerescência. O direito individual de escolher a condição sexual, é assunto exclusivo de cada um que deve ser respeitado. No entanto, tratar a união de parceiros iguais tal e qual uma família constituída, significa destruir uma geração que já está contaminada e descompensada pela perda da guerra contra a droga. Aonde a justiça brasileira quer chegar? Trata com indiferença as passeatas que festejam o consumo da droga. Depois, recebe com ceticismo o clamor popular para endurecer a legislação penal contra os menores infratores que comandam hoje as estatísticas criminais! E ai? O governo está criminalizando a pobreza porque falhou na educação dos jovens. Ou vamos nos transformar numa imensa população carcerária ou tudo virar mesmo um caos.

O movimento dos sem-terras faz "gato e sapato". Invade e depreda tudo! Aliás, quando ocorrerá a invasão do MST ao STF? Os índios já deram o bom exemplo intimidando a Câmara Federal. A legislação brasileira sobre esses assuntos corporativos é frouxa e mixuruca. O excesso de tolerância pode causar mortes por imprudência ou falta de autoridade. A grande burrice da escolha nacional de gastar bilhões para salvar o falido futebol - em vez do próprio brasileiro, ser humano, pobre, sem saúde e segurança, é um absurdo. Viva o circo! Abaixo o pão! Um dia - o que não desejo - mas prevejo, quando acontecer uma tragédia que atinja congressistas, ministros da área jurídica ou suas famílias, aí sim! Será dada a largada. Os jovens ocupam as ruas do Brasil com protestos, lutando e depredando mais para tirar centavos de uma passagem de ônibus do que pela vida, pela punibilidade das gangues dos crimes hediondos. 

Nas antiguidades grega, romana e principalmente a judia, revelada no Antigo Testamento, todas acreditavam em um Deus irado que punia todos que ameaçavam os respectivos povos com catástrofes e sinistros. Na Bíblia Sagrada, Moisés, Josué, Samuel, Ezequiel, Jeremias, Daniel, Isaías, além dos profetas menores, todos escolhidos e inspirados por Deus,  descrevem intervenções divinas em defesa e preservação do povo judeu. Nos dias de hoje, ante a derrocada moral do mundo, só temos a recorrer mesmo ao Altíssimo. Esperar o retorno de Jesus Cristo, no final do milênio, conforme rezam as Escrituras, parece ser a única salvação para depurar, higienizar e moralizar o planeta. Se não ocorrer uma medida preventiva do Céu, tudo o mais vai piorar igual a cantiga da perua. Quem viver, verá: o diabo favorecendo os maus e a gente pedindo a Deus que nos acuda. 

14 de Junho de 2013 às 11h57

NA BOCA DO POVO

01) O MDB sob a direção das "senadoras" se agitava proclamando Aluízio de novo governador. Veio a cassação. Todas amargaram o acontecido, como uma morte de um ente familiar. A solução encontrada foi lançar o filho de Aluízio. Surgia Henrique Alves. Nas ruas um grito novo: "É o filho!!!". Isso virou grito de guerra nos quatro cantos da cidade de Mossoró. Henrique com todo vigor, comandou a primeira grande vigília de um dia e uma noite em cima de um caminhão. Era a prova de fogo do cigano mais novo. Vendo isso, o grupo das araras também anunciou a sua vigília que seria dois dias e duas noites. Encerrada a carreata-passeata, surgiu um problema: tirar os sapatos dos pés de Dix-Huit. Alguém comentava em voz baixa: "Os mocotós de Dix-Huit tá feito pé de elefante". Várias tentativas foram realizadas em vão. A solução foi cortar o calcanhar do sapato. Aliviado, com os pés numa bacia cheia d'água, Dix-Huit fitou um dos sapatos danificados e resmungou: "Ah! Cabritinho (Henrique). Perdi meus sapatos novinhos, novinhos!".

 

02) Nivaldo Dantas, tio de Chico da prefeitura de Mossoró, ex-vereador, ex-jogador do Potiguar, por fim, enveredou pelas ondas do rádio. Tornou-se comentarista esportivo da rádio Tapuio, décadas passadas. Numa tarde de domingo, em campo ABC x Potiguar. A rivalidade era grande. Drailton, jogador do ABC, entrou apelando numa jogada forte. O vereador-comentarista perdeu a esportiva e bradou: "Isso é pênalti!!! É penalidade máxima!". E ao lado de Souza Silva, que cobria também o evento, perguntou pelo microfone: "Você viu caro confrade? O negão Drailton com sua chuteira 46 mandou a chibata pra cima! Você viu?". Souza Silva, no mesmo tom, devolveu: "Nobre colega, ainda bem que não vi esse lance. Tinha ido pegar um copinho de mineral ao lado". De raidinho de pilha ao ouvido a frasqueira agradeceu ao saudoso abecedista Souza Silva, com um sonoro: "Valeuuuu....!".

 

03) Um grupo de sobreviventes judeus visitava várias cidades do nordeste. Pedia ajuda financeira para uma entidade de caça aos carrascos nazistas. O prefeito Dix-Huit fora convidado para assistir tal explanação que se realizaria no Campus Universitário. O velho se dizia saturado dessas conversas. Em dado momento, o chefe de gabinete alertou: "Prefeito, o evento dos judeus já começou faz meia hora. Vamos chegar atrasadíssimos". Dix-Huit, paciente, não se abufelou: "Melhor assim. Eu vou me chatear um pouco menos".

 

04) Aluízio achara o mapa da mina. Candidatou o monsenhor Walfredo e com isso arrastou para si, meio mundo de católicos e o PSD. O povo cantava nas ruas: "É o padre! É o padre!...". Alguns municípios ensaiavam tornar seus vigários prefeitos. Em Mossoró, monsenhor Humberto Bruinnig, de grande reserva moral, era tentado por todos os lados a assumir uma cor partidária. O velho cura, olhava pra cima e por cima, desconversava. Certa feita, recebendo uma embaixada do governador Tarcísio Maia, padre Humberto respondeu: "Como disse Grieco, prefiro ser lacaio de Cristo a ser príncipe dos homens. Passem bem!", finalizou a audiência.

 

05) Vários amigos reuniram-se no terraço do prefeito Costa Leitão. Os homens, óbvio, falavam de política. As mulheres, amigas da primeira dama Maroquinhas, discorriam da festa de páscoa que se aproximava. A primeira dama, chamando um empregado, ordenou: "Vá ao armazém de João Vital e compre cinquenta ovos. Vamos fazer um bolo para a páscoa". Uma amiga, sublinhou: "Isso mesmo. Os ovos de João Vital são bem grandes!". O vereador Domício, que não deixava passar nada, atalhou a conversa: "Por isso não. Os ovos do meu tio Zeca, lá no mercado, são bem maiores! Haja vista, que ele é herniado faz tempo". As dondocas fecharam a cara. 

07 de Junho de 2013 às 16h10

TEMPOS IDOS E VIVIDOS

01) Vivia-se o tempo áureo da UEB, a extinta União de Empresas Brasileiras que instalou em Natal o hotel Ducal, a Sparta Confecções, a Seridó Tecidos e a Incarton. Na Sparta, fabricante de camisas, pontificava como diretor o nosso Manoel de Medeiros Brito, o Brito Velho de guerra. Para conhecer as instalações, convidou o jornalista João Batista Machado, que levou de contrapeso o colega Aluisio Lacerda. A fidalguia de Brito tem o selo da fartura de Jardim do Seridó. Após os drinks e sucos regionais, o almoço foi servido com direito, ao final, a charutos odoríficos e fumegantes. Por fim, chegaram à imensa sala das máquinas onde o labor das costureiras explodia no ar um frenético torvelinho de vozes e ruídos mecânicos. Machadinho, já conhecedor da proverbial "queda de asa" de Brito pelo mulheril, provoca curiosamente o seu cicerone: "Brito, e as mulheres aqui?". Sem perder a postura e como se informasse um detalhe fabril, detona: "É de médio a refugo...".

 

02) Burrego, era motorista e compadre do ex-prefeito de Mossoró, advogado e grande orador Raimundo Soares. Para ser motorista do tipo boêmio do doutor Raimundo tinha que dar nó em pingo d'água. Certa noite, o alcaide, como diria Dix-Huit Rosado, não dispensou cedo os serviços de Burrego. "Compadre, vamos jogar umas partidas de pif-paf", convida o prefeito. "Doutor Raimundo, me dispense por essa vez". "Não", retruca o admirável político mossoroense. "Mas, doutor, eu não tenho dinheiro", responde Burrego para pôr fim ao convite. "Então eu empresto", insiste o inigualável tribuno, e fim de papo. Bebidas, cigarros, lanches, batidas, tudo que o jogo de baralho permite, entraram pela madrugada. Foi aí que Burrego, saturado, saiu-se com essa, após um longo bocejo: "Doutor. Raimundo, vamos terminar a brincadeira porque eu tenho mesmo que ir embora, pois a sua comadre lá em casa é como papel de bodega, só dorme com um peso em cima". E deu certo. Para Raimundo Soares só uma tirada espirituosa desarmava a sua invejável inteligência.

 

03) À época do macartismo, ou da caça aos comunistas, o saudoso Djalma Maranhão tinha uma maneira hilária de se divertir com os amigos, mesmo nos instantes de tristeza e saudade. No velório de um simpatizante comunista, Djalma mexia com os nervos de alguns natalenses quando afirmava, categórico, aos assinantes do livro de presença: "Rapaz, você acabou de se inscrever no Partido Comunista. Com o seu aval, agora a coisa vai!!". Alguns, com medo, chegavam a examinar, detidamente, o cabeçalho do livro de pêsames. 

 

04) O grande e saudoso mestre Mário Moacir Porto se deparou certa vez como promotor de Currais Novos com uma cena inusitada. Conversava com o vigário local, em frente a farmácia, quando pela rua soldados do destacamento conduziam um pobre homem a prisão debaixo de pancadas. Apanhava sem piedade de "rabo de galo", um "equipamento sutil de persuasão" da briosa Polícia Militar daquele tempo. Indignado o padre e o promotor protestaram: "Não faça isso com esse cristão!". E o soldados conti-nuavam o espauderamento. Num desabafo de indignação total, Mário Moacyr Porto ouviu do padre uma exclamação desesperada: "Mate-o logo, mate-o logo!". Da rua, caído aos pés dos militares, o preso respondeu: "Não senhor padre, do jeito que vai, vai bem!!".

 

31 de Maio de 2013 às 14h10

LOROTAS MUNICIPAIS

01) Cícero do Vale, o "Cição", vereador sem mandato, virou celebridade na grande Caicó. Em protesto contra o governo com relação a seca, levou um monte de carcaça de bovinos e despejou em frente a um órgão do go-verno do estado. A chuva não veio, porém, choveu de policiais chamados às pressas. Cição foi algemado e colocado num camburão. Os populares revoltados gritavam em côro: "Soldadinho, soldadão, levem as ossadas, soltem Cição!!". Levado aos empurrões, Cição bradava: "Os mugidos dessas carcaças serão ouvidos. Tão ouvindo? Vão se transformar em votos na pró-xima eleição!! Quem viver, verá!!".

 

02)   Nos anos sessenta, o empresário Titico Maia criou a "Empresa Fátima". Ônibus confortáveis, faziam o transporte de passageiros Natal/Mossoró, diariamente. Era a febre do momento. Todo mundo queria viajar nos novos coletivos. Certo dia, o vereador Expedito Bolão, "inaugurou" a linha. Quatro horas da manhã, lá estava Bolão embarcando. O forte teor etílico, resquício da noite passada, enchia o ambiente. Uma senhora muito gorda, era a sua parceira de poltrona. Pouco mais de meia hora de viagem, ele dormia, roncava e bufava. A senhora já não suportava mais. De repente, o vereador abriu os olhos, fitando a senhora que reclamou: Está muito imprensado?". Expedito com a maior desfaçatez, respondeu: "Como você sabe que eu vesti a cueca do meu caçula?". Visão de raio X.

 

03) O então prefeito de Macau, Venâncio Zacarias, tinha na pessoa de João Tubiba o seu grande confidente. Certa feita, numa conversa informal no gabinete, tomado pela curiosidade, Tubiba, indagou: "Prefeito, no seu birô tem quatro gavetas, todas lotadas de papel. Me diga, isso tudo tem muito valor para o município ou é só problemas?". Venâncio, raposa velha, sorriu e desdobrou: "Você está ficando esperto. Os papéis das três primeiras gavetas eu lhe dou. Faça o que quiser. Agora, os da derradeira, eu guardo uns "chequezinhos" que garantirão minha aposentadoria. Essa gaveta é imexí-vel. Eu tenho mais ciúmes dela do que da "mulé" que eu tenho lá em casa. Só não lhe ensino como se faz isso por que aí é onde está "o pulo do gato"". Para Venâncio, valia mais o que estava escrito.

 

04) Corria o ano de 1964. Os ânimos no meio político estavam tensos. Prisões, cassações e até sumiços. Essas eram as palavras em voga. Entre líderes estudantis, deputados, pessoas formadoras de opinião, o nervosismo era grande. Corações batiam a mil. Diniz Câmara, Assis Amorim, Luiz Sobrinho - todos com passagens pela Assembleia Legislativa, viviam monitorados pelo Exército e pela Polícia. Certa feita, acontecia uma reunião pública num colégio. Muitos estudantes/companheiros se faziam presentes. A polícia cercou o prédio. A notícia se espalhou. Um jovem - hoje juiz aposentado - de repente juntou uns papeis e foi se "escorregando". Ao dobrar a esquina, bateu de frente com o tenente Clodoaldo, delegado local. "O que você leva aí, rapaz?", quis saber o militar. "Uns papéis e livros escolares", foi a resposta. 

O tenente manuseou o livro e devolveu-o. Caminhando alguns metros, o delegado informou a um sargento do Exército: "Nada de mais! Apenas um livro de um tal de "Kero Mais"!". O tal livro era "O Capital" de Karl Marx. Valeria talvez uns meses de prisão e depoimentos, à época, não fosse a forma casual de ler ou ocasional de interpretação da  graduada autoridade. 


05) São Gonçalo do Amarante em festa. A Cervejaria Antarctica lançava a pedra fundamental da nova fábrica no Rio Grande do Norte. De início, somente refrigerantes. A "loirinha", só depois. O mundo político se fazia presente. Todos queriam ser o "pai da criança". Hamilton Santiago, Ítalo Monte, lideranças locais, entre outros, disputavam o microfone mas, foram escanteados. Ítalo, empolgado, desabafou chateado: "Dentro de alguns meses, aqui estaremos e vamos tomar umas Brahmas até cair. Vamos todos brindar o progresso sem retaliação". Naquele tempo, Antarctica e Brahma eram rivais irreconciliáveis.

24 de Maio de 2013 às 12h55

VERTENTES DO SABER

01) O engenheiro Vauban Bezerra de Faria, à época, prefeito de Natal, ex-diretor do SENAI, tinha a fama de super-econômico em tudo o que fazia. Certo dia, assustado com as despesas com o uso do telefone domestico, Vauban encontrou uma forma de trocar mensagens com a esposa, sem gastar um centavo. Combinaram uma senha: ele ligava para a mulher e deixava o telefone tocar três vezes e desligava. Era o sinal de que tudo estava bem. A esposa, já orientada, ligava de volta, deixando tocar quatro vezes e desligava. Era o sinal de que ela e os filhos também estavam bem. Ninguém falava, mas, em compensação, também não pagavam. A Telern sofria com o cala-te-boca.

 

02)  O mundo político vivia em suspense. Lideranças e liderados da província viviam em ebulição, tanto, quem era da direita como da esquerda. Facas de dois gumes. Dormir uma noite inteira era privilégio de poucos. Perguntado sobre a então conjuntura, o "Majó" Theodorico Bezerra se saiu bem: "Nesse momento", deslizou matreiramente, "eu analiso as palavras de Amaral Peixoto (PSD): um partido pode ser de centro, formado com a esquerda da direita e a direita da esquerda".

 

03) Um caso inusitado aconteceu em Natal. Um guarda municipal, conhecido por fazer parte dos "amarelinhos", encostou a moto (instrumento de trabalho), e foi dar uma informação a um motorista. Ao voltar, a surpresa: furtaram a moto! Comunicaram o acontecido à secretária do gabinete da prefeitura, que, por sinal, estava ao lado de Carlos Eduardo. Naquele momento o prefeito dava uma entrevista coletiva, porém não perdeu a calma. Pediu licença aos repórteres, sublinhou com seriedade que o caracteriza: "Quero abrir um parêntese em face de uma ocorrência agora mesmo e fazer um apelo: senhor ladrão! Por favor, devolva-nos essa moto, pois a situação da prefeitura é pior que a sua. Muito obrigado!". E tocou pra frente a entrevista. O veículo foi encontrado, abandonado num matagal. Aconteceu virou manchete.

 

04) Aguardava-se uma reunião de alto nível na Fundação José Augusto. O grande papo era composto por Diógenes da Cunha Lima, François Silvestre, Odilon Ribeiro Coutinho entre outros. Encostado numa coluna, estava Agostinho, um policial da reserva apelidado de "pêia mole", que prestava serviço àquele órgão. Agostinho, um tanto "melado" da noite anterior, mal abria os olhos, porém, mesmo a distância, se ligava na conversa dos intelectuais. Alguém chegou a pedir uma informação. O PM respondeu: "Sei dizer não, mas pergunte ali aqueles "homes". Eles sabem tudo! Ô bando de cabras sabidos!!!".

 

05) Nos áureos tempos dos "três reis maias", numa animada conversa entre caciques, alguém alfinetou: "E aí doutor Tarcísio, diante dessa debandada partidária, quem sai ganhando?". Tarcísio, pausadamente, explicou: "Nessa hora faço minhas as colocações ateístas do mineiro Tancredo: entre a Bíblia e o Capital, é preferível o Diário Oficial". Entenda-se, o governo. 

17 de Maio de 2013 às 13h07

CONTRADIÇÕES

01) Fala-se que o congresso nacional é a casa do povo. Agenor Maria na estréia, foi "botando pra quebrar". Num dos primeiros discursos, acentuou: "Encontramos nessa casa, que se diz do povo, muita corrupção e suborno! Para conhecermos suas figuras, não precisa examinar a ficha pessoal! Basta um DNA. Ta no sangue! É herança! E tem mais, depois que entra aqui, não quer mais sair!...". Terminado o pronunciamento, ele voltou à sua cadeira. Um colega ao lado comentou: "Muito bem senador. Esse é o seu primeiro mandato?". Agenor Maria, enxugando a testa com um lenço verde, respondeu lacônico: "É. E daqui não saio, daqui ninguém me tira...".

 

02) Dix-Huit assumia novamente a prefeitura, tendo como herança um ano de estiagem forte. Os habitantes da zona rural enchiam a cidade e já se falava em saques ao comércio e aos órgãos do governo. O velho, um tanto cético, mesmo assim, pensava como Ayala que dizia: "Sou ateu!!Graças a Deus!". Passada a seca, janeiro chegava com chuvas pesadas. Dix-Huit observava: "Agora é o inverso da moeda". De repente, um secretário adentra à prefeitura e exclama: "Agora doutor é chuva pra cearense nenhum botar defeito! As ruas estão alagadas. As estradas lavadas. Açudes arrombando! Vamos fazer o quê?". Dix-Huit, com calma, respondeu, tal qual um sábio guru: "Nos obstáculos, age-se como a água: contorna-se". Lição dada e ouvida.

 

03) O senador Mário Covas (1989) do PSDB de São Paulo, peregrinava pelo nordeste com planos de chegar à presidência da república. Em Natal, era grande o alvoroço nos meios políticos. O "majó" Theodorico Bezerra recebia amigos em seu escritório no Grande Hotel. Alguém perguntou: "E aí "majó"? Vai de Covas?". Theodorico em tom jocoso, atenuou: "Nem me fale nisso. Eu sou muito supersticioso. Negócio de Covas... Mas se ele se achar com o pé na cova e me chamar para ser seu vice? Quem sabe, eu até aceitaria....".

 

04) Nem sempre o esperto leva a melhor. Domício Soares o vereador em quem todos os adjetivos caíam bem, além de irreverente, era um "Don Juan" incorrigível. Certa feita, comprou um carro - melhor dizendo - um Fiat 147. Aí casou tomé com bebé. Saía à noite e somente pela madrugada retornava. As reclamações eram as mesmas: o veículo quebrou, tive que empurrar, etc., etc. A esposa que, no inicio muito reclamava, deixou pra lá. Certa feita, chegou sujo de graxa e de batom. "Olha, minha filha, de novo essa droga quebrou", disse Domício. A mulher olhou de lado e respondeu: "Pra mim, tanto faz! Só vou lhe dizer uma coisa: eu já cansei de lavar camisa suja de corno-guincho". Nessa noite, Domício dormiu pouco. Toda a vizinhança já sabia do "triangulo de quatro pontas", menos ele.

 

05) Expedito Alves tinha a fama de durão, um senhor mão-de-vaca. Com esses predicados, Expedito granjeava algumas rejeições. Ao chegar à prefeitura de Angicos, a situação piorou. Expedito enfatizava repetidamente: "Aqui eu não tenho nada. Não posso dar nada a ninguém!" Certo dia, passeando pelo "Grande Ponto" em Natal, encontrou-se com um angicano que pensando em filar algum dinheiro, puxou conversa: "Prefeito Expedito! Como vai? Ontem conheci uma pessoa que gosta muito do senhor!". De pronto o prefeito detonou todo o seu mau humor preventivo: "Então o senhor deve ter conhecido a minha mãe, como ela está?". 

10 de Maio de 2013 às 11h36

SITUAÇÕES PERIFÉRICAS

01) O vereador Geraldo Alves, de Mossoró, não era letrado, porém possuía ampla visão em se tratando do bem comum. Certa vez, usando o plenário, fez um requerimento oral pedindo ao prefeito Dix-Huit, a doação de um terreno, onde uma organização não-governamental construiria uma clínica de olhos. Geraldo argumentava: "Teremos em nossa terra um moderno tratamento para combater essa tal de "milhopia"".

 

02) Certa vez, em Natal, o edil mossoroense Expedito Bolão adentra no elevador do INSS e com ele, um jovem bem vestido acompanhado de duas moças. Expedito avisa ao ascensorista: "Eu vou para o oito". O rapaz replicou: "O oitavo andar. Por favor". Expedito olhou de lado e comentou: "Lá em Mossoró, tem dona Oitava, aqui é oitavo. Engraçado né?". Ninguém sorriu. Expedito puxava conversa e ninguém falava nada. Em dado momento, o irreverente vereador dá "uma rasgada de mescla", (o famoso flato trovão). O granfino, com a mão no nariz, criticou: "O senhor fazer isso na frente da minha noiva?". Bolão disparou: "Desculpe, eu não sabia que era a vez dela...".

 

03) O deputado Valmir Targino contava que um conterrâneo havia ido com a esposa a vários médicos de Fortaleza, Recife e só em João Pessoa encontrou a cura da mulher. "Compadre", dizia para Valmir, "que doutor bom, cabra novo, mas não tem parelha não. Minha velha ficou curada". "E que remédio foi esse compadre João?", indagou Valmir. "Homem, o nome do bicho é imoral". E cochichando no ouvido do deputado: "É um tal de 'na xerequinha"". Valmir lendo o receituário tirou a dúvida: "Nebacetin, pomada vaginal".

 

04) Francisco Canindé Vieira ou apenas Canindé lá de Assu, era um boêmio entre muitos, dos tempos em que o motor da luz era desligado à meia-noite. Não se desligava do estado etílico permanente, ao se dirigir à linda Lourdes Nobre. Vivia lhe dirigindo poemas. Acontece que a musa era da sociedade e ignorava os porres do paquerador. Manhã de domingo, a jovem se encaminhava à igreja cheia de charme, quando, de repente, o nosso Castro Alves ajoelhou-se aos seus pés, e, recitou: "Estrela linda, eu te adoro!" A moça repeliu: "Sai daí! Você ainda vai morrer disso". O apaixonado rebateu: "Eu vou morrer disso, pensando naquilo". Depois disso, fisicamente, Canindé viu estrelas.

05) Zé de Lídia, do Assu, era o dono de uma mercearia à beira da estrada. Certo dia, um moço foi chegando e pediu-lhe uma carteira de cigarro. Zé de Lídia perguntou se o troco podia ser de confeito, no que o rapaz aceitou. Vendo que, de lado, estava um macaquinho de estimação do Zé, o freguês ofereceu uma bala ao animal. O detalhe é que ao receber o doce e tirar o invólucro, pegou o mesmo e passou no ânus. "Macaco seboso!", disse o rapaz. "O senhor viu o que ele fez?". Zé de Lídia, com calma respondeu: "Moço, ele é muito prevenido, isso sim. Outro dia, deram a ele uma manga e o coitado comeu o caroço. Resultado: passou um mês sem fazer 'aquele trabaio'. Agora, primeiro ele faz o teste pra vê se passa". 

26 de Abril de 2013 às 12h18

PLANTÃO DE CAUSOS

01) O então governador José Agripino inaugurava obras no município de Brejinho, juntamente com o prefeito Avelino Matias, alcunhado "Meu Pai", à época. Muito festejado pela população, o prefeito não cabia em si. Uma senhora elegante que compunha a comitiva do governador aproximando-se cumprimentou: "Parabéns prefeito! Estou aqui para registrar esse importante evento. O senhor poderia me dar um autografo?". "Meu Pai" (Avelino), apalpando os bolsos, respondeu com seriedade: "Minha filha, mais tarde eu te dou "por causa de quê", o derradeiro eu deixei no bolso da outra "carça". Tchau!".

 

02) O saudoso prefeito Djalma Maranhão fazia o maior esforço para ajudar o povo. Mas, picaretagem, ele detestava. Certa feita, visitando obras nas Rocas, acompanhado de vários candidatos à câmara municipal, entre os quais Manoel Dantas, Djalma se viu cercado por alguns pinguços do bairro. "Prefeito, arranje só o dinheiro da cana", disse um. Maranhão fechou a cara e disparou: "Eu não ando com dinheiro. Tenho aqui cinquenta cruzeiros!". Manoel Dantas, catando votos para se eleger vereador, intrometeu-se: "Prefeito, eu troco. Tenho duas de vinte e uma de dez". Claro que os dez voaram logo. Mais adiante a história se repetiu. Djalma já aborrecido, colocou as mãos na cintura que mais parecia um barril pronto para estourar. Rápido, Manoel Dantas entra novamente em cena. "Prefeito, se o senhor quiser eu tenho aqui vinte contos bem miudinho e troco pro senhor". Djalma, passando a nota, esbravejou: "Você tá de qual lado, Manoel?".

 

03) Em conversa informal, o então prefeito de Assu Walter de Sá Leitão, ao lado de alguns vereadores, preenchiam o tempo regando a cuca com cervejas estupidamente geladas. O vereador Domício, que vivia às turras com a esposa por conta dos próprios deslizes conjugais, choramingou: "Qualquer dia, vocês saberão a notícia. Vou sair de dentro de casa. Já não aguento tanta briga. Eu sofro demais!!". O prefeito Walter entra em cena e pondera: "Sofrer, sofre a mãe do porco espinho na hora do parto".

 

04) Já se disse que política é a única ciência em que dois mais dois pode ser cinco. Mas essa é outra história. Em Mossoró, anos setenta, Arena e MDB se digladiavam sempre. Vieram os desentendimentos arenistas e chegou-se a ver pelas ruas, bandeiras tremulando onde desenhos de mãos verdes e vermelhas se congratulavam. Era a união dos bacuraus com os dissidentes araras. Um comerciante local encontrando Zé Andrade, o "Zé Gago", numa praça perguntou: "Zé, o que você acha dessa união Alves-Rosado que se desenha na cidade?". Zé, como franco atirador, detonou: "A.. A.. A.. Amigo, de.. de.. depois que é que eu vi, a Antarctica se juntar com a Brahma eu não du... du... duvido mais é de nada. Vo... vo... vocês brancos que se enten... endam." Vê-se que política é circunstancia. O que antes aconteceu pode ocorrer de novo ano que vem ou não.

 

05) É praxe dizer que no Brasil o ano só começa depois do carnaval. Quando isso coincide com período eleitoral, copa do mundo, etc., aí morre o burro e quem o tange. O folclórico prefeito Pedro Moura, de Angicos, certa feita, procurou o governador Walfredo Gurgel em busca de recursos para o seu município. O monsenhor, paciente sempre aconselhava: "Meu prefeito, apareça depois do carnaval. Você sabe que estou tomando pé das coisas". Passado um tempo, nova investida do prefeito. O governador pigarreou, lecionando: "Meu filho, eu sei como são as coisas. A Semana Santa vem aí, depois da Páscoela a gente senta para conversar". O impaciente gestor desabafou: "Monsenhor, depois dessa tal de "pascoela" (ele conhecia como páscoa), eu acho que o pobre do nosso município já não bate mais nem a moela. Se o senhor quiser ir a Angicos, o trem passa lá um dia e outro não! Eu não venho mais cá, nem um dia". Pedro saiu fumegando feito a Maria-Fumaça.

 

19 de Abril de 2013 às 12h12

LOROTAS E FAROLEIROS

01) O mossoroense sempre deu destaque ao seu sentimento nativista. A cidade defende, como deve ser, a sua história e feitos. Aproximava-se o mês de junho e naturalmente a data histórica do combate travado com o bando de Lampião, até hoje cantado em verso e prosa. O então secretário de cultura, Lauro Monte, entrou apressado no gabinete do prefeito Dix-Huit, à época, vociferando: "Prefeito, estamos precisando em regime de urgência urgentíssima de recursos para preparar a festa de comemoração ao rechaço do cangaço". Dix-Huit, pego de surpresa, entediado, manteve a calma: "Se Rodolfo Fernandes tivesse dado a bosta do dinheiro aquele bandido mequetrefe, eu hoje estaria livre disso!...".

 

02) O vereador Bertoldo, de Jandaíra, tinha a caçada como o seu esporte favorito. Vieram as intempéries da seca e o que era feito por esporte, virou livre e espontânea necessidade. Bertoldo passou a caçar para sobreviver junto com a família. Surgiram então, os famosos "pombeiros", todo mundo caçando aves de arribação ou avoêtes. De um lado, o sertanejo tentando driblar a fome, do outro lado, os guardas do Ibama prendendo ou tomando as espingardas dos tabaréus caçadores. Certa tarde, o vereador faminto saía do matagal, bornal cheio de arribaçãs, espingarda no ombro, quando deparou-se com os guardas. Depois de muita falação, Bertoldo explicou-se: "Vocês têm um bom salário do governo. Eu só tenho a espingarda para caçar o que comer! Querem tomar minha arma? Tome!", e ajoelhando-se completou: "Atirem primeiro aqui no meu peito, depois comam o que cacei dentro da macambira!". Dois guardas, de armas em punho, olhavam para Bertoldo. O velho suplicou: ""Peraí"", antes de puxar o gatilho deixe eu contar quantos bichões eu matei pois eram o jantar dos meus dez filhos!". Os guardas confabularam entre si, devolveram a espingarda, o bornal de Bertoldo e foram embora. O dia não era da caça para o Ibama mas sim do caçador.

 

03) Antonio de Abílio, líder inconteste da zona rural de Lagoinha, Mossoró, costumava chegar cedo à câmara municipal  para colocar as fofocas em dia. Coisa que fazia muito bem, além de trocar idéias com o vereador correligionário Expedido Mariano, o Bolão. Certo dia, Antonio confidenciou: "Nobre colega, ontem eu comi pra me lascar. Na janta, a mulher preparou uma panela de pirão de tamanduá com preá e mais um casquinho de peba cortado miudinho. Ô "cumpadre". Foi comidão. Lá pra meia noite eu empanturrei, quase não para de "descomer". Desovar, você sabe, né?". Expedito, olhando bem sério para o amigo, exclamou: "Homem, você é maluco? Só faltou um grau!". Antonio, de olhos arregalados disse quase gritando: "Pra eu morrer, "cumpadre" Expedido?". Bolão respondeu: "Não compadre, pra você comer bosta!!!".

 

04) Na câmara municipal de Mossoró iniciava-se os trabalhos para a eleição da sua presidência. As reuniões e propostas fervilhavam de sala em sala. O finado MDB daquele tempo, tinha em suas hostes o gramatical vereador J. Soares, eloquente, mas de língua viciada que dava dó. Católico praticante, J. Soares quase todo dia ia a igreja e muito se empenhava na liturgia-católica. Vendo o tempo passar e não acontecia um consenso, ele doutrinou os colegas: "Meus "amigo", aqui ta mais "difício" do que escolher o papa! Vamos fazer um "concrave" para eleger o novo presidente. "Num pricisa" nem daquela fumacinha do Vaticano. É "ligerim", "ligerim"! Meu nome tá à disposição de vocês". 

05 de Abril de 2013 às 13h54

FOLCLORE POLÍTICO

01) Visitando o município de Parelhas recentemente, o senador-ministro Garibaldi Filho, que não costuma faltar aos convites, passou por um momento hilário. O que não é difícil. Uma eleitora das antigas, bacurau de pé roxo,  abraçada com ele, do alto da alegria, falou: "Meu filho, eu quero que você venha para o meu velório. Não esqueça esse pedido". Gari coçou a cabeça e explicou-se: "Está certo. Mas vamos torcer pra que isso só aconteça daqui a uns cem anos, tá bom? Nós temos muito o que fazer e eu vou precisar do seu voto...". Gari se saiu via Matusalém.

 

02) O jornalista Romildo Gurgel, que não poupava o aluizismo lá dos anos sessenta, achou por bem mandar brasa nos vereadores angicanos, taxando-os de pelegos e subservientes ao então governador. Indignados, os bravos edis aprovaram uma moção, declarando o jornalista do "Correio do Povo", "persona non grata" da câmara municipal angicana. À Romildo foi enviado um ofício dando-lhe ciência do acontecido, aprovado por unanimidade, cujo texto taxava-o de "irresponsável, leviano, difamador, representante da imprensa marrom", etc., etc. Fechando o documento, o grande José Barbosa, o Zé Doido, como segundo-secretário da mesa, concluía: "Sem mais para o momento, aproveito o ensejo de apresentar a Vossa Senhoria os nossos mais elevados votos de estima e consideração". Pode?

 

03) Ele era o barbeiro mais popular da cidade. Seu nome: Francisco Pires ou simplesmente Chico Pires. Com barbearia postada há muitos anos na praça do mercado em Mossoró, onde tudo acontecia. Chico encucou que seria um bom vereador. Aproveitando o embalo da campanha do "Capim", meteu-se nos comícios. Adversário ferrenho dos Rosados, em seus discursos improvisados, salientava: "Hoje eu vou meter cacete num "touro velho" (referindo-se ao candidato adversário"0, que quer ser o dono de nossa cidade!". Dias depois, Vingt-Un, com classe e educação, procurou dissimular o que ouvira dizer: "Eu não dou ouvidos ao que diz um "filibostênico embusteiro"!". Chico, que de longe ouvia o comício rebateu: "filho de bosteiro, num sou eu. Ele é que tá inventando de substituir o gás de cozinha por bosta de gado lá na ESAM". Uma crítica a experiência efetuada na Escola Superior de Agronomia de Mossoró. Chico Pires entrou no folclore político como o barbeiro de Servilha.

 

04) Iniciava-se as visitas pelas comunidades. Era o pontapé inicial na corrida pela prefeitura de São Gonçalo do Amarante. O candidato Jarbas Cavalcanti, com grande caravana aportaria na Utinga (distrito do município), e lá seriam recepcionados pela família Pegado Mendes, onde aconteceria um churrasco com discursos, bebidas e foguetões, mais música ao vivo, a cargo do cantor Jorge Luiz. O conhecido "artista faz tudo", ainda tinha a atribuição de instalar todo o instrumental. O tempo passava e a caravana não chegava. Pegadinho (filho do patriarca José Pegado Mendes), já estava fulo da vida. Jorge Luiz já estava bêbado feito um gambá. Cigarro caído na boca, de olhos pixaim provocado pelo efeito etílico, procurou o organizador e desajeitado pediu: "Pegado, você tem como me arranjar um fio aí? É pra completar a instalação das caixas de som". O Pegadinho chateadíssimo pela demora de Jarbas & Cia, e pelo estado alcoólico do cantor, desabafou: "Tem amigo! Aqui tem um fio de uma égua, fio de uma mãe. Tem até fio da pqp! Diga qual lhe serve!!...". 

 

28 de Março de 2013 às 13h52

QUESTÃO DE CARÁTER

Conduta nefasta tem se disseminado em Natal. Não se sabe bem de onde veio. Como se trata de comportamento humano, médicos proctologistas já diagnosticaram que tudo é fruto do mau caratismo. Defeito de personalidade para uns, ou, transtorno procedimental para outros. Onde quero chegar, finalmente? Já quer saber o leitor. Só sei que, sete, entre dez executivos, políticos e/ou secretários, agem dessa forma. Em muitos, a vaidade doentia, a megalomania, a mediocridade caracterológica, são fatores preponderantes e prevalentes sobre a humanidade comum que desaparece, de repente, debaixo do verniz do locatário do cargo ou da função.

Hoje em dia, é raríssima a autoridade pública ou privada que dá retorno de telefonemas. Deixar recado é esforço pífio e inútil. Não existe mais apreço, atenção, respeito, civilidade, sociabilidade, humanidade. O político, via de regra, só retorna ligação se houver vantagem de voto gratuito ou financiamento de campanha. O empresário pergunta logo quem está na ponta da linha e quanto vai lucrar. Já alguns secretários de governo, nomeados para atender a sociedade, sempre estão em reunião com "aspones" para evitar interrupções que não atendam seus interesses imediatos. Devolver um telefonema que não foi atendido de imediato por ocupação instantânea ou outro motivo relevante, ou não receber um cidadão que pediu audiência, é ato de cavalheirismo, de educação, de nobreza que pouca gente cultiva.

Sei que muitos leitores estão incluídos na estatística dos sofredores. E gostariam de dizer o que afirmo agora. Os cultores da prática mafiosa alegam que é preciso racionalizar o tempo, eleger prioridades, formatizar custos e ganhos de produtividade, e, o lado humano/cidadão vai para o beleléu, descartado por não representar modernidade, segundo os fariseus dos templos públicos. Cheguei a imaginar, de início, que a minha tese é inconsistente. Seria antiquado portar-me assim, mandando a secretária anotar quem telefonou para retornar, em seguida, uma a uma, as ligações recebidas? Acho que não. Tudo é uma questão de estilo, de ética, de personalidade e de berço.

Quem tem medo do povo não ocupa cargo ou função pública! Deve se lembrar que o cargo não é todo seu e pertence também, a cada pessoa que deseja se comunicar. Mandato eletivo, igualmente, e atividade privada financiada com dinheiro público e dos bancos oficiais. Diga sim ou não. Mas, atenda. Não foi à toa que quintuplicaram o número de telefones no mundo e as portas oficiais se alargaram. Político que não atende eleitor é burro. Secretário que não retorna ligação ou não recebe ninguém é grosso. E empresário que não se comunica se trumbica, já dizia o velho guerreiro Chacrinha.

O recado está dado. Retornar ligação e conceder audiência pública são questões de caráter. 

22 de Março de 2013 às 15h09

PRESSÁGIOS

01) Numa lotérica da cidade, a fila era enorme. Todos queriam acertar os números da "mega da virada". Valdivan Tinoco, ex-vereador, vice-prefeito e secretário municipal várias vezes do município de São Gonçalo do Amarante, enquanto esperava na fila, comentava com um idoso ao lado: "Olhe, a gente joga cinco, seis volantes, mas é bobagem. Só se ganha com um". O outro rebateu: "Mas não é bom jogar um duplo, ou um triplo?". Valdivan, com a autoridade de viciado, respondeu matematicamente: "É uma besteira que vale a pena. Mas, o risco de ganhar é o mesmo de perder. O sujeito duplica, triplica, quadruplica, quintuplica, setuplica, mas se é pra perder, não tem jeito!". Jogo complicado.

 

02) Fim de carreira na política além de ocaso da vida comum. Costa Leitão todo arrebentado pela conduta extravagante que levara, se queixa ao médico e amigo, doutor Ednardo. "É, caro doutor... a velhice é cruel. Torna o homem miserável!". O médico olhando o lado profissional, falou: "Pois é! Enfermidades como artrites, doenças sistêmicas, cataratas, osteoporose, cardiopatias, etc., etc., são heranças que a velhice nos trás!". "Concordo com o senhor doutor!", sublinhou o vereador Domício. "E o pior é quando o fdp foi prefeito, arrogante, petulante e sacripanta, aí o bicho pega, por que o povo passa por ele e olha de lado". De repente, dando conta da presença do ex-prefeito assuense, corrigiu o rumo e o prumo: "Nada pessoal, viu seu Costa!?".

 

03) O PSD - Partido Social Democrático, se recompunha no Rio Grande do Norte e mostrando força, de saída, trouxe a Natal, Juscelino Kubistchek. Aqui, o partido majoritário se agrupava em torno de Theodorico Bezerra que costurava a vinda de Aluízio - UDN - para as hostes pessedistas. Mas era tarefa difícil. Theodorico, adversário partidário de Aluízio, procurava veredas. À noite, Kubitschek que arrebatava multidões, a certa altura do seu discurso, destacou: "... O adversário de ontem, pode ser o aliado de hoje!". Isso soou para Theodorico como uma bomba. Por aí, ele traria Aluízio. Tendo ao seu lado o engenheiro e político Joaquim Victor de Hollanda. O "majó" comentou: "Que homem brilhante, compadre. Essa frase é mágica!". Joaquim Vitor ampliou o entusiasmo: "Esse homem é um domador de serpentes! Eu só não o acompanho para Minas Gerais por causa da família que ainda tenho de criar...". Mas, somente em 1960 é que Aluízio e o "majó" se uniram sob o pálio da "Cruzada da Esperança". O presságio se consumou.

04) As boas lembranças dominavam o assunto nas manhãs dos alpendres de uma casa de praia. Zé Agripino relembrava: "Dinarte Mariz só estudou até o quarto ano primário, no colégio estadual senador Guerra, em Caicó. Entretanto, me ensinou preciosidades. Quando me decidi pela vida pública, ouvi de Dinarte: "Meu filho, conviva com todos, mas escolha os seus para governar! Some para ganhar. Agregue para vencer! Governe com os que você confia. De nada vale conquistar o governo, se você não conseguir dominá-lo. Veja: trair e coçar, é só começar. Aprendi no senado que o pro-blema do voto secreto é que dá uma vontade danada de trair. Da traição ninguém escapa, meu filho." Fechou o velho Dida. Aí, lembrei-me do poeta Orides Fontela, inspirado no Eclesiastes: "Há um tempo para desarmar os presságios; outro para desamar os furtos e mais outro para desviver o tempo". E na política, vixe Maria... 

15 de Março de 2013 às 12h09

OS PECADOS DO MUNDO E DAS IGREJAS

Nenhum livro, desde a descoberta do papiro até hoje, possui tanta profundidade e abrangência quanto a Bíblia cristã. Essa conclusão vem a propósito do escândalo de pedofilia e homossexualismo na comunidade católica mundial salpicando as mais elevadas figuras do clero. São transgressões sacerdotais seculares porque toda igreja é feita de homens, mulheres, enfim, seres humanos sujeitos às tentações da carne e do dinheiro.

 

Quando ocorrem os deslizes, o praticante não imagina ou não leu o evangelho de Jesus afirmar "Que até mesmos os cabelos da nossa cabeça estão todos contados" (Mateus 10.30). A sociedade nas naves dos templos, nas ruas da cidade, pode não tomar conhecimento do vício escondido dos subterrâneos eclesiásticos. Mas, se o religioso atentasse para as Sagradas Escrituras, veria ainda em Mateus 10.26, o seguinte: "Porquanto, não os temais, porque nada há encoberto que não haja de revelar-se, nem oculto que não haja de se saber". Frise-se que Jesus Cristo proclamou tal ensinamento quando estabelecia os postulados básicos da missão aos doze apóstolos. Leia-se, hoje, as suas igrejas.

 

Na mesma linha, na parábola do semeador, Lucas, capítulo oito, versículo dezessete repete que "Não há coisa oculta que não haja de manifestar-se, nem escondida que não venha à luz". Quem sabe se a provação porque passa a igreja nas próprias entranhas não se reveste num desígnio superior para cessação dessa conduta libidinosa e criminosa interna de hodiernos discípulos desviados? O Vaticano ao se retratar não esconde que cada obreiro que escolher o mundo deve levar consigo a sua cruz, assim na terra, como no céu.

 

Entendo que a instituição não deve ser atingida, a menos que não transfira ao "poder de César" aquilo que lhe pertence: punir exemplarmente o transgressor pelo crime comum. O homem pode envilecer mas a instituição nunca, porque ela é legado de Deus vivo. As igrejas devem olhar para o futuro porque é para lá que caminha a humanidade. É para lá que vamos passar o resto de nossas vidas. Por isso, elas devem se restaurar, se revitalizar, se purificar e expor os falsos profetas. Nenhuma igreja é infalível. Só Deus. E Jesus Cristo é cem por cento homem, cem por cento Deus, e, como tal foi o único sem pecado. O homossexualismo, ou outros desvios da conduta sexual, tidos como, normais, já não é tratado hoje como doença. A lei pune a discriminação. Mas, nenhuma igreja, seja católica, evangélica, islâmica, etc., vai merecer o respeito dos seus adeptos se acolher entre seus ordenados, homens dessa natureza, porque os seus livros básicos ou fundamentais consideram-nos impuros. Alguns segmentos podem recebê-los como seguidores mas não como celebrantes do rito antigo e aceito. Deduzo que, onde estiver o homem, estará com ele o pecado. Fazer o que?

 

O que escrevo não representa um julgamento. Jamais ousaria fazê-lo. Exercito um comentário sobre a fragilidade e a vulnerabilidade humana. Chamar, sim, a atenção dos desavisados para as lições de Jesus através de Lucas e Mateus: nada na face da terra deve ficar omitido. Há mais de dois mil anos isso foi dito. Daí, citar o ditado popular que nem todo mal é mal, nem todo bem é bem. Não há mal, que não traga um bem. Aos cristãos - para o tema que abordo -  recomendo a leitura dos livros do Eclesiastes e dos Provérbios. Certa está a estrofe do hino sacro: "Senhor, eu sei que tu me sondas". Se os pedófilos ou desviados de todo gênero e de todo credo refletirem melhor, o correto é não ingressar no serviço religioso porque aí não é o seu lugar. Igreja é congregação dos justos e não refúgio de degenerados. 

08 de Março de 2013 às 15h17

MEROS PALPITES

O mundo virou bando de interesses guardados por polícia. E com ele a lei, os direitos individuais, o patrimônio público e até o crime, vez por outra. Os códigos instituídos pelos homens e os mandamentos de Deus são quebrados todos os dias, minuto a minuto. O facínora, o bandido dos crimes hediondos, têm como defesa "os direitos humanos", as ONGs e até ministério. Há mais direitos para eles do que para os cidadãos e cidadãs comuns. O sistema prisional e as penas aplicadas são uma lástima e não corrigem e nem despencam as estatísticas criminais. Antes, são estimulantes para novas práticas e revoltas. Bem, e daí? Aonde quero chegar? Bom, o assunto é tão emblemático que nem sei se chegarei à sua conclusão. Por isso, intitulei o texto de "meros palpites", abordagem ligeira e descomprometida, tudo à luz da experiência de vida, debruçado à janela, lendo jornais e vendo a máquina mortífera chamada televisão. Começo perguntando: o estado brasileiro está falido no enfrentamento dos desafios sociais, principalmente a saúde e a segurança? Não. Não está. O problema é de gerência, de competência. O regime democrático é lento e o organismo corroído de chagas é de caríssima manutenção. Anotem: na próxima crise econômica de origem européia ou americana o nosso país pifará. Essa ordem (ou desordem?) econômica explodirá, pois a impunidade que campeia já acendeu o estopim, baldados os esforços do Ministério Público e da Polícia Federal. O abuso de concessão de liminares aí está para confirmar. Os tribunais de contas votam criteriosamente intervenções municipais em prefeituras corruptas, mas os governos estaduais não executam as decisões por conveniência política. Nos hospitais públicos a pobreza morre à mingua, abandonada com dores físicas e morais insuportáveis porque o deficitário sistema único de saúde não dá votos e sim o "bolsa família" e a dinheirama drenada e desviada das "emendas parlamentares". 

Semana passada, uma senhora que reside num condomínio se lastimava com piedade de um marginal, detido por populares em flagrante. Levou uma merecida sova. Aliás, a única punição que receberá realmente. "Minha senhora", disse-lhe, "deixe o povo aprender a punir, porque a dor física é a única que mete medo". Aí me lembrei que foi a dor do corpo (para mostrar a única fragilidade veraz do ser humano) aquela escolhida pelo filho de Deus - Jesus - para redimir os pecados do mundo. Esbofeteado, cravado de espinhos, cuspido, furado com pregos os pés e as mãos, e crucificado. E Pilatos, simbolizando "liminarmente" a justiça romana e judia de Caifás, lavou as mãos "diante do sangue desse inocente". Jesus deixou-se condenar porque assim estava escrito e predestinado. Mas os homicidas diabólicos do mundanismo de hoje, verdadeiros animais e os ladrões de colarinho branco são tratados com pachorra e facúndia, com homenagens de praxe e de apreço frutos de uma legislação fáctil, fóssil, fútil e fácil. E assim, já dizia o comerciante assuense Luis Rosas, que desfrutou de grande riqueza e, depois tendo perdido tudo, foi surpreendido por amigos vendendo avoetes na feira das Rocas, em Natal: "Amigos, não se preocupem, tudo é comércio!". 

01 de Março de 2013 às 12h40

RELEMBRANDO O GATO PRETO

A notícia me chegou semelhante a estória do gato que subira no telhado. Em seguida, a queda e, depois, a constatação visual da cerração de suas portas. O tradicional bar "Gato Preto" das "Cinco Bocas" de Macaíba havia fechado. Woden, Jansen, Nássaro Nasser e Osair Vasconcelos já sabem. O novo proprietário trocou a felina fauna que misticamente embriagou e embalou os boêmios e notívagos por mais de setenta anos pela faina diária de um sóbrio armarinho. 

"Cinco Bocas" foi o território humano e sentimental de Macaíba, cuja embaixada era o bar "Gato Preto", que tem suas origens nos primórdios da "civilização". Foram quase cem anos de história viva, de pastores da terra, das nuvens, das estrelas, queimando vigílias na província submersa. Chão sagrado de antepassados, povoado de rostos ocultos, de figuras pálidas por longas noites assombradas. Nele vislumbro os vultos inaugurais de Zé Solon, Alberto Silva, Chico Cajueiro, Lula Ramos, Jorge Chocalheiro, Zé Pelado, Manoel Sabino, Chico de Dulce, Banga, Sinval Duarte, Manoel Pixilinga, Jorge de Papo, Odilon Benício, entre tantos outros que desapareceram vítimas do tempo, esse astrólogo arbitrário. As "Cinco Bocas" ferinas, são cinco ruas que deságuam como um rio noturno na intimidade simples dos lençóis de minha terra. Rua do Cajueiro, Rua do Benjamim, Beco de Seu Alfredo, Beco do Mercado e Rua da Cruz. Esse pedaço de chão no centro de Macaíba carrega a saga lírica, popular e mística de muitos obreiros que gastam saliva diariamente no pórtico de suas entranhas, de suas calçadas.

O "Gato Preto", sempre foi o antigo desterro de mim mesmo, da infância perdida mas petrificada no silêncio de suas paredes. Mas, o que importa é que por onde andei eu carreguei o seu andor. Mesmo deformado fisicamente, o seu espírito vive. Basta contemplá-lo e deixar-se envolver na sua atmosfera densa, no centro de Macaíba. Era um bar, com todos os seus habitantes. Figuras opacas, empíricas, etílicas. Todos reduzidos a humanidade comum. Todos crentes de que a verdade e a vida nunca estão num único sonho mas em muitos. Foi o nosso "Grande Ponto" que tombou e morreu como o de Natal. Tanto ontem quanto hoje, caracterizou-se como um cenário profuso profuso e difuso, tecido de conversas banais, de palavras soltas, malandras, boatos, chafurdos soprados pelo errante vento da esquina. Tudo coisas fugidias: prateleiras, garrafas solitárias e eternas, sinucas, bilhares. Todos os seus notívagos caminheiros são incertos, dispersos e derradeiros. Aí de nós se não fosse o mistério do nome, do 13, do "Gato Preto". Por que "Gato Preto"? Não sei. E as coisas misteriosas são fascinantes. É por isso que morrem... 

22 de Fevereiro de 2013 às 16h04

BEM-VINDOS AO BARBARISMO

Bem-vindos ao novo mundo do exagero! A mulher ideal, festejada, é aquela bombada, coxas grossas e quadris enormes. Morreu o modelo feminino clássico, comportado, que foi decantado em prosa e verso. E viva o rap, onde a animalidade, a macaquice dos gestos humanos são interpretados como manifestação cultural pelos cariocas. Bom mesmo, até chegar ao orgasmo, é a histeria adolescente que promove o trote universitário. Nele, vê-se um desejo mórbido, doentio, sádico dos jovens que sentem no sofrimento humano, na dor, um prazer sexual que só Freud explica. Só pode ser tara. O problema não é só da polícia mas da psiquiatria. E o bullying?

Bem-vindos ao novo mundo do transtorno de conduta. A prática da virtude é vaiada na rua e banida dos lares, trocada pela patifaria do programa Big Brother. O maníaco sexual, hoje, está dentro de sua casa. A juventude continua enferma, sôfrega, cantando forró erótico de letra pobre e homicida, pois assassinaram a memória musical de Luiz Gonzaga e toda aquela corte formidável de intérpretes da verdadeira mentalidade nordestina. Tudo é abuso, transgressão, subversão da ordem social, cultural e política. 

A criança, na escola ou em casa, aprende logo a dançar, remexer o traseiro, a ensaiar os passos promocionais do rap, rumo ao estrelato, para gáudio dos olheiros pedófilos. Ninguém quer ser honesto. Meretriz, em vez de atriz. Eu sei, eu sei que o tempo muda os costumes, o mundo gira, uma geração difere da outra num rodízio interminável. Mas, não poderia mudar pra melhor? Por que os vícios permanecem e triplicam a nocividade no ser humano que cada vez mais sucumbe e se bestializa? 

Bem-vindos ao trágico, ao catastrófico e ao sinistro das estatísticas do pós-carnaval nas estradas, nas ruas, nas praias, onde tudo é subvertido em nome da velocidade, do alcoolismo e da vulgaridade. Quantos inocentes não morrem no lugar dos maus? O fabricante do cenário do crime é sempre o próprio homem, pela ganância do dinheiro, pelo prazer indecoroso do sexo e, enfim, toda permissividade inclinada eternamente para o ilícito. Isso vem da gênese e do Gênesis. Aliás, o pecado não mora ao lado e sim, dentro de nós. 

Não pensem que sou contra o carnaval, a música, a dança, os divertimentos públicos. Absolutamente. Critico o excesso na bebida, o consumo de drogas, a degradação dos costumes pelo modismo em nome de uma falsa modernidade. Esquece o passista que o chão onde pisa é também o repouso da carniça. 

São coisas minhas, muito minhas. Imaginar que as festas ditas profanas reúnem milhões de foliões com gastos e gostos extravagantes! E as festas beneficentes em prol dos oprimidos, dos sem tetos, sem planos de saúde, desempregados e famintos não chegam nem a agrupar um terço de gente e de recursos? Em dezenas de capitais do Brasil o carnaval dura de sete a oito dias. Feriado religioso é mais comemorado nas praias que nos templos. Pode ser que a fé cristã esteja perdendo a parada para o mundo cão. Mas, como o Salvador falou em "benditos do meu Pai", o processo seletivo se resume numa minoria. "Muitos são chamados e poucos os escolhidos", apesar da imensa misericórdia de Jesus Cristo.

Mas, afinal, quem for partidário do barbarismo que me desculpe: a leitura da Bíblia, como um hábito, é fundamental para evitar e se defender do caos. Seja íntimo, pois, do Senhor.

Amém. 

15 de Fevereiro de 2013 às 14h13

AS ZONAS

Trata-se de um tema que vem sendo comentado com frequência, há décadas. Recrudesce sempre nas proximidades das eleições para a câmara fede-ral, aqui no Rio Grande do Norte. Áreas para instalação são apontadas e em seguida tudo fica no mesmismo. Seria trágico, se não fosse cômico, se investigar esse disse-me-disse de ZPE's no agreste, no seridó, no vale do Assu, no oeste ou na área da grande Natal. A reprise desse assunto no calendário eleitoral pelos políticos, além de confundir e enganar  o povo - fazendo-o de estúpido - redunda em agressão a lei eleitoral, aos bons costumes, pela falsidade ideológica com que é impingido um investimento de ordem publico/privada sem uma discussão ampla dos grupos investidores com as classes produtoras do Rio Grande do Norte e governo do estado.

Essas zonas não significam o que alguns estão pensando. São as zonas de processamento de exportação do Rio Grande do Norte. Compreendam-me bem: não quero com isso que suponham que sou contrário as ZPE's. Mas, sim, a propaganda enganosa de infligir a coletividade, a imagem de vítima de um capricho político vicioso e eleitoreiro. Alguns municípios - li na imprensa - já disponibilizam glebas desapropriadas com o dinheiro público, sem nenhum planejamento ou debate técnico sobre o assunto. São procedimentos açodados onde o tráfico de influencia e a captação subliminar e ilícita de votos estão tão explícitos quanto as irregularidades de ordem contábil com afronte a moralidade pública.

Esses artifícios curiosos e episódicos contam com a cumplicidade de alguns ministérios ligados a partidos aliados que atuam nos estados. O critério de escolha não parece técnico nem seletivo. Há um dano, um foco, um aparelho transformador, destinado a converter situações e imprimir resultados. A expectativa nossa é de que as zonas não se transformem em burlas para premiar confrarias, pelo tratamento vago, vadio e vazio em vez de avançar sistemicamente nas negociações com os grupos estrangeiros, os quais, nem ao menos se tem idéia de onde vêm. A ZPE é tratada como tema abstrato, oferecendo apenas um factóide publicitário que transparece como recompensa material em troca de voto. O receio reside na preocupação coletiva que essas regras facilitem a perpetuação da corrupção e do fisiologismo. O próprio capitalismo selvagem no mundo transformou-se num assombroso vampiro na Ásia explorando a classe proletária.

A implantação das zonas de processamento de exportação deve sair do palanque político para o auditório dos debates com os verdadeiros agentes produtivos do estado. Que as coisas não sejam decididas com festa do dinheiro público como se desenha na volta anual de cada pleito. Que as zonas representem na agenda do crescimento do emprego, melhor e maior credibilidade e não uma zorra implementada e operacionada por ministérios comprometidos com os interesses partidários e não com os objetivos da integração nacional.

No popular, zona é um vocábulo comum que inspira boas recordações. Casas de recursos e pousadas de lazer e divertimento. Não existem mais. Imperava nelas a servidão humana das mulheres. Mas, reservavam o prazer. E funcionavam bem porque processavam e exportavam o pecado, o mais antigo meio de comércio e indústria da humanidade.  O bairro da Ribeira em Natal e Ponte Negra são as "ZPE's" mais citadas dos bons tempos às margens das águas fluviais e marítimas. A expectativa do articulista é de que os "corredores de exportação" de hoje, não fiquem, apenas, na saudade e no consumo dos pecados políticos: através de atos, fatos, omissões e oportunismos. 

08 de Fevereiro de 2013 às 13h03

É PRECISO DESARMAR OS PRESSÁGIOS

O conhecimento e as razões dos fatos da vida pública nós já temos. Mas, qualquer pessoa que procure entender é suspeito de estar contra eles. Não temos nenhuma idéia preconcebida sobre as pessoas e as coisas que nos rodeiam. Não serão as versões de terceiros que irão impedir que tenhamos nossa própria opinião. O orçamento estadual para 2013, por exemplo, foi tão convulsivo que não impediu que fosse desligado o redutor de ansiedades. Mas é isso mesmo, em estado depressivo foram criadas sinfonias, poemas comoventes e pinturas imortais. Da maneira como o legislativo concebeu e aprovou desembocou em questionamentos. Virou para o executivo potiguar um monólogo hameleteano: ser e não ter. Passamos a compreender que orçamento público é metamorfose. São constituídos de números cheios de contradições.

Não vamos exagerar a impressão de parecer medíocre, trivial, para ser popular. Quem absolve o político não é o povo, é a confissão. Na complicada arte de governar ser natural é a mais difícil das poses. Nenhum político e/ou empresário são suficientemente ricos para comprarem o seu passado. Quantos não podem dizer "nada anseio, nada temo - sou livre". Por isso, é que definem dinheiro como adubo: só serve quando espalhado. O escritor Oscar Wilde colocou na boca de um rico, a seguinte frase: "não quero ir para o céu. Nenhum dos meus amigos está lá". Ora, como no Jardim do Éden, Franz Kafka disse que "a mediação da serpente foi necessária. O mal pode seduzir o homem, mas não pode se transformar em homem". Delírio kafkeano, delírio, apenasmente...

O homem social hoje virou ambiguidade ficcional. Previna-se o leitor: não confundir amizade social com solidariedade humana. São manifestações caracterológicas do vivente completamente heterogêneas. O egoísmo, a acomodação, modificados pelo tom da luz reinante destruíram o sentimento cristão do mundo. O homem cresce, vive e morre numa jaula, limitado às imposições de sua vida miúda, repleta de frustrações e às circunstâncias. Há pessoas que pensam que não vão morrer nunca. Principalmente os que são ricos ou que, pelo menos, pensam. Assim imaginam muitos empresários, políticos, socialites, médicos, usineiros, juristas e outros nomes, renomes e pronomes suspeitos.   

Às vezes, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras no mais profundo silêncio e na mais abominável indiferença. A postura ante o mundo é de desamparo e desalento. Não há lógica própria nessa conduta centrada unicamente na anormalidade do desvio comportamental porque a amizade virou interesse, esbulho, vantagem, lucro.

E eu pensava nesse turbilhão do tempo, dos modismos, que o exercício da amizade fosse contínuo, mas é tão "imortal" quanto a hipocrisia de acreditar nos homens que integram as instituições públicas e privadas (culturais, políticas, empresariais etc). Daí deduzir que toda celebridade no Rio Grande do Norte quando não é célere e celerada. A corrosão cotidiana da busca pelo dinheiro e pelo poder enferruja com rapidez as "glórias e grandezas" de alguns profissionais que se julgam donos do mundo, quando pensávamos justos e coerentes. As mutações históricas dos valores da personalidade humana, ao que me parece, foram provocadas pela "revolução" dos costumes sociais, principalmente o comodismo, a apatia pelo semelhante, o medo de morrer, as fobias e a falta de religiosidade.

Aí, instaura-se um jogo de buscas. O coração desumanizado do selvagem habitante da cidade, que segrega o próximo jamais conhecerá qualquer modalidade de amor, principalmente na noite sem face e derradeira do ataúde, porque em vida foi ausente, insensível, reduzido à condição de bicho. Esse será o calvário do insensato, do que utiliza a amizade como negócio, como moeda de troca. Vai vagar como Caim na noite gelada do tempo sem jamais achar abrigo. Isso tudo porque desamou os frutos e deixou prevalecer os presságios. 

01 de Fevereiro de 2013 às 19h43

RESGATANDO DISCURSOS MEMORÁVEIS

01) O amigo Walter Medeiros, por e-mail, resgata um episódio político já trintenário, no qual evidência um desabafo histórico do então deputado Vingt Rosado. Líder inconteste da região oestana, participava da convenção do PDS em Natal, no pomposo auditório do DER. Desejava ver o irmão Dix-Huit governador do Rio Grande do Norte. Toda expectativa de Mossoró concentrava-se ali. Era, de novo, a vez do velho alcaide. Mas, um vento traiçoeiro soprou de Catolé do Rocha trazendo Lavô para frustração da família Rosado. Naquele momento, com a palavra, Tarcísio Maia governador, proferiu um discurso semelhante ao de Marco Antonio, ante o cadáver de Júlio César, tal e qual narrou o bardo inglês William Shakespeare. Habilmente caviloso, disse que sofria por não poder solucionar todos os problemas políticos do seu PDS. E, por isso, doíam-lhe a alma e o corpo. E por aí foi... Finda a convenção, Vingt foi cercado pelos jornalistas e como dardo venenoso, uma pergunta atingiu-lhe o coração: "O que o senhor acha da afirmação do governador, que sofria com aquela situação dolorosa e dilaceradora". Vingt, fera ferida, foi buscar a resposta no curral: "Não sei como pode sofrer ao mesmo o tempo o boi e o ferrão!!".

 

02) Diógenes da Cunha Lima, no lançamento do livro de Paulo Macedo, memorizou uma história ocorrida na loja maçônica "Bartolomeu Fagundes", cujo dirigente era o boníssimo mestre Armando Fagundes. O venerável havia escolhido o estudioso lente Raul de França, pesquisador famoso naquela época (idos de cinqüenta e sessenta) para proferir palestra evocativa sobre a maçonaria brasileira, num verdadeiro teste de resistência física para o maçom potiguar. O conferencista exercia o magistério em vários colégios, inclusive no Marista onde dele fui aluno. Seu apelido carinhoso era "professor banda azul" por causa de um saliente sinal na lateral da face. Raul era minucioso e detalhista nos seus textos, discursos e razões não faltavam aos auditórios de envidarem esforços para não ouvirem suas alocuções, apesar da erudição. Nem precisava mencionar que a loja entrou em pavorosa. Os estrategistas começaram a maquinar um plano que tirasse de tempo o palestrante da noite. Eles já conheciam sua proverbial prolixidade. Armando Fagundes não aceitara de jeito nenhum a persuasão insistente de desconvidá-lo. E o homem escalado para a missão foi o primeiro vigilante e lugar tenente do venerável o nosso Manoel Lisboa, O pior da empreitada: deveria agir como um finório lunfa no âmbito do templo, na chegada do preletor. No momento aprazado, ao adentrar na nave da loja, Lisboa como um lince partiu ao seu encontro para abraçá-lo efusivamente e ali mesmo subtrair o papelório do bolso de Raul, que nada percebeu, ante o afago e o festejo dos irmãos em ruidoso e cúmplice alarido. Ao assomar a tribuna, após as saudações de praxe, sentiu que algo lhe faltava quando levou as mãos aos bolsos. Repetiu as mesmas referências protocolares e, lívido, comunicou aos presentes o desaparecimento do discurso. A loja aliviada - não obstante o espanto do venerável - exigiu ao irmão orador que encerrasse a cerimônia com algumas palavras. E o destino do discurso? Ora, o Manoel Lisboa, com a mesma criatividade circense da velha Nova Cruz, simulou o seu desaparecimento. Mas, o pronunciamento alentado de Raul, na verdade, ficara nos anais da loja só para consulta, mas nunca para audição.

03) O perito João Tavares trabalhou trinta anos no Detran. Hoje, aposentado, reside em Ceará-Mirim. Era bacurau "cinco estrelas". Batizou a filha duas vezes para tomar Aluízio Alves como padrinho, passando-o a chamá-lo, "compadre go-vernador". Certa vez, fez-lhe um pedido de transferência para Nova Cruz. Na ótica dos circunstantes, Aluízio não poderia faltar ao compadre. E assim, prometeu estudar o caso. Quinze dias depois, a nomeação saiu. João Tavares voltou ao compadre e cobrou, agora, sua ida para Nova Cruz. Nesse ínterim, a prefeita do município, Joanita Arruda Câmara, sabedora do caso, veio ao governador e vetou a transferência de João Tavares por julgá-la inconveniente politicamente. Voltando a cobrar, o compadre Aluízio, agiu com sabedoria política incomparável. Chamou-o a um lugar reservado e confessou de maneira salomônica e patética que "não poderia abrir mão de sua presença no Detran e por isso "suplicava" esse sacrifício do compadre em benefício da reconstrução do novo Rio Grande do Norte". Só o cigano Aluízio poderia convencer. Era um inigualável encantador de serpentes. 

25 de Janeiro de 2013 às 12h35

DE TREVO A TREVO

Devagar, como compete aos penitentes, vou soprando minha flauta aos ouvidos das autoridades. Esse prelúdio indefectível diz respeito ao Centro Industrial Avançado - CIA. Continuo sendo o fantasma dos seus mistérios circundantes. Aqui e acolá apareço que nem visagem pedindo e lembrando. Vamos ao assunto. Partindo de Natal a BR-101 vem duplicada e iluminada enrolando a curva no trevo de Parnamirim. Nessa bifurcação a estrada que segue à direita para Macaíba chama-se BR-304. Na sua extensão implanta-se paulatinamente o Centro Industrial Avançado (CIA), obra do governo do estado.

São dez quilômetros do trevo de primeiro mundo de Parnamirim até o trevo mixuruca de Macaíba. Trata-se de um trecho no qual estão sendo investidos milhões de dólares representados nos investimentos de mais de trinta empresas. Somadas, essas indústrias irão oferecer nos próximos anos mais de dez mil empregos diretos. O fluxo, hoje, de veículos, segundo as pesquisas do DNIT já é preocupante. E irá, com certeza, ficar congestionado quando o CIA atingir a plenitude do funcionamento, com o tráfego permanente de coletivos e caminhões pesados. E qual a solução pretendida em prosa, oração e verso: feita só a duplicação da BR-304, impõe-se a sua iluminação consequentemente, de trevo a trevo, de pólo a pólo. Semana passada, diretores das fábri-cas queixavam-se de que, à noite, os ônibus não estavam mais parando para os operários, aumentando o perigo de todos que trabalham ao longo da via. Mais aí vem a interrogação irreprimível: a quem compete iluminar a BR-304 nesse trecho? Para ser pontual respondo: o governo do estado, cuja reivindicação já completou dez anos. Mas, acima de tudo, é preciso o impulso, a sensibilidade e a vontade política de alavancar o projeto e buscar a decisão de executá-lo, igual a Rota do Sol que liga Natal a Pirangi.

Gostaria de pedir, como cidadão e eleitor, que o DNIT e o DER informassem algo a respeito. Uma obra dessa importância, com tantos usuários se perguntando a cada dia (o que está acontecendo?) não pode ficar sem justificativas, até mesmo as óbvias. A BR-304 serve de escoamento de quem vem das regiões do Seridó, do oeste do Rio Grande do Norte e do Ceará, bem assim para quem vai ou vem da Paraíba, Pernambuco, além do litoral agreste do estado. As prefeituras, as câmaras de Parnamirim e Macaíba, os deputados fe-derais e estaduais que representam os dois municípios devem se pronunciar, suscitar questionamentos, como também as associações de classe, setores do comércio e do próprio CIA. Calar é consentir com a inércia e o abandono.

Tenho certeza e confio na nova administração que assumiu os destinos do Rio Grande do Norte que despertará para o problema. Não é tão difícil o enfrentamento. A governadora sempre encarou desafios, embora saiba-se a situação que hoje as finanças públicas atravessam.

Não, não estou sendo visionário apesar de ter falado, no início, em fantasmas. Isso porque, tanto na política quanto na gestão pública, é preciso acreditar no invisível para não incorrer nos equívocos dos que se suicidaram no palpável. Sonhar é necessário até mesmo sozinho porque o sonho é contagiante. Virótico. De trevo a trevo. De pólo a pólo. Uma avenida iluminada de dez quilômetros, que reivindico há mais de dez anos. 

04 de Janeiro de 2013 às 15h35

VOZES DESQUALIFICADAS

Não posso deixar de proclamar a minha aversão a frase medíocre de que "a voz do povo é a voz de Deus". Nem hoje, nem ontem e nem nunca será. O Antigo Testamento está repleto de desobediências e chagas abertas. Todas punidas com castigos pelo Deus decepcionado, apesar de misericordioso. Assim descrevem os livros do Êxito, Deuteronômio, Josué, Juízes, Samuel, Reis, Esdras, Jeremias, Daniel até o do último profeta, o Malaquias. O povo se deixava dominar por demônios de baixa hierarquia. O Senhor sempre buscou um relacionamento mais próximo com a humanidade, ao ponto de pessoalmente ter feito contato conosco ao enviar a terra o seu filho Jesus Cristo. No Novo Testamento Ele disseminou o amor, o perdão e a caridade, mas o povo que não detinha a voz do Pai o crucificou. Essa assertiva banal jamais se coadunou com a espiritualidade. A única voz de Deus está nas Escrituras.

Nos dias de hoje ninguém é profeta. Todos se extinguiram e cumpriram a missão para as quais foram escolhidos e ungidos por Deus. Não conheço nenhuma igreja hoje que ostente em seus quadros figuras proféticas. E aí os arqueólogos, os cientistas, os historiadores, os pesquisadores surgem com crendices para assustar o mundo: "Ele vai acabar dia tal!". Li a Bíblia toda e não vi nenhum Maia. Conheço Lavô, Zé Agripino, João Maia, Galbê e muitos outros. Eles jamais se propuseram a destruir coisa nenhuma.

O mundo não vai acabar por morte natural (maremotos, terremotos, tsunamis, queda de meteoros, choques planetários, como querem os ficcionistas). Vai ser por suicídio, lento, gradual e inseguro. O seu povo, não ouvindo mais a voz de Deus, destruiu o amor, a caridade, o romantismo, a ternura, o caráter, a honestidade descendo, descendo direto a pior animalidade. Primeiro, não existem mais interpretes e shows como antigamente. Bandas funk, de rock e rap desmoralizam a música, o ritmo e a dança. Deseducam a juventude e picham a arte, em nome de um falso modernismo. Em quem você pode confiar neste mundo? Qual a classe laboral, política, social, confiável, porque o dinheiro muda tudo. A humanidade não valoriza mais a árvore, a rua, o crepúsculo, os astros, todo aquele cenário que a fez feliz e ela não sabia.

O que se vê: gente demais, veículos em demasia, assaltos, assassinatos, perigo em toda parte fazendo com que o ato de sair é o mesmo de não voltar. Esse envilecimento do mundo velho, que somente fala em copa do mundo. A saúde, a educação, a segurança, a mobilidade urbana, unicamente virão por causa dela, por ela, para ela. O que Poder Público ganha, arrecada com o Carnatal, por exemplo? Sei que é um evento privado, mas por que ele não destina ao Walfredo Gurgel um percentual para atenuar a situação da pobreza que procura o hospital ou o Varela Santiago? O mundo vai acabar pelo falecimento paulatino, predador e putativo dos valores humanos omitidos e negados. O mundo vai se suicidar igual a Judas Iscariotes.

Aos que ainda acreditam no Cristo Jesus - Feliz Ano Novo! 

14 de Dezembro de 2012 às 12h13

O NASCIMENTO DE JESUS CRISTO


Texto de Padre João Medeiros Filho (*)

Jucurutu@digi.com.br


 

Quem haveria de acreditar que uma criança nascida num lugar ermo, de pastagem de animais e colocada num coxo de alimentação, poderia ser Deus? A convicção de que Ele deseja habitar na gruta do coração de cada ser humano faz com que os cristãos lutem para tornar este acontecimento aceito por todos.

Não é possível conter a alegria da Mãe desse Menino, dos anjos, dos pastores e de quem sente o elo entre o nascimento e a ressurreição do Cristo. Sabemos da importância do Emanuel. Jesus veio trazer sentido à vida do ser humano. "Vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude" (Jo 10,10). É fundamental contemplar seu Natal entre nós e acolhê-lo com todo entusiasmo!

Alguns não percebem a natureza do Verbo que se fez carne, ou seja,  a comunicação de Deus com sua presença em nossa história, assumindo nossa realidade humana, porque são capazes apenas de olhar para eles mesmos. A luminosidade do amor do Deus-Menino faz o homem reconhecer  os próprios limites, superados, no entanto, pelo amor da Criança nascida em Belém. Aceitar o nascimento de Cristo é essencial para que o homem tenha a certeza de que a vida vale a pena ser vivida para perdoar e amar, como Ele fizera e ensinara. Olhar para fora de si mesmo é importante para uma convivência promotora da existência humana, dom de Deus, que deve ser desenvolvida em comunhão de fraternidade, no respeito ao outro e à natureza.

O Menino do presépio, Deus-conosco, veio para entrar na manjedoura de cada ser humano, dando vida e sentido à mesma. Aceitando-O, veremos que, na transitoriedade da nossa peregrinação terrena, é gratificante a caminhada em busca da paz e da verdade. Por que há tanta concentração de riquezas e poder nas mãos de minorias insaciáveis em querer sempre mais, sem promover a justiça social? Por que alguns se detêm numa religiosidade intimista, procurando seus interesses na busca de soluções de problemas pessoais, sem compromisso com a promoção dos outros em função de uma cidadania plena? Por que o uso da religião para oprimir grupos e desfocalizar o sentido da fraternidade e do respeito à diversidade humana? 

Quando o nascimento de Jesus acontecer em cada pessoa, família e organização social, teremos sua luz a fazer-nos compreender a missão humana de construir mais solidariedade e dignidade, que levam a promover a vida com mais sentido para todos. Aceitemos ser o presépio do Menino-Deus, que nos faz criaturas novas! Se isto acontecer, realizar-se-á, então, o que o profeta Isaías anunciou: "O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença..." (Isaías 9, 1-2).

O Natal de Jesus ainda não aconteceu para muitos. Quem O deixa nascer em si mesmo, é convidado a bater à porta do coração dos outros para apresentar-lhe a alegria de tê-lO dentro de si!

A centralidade da festa  do Natal é a união do Divino e do humano. Deus é Amor, que vem ao encontro da humanidade, "esvaziando-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens" (Fl 2,7).

 

(*) Da Academia Norte-Riograndense de Letras 

07 de Dezembro de 2012 às 11h59

A CONSERVAÇÃO COMO NECESSIDADE PERMANENTE

O exercício perene da conservação deve ser revelada em todos os seguimentos da atividade humana. Seja pública ou privada. Como navegar - conservar é preciso. A conservação dos bens administrativos, culturais, patrimoniais, econômicos, morais, de uma sociedade dignifica a própria condição de humanidade. Os ativismos do processo da atual gestão pública de muitos prefeitos e governadores, tem induzido manter a estrutura urbana e suburbana das cidades em completo descaso e predação incessantes. É raro o gestor público que recupera obra herdada do seu antecessor. O prejuízo é contundente para a família e a comunidade. Seria inveja mórbida? Monocratismo perverso, porque não está ali refletido o seu ego?

 

O ser humano está em constante evolução como tudo no planeta e no universo. Mas, o que existe de bom e de bem, em favor da sociedade, e ainda de belo, de amor à vida, não pode ser desdenhado. Tapar buracos em ruas e estradas; conservar as escolas e os hospitais, deixando-os aptos a prestar os seus serviços; conservar as ruas limpas, iluminadas, abastecidas com água e gás; conservar, restaurando o patrimônio histórico da cidadania popular dos seus casarões; conservar a conquista da ética, dos direitos individuais, lembrando o passado com gratidão, alegrando-se com o presente e encarando o futuro sem medo; conservar as crenças principalmente aquelas nascidas do Novo Testamento; conservar a natureza, as praças e os jardins que os outros construíram é sempre preferível essa conduta do que o mito administrativo de ser único.

 

Não sou conservador, nem tradicionalista. A conservação que me refiro não é hostil às inovações políticas ou sociais. Mas àquelas que propugnam resguardar de danos, decadência, deterioração, prejuízo, etc., os prédios do domínio da união, estado e municípios constituídos de edificações tombadas pelo patrimônio histórico ou não. Observe o caro leitor, a situação das repartições oficiais hoje, frente, fundo, verso e inverso. São construções de vinte, trinta, quarenta anos passados. Compare com as de outros entes federativos. Natal, que já recebe e divulga suas potencialidades turísticas; que vai hospedar em 2014, um grupo da copa do mundo; armazena em suas ruas, praças e logradouros, lixo, fezes, fedentina, drogas, violência e corrupção. Conservação, por conseguinte, invertida da que se espera e se propõe.

 

Por fim, tudo é relativo. Tem causa e efeito. O orçamento estadual é hoje refém do colossal tamanho da máquina funcional, verdadeiro monstro Leviatã do qual falou o teórico político filosofo inglês Thomas Hobbes no século XVII. Sem comentar os desperdícios do estuário caudaloso da má gestão explícita e implícita que sempre atormentaram os governantes de todos os níveis (de federal à municipal), depreende-se que é difícil e distante o conserto ou reparo da máquina. O arcabouço legalista que gerou todo esse emaranhado é um "nó de jabá" indesatável, catimbado, mijado em cima porque foi criação do homem, pelo homem para o homem. Fisiológico, pantagruélico, corporativo, elitista, fome zero. 

30 de Novembro de 2012 às 12h08

FACTÓIDES POLÍTICOS

01) A campanha de 1960 pegava fogo literalmente no Rio Grande do Norte. O então governador Dinarte Mariz queria a todo custo fazer o sucessor. A contenda era pesada. Djalma Marinho versus Aluízio Alves. No largo da feira das Rocas, Natal, a luta estava montada sobre um enorme palanque e Dinarte discursava: "Natalenses do querido bairro das Rocas! Eu amo esse povo" e por aí foi falando. Acerta de uns quinhentos metros, em cima de uma velha caminhonete, um grupo de amigos, de megafone em punho, enchiam os pulmões e gritavam ao mesmo tempo: "Cala a boca Calabar!!". Referiam-se ao então vereador do bairro Cauby Barroca que aderira a Djalma. Falavam que tudo era "arrumação" do líder comunitário, que tinha físico de levantador de copo e arremessador de piúba. Cauby Barroca era franzino, simples, mas pagou um preço mais alto do que o da cooptação. Nunca provaram o valor. Mas, política é isso mesmo.

 

02) Já em Mossoró, nessa época, os festejos da padroeira em ano eleitoral tem outra conotação, mostrando força e prestígio pelas avenidas. No pavilhão de tiro ao alvo, em uma praça, se encontrava o saudoso José Andrade, popular "Zé Gago", exercitando sua pontaria. Um grupo se aproximava e no meio, o deputado Vingt Rosado que junto a Djalma Marinho, pleiteavam o governo do estado na chapa da situação (governador e vice). Ao passar por Zé Gago, Vingt tocou seu ombro querendo agradar o conterrâneo: "Acertou na mosca, heim Zé Andrade?". Zé Gago, rápido no raciocínio, provocou: " E eu, acer... acertei na... na... mos... mosca, mas qué...e..ro mesmo é de..de..derrubar uma a...a...aranha!". Djalma tragou o seu cigarro fingindo a ocorrência. 

 

03) Ao assumir a presidência do Senado, Garibaldi Filho foi surpreendido com um bonito estojo de "canetas bico de ouro". Assustado, indagou: "Pra que isso?". O assessor, logo explicou, com as mesuras de praxe: "É para o uso de Vossa Excelência. É liturgia da Casa. Esse estojo tem o valor de cinco mil dólares". Gari, meio mineiro, meio nordestino, atenuou: "Pode levar isso daqui. Traga-me uma caixa de canetas Bic". E sorrindo, explicou ainda: "Eu tenho mania de esquecer ou deixar sobre a mesa minhas canetas e alguém aparece e leva. Bic é menos prejuízo". O funcionário amarelou o sorriso e saiu de fininho.

 

04) O teatro Alberto Maranhão estava lotado. O então governador Cortez Pereira, com eloquência expunha seus planos e metas. Uma enorme claque o aplaudia. A direita do corredor central, postava-se um grupo oposicionista, li-derado por um jovem magricela, óculos de lentes grossas que atendia pelo nome de Garibaldi ou simplesmente Gari. Esse grupo contestava quase tudo que o expositor falava. Já se aborrecendo com o quadro, Cortez apelou para a filosofia. Apanhando numa mesa ao lado varetas de bambu, dissertou: "Uma por uma, eu as quebrarei. Todas juntas torna-se impossível! Quero dizer: se unidos somos fraco, divididos não somos nada!". Aplausos para Cortez. Estava sendo descoberta a pólvora. Na saída, alguém perguntou a Garibaldi: "O que você achou da história das varetas?". Com aquela calma displicente, Gari respondeu: "No regime de hoje, aquelas varas podem servir também de aviso e usadas nos costados de quem discordar das idéias palacianas". Vivia-se o início dos anos setenta da era da revolução de março de 1964. Gari já era previdente. 

23 de Novembro de 2012 às 10h43

APARÊNCIAS, NADA MAIS

01) O vereador Domício Macedo do Assu, mulherengo a toda prova, não perdia oportunidade para galanteio. Não existia "Maria da Penha", nem essa história de assédio. Dessa vez o nosso edil foi longe demais. Com umas "duas ou dez" na cabeça, Domício não resistiu e apalpou o traseiro de uma jovem. O fato foi parar na delegacia. Depois de acusações e defesas, o tenente Djalma perguntou: "Por que fez isso? O senhor acha a mulher inferior ou sujeita aos caprichos e desejos descabidos?". Domício, meio sem jeito, tentou explicar: "Bem, tenente, eu não acho a mulher inferior nem superior ao homem. A mulher só é diferente da cintura pra baixo. Mas diga aí tenente, não é lindo mesmo?". O militar achou mesmo lindo. E Domício ganhou quarenta e oito horas de xadrez a bem da moral.

 

02) Natal dos anos cinquenta era simples e carente. Uma coisa que marcava era a educação das pessoas. Nos "pontos de ônibus", faziam-se fila para subir nos veículos. O vereador Sebastião Malaquias, num momento de estalo, levou a câmara municipal um requerimento para que fossem construídos alpendres nos pontos das "sopas e marinetes", nomes dos coletivos daquele tempo. Segundo Malaquias, "um irmão seu construiria, e isso sairia "bem baratim" para os cofres da prefeitura". Nessa época não existia o Detran. O serviço chamava-se "Inspetoria de Trânsito", conhecida pela sigla "IT". O prefeito analisando a sugestão, enveredou pela tangente. Providenciou umas placas de zinco com as iniciais "IT" e aí foi criada a parada oficial. O vereador prefalado foi para a amplificadora a "Voz do município", em Lagoa Seca e abriu o verbo: "Pedimos abrigo para os passageiros e o prefeito botou umas "pracas" da "IT"! Quer dizer: "Intrubicou tudo"!".

 

03) Aproximava-se a data magna do município de Macau. O então prefeito Venâncio Zacarias pregava: "Vou deixar a cidade um brinco. Quem visitar, vai querer voltar." Um grande pátio de vaquejadas estava sendo preparado para a vaqueirama. Estacionamento para ônibus e carro de passeio, tudo nos conformes do planejamento. O vereador Luiz Tinoco, cheio de gozações, fez piada: "Prefeito e o estacionamento para cavalos?". "É lá no final", respondeu Venâncio. "E o "bruxódromo"? Onde vai ser?". Venâncio, franzindo a testa, quis saber: "E o que é isso?". O vereador brincalhão insistiu no gracejo: "O senhor não sabe? É onde se guarda as vassouras!". O prefeito perdeu as estribeiras: "O que eu sei é que a sua mulher e a sua sogra vêm voando. Já estão a caminho!".

 

04) No plenário da Assembleia Legislativa dos anos setenta, oitenta, entrava em cena, o assunto gravidez. Valia tudo quando se tratava de "encher linguiça". Um parlamentar discursava: "A população indígena triplicou nos últimos vinte anos. É de fato, uma verdadeira nação". O deputado cordelista Luis Sobrinho, de relance, aparteou: "É sinal que os índios estão fornicando mais do que os brancos". Outro colega, corrigiu: "Que é isso deputado. Está apelando?".  "Não, eu quis dizer que os índios estão fumando mais que nós e com isso, dormindo menos, seu maldoso!". Aparências, nada mais. 

16 de Novembro de 2012 às 13h08

MACAÍBA E OS GUARAPES: 135 ANOS!

Ao ponto alto das comemorações dos 135 anos da emancipação política e administrativa de Macaíba, acrescente-se o bicentenário de nascimento do seu fundador Fabrício Gomes Pedroza, cujas cinzas foram trasladadas do Rio de Janeiro para a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, anos passados. O vinte e sete de outubro de 1877, pela lei nº 801, Macaíba - que antes se chamava Coité - desmembrou-se de São Gonçalo. Aí amplia-se o período de esplendor comercial do porto de Guarapes que irradiou energia econômica a todos os quadrantes. Monopolizou o sal para o sertão, incentivou a indústria açucareira do vale do Ceará-Mirim, financiou a produção adquirindo as safras das fazendas de algodão, cereais, couros e peles. Fundou a "Casa dos Guarapes" e do alto da colina, comandou o seu mundo de transbordamentos, onde tudo era rumor, vida, agitação, atividade.

É nesse vácuo de cento e trina e cinco anos que reside a minha perplexidade. Um silêncio dominado pelo abandono e a indiferença. Ninguém coloca em cena a coragem de contemplar restituído, o universo explicito de Fabrício que fez brilhar o nome de Macaíba dentro e fora do Rio Grande do Norte, na segunda metade do século dezenove. Não bastam, apenas, reprisá-lo com lendas e narrativas, como tivesse sido um mundo de ficção. Melhor que a dispersão da palavra solta, é ouvir o eco de suas paredes reerguidas, das vozes trazidas pelo vento das vidas que não se pulverizaram mas renasceram pelas mãos das novas gerações. Esse universo semi-desaparecido, clamo por ele, aqui e agora, afirmando que a melhor imagem de um homem, após a morte, não são as cinzas, mas a obra que legou a posteridade, revivida e restaurada como reconfortante e fiel fotografia de sua história e vida.

Como guerreiro solitário, luto há mais de doze anos pela restauração dos escombros do empório dos Guarapes. Como membro, àquela época, do Conselho Estadual de Cultura do Estado consegui o tombamento. De imediato, no desempenho do mandato parlamentar obtive do governo a desapropriação da área adjacente. Batalhei, em alto e bom som, junto aos gestores públicos a elaboração do projeto arquitetônico, que até hoje, dormita em armário sonolento da burocracia. Foi uma agitação, apenas, que não se moveu nem comoveu. Saí dos movimentos da superfície oficial, para as janelas da imprensa e outras vozes, em coro uníssono, oraram comigo pelas ruínas da mais reluzente história da economia do Rio Grande do Norte: os Guarapes. Todo esse conjunto de verdades fixas, foi ilusão imaginar que a lucidez jamais se disfarçaria em surdez. Como enfrentei e venci no passado, partindo de perspectivas débeis e precárias, óbices quase intransponíveis para a restauração das ruínas do Solar do Ferreiro Torto e da Capela de Cunhaú, sinto que não perdi os laços entre a fragmentação do sonho e a fé incondicional no meu pragmatismo, de que tudo, até aqui, nada foi em vão.

Reproduzir a realidade, tal qual se imagina que fosse, o burburinho comercial e empresarial daquele tempo de Fabrício, faz-nos refletir e aprender para ensinar aos jovens de hoje através de exemplos, imagens e ritmos, a saga de que vultos como o dele iniciaram uma figuração, nova, nítida e luminosa, pouco tempo depois, numa Macaíba que começava a nascer com Auta de Souza, Henrique Castriciano, Tavares de Lyra, Augusto Severo, Alberto Maranhão, João Chaves, Octacílio Alecrim e outros que construíram em modelos de vidas o prestigio da terra natal - que não se evapora, nem se desmancha. Essa realidade para mim é tensa e inquieta, porque cabe hoje revivê-la em todos nós. É imperioso que os nossos governantes tracem esboços para uma saída, uma superação, criando-se fendas e passagens, para juntos, todos, respiramos o oxigênio da convivência com os nossos antepassados. Se todos nós pensarmos assim, com cada palavra significando labareda, lampejo, no centésimo trigésimo quinto aniversário, derrubem, pois, os obstáculos que impedem as luzes da memória dos Guarapes refletirem sobre a posteridade. Se assim não agirmos tudo será cinzas. A emancipação política de Macaíba já completou 135 anos neste 2012, dia 27 de outubro passado. E os Guarapes também. 

09 de Novembro de 2012 às 15h08

PEDRAS DO CAMINHO

01) Dix-Huit terminava o mandato de prefeito de Mossoró e lançava a médica Rosalba Ciarlini para substituí-lo no Palácio da Resistência. Terminando o seu tempo, a então prefeita indicou para continuar o empresário de saudosa memória, Luiz Pinto. Dix-Huit queixou-se de não ter sido sequer consultado. "Serei candidato novamente!", esbravejou o burgomestre. "Farei das praças de Mossoró um pretório de justiça! Que me julguem os mossoroenses! Quero dizer a esse Pinto que ele jamais cantará de galo nesse terreiro". Em política nunca faltarão pedras no caminho. Venceu o velho alcaide.

 

02) Em caravana, o MDB/PMDB, percorria o Oeste dos anos setenta. Roberto Furtado, Agenor Maria, Aluízio Alves, formavam o front. Agenor, alcunhado de "o gemido do povo", em sua falação dizia: ""Oestianos" de Pau dos Ferros, "joventude esquicida" desta terra...". E por aí, ia em frente, tropeçando o vernáculo. Em um canto alguém comentou: "Esse homem não assimilou nada de Brasília?". Numa explicação provinda do fundo do palanque, uma voz emergiu: "Ele está na tromba do elefante. É natural que dê trombadas por aí...".

 

03) Manoel Alves, o "seu Mané", da Rádio Rural de Mossoró, foi chamado para o andar de cima. As tiradas de "seu Mané", com certeza, dariam bom livro. Aqui vai uma dele. Aproveitando as benesses do microfone, lançou-se vereador. Às cinco da manhã, ele misturava o forró da hora com pedidos de votos, junto aos ouvintes. A Justiça Eleitoral chegou a advertir. "Mané" mudou a tática. Seu número era 15.111. Aos ouvintes proclamava: "Mando 15 mil abraços e mais uns quebrados para os amigos!...". Certo dia, o titular do jornal falado não compareceu. Escalaram "Mané". No texto estava escrito: "O Santo Padre, o Papa Paulo VI, passa bem. Seu estado de saúde, felizmente teve grandes melhoras!". "Seu Mané" passou o visto no noticiário e mandou ao ar: "O Santo Padre, o Papa Paulo VI, passa bem. Infelizmente não morreu hoje!". O monsenhor Américo Simonetti, diretor da emissora, deu um piripaque quando ouviu o despautério do folclórico "locutor".

 

04) A campanha pegava fogo em Ceará-Mirim, literalmente falando. Nas ruas, as opiniões se dividiam: "Vai ser Peixoto de novo!". Outros falavam: "É Ednólia na cabeça!". Carlinhos de Massaranbuba, distrito do município, moço humilde, porém forte candidato a vereador, comentava após o resultado: "Fiquei com Ednólia até o fim. Acontece que o "vento forte" do "tamborete", não é mais o mesmo. Deu no que deu...". E completou: "Foi ventania rasteira. Vento forte mesmo, só nos parque eólicos. Os tempos mudaram". Pedras no caminho.

 

05) A religião através dos anos, cultua, festeja e até cria datas santificadas para santos padroeiros de entidades e classes. A esposa do vereador João de Josino, de Lagoa Salgada, era um postal. Reconhecida por seus dotes físicos, a mulher não perdia tempo e enfeitiçava a todos que a cobiçava. Iniciavam-se os festejos de fim de ano e Manoel Almeida, verdadeiro olho de gato, provocando o vereador/esposo, premiou-o com cortante ironia: "Vem aí mais um feriadão emendando o fim de semana. O prefeito sancionou e agora é lei: foi instituído o "dia do corno". Fala-se que terá até padroeiro. Vai ser comemorado sexta-feira". E dirigindo-se maliciosamente ao maridão da potranca, perguntou: "Você sabia vereador?". O pacato cidadão inocentemente respondeu: "Não. Eu não sabia". Manoel arremessou perversamente: "Tão vendo nobres colegas. Eles são os últimos a saber...". Maldade e inocência nunca se deram bem. Pedras no caminho. 

02 de Novembro de 2012 às 16h54

BULA MEDICAMENTOSA

Jesus Cristo, o amado mestre, falava através de parábolas. O ser humano comum, quando muitas vezes quer dizer uma verdade, escreve por linhas tortas. Esse preâmbulo indefectível vem esbarrar num assunto que desejo abordá-lo via deduções preterintencionais, comparativamente a uma bula medicamentosa. Repleta de disse-me-disse. Falo do famigerado coeficiente eleitoral, a mais afiada faca de dois gumes do processo eleitoral brasileiro. Modelo injusto e antidemocrático, que eleva ao podium o lanterninha em detrimento do mais votado. O resultado, muitas vezes, de uma eleição, não reflete a manifestação da maioria, principio fundamental de qualquer processo decisório. 

 

O escorre das votações ou proclamação de resultados, em qualquer atividade institucional ou não, baseia-se na lógica numeral dos sufrágios. Nos plenários do Legislativo, do Judiciário, dos Tribunais de modo geral, no placar das competições esportivas, no Vaticano, no sindicato, na OAB, no ABC, no grêmio escolar, enfim, em qualquer seguimento coletivo a expressão dos mais sufragados - é a respeitada. Até a lei de Gerson é a da vantagem. Somente o processo eleitoral brasileiro é liquidificado, diluído, triturado, para inverter e subverter a escolha popular que deu três mil votos a um candidato mas o que se elege é aquele dos quinhentos. Acho perverso esse sistema. A maioria dos pequenos partidos que abunda o elenco eleitoral é useira e vezeira na prática de registrar candidatos fajutos apenas com o intuito de alimentar a legenda.

 

O coeficiente eleitoral, assim, é semelhante a bula medicamentosa. Esta tem efeitos colaterais pois ofende a todo organismo da eleição. Elege quem não devia. Retira do eleitor a primazia de escolher o melhor, retirando do túmulo do processo o opaco e o onomatopaico. Envia para a casa do povo o que não deve ir - o lôgro. Verifique o resultado das urnas, à luz mortiça das reações adversas que o coeficiente eleitoral tem provocado nos legislativos de modo geral só para atender ao cálculo equivocado que premia o caricato partido político e derruba o valor pessoal, humano e majoritário do candidato. Ainda dentro da posologia sobre o assunto as minhas precauções residem no fato de entender que o homem deve ficar acima da agremiação. A proliferação das legendas tem trazido mais problemas para a democracia do que o político solitário. Afinal, o mensalão e outros escândalos foram obras da prolife-ração de partidos, de legendas.

A superdosagem de corticóide no coeficiente eleitoral mascara o exercício da democracia. Além de alarmante, a sua aplicação penaliza, deturpa a face das urnas, a liquidez da escolha, a lisura da lei. Vamos construir um Brasil eleitor. Respeitando o direito da maioria do povo e não o artifício matemático, algébrico, trigonométrico do computador eleitoral. O voto é algo numeral e ordinal. Sentar na cadeira do eleito o menos votado é invenção escabrosa. É gambiarra, "morcego" e tapeação. Voto é maioria e não medicamento controlado e manipulado. Tarja preta para o coeficiente eleitoral! Aceito tudo o que for eletrônico numa eleição menos o coeficiente digitalizado porque nega o direito da maioria. 

26 de Outubro de 2012 às 11h01

COISAS SEM EXPLICAÇÃO

01) Mais uma vez entra em cena o polêmico e criativo vereador Leléu Fontes em Caicó. Vendo que os tempos mudaram, Leléu partiu para o bom e barato. O nosso edil montou uma bela charrete, colocou um cocheiro e saiu pelas ruas da cidade de megafone em punho e vozeirão no mundo: "Leléu Fontes está aqui! Não seja burro! Pois burro não vota, caro eleitor! Pra você eu tiro o chapéu! Vote em Leléu!".

 

02) Terminava o seu segundo mandato e Dix-Huit indicava uma mulher para sua sucessão. Parte "da árvore rosadista" discordava da opção do velho alcaide. Venceu a preferência do burgomestre. Em sua despedida, Dix-Huit explicava-se: "Saio maior do que entrei! Voltarei melhor e mais rico em experiência, com a estranha sensação de que aprendi muito e ainda não sei nada". A volta para o terceiro mandato, já era e foi uma premonição.

 

03) Luizinho de Macau sempre foi generoso. Ajudava a todos, sem olhar a quem. Surgiram as ondas do rádio e posteriormente, a telinha da TV. Aí, abriram-se os horizontes para ele. Foi dada a largada na área política. Vários foram os mandatos como vereador, além de tentativas a voos mais altos. Os comunicadores descobriram a interação e Luizinho entrou nessa. Outro dia, um eleitor escreveu e Luizinho, aconselhado pelos seus marqueteiros, leu a mensagem ao vivo. "Caro Luizinho, você é legal, é espontâneo, é verdadeiro! Nada a ver com o quadrúpede, mas eu não vou votar em você. Fala-se em moralizar a política e eu não vou votar por que você, é "biba"". Depois do texto, Luizinho explicou e respondeu: "Caro amigo, eu sinceramente não sei o que é "biba", mas por se tratar de uma palavra feminina, eu acho que "biba" é a pqp e eu não sou aquela velha que se deitou numa esteira para ter um parto e sair você. Um abraço".

 

04) Quem já chegou aos cinquenta janeiros ou está beirando a data, lembra dos bons tempos da velha Macau. Entre as celebridades folclóricas, estava o popular vereador João Neblina, que se elegia sempre com o apoio dos jovens boêmios. E por que João Neblina? Não se sabe a origem de tal codinome. Sabe-se apenas que do "Mata Sete" às "Quatro Bocas", o edil João Neblina dava, prestava e emprestava seus serviços até debaixo d'água. O tempo passou e João Neblina, cansado de guerra, enfrentando a concorrência dos mais jovens, via-se preterido e passava dias cabisbaixo pelas praças. Já não era aquele aguerrido defensor do povo. Certa noite, encontrando um interiorano perambulando, convidou-o para sair e teve aceito o convite. Depois do passeio, ele olhou para o parceiro e quis saber a impressão: "Que tal o "velho"?". O notívago já farto, fazendo o gesto do dedão polegar de aceitação, o mesmo usado por João Neblina, não estranhou nada: "Ok! Camarada! Nunca foi tão bom, e arrochado".

 

05) Vereador histórico do velho MDB de Mossoró, Geraldo Alves, aplicava á risca, a regra do bom viver: ver, ouvir e calar. A última regra jamais cumpriu. Como existe exceção, Geraldo nem sempre sabia calar o bico. Quando falava, falava demais. Uma noite, por não ter cumprido o horário, raridade em política, Geraldo chamou Henrique Alves de "terrorista" e pegue blaá, blá, blá. Isso naquele tempo em que o MDB cabia dentro de um fusca. Henrique trazia à tiracolo o candidato Raimundo Hélio, que almejava chegar à Assembleia Legislativa. Apresentado à bancada, Raimundo, todo simpatia, tentava conquistar o apoio dos vereadores. Geraldo, "analfa" por parte de pai e "beto" por parte de mãe, recitava toda palavra que ouvia, desde que achasse bonita. Não importava o significado. À Raimundo Hélio, Geraldo definiu-se: "Vou lhe ajudar. Já que Henrique lhe trouxe é porque você é um homem "poliedro"! Seja bem vindo!". Terminada a reunião, os pares de Geraldinho foram correndo consultar o dicionário Aurélio. Até hoje não conseguiram decifrar bulhufas. 

19 de Outubro de 2012 às 00h00

TUDO VALE A PENA

01) Joaquim Inácio de Carvalho Neto, descia por gravidade nas trilhas da política. Era um trem desgovernado ladeira abaixo. Numa campanha que Erivan França batizou-o de "Cavalo da Oposição", Carvalho Neto devolvia em praça pública no calor do radicalismo: "Eu sou uma cobra caninana!!". Interpelado sobre os fatos, o "majó" Theodorico Bezerra com a sabedoria sertaneja respondeu: "Meu filho, quem pensa que é tudo, não é nada. Afinal, lugar de cobra é no chão. O ditado já diz: "Se Deus tivesse dado asas a cobra, tinha tirado o veneno"".

 

02) João Pereira, líder inconteste da região de Patu, duas ou três vezes prefeito do município, tinha uma filha lindíssima. Somando aos demais predicados, a moça era muito educada. Estudando em Mossoró, ela se apaixonou por um jovem e o levou para conhecer a família. "Papi", disse a filha Graziella, "esse é Roberto, meu namorado. Eu pretendo casar com ele. É um bom rapaz. Não fuma, não bebe e não joga. É uma pessoa sem defeito. Aliás, o único defeito de Roberto é ser pobre e assalariado". O velho prefeito coçou a barba, e prelecionou do alto alto de sua nordestinidade: "Taí, minha "fia". Ser pobre é um defeito que cobre todos os outros. Mas, se você quer sofrer, abra as cancelas e vá em frente".

 

03) Dix-Huit completava oitenta e dois anos de vida e administrava a cidade pela terceira vez. Lúcido e eloquente o alcaide dizia que estava preparando sua Mossoró para o terceiro milênio. Trabalhar das oito às dezoito, para ele era normal. A família passou a incutir na cabeça de Dix-Huit que estava na hora de um cuidado maior com a saúde. Fazia-se necessário ir a São Paulo, para um exame de corpo inteiro. O velho cedeu. Um certo deputado estadual, exagerou ao dizer "que ele sofria disso, daquilo, etc, etc". Certa tarde, um vereador em conversa no gabinete mexericou: "Prefeito, o deputado hoje chegou a falar que o senhor ia a São Paulo e não voltaria com vida". O velho ajeitou os óculos no nariz e sentenciou: "Isso não me afeta. Meu pai dizia que praga de urubu não pega em boi gordo. Ele que se cuide!".

 

04) Uma fase de descontentamento e racha invadiu a política mossoroense décadas passadas. O grupo do deputado Vingt, abria uma dissidência com os Maias tarcisistas e isso repercutiu até em Brasília. Vingt não aceitava as imposições de Tarcísio e surgiu aí o "voto camarão". Fazendo campanha pelo Nordeste, o presidente Figueiredo, disse em praça pública em Mossoró: "Vim ao Rio Grande do Norte comer camarão com cabeça e tudo!!". Vingt, cercado por amigos, ouviu em sua residência a frase fluvial e rebateu ao seu modo: "Conheço Brasília há muito tempo. Lá eu nunca vi um doido rasgar dinheiro. Agora, comer cabeça de camarão que é o mesmo que comer bosta, estou tendo agora a confirmação...".

05) Domício Macêdo, figura que fez história na câmara municipal de Assu, oito vezes vereador, tinha como trunfo a irreverência. A campanha estava em efervescência, e Domício mulherengo todo, não perdia chance para umas escapadinhas. Certa noite de sexta-feira, o edil beijou a esposa e foi para "a grande concentração". Foi um fim de semana longo. No domingo, às dez da noite, Domício chegou em casa, morto de cansado. A mulher alfinetou: "Como você vai explicar tudo isso?". Domício, cinicamente, respondeu: "Milha filha, foi o maior "corpo a corpo" que eu já participei na minha vida pública! Era rua por rua, casa por casa". A consorte interrompeu furiosa: "Para com isso! A única casa que você "visitou" foi o bordel de Bilica! Viram você entrando lá! Cuide da casa que eu vou passar uns quinze dias na casa de mamãe, seu cretino". 

08 de Outubro de 2012 às 15h18

DIÁRIO DE BORDO

Início dos anos noventa, assume o governo o então senador José Agripino Maia. Desponta no Rio Grande do Norte um perfume de renovo que lhe propiciava uma repetida oportunidade de administrar o Estado. As viagens a Recife eram frequentes a fim de participar de reuniões da Sudene. Numa delas, para acompanhar sua Excelência, o líder do governo na Assembleia o deputado Getúlio Rego convidou o colega Nelter Queiroz recém-eleito para integrar a comitiva, ao lado do secretário de estado Manoel de Medeiros Brito e o fiel escudeiro de J.A. o assessor Junior Maia, que viajou no banquinho do "aeromoço", do avião oficial, "chapa branca".

Encerrada a reunião matutina, todos foram almoçar na Churrascaria do Porcão, sucesso à época, na conhecida Veneza brasileira. Barrigas cheias, pé no mundo, decolando de regresso à Natal do Aeroporto dos Guararapes. A aeronave já assumira a altura ideal do seu plano de voo. Os passageiros conversavam amenidades enquanto Manoel de Brito, refestelado numa poltrona, dormia à sono solto. De repente, sentado mais atrás, junto ao dorminhoco, Nelter, emitiu um terrível e sorrateiro flato que contaminou todo o aparelho. Olhares se cruzaram. O governador teve que acender às pressas, o seu cigarro de piteira a fim de inibir e debelar o odor pestilencial. Não foi despropositado que o primeiro olhar tenha se encaminhado na direção do banco do "aeromoço" onde jazia sério o assessor Junior Maia.

Sem a prova material do fato ou do flato, o médico e deputado Getúlio Rego diagnosticou que a detonação poderia ter partido do secretário Brito, que roncava, coisa que acontece com qualquer pessoa dormindo (peidar sem sentir). Nelter, pensou consigo, que só poderia ter sido o mamão papaia que comera na sobremesa. Sentia cólicas irreprimíveis e como neófito (deputado novo), não poderia correr o perigo de perder o prestigio governamental por conta de um aceso pifote.

O avião sobrevoava João Pessoa quando um novo estampido intestinal foi ouvido com maior intensidade e poder de infestação. O piloto lívido conteve a respiração. José lançou nova visão panorâmica para o interior da aeronave, fixando em Brito que ainda dormia todas as dúvidas e dívidas. A essa altura, a autoria dos disparos parecia elucidada, enquanto Nelter sudorético tapava com um lenço o nariz para encobrir a desfaçatez. Numa viagem dessa tão curta, nunca o governador tinha fumado tanto em sua vida.

Ao pousarem no Aeroporto Augusto Severo, já desembarcados, Nelter, antes de correr para o sanitário, ainda ouviu os conselhos ponderados do governador e do médico-deputado ao secretário para que procurasse com urgência um gastroenterologista porque a carne da churrascaria estava mesmo ruim. "E o que foi? E o que foi?", já dentro do W.C. foram às últimas e perdidas palavras que Nelter ainda escutou da voz da vítima. 

28 de Setembro de 2012 às 15h23

VIDAS E TESTEMUNHOS

01) A política sempre foi desacreditada e cômica. Todo dia surge um figuraço. Até que um dia, apareceu Miguel Mossoró, prometendo uma ponte Natal-Fernando de Noronha. Em conversa informal, um amigo indagou ao senador Garibaldi Filho: "O que acha disso, Garí?". Calmamente, ao seu jeito descontraído, respondeu: "Faço minhas as palavras da doutora Juliana Alcoforado: "Fascina-me o poder assustador da imaginação..."".

 

02) Passado o calor da campanha, o monsenhor Walfredo Gurgel, recolhia-se ao repouso contemplativo da paisagem, aguardando o dia da posse. Nessas calendas, visita é o que não faltava. Um fiel amigo do padre, entre uma baforada e outra do seu indefectível charuto, comentou: "Aquela citação de Rui Barbosa que diz: "de tanto ver o poder crescer nas mãos dos maus, etc, etc.", está caindo por terra. Pelo menos no Rio Grande do Norte, está sendo provado o contrário. O que acha, monsenhor?". O padre, puxando um trago do cigarro, desabafou, ainda reflexivo: "Eu prefiro ir dessa pra melhor, antes que essa praga me atinja...".

 

03) Conheci João Jales Dantas, ou João Calixto, grande líder no município de Messias Targino. Era um mão aberta quando se tratava de corridas e vaquejadas. Passado isso, andava de bolsos vazios. Para os eleitores pedir auxílio, a resposta era somente uma: "Não tenho condições!". De tanto repeteco, batizaram-no de "João sem condições". Certa vez, um protético o abordou: "Seu João, sou o rapaz da dentadura". Calixto foi rápido no gatilho: "Nessa campanha não dá. Não tenho condições". O dentista replicou: "Mas é a sua chapa que eu consertei e agora só entrego com o dinheiro na mão, certo?". O "sem condições" resmungou: "Que falta de "ingiene". Pegar em dinheiro e pegar na chapa da gente!". Para dinheiro escasso higiene idem...

 

04) Nos anos sessenta, ainda persistiam as bravuras ciganas no interior do Rio Grande do Norte. O bando do cigano Xavier não podia cruzar com o do cigano Carnaúba. Essa triste fatalidade ocorreu em território angicano. Saldo da rusga: cinco feridos e um morto. Apurado o caso, constatou-se que o vereador José Barbosa - o Zé Doido -, foi testemunha ocular do fato. O tenente Zacarias arrolando-o, no inquérito, logo o perquiriu: "Senhor José, foi constatado seis balaços atingindo a vítima. A que distância estava ao ouvir o primeiro disparo?". Zé Doido foi enfático: "Estava a mais ou menos dois metros da vítima, delegado". "E os outros tiros?". "Ah, tenente, aí eu já estava a mais de mil metros...". Dedução: não era uma testemunha e sim um velocista. 

 

05) Assú é um filão de estórias que não tem fim. Ronaldo Soares, captador permanente dessa atmosfera densa e intensa, passou-me mais uma. Seu conterrâneo Zé Gago andava às turras com a esposa Isabel. Em suma, havia arranjado uma rival. Revoltada, a família se reuniu para lavrar aquele protesto e chamar o esposo e pai à responsabilidade. Em sua defesa, Zé Gago veio com um argumento genial: "Meus filhos, arranjei uma mulher, é verdade, mas foi pra poupar sua mãe". Inconformada, dona Isabel saiu do seu silêncio: "Se foi por esse motivo, pode me rasgar toda!!". 

21 de Setembro de 2012 às 12h14

BONS TEMPOS, BELOS DIAS

01) O deputado Djalma Marinho havia retornado de uma viagem à Europa e quando exibia a um grupo de fumantes o lançamento de nova marca de cigarros chegada ao Brasil, foi interrompido pelo mineiro Milton Campos recém incorporado ao grupo e logo lhe pediu um cigarro: "Milton, esse cigarro é um produto que a Souza Cruz está produzindo na nova fábrica em Nova Cruz (RN) e me enviou um pacote especial para saber qual minha opinião". A partir deste dia, o grande Milton Campos quando queria filar um cigarro de Djalma, dizia ao pé do ouvido do colega potiguar: "Djalma, você ainda tem aqueles cigarros de Nova Cruz?".

 

02) Candidato a deputado estadual pelo PSP de Café Filho, a pedido de Djalma Maranhão, o jornalista Celso da Silveira aceitou o desafio e mandou gravar um jingle que o enaltecia politicamente da seguinte maneira: "Doutor Celso da Silveira / vai ser nosso deputado / já fez muito pelo povo / e agora fará pelo Estado / hei, boi, hei boi...". Abertas as urnas ficou comprovado que a boiada não atendeu ao apelo de Celso, que obteve pouco mais de cem sufrágios.

 

03) O agropecuarista Walter de Sá Leitão em Assu, tomava café da manhã em família quando chegou à sua casa o capataz da fazenda Córrego do Maia, em Ipanguassu, de sua propriedade. À convite do patrão, Chico Gacheiro serviu-se da mesa farta. No final, assistiu ao filho de Walter, chamando Juca, lhe pedir um cigarro. Este abriu o maço e deu-lhe dez cigarros. Gacheiro aproveitou a ocasião e fez idêntico pedido. Walter desta vez deu apenas um e Chico reclamou: "É isso mesmo, compadre, lhe sirvo há tanto tempo, peço um cigarro e o senhor me dá apenas um. Juca pediu um e o senhor deu dez". Walter respondeu em cima da bucha: "Compadre Chico, você deixa eu fazer com sua mãe o que eu faço com a dele!?".

 

04) O oftalmologista João Feire, assuense que fez sucesso no Rio de Janeiro, tendo sido, inclusive, pioneiro no transplante de córnea no país, sempre visitava à terra natal para rever parentes e amigos. Certa feita, o quase octagenário parente João Vicente, lhe pediu uma conversa em particular e solicitou um remédio "pra...", mas não chegou a completar a frase, pois logo antecipou-se: "João Vicente, tesão tem prazo de validade e a sua...". Aí quem interrompeu foi o ancião: "Freire não é pra levantar. Quero um remédio pra esquecer. O que me mata é a memória!".

05) O então deputado Márcio Marinho foi amigo dileto do hoje empresário Nilson dos Anjos, conhecido e tratado entre seus íntimos como  Nilson Andorinha. Márcio telefonou para a casa dele no tom habitual: "Ritinha, Nilson Andorinha tá em casa?". A esposa, antes de passar a ligação repreendeu-o com boas maneiras, afirmando que: "Não gosto que meu marido assim seja tratado. O nome dele é Nilson dos Anjos...", completou. Nas ligações seguintes de Márcio para Nilson, o deputado o tratou do mesmo modo e foi também advertido. Na última vez, Márcio agiu com ironia. "Não se preocupe Rita, os dois igualmente têm asas". Nilson levou tudo esportivamente, porque era tão brincalhão quanto o amigo. 

14 de Setembro de 2012 às 12h32

INTERPRETAÇÃO MAL-ASSOMBRADA DA LEI

Na interpretação mal-assombrada da lei nada se cria, tudo se copia, tal como falava Aberlardo Barbosa, o Chacrinha. Mas, uma só explicação é necessária. Ultimamente se tem discutido bastante a competência para julgar as contas públicas. Se os TCE's ou as Câmaras Municipais. Quem puxa a gambiarra é o senhor ministro do STF Celso de Melo. E tem seguidores entre magistrados e advogados. Como se trata de matéria interpretativa existe o contraditório no mesmo quilate entre os ministros no plenário da mais Alta Côrte do país. No Rio Grande do Norte o TRE solicitou oficialmente ao TCE que listasse os prefeitos e presidentes de Câmaras Municipais que tiveram contas reprovadas com ressarcimento aos cofres públicos. Nesse particular, contribuindo com o órgão requerente foram julgados e enviados pela internet, oitocentos e cinquenta e seis ordenadores de despesas incursos na lei da Ficha Limpa, candidatos ao pleito ou não. 

Se o TRE não considerasse o TCE como competente na apreciação e julgamento dos processos dos agentes públicos, é evidente que não teria provocado a instituição que passou mais de trinta dias dedicados a exaustiva pesquisa técnica e jurídica de identificação dos infratores. Aliás, cumpre registrar que a Lei Complementar nº 135/2010 denominada de Ficha Limpa teve a sua constitucionalidade aprovada pelo Supremo Tribunal Federal. Os únicos votos discrepantes e vencidos foram dos ministros Gilmar Mendes, César Pelúsio e Celso de Melo. Os demais seguiram o voto do relator ministro Luiz Fux. Outro ponto importante a aduzir é que a iniciativa dessa lei partiu de milhões de brasileiros com o objetivo de sanear, limpar e higienizar a vida política brasileira.

Todavia, compreende-se a posição dos senhores advogados na hora aflita que viveram os gestores incursos nas malhas da lei, pretendendo desqualificar as acusações aos seus constituintes. Os pareceres do TCE com relação somente aos relatórios anuais dos prefeitos estes sim, são realmente julgados, ao final, pelas Câmaras. Mas, o julgamento das contas de gestão ou daquelas atinentes a função de quem exerce o poder de ordenador de despesas, aí sim, a competência de julgar pertence exclusivamente aos Tribunais de Contas. Celso de Melo, com o seu entendimento individual, deixa transparecer que os furtos, os escândalos e os desvios de recursos protagonizados pelos prefeitos e presidentes de Câmaras Municipais devem ser julgados pelos próprios vereadores. Ora, sabe-se que a maioria das Câmaras Municipais no Brasil são submissas ao talante dos chefes do executivo. Elas não possuem estruturas técnicas, jurídicas, informáticas e confiáveis para resistirem ao assédio de muitos gestores desonestos.

Agora, negar aos Tribunais de Contas a competência de julgarem as despesas públicas e atribuir tal condição totalmente as Câmaras Municipais é um desastre sem proporção, uma catástrofe pior do que mil mensalões. Nesse caso, as Assembleias Legislativas, por extensão, iriam decidir sobre as falcatruas como o Foliaduto, a ponte Newton Navarro e o escândalo das contas da publicidade oficial? O que existem são conhecidas figuras ressentidas que vivem de sinecuras incensando os moedeiros falsos. Aqui lembro um verso de Sérgio Godinho: "Dentro da minha cidade/já não sei quem é ladrão/ se um que anda fora das grades/ ou se outro que está na prisão".

Portanto, também, mente quem afirma que o Tribunal Superior Eleitoral tirou dos TCE's a prerrogativa de julgar as contas de gestão dos senhores prefeitos. Tudo é mal-assombro e medo do desmame. 

O entendimento monocrático expedido recentemente, julgando um pedido de liminar pelo ministro Celso de Melo (que veio mais para confundir do que para explicar), é apenas direito passageiro. Não foi julgado pelo plenário do TSE. O TSE como todos os outros tribunais: de Justiça, do Trabalho e de Contas, os seus membros não são eleitos pelo sufrágio universal. Porisso, não é relevante salientar que só no TCE os seus componentes são nomeados de forma indireta. E prescindir da ação preventiva e punitiva dos TCE's nesses dias de corrupção e desmandos é compactuar com os predadores do erário ou dele se acobertar com benesses oficiais.  

06 de Setembro de 2012 às 12h51

A POLÍTICA E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS

01) O monsenhor Walfredo Gurgel, desde o tempo do Colégio Diocesano de Caicó já fumava bastante. Tempos depois em campanha para o governo do Estado, ele sempre encontrava uma brecha para pitar. Garibaldi Filho, que já xeretava a política, sempre que possível, postava-se ao lado do padre como que captando as mensagens e aprendendo o caminho das pedras. Certa noite, comício no Alecrim, os candidatos se engalfinhavam pelo microfone. De repente, veio aquela vontade que só o fumante sabe avaliar. O futuro governador pôs o cigarro na mão esquerda, procurou o isqueiro nos bolsos e não o encontrando, olhou para o rapazola Gari e pediu: "Meu filho, você tem fogo?". O jovem, fingindo não entender, respondeu timidamente: "Que é isso governador?! Fogo eu tenho. Só que nunca fumei". Risos ao derredor.

 

02) O doutor Tarcísio Maia, sem controvérsias, era o que se podia chamar pulso de ferro e coração brando. Fluía a campanha do filho José e ninguém melhor que o pai para costurar os apoios. Feito isso de cima para baixo, chegava-se ao patamar menor. Tarcísio, preocupado com a oração que "é dando que se recebe", confidenciava a um amigo: "Amanhã começa a fase pior da campa-nha. Vamos dar início às conversações, petições e petitórios dos vereadores e prefeitos". Para o governador, verdadeiras "pulgas de cós". Um costurava e o outro dava o nó. Até hoje, neste cenário, nenhuma novidade no front.

 

03) Fim de expediente e o gabinete do prefeito de Mossoró Dix-Huit Rosado se transformava em sala de reunião, muro de lamentações, discutindo o que se fez ou o que se deixou de fazer. Esse grupo quase sempre era formado por secretários, diretores e vereadores. Certa tarde, o prefeito, por demais atarefado, lia e assinava certos documentos, aparentemente não dando a de-vida atenção às visitas informais. À certa altura, alguém discordou de um assunto e um terceiro sugeriu: "Seria bom que o doutor Dix-Huit opinasse sobre isso. Que pena que ele esteja lendo essa papelada". O velho levantou a vista, e repetiu sem desfaçatez: "Aprendi com o meu pai, que com um olho lia, com o outro escrevia e com os ouvidos, escutava tudo ao seu redor, inclusive as baboseiras". Ali mesmo fechou o firo e inaugurou o silêncio.

 

04) Passada a campanha vitoriosa do então deputado Flávio Rocha, seu pai, o vitorioso empresário Nevaldo Rocha, encontrava-se com alguns amigos mais chegados dos tempos do sertão de Caraúbas e um ousou perguntar: "Nevaldo, a imprensa especula demais. Às vezes para mais, às vezes para menos. Mas nos diga se é verdade que você gastou quarenta milhões para eleger seu menino a deputado federal?!". O velho capitão de empresas, olhando para as nuvens, metralhou com extrema ironia: "Se eu soubesse que era tão pouco assim, teria elegido dois!!". A platéia curiosa logo se desfez.

05) Chico de Tindô, também conhecido pelo codinome de "Branco", inventou de ser vereador municipal. Passou a visitar todas as residências do lugar e estava convicto que seria eleito. Chegou o esperado dia da apuração. Os escrutinadores dividiam as tarefas e as cédulas. Chico de Tindô, lápis e caderno à mão anotava seus sufrágios. Os mesários cantavam nomes e números: "Fulano: cinco votos! Sicrano: três votos! Chico de Tindô: um voto! Em branco nesta secção: vinte votos. Secção tal: dez em branco!". Chico de Tindô computava os sufrágios em seu nome e também os em "branco". Cinco horas da tarde, ele saiu vibrando pelas ruas e danou-se a pagar e a tomar cerveja. Dizia: "Tô eleito! Já ganhei!". Acontece que Chico de Tindô, só conseguiu quinze votos! Os votos em branco (computados por ele) chegaram a trezentos. O candidato esqueceu de registrar seu apelido. 

31 de Agosto de 2012 às 11h09

DÁ CÁ, TOMA LÁ

01) O saudoso vereador Severino Galvão era acima de tudo, um boêmio à moda antiga. Tempos de Rita Loura, Maria Boa, etc. Certa feita, Severino adentrou no famoso "Jangadeiro" na Praia do Meio, sentando-se, pediu uma cerveja. Uma jovem aproximou-se e puxando conversa e lá para as tantas, elogiou: "Você é um cara bem legal. Tem como me emprestar vinte cruzeiros?". O vereador, acostumado "a botar bode na chuva", explicou-se: "Olha, eu não gosto de mulher cinema. Gosto de mulher restaurante". "Como assim?", perguntou a moça. Severino foi pedagógico: "Mulher cinema, paga-se para poder entrar. Mulher restaurante, o freguês chega, abre o cardápio, aí sim, depois que come é que paga. Essa última é a minha praia". A donzela pegou a bolsinha e saiu de fininho.

 

02) Final de ano. Confraternização por todos os lares. O vereador mos-soroense Expedito Bolão aproveitava as férias para curtir os parentes na capital. Alguém teve a idéia de um jantar diferente. Foi escolhida a cozinha italiana. Bolão não se empolgava nem perdia seu jeito irreverente de ser. Os garçons com muito esmero, serviam a grande família. Os pratos eram os mais diversos e apetitosos. Um moço aproximou-se do parlamentar municipal e esnobou: "Degusta a polenta senhor?". Expedito, grosso feito pentelho de barrão, de pronto respondeu: "Vai meu fio, encha aí o prato". Ao ver a polenta, Bolão desabafou historiando: "Mas é danado! Eu sair de casa, pra vim comer "quarenta" aqui! Minha mãe fazia "quarenta" pra nós comer nos tempos bicudos! Agora batisaram de novo é?! Menino, eu sei história: os pracinhas brasileiros co-nheceram isso na Itália e por não saber nada da língua deles trouxeram a idéia e aqui ficou conhecida por quarenta. Isso é quase um angu. Tira isso daqui. Eu quero é carne acompanhada de uma dose de Pitu!!".

 

03) Mexerico é o que nunca faltou em qualquer ambiente político. Em sessão muito movimentada, os carcinicultores da região de São Gonçalo do Amarante discutiam sobre "esse eldorado" que se expandia. As opiniões diversificavam sobre o assunto, quando o vereador-presidente da câmara, Milton Siqueira, assim se expressou: "Eu estou com o presidente da Associação dos Criadores de Camarão. Eu defendo todos os bichos, tenham eles barba, chifre ou bigode! Aliás, barba e bigode é coisa de camarão, chifre, bom... deixa pra lá!!". Um colega vereador, cuja conduta da esposa sempre foi o prato do dia na roda social, vendo que seus pares riam dissimuladamente, achou por bem naquele momento visitar o banheiro.

 

04) O chamado "bom combate" entre o forrozeiro Amazan e o padre-prefeito Jocimar Dantas de Araújo, candidato à reeleição, em Jardim do Seridó, tem assumido altitudes estratosféricas. Nos sermões do domingo, o vigário-prefeito prelecionou: "Tudo farei para que minha paróquia não se transforme numa grande casa de forró!!". Amazan, por sua vez, devolveu: "Vou mexer com o progresso de Jardim e fazer a moçada se remexer nos jardins da cidade". O sanfoneiro, ultimamente recebeu o apoio do ex-gestor Patrício Joaquim, de admi-nistração contestada. No sermão dominical, o padre não escondeu a insatisfação e escancarou o verbo, literalmente: "Agora, lascou o resto. Um passado imprestável com um presente sem futuro! Fica na consciência de vocês, esse angu de caroço!". Campanha na base do salmo e do "Orate Frates". 

24 de Agosto de 2012 às 11h34

DE LÍNGUAS E DE LUZES

01) Uma comitiva internacional composta de franceses, italianos e judeus alemães, esses em maior número, percorria o Brasil em busca de ajuda e apoio financeiro para um núcleo denominado "caçadores de carrascos nazistas". Um judeu chefiava a delegação e falando um português complexo explicava que ele próprio escapou do terror do campo de concentração nazista de Teblinka. O prefeito, à época, Dix-Huit Rosado, a tudo ouvia ladeado pelos vereadores. Depois da narrativa, o alcaide falou em francês, em italiano e em hebraico para os judeus. Os visitantes e os vereadores ficaram maravilhados. Depois de tudo, como não poderia deixar de acontecer, o vereador Geraldo Alves, fraco no idioma português, comentou: "Aquele velho judeu sofreu muito. Eu não entendi bem, foi com relação àquela cadeia chamada de "três brinca". Verdadeiro inferno infernal. Era ou não era, caros colegas?".

 

02) Em plena Natal, em manhã de transito congestionado, o amigo septuagenário Adauto Medeiros procurava estacionar o seu veículo no Center Onze, onde funciona uma agencia bancária, Petrópolis. De repente, viu uma vaga para deficiente desocupada. Não contou duas vezes. Manobrou e estacionou. Quando saltou e se dirigiu ao prédio, o vigilante advertiu: "Hei, psiu, é proibido colocar o carro aí. A vaga é só para deficiente físico!". Adauto, não se perturbou. "Eu sou um deficiente", rebateu. O funcionário examinou-o da cabeça aos pés. "Não vejo coisa nenhuma". Adauto emendou sem perder a circunspeção: "É que eu não levanto mais". E foi entrando. O rapaz tirou o boné, coçou a cabeça e o deixou ir. Para nós, algo novo e sem concessão de liminar, havia acontecido.

 

03) Conversar com Adauto Medeiros é receber aulas de humor e de conhecimentos gerais. Guardei duas, provindas de suas leituras e observações: "Você sabia que um prefeito incluído na lista da "ficha suja" me disse? "Prefiro ser julgado por sete a ser carregado por seis!"". Depois, disse-me que lendo o que afirmou um soldado norte-americano do grupo de "caça aos terroristas" ao ser interpelado na televisão: "O que você sente quando atira num terrorista?". O militar respondeu secamente: "O coice da arma!".

04) O inesquecível deputado Djalma Marinho era por demais admirado na câmara federal pela sua cultura jurídica e humanística. Quando ingressava em qualquer recinto da Casa, era logo cercado e interpelado para dirimir dúvidas e opinar sobre questões. Certa vez, entrava no restaurante do edifício quando logo foi avistado e indagado por um grupo: "Deputado, venha aqui, por favor, para trazer as suas luzes". Djalma, não dispondo de tempo, afastou o cigarro da boca para assim explicar a pressa: "Hoje não, estou em black-out...".   

17 de Agosto de 2012 às 12h26

PERDEMOS O CANTO E O ENCANTO

Claro que me refiro a atual campanha política eleitoral nas ruas, nas praças, nos dias e noites, nas estações de rádio e televisão. Se comparada as dos anos sessenta, setenta e colocadas na vitrine a performance, a beleza plástica, humana, visual e emocional - a de hoje não vai valer sequer 1,99. A oratória fluente, candente e sedutora de ontem que enfeitiçava o povo, dividido nas cores e gestos dos seus lideres, apontava caminhos e ideais que não retornam mais. Enquanto a de agora forma uma grossa cascata de interesses, os lideres daquele tempo sabiam atravessar as noites escuras como se soubessem mais do que o próprio peso, o peso das sombras, a cor do vento e o segredo das estações da política. Aluízio, Dinarte, Georgino, Lamartine, José Augusto, catalisavam e irradiavam energias criadoras, como Djalma Marinho, Dix-Huit Rosado e Cortez Pereira ofertavam cultura e saber jurídico.

 

Se alguém redarguir que o melhor político é o político morto, respondo que não. Vale, atualmente, aquele que sabe humanizar o horror do mundo. Silenciar a memória de um líder ou o seu tempo, é a maior revelação de nossa omissão e covardia. Aluízio Alves, por exemplo, com suas músicas, passeatas, carreatas, sabia decifrar os signos da política. Traçava as marcas do seu ta-lento vasto no mesmo tom de sua ira, modelando aí a sua imagem pessoal, naquele mundo de temperaturas e temperamentos em que viveu - de pressões e tensões, tal e qual um meteoro lírico da natureza humana, impossível de ser reinventado. Já Dinarte Mariz foi fiel a palavra dada e a humanidade tida. Em sua vida viveu as descobertas sucessivas dos homens e das coisas do Rio Grande do Norte. Os dois líderes acharam a palavra que dita nas ruas, nas estradas e nos campos envolvia a unidade do gênero humano.

 

Hoje não. Reina a dispersão. A alma não é vasta e a obra é imperfeita, parafraseando Fernando Pessoa. Teríamos perdido os caminhos e os sonhos? São raros os sobreviventes do carisma, do glamour, do charme, das passadas tradições da arte política potiguar, emocional e lírica. Mas, concordo com a assertiva de que a legislação eleitoral pôs freios e desligou a alta voltagem da vibração popular e os curtos-circuitos da classe política, caída na vala comum da improvisação, da futilidade e da lei de Gerson. Participei desde 1960, de muitas lutas políticas sem nunca haver perdido na memória e nos olhos o bri-lho das multidões em delírio, sem medo de atravessar as ruas. Acabou-se, pode o leitor averiguar, pois é difícil se achar hoje a íntima e apaixonada identificação entre o eleitor e o candidato. Morreu aquela parceria de relação amorosa e confiável que preside a sensibilidade de cada um.

Eu digo isso porque é o que fica e se transfunde na condição humana de optar, escolher e votar no candidato. O político parece haver largado o sotaque do povo e dos seus costumes, que o "feiticeiro" Aluízio sabia fazer com humor e ironia. Embora, entenda que o político, às vezes, é como o fogo ("se renova das cinzas"). Vemos hoje na propaganda novos vultos e ambientes difusos, mas também a sociedade viúva ainda de lideres verdadeiros. As lideranças viraram sublegendas. Parece haverem desaprendido o caminho das pedras e das veredas dos votos. A minha esperança é a de que os agentes partidários da atualidade possam reinventar o fluxo virtual da sua atividade, sem a politiquice militante, inspirando-se na autenticidade de espírito dos velhos líderes, com grandeza interior. Porque eles foram dotados de poderes mágicos, ao ponto de terem no semblante e nos gestos o sentido e o rumor do humano, da paisagem e do tempo. Sem nostalgia, ouço ainda as canções eternas e chego a conclusão, apesar de tudo, que todos eram felizes e não sabiam. E viva Lulu Santos: "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia...". 

10 de Agosto de 2012 às 11h18

VELHOS TEMPOS, BELOS DIAS

01) O deputado Clóvis Mota tinha a seriedade como marca registrada. Atendendo o chamamento do partido, ficou no Rio Grande do Norte ao lado do monsenhor Walfredo rumo ao governo estadual. Em caminhada pelo bairro do Alecrim, uma coroa ainda "reboculosa" tomando a frente da comitiva, abraçou Clóvis e ofereceu-se: "Deputado, sou sua fã, meu voto é seu! Sou muito conhecida, principalmente na rua Chile, na Ribeira. É só o senhor chegar e perguntar por "tab... de ouro", todo mundo me conhece! Passe lá!". Clóvis, não perdeu o bom humor: "Minha senhora eu não negocio com ourivesaria, principalmente "ouro do Juazeiro"". A assanhada saiu, sem perder o rebolado, acompanhando a passeata entoando a musiquinha: "Com Walfredo e Clóvis Mota, Ernani e Agnelo!!! Tá, tá, tá, tá, tá...".

 

02) Houve uma época em que o Rio Grande do Norte ficou conhecido como "a terra dos três reis Maias". O doutor Tarcísio, com livre acesso ao governo militar, ditava as regras comportamentais da política. Começava, então, a diáspora RosadoXMaia. O deputado Onésimo Maia, lá no velho oeste, antecipou apoio ao nome do deputado federal Vingt, coisa que não interessava ao líder Tarcísio Maia. Certo dia, ele reuniu os liderados e leu a sentença: "O nosso presidente Ernesto Geisel me disse que precisava de Djalma Marinho na Câmara Federal para a redemocratização do país. Conto com todos vocês nessa luta!". Onésimo, que gozava da intimidade do parente, amarelou e ponderou: "Mas Tarcísio, eu já comprometi minha região com Vingt!! Como vou voltar atrás?". O governador arregalando os olhos, o que era raro, enfatizou convincentemente: "Onésimo, eu convidei para essa reunião somente os meus amigos! Entendeu?". O líder de Janduís levou a mão à testa e pensou com os seus botões: "E agora?". Resultado: Djalma disparou em todas as urnas de Onésimo. A chave de roda possuía mesmo a força de uma realeza trina.

 

03) A campanha senatorial de 1974, a cada dia, esboçava uma nova fisionomia. Agenor Maria, um tanto bisonho, sem cultura e sem dinheiro, no entanto, crescia a olho nu. Os correligionários de Djalma Marinho, não entregavam os pontos. Certo dia, um amigo comum simulou uma premonição: "Vai acontecer nesses dias uma grande adesão à sua candidatura, Dejinha!!". Djalma, sereno, fechando um livro de Ernest Renan, recitou: "Não me roubem a solidão sem antes me oferecer uma verdadeira companhia". E acrescentou: "E que seja leal e sincera na alegria e na dor...".

04) O vereador e advogado Gilberto Targino de Pedro Velho, não era chegado à causas da Vara da Família, mas a convite de um amigo, o Giba viu-se diante de um problema de pensão alimentícia. Diante do juiz, o então ex-marido concordava com os trinta por cento estipulados pelo magistrado. Depois do "aceite", a ex-esposa despertou e queria algo mais. "Treze anos", dizia a mulher, "morando com ele e minha sogra. Vou ter que continuar na casa da sogra?! Essa não! Eu quero um apartamento!", finalizou. Gilberto sentindo a disposição do juiz em encerrar a questão, atenuou: "Senhora, contente-se com isso, além do mais, o venerável título de ex-esposa, é também para sempre". "Pensando bem", falou o doutor-vereador, "eu vou propor na câmara municipal que seja instituído o "dia da ex-esposa", ok? Não fica bom? "Táqui" pra você!!", disse a ex-consorte. 

03 de Agosto de 2012 às 11h38

DIÁRIO ÍNTIMO DOS CAUSOS

01) Nos anos sessenta, os filmes épicos lotavam os cinemas. O folclórico vereador Severino Galvão, circulava pela cidade pedindo garrafas vazias, e, às vezes, enchia uma carroça até cansar o jumento para financiar sua campanha. Certa manhã, em frente ao Café São Luiz, aproveitando o cartaz do Cine Rio Grande, Severino parou o "veículo" e subindo nesse palanque móvel e improvisado, bradava: "Aqui eu me sinto um "Ben-Hur" de lança em punho, (levantava o chicote de açoitar o burro). Eu não fujo à luta. Sou igual ao grande guerreiro "Alcides" (leia-se El Cid), sou o mouro de Natal!". E haja salada mista. Não se elegeu. Faltaram os votos de Maciste, Sansão, Capitão Marvel e o Superman.

 

02) Caú, enfermeiro prático da Policlínica, prestava mil favores no Alto do Juruá principalmente, alimentando o sonho de um dia ser vereador. Na vizinhança morava o "seu" Quincas, velho bodegueiro já em decadência, porém, abria o comercio todos os dias para vender pão. Era o que restava. O neo-vereador Caú, mantinha a tradição e discursava: "Pão lá em casa só do "seu" Quincas".Certo dia, Caú foi chegando e logo indagou: ""Seu" Quincas, tem pão ai? Hoje eu quero uns quinze. É que vem uns eleitores tomar café lá em casa." O experiente Quincas respondeu: ""Tem meu vereador. Tem e tá tudo bem quentinho". Dirigindo-se ao balaio, o velho retirou um pano que cobria os pães. Nisso, um enorme gato que dormia sobre as bisnagas, pulou e saiu porta a fora. Caú vendo a cena desconversou: "Ihhhh Esqueci a carteira! Vou buscar". Foi embora e nunca mais provou nada do "seu" Quincas. Tinha gato na tuba.

 

03) Na granja de um amigo em Assu, vereadores trocavam idéias enquanto degustavam bom churrasco regado a cerveja. Lá para as tantas, o edil Chicó Macêdo desabafou: "É meus amigos, depois de seis mandatos, acho que é hora de parar. Já dei o que tinha de dar!". O vereador Domício, levado da breca sempre, alfinetou: "Amigo velho, se cansou e acha que já deu o que tinha de dá, eu tenho aqui um tubo de hipoglós. Qualquer coisa... está às ordens". A piada rendeu horas de discussão regimental.

 

04) O polêmico e irreverente vereador mossoroense Expedito Mariano, o "Bolão", nuca deixava pergunta sem resposta. Colecionava também inimigos gratuitos. Uma conhecida dondoca que sempre se candidatava, sem êxito, ao casamento, detinha marcação segura contra o Bolãozinho, que pouco ligava. Certa vez, numa roda de bar, um amigo comentou: "Bolão, aquela coroa, ontem estava no mercado, metendo o cacete em você". Expedito olhou de lado e exercitou sua ironia picante: "Eu nem ligo para o que aquela égua diz. Aquilo é uma "despombalecida"". A turma concordou. A coroa nunca sentira o gosto das primeiras núpcias.

05) O político Francisco Dantas, o "Chico da Prefeitura", cansado de ser vereador, tentou alçar vôo rumo à prefeitura. A luta pelos bastidores foi pesada e o bom Chico, foi parar na UTI. Um mês depois, recuperado, voltou às ruas: "Querem me emparedar entre duas mulheres. Não me entregarei! Rodolfo Fernandes defendeu Mossoró com o fuzil em punho! Eu serei o paladino moderno e caminharei armado de cacete para defender minha terra...". Apesar do patriotismo, Chico da prefeitura não vulnerou. 

27 de Julho de 2012 às 15h59

CONVERSA PRA BOI DORMIR

Tenho me questionado hoje se a solidão é conquista ou derrota. Cheguei a conclusão que é mera circunstância. Isso porque o computador em nada mudou a minha vida. Ela é de carne e osso. Tudo que signifique tecla ou tomada de corrente não me modifica. Para outros, a internet pode ser extensão de vida. Depende. Pra mim nem o começo é. Por isso, escrever não significa, apenas, ventura ou aventura. Mais do que as duas coisas escrever significa uma necessidade. Fui indagado, ontem, sobre o que mais se salienta em um caráter humano. Ora, a humana palavra necessária. É como a poesia que não se revela somente útil mas existencial.

Todos os livros que li, ao longo da minha vida, me ajudaram. Mas, nenhum mais do que a Bíblia. Por essa razão, um candidato evangélico a vereador em Natal, quis saber a qualidade superior em um homem. Respondi-lhe que, em alguns apenas a altura; em outros, o invisível e nos demais seres humanos os visíveis vícios redibitórios. E a qualidade superior em uma mulher?, insistiu ainda. Ela está acima do corpo bonito. E fui embora. Outra matéria interpelativa nesses dias de fichas sujas é de se conhecer o que mais se aprecia em um amigo. Claro que reside na presença. O lamentável fica por conta da fuga. Daí, vem o medo. Quem não o tem? Até Jesus, Filho Unigênito do Pai o teve quando humanizou-se. Daí se saber a que serve a dúvida? Serve mais do que a dívida. Não venha me indagar se a morte é vírgula ou ponto final. Fisicamente, é ponto final. Mas, há algo mais além do horizonte. Se fosse somente física, feita de fases e de fezes - seria uma bosta mesmo.

Um padre perguntou-me na igreja: Jesus é um amigo? Respondi que é a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Mas, ele queria pesquisar se o diabo tem credibilidade. Ora, se você lhe der ouvidos ele lhe come. O pregador foi além e desejou saber se somos sós no universo. De jeito nenhum! Nos outros planetas habitados o transito é mais organizado. E não existe ficha suja. E, dedo em riste, fulminou: que outro dom, Deus poderia ter me dado. Disse-lhe que, na medida do possível, o dom da imitação do Cristo, sem a crucificação. E quanto aos meus defeitos não preciso menciona-los. Deus já sabe todos. Na minha idade, perto dos setenta, a desocupação é uma terapia. Não me iludo mais com a felicidade. Somente a sonho dormindo, pois o meu estado de ânimo atualmente dá pra viver. Eu acredito em Deus.

O que mais me importa como gestor público é o pensamento orteguiano: "Sem missão não há homens". O que mais me tornaria infeliz hoje, seria perder a capacidade de me indignar. Não me tome como filósofo amador. Pois, como amador não mais me incomoda a carteira de motorista e muito menos o título de eleitor. Ontem, Meroveu Dantas me interpelou quem eu gostaria de ter sido. Ora, o apóstolo e evangelista João. Ele viu e conviveu de perto com Jesus, teve vida longeva e foi o único que escapou do martírio. E, ainda, na qualidade de meu conterrâneo pediu para citar três cidades encantadoras. Não demorei declinar: Macaíba, Natal e Nazaré, onde nasceu Jesus. Porque falei em Macaíba, achou que era a árvore mais admirável. Lógico que não. A mais bela continua sendo a que dá sombra e fruto. Mas, a minha flor preferida é a do jasmineiro de Auta de Souza e o de dona Nair, minha mãe. Terminei de escrever e fui dormir.  

20 de Julho de 2012 às 12h19

POLÍTICA: FRATURAS E FLATULÊNCIAS

01) Dix-Huit Rosado sonhou a vida inteira ser governador do estado. Achava que o senado seria o trampolim para tal. Veio a revolução e os "biônicos". Nos bastidores comentavam: "Dix-Huit será um ótimo vice". O experiente político ouviu a idéia e não gostou. "A função de vice", dizia, "é uma espécie de síndrome na política brasileira. Há em nosso passado muitos vices deploráveis. Comecemos pelo primeiro deles, Floriano Peixoto até chegar às nossas prefeituras". Em reunião de amigos, Dix-Huit refletia: "Theodore Rooselvelt, vice-presidente em 1900, dizia não ver o seu caminho muito claramente pois havia poucos poderes, sendo realmente a quinta roda de um carro". E continuou a peroração: "Essa só serve quando a titular se esvazia. O vice é um degrau para o esquecimento!". E perguntava aos circunstantes: "Vocês já viram uma rua chamada vice-fulano de tal? Eu quero lá ser vice de coisa nenhuma. Que fiquem com o mel e a cuia...".

 

02) Quem viveu os anos sessenta, realmente conviveu com o frenesi do mundo em todas as áreas. O Rio Grande do Norte não podia passar em branco. Teve também seus ídolos, mártires, ases e caifases. Na política, Dinarte mariz dizia em reunião do seu grupo: "Temos que partir em bloco na defesa dos nossos amigos. Um amigo leal vale ouro! Iremos todos ao Assu, em defesa de Edgar Montenegro". Os melhores oradores araras partiram para o interior como um rolo compressor. Aluízio Alves, dias depois, chegava praticamente só. O "cigano" orientava Costa Leitão: "Vá de manga de camisa. De preferência, uma roupa velha." E ensinava: "Aqui, a luta é do milhão contra o tostão! A batalha da liberdade contra a servidão!". E com a mão no ombro de Leitão, recitava: "O justo cresce como a palmeira! Você Costa, crescerá sim!". Com o uso da palavra, Costa empolgou-se: "Com a ajuda do povo, vou crescer como a palmeira! No "mimo" (mínimo), subirei num coqueiro pra derrubar côco pra todo mundo beber água e fazer cuscuz pra matar a fome...". A frase bostífera foi ouvida em todo vale.

 

03) O senador-ministro Garibaldi Filho tem sua marca registrada de como descontrair o momento de forma inteligente. Mesmo sem querer, querendo, Garí anima os seus interlocutores. Era um domingo. Ele se animava para ir assistir o seu ABC jogar. De repente, surge um assessor e lhe entrega um telefone celular. Era a presidenta Dilma, que gostaria de contar com o ministro numa reunião naquela tarde-noite do domingo. O relógio marcava nove horas da manhã. Fazer o quê? Garí olhou para os presentes e resumiu: "É mais uma mulher pra mandar em mim!...". Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

 

04) O doutor Tarcísio Maia, conservava como gerente e braço direito, o seu irmão Antônio Maia, principalmente com relação às fazendas de gado, que começava com a propriedade São João e terminava no Maranhão. Certa vez, um correligionário procurou o então governador para tratar de assunto referente a gado. Tarcísio foi propedêutico e profilático: "Fale com o Antônio...". Tratava-se de engorda de trezentas cabeças. Deu tudo certo. O cercado ficou à disposição do pleiteante. Nesse meio tempo, o amigo precisou desta vez, de um aval financeiro junto ao Banco do Brasil. Deu tudo certo. Passado um ano, novamente, ele procurou o irmão do chefe do executivo para um novo aval. Antônio Maia acautelou-se: "Não posso e nem fale a Tarcísio. Isso é comigo". O solicitante replicou: "Mas compadre, Tarcísio mandou que eu falasse com o senhor e da outra vez não deu certo?". Antônio Maia atirou, sem passar fino, na testa: "Deu certo. Só que naquele tempo, "nós tinha" trezentas cabeças de gado suas como refém. Você sabe, né? Nós somos mortais...". Amigo, amigo. Negócios à parte.

05) Na euforia da copa de 70, o futebol criou alma nova, invadindo, inclusive, povoados e sítios. E todo lugar havia um campo de futebol. Em Mossoró, o presidente da câmara municipal, vereador Evaristo Nogueira, muito identificado com o esporte via rádio, criou o campeonato inter-bairros. O vereador A.A. (Antônio de Abílio), líder da comunidade de Alagoinha, logo registrou seu escrete de ouro. Vamos a escalação: "Mão de Onça, Dentuço e Zé da Vaca. Pé de Bicho, Kudecana e Cipoada. Fedorento, Lacraia, Beiço de Burro, Cavalo Doido e Leprento". Se hoje não soasse bem com Galvão Bueno, naquele tempo, "sem soar bem", mas suando muito, esse escrete foi campeão. E viva o esporte bretão! 

13 de Julho de 2012 às 15h58

AVENTURAS E DESVENTURAS

01) Os nativos da praia de Tibau buscavam novidade. A inovação para a prefeitura, surgia na pessoa do protético recém chegado ao município, Sidrônio Holanda vindo de São Paulo. Aportou na praia, vendo grande possibilidade de subir na política e ai montou a sua banca. Era prótese, chapa e dentadura pra todos os lados. A barganha deu certo. Eleito prefeito, fechado o laboratório, ele foi procurado por João Piancó, famoso alcoólatra, considerado o maior pescador daquela região. Seu "Pia", assim conhecido, cheio de Pitu, assim abordou: "Prefeito Sidrônio, de que bosta foi feita aquela dentadura que você fez pra mim? Dei duas dentadas numa cioba e caiu cinco dentes de baixo!? A de cima, já caiu três dentes! Eu vim deixar aqui os "cascos" e quero outra essa semana ainda! Se você não fizer, eu vou lhe "amostrar" com quantos paus se faz uma jangada, seu dentista f.d.p.!!!".

 

02) O prefeito Pedro Moura de Angicos, aproveitando o conterrâneo Aluízio Alves no governo, convocou a bancada municipal a fim de planejar reivindicações e melhorias para o município. Nunca se viu tanto barulho e tão pouco rendimento. No meio dos questionamentos, no recinto do poder legislativo, o super-vereador José Barbosa, o Zé Doido, levantando-se proclamou em voz alta: "Senhores, tive um estalo, uma grande idéia! Vamos pedir para nossa cidade a construção de um "hiperburrismo", onde haverá corrida de jegues e apostas aos domingos. Nossa juventude vai adorar!". O satírico vereador Ivan Costa, lá do seu lugar, alfinetou: "Esse estalo bem que podia ter rachado seu quengo, para nele entrar alguma coisa nova e útil. Essa idéia é do tempo do bumba-meu-boi, seu jerico...". Ai o pau cantou, de cabo a rabo.

 

03) Mais uma disputadíssima campanha invadia a cidade de Mossoró. No palanque vereadores e novos candidatos disputavam espaços. Altivo Paiva, que falava pouco e ruim, queria discursar em todos os bairros. "Aqui", dizia ele, "eu tenho grande liderança. Quero falar". Toinho Rockfeller, que ganhava sempre sem precisar usar da voz em palanque, opinou: "Pára com isso. Deixa os outros se apresentarem rapaz! Aqui você não vai falar! Quem não quer sou eu! Ora porra!". Altivo Paiva olhou para Toinho e se lamuriou: "Vixe, você só porque tem dinheiro pensa que manda em tudo, é? Já me disseram que você é mais importante que a bala que matou PC Farias. Eu vou descer. Depois eu falo com Laíre!". E desceu. E ninguém resolveu.

04) O governo de Jango, abria espaço para o pessoal de esquerda, e muitos já "passavam os pés pelas mãos". O doutor Uziel Santiago, entrava nesse rol. Uziel detestava os atos do Marechal Lott, cuja posição dentro da política não estava definida. Certa feita acontecia uma reunião, onde somente convidados entrariam no prédio. Eram vários oficiais do Exército, "tomando chegada" para o desfecho futuro. (64) Uziel subia os degraus, quando uns seis soldados do Exército barraram-lhe a entrada. Uziel mostrou a carteirinha, mas foi em vão. Começou, então, um bate-boca por parte do advogado, quando mais soldados se aproximaram e o cercaram. Uziel vendo "a coisa verde", bradou: "Eu não sei se estou cercado pelas éguas de Lott, ou por um Lott de éguas! Meu amigo senador João Agripino assim já falava". A primeira bordoada que Uziel levou foi "no pé do ouvido". O doutor acordou no dia seguinte, em Natal, no quartel general. Moral da história: Tropeiro que ataca égua só leva coice. 

06 de Julho de 2012 às 16h48

CASOS, ACASOS E OCASOS

01) A campanha estava acirrada. Correndo por fora, Carvalho Neto fazia o jogo da oposição dinartista, mesmo não fazendo parte do grupo propriamente dito. Na praça de Fernando Pedrosa, antigo São Romão, Carvalho Neto discursava: "Só tenho um pedido a fazer ao futuro governador Djalma Marinho! Djalma, por caridade, construa um presídio de segurança máxima no Rio Grande do Norte, e para lá mande enjaular os gatunos perigosos que andam à solta por aí! Por sinal", enfatizava, "dizem que essa semana vem um por aqui, pedindo voto e ludibriando o povo humilde desta terra!". Dias depois, Aluízio, candidato da oposição, devolvia publicamente, na mesma praça: "No meu governo, construirei um grande hospital psiquiátrico com todo equipamento possível, para manter longe da sociedade os doidos varridos que perambulam falando asneiras. Por sinal", fechou Aluízio, "há poucos dias, passou por aqui um que atende pelo codinome de Cavalo Doido! Que falta faz uma camisa de força nessas horas!".

 

02) O deputado-violeiro do oeste Luiz Sobrinho, dramatizava por demais os seus pronunciamentos, que a bem da verdade, foram poucos. Rápido como um meteoro passou o seu mandato. Tentando a reeleição, o violeiro não logrou êxito. Na despedida, refletiu em voz alta: "Vou voltar para o meu rincão e começarei novamente como vereador. Em seguida, retornarei aqui novamente! Como disse José Américo de Almeida, "ninguém se perde no caminho da volta!"". O vereador mossoroense Aldenor Nogueira, criticou com ironia: "É, violeiro. Acontece que o açude de votos arrombou, carregou a ponte e não tem mais como achar o caminho de volta. Põe a viola no saco e te manca!".

 

03) A Assembleia Legislativa em sessão solene rendia homenagem ao líder pmedebista Ulisses Guimarães. Os oradores sempre, no mesmo diapasão, enalteciam o inesquecível político, vítima de desastre aéreo. Convidado de honra, postava-se ali o então senador Lavoisier, que, baixinho, comentava com dois amigos segundo as más línguas "que estava no helicóptero sinistro, uma moça" que seria absurdamente um caso de Ulisses. Em dado momento, um orador sublinhou com destaque: "O doutor Ulisses morreu cheio de amor pela pátria!". Lavô misturando "as conversas", ao seu estilo, em voz audível murmurou: "Por amor a pátria e outros amores! O senador morreu feliz!!". Ao derredor, desabrocharam discretos e contidos sorrisos.

 

04) Uma caravana composta de políticos e intelectuais varavam a savana rasteira do interior. O calor era insuportável, e instigava mais ainda quando se aproximava de Mossoró. Alguém da comitiva, comentou: "Se fosse poeta nordestino, cantador, eu diria alguma coisa com alusão a esse calor pai-d'égua." Isso era cutucar onça com vara curta, pois François Silvestre estava ao lado. "Ninguém se habilita a dizer nada?", insistiu outro caravaneiro. François coçou a barba e, ao seu estilo desabafou: "Eu não vou dizer nada com relação ao calor de Mossoró por que a culpa é do cretino do Lampião! Por que, aquele safado não tocou fogo nisso tudo? Hoje eu não estaria sendo assado por aqui. Pra mim, Lampião era como o papagaio do bêbado. Só sabia conversar bosta e arrotar pabulagem. Se ele estivesse por aqui agora eu ia lhe pedir o voto, e ai dele se me negasse! Cabra safado!". Inaugurou-se ali mesmo o contraponto: a estiagem de bala no país de Mossoró. 

29 de Junho de 2012 às 16h12

MUNDO VAGO, VADIO E VAZIO

01) Em visita ao interior, o governador Aluízio Alves encontrou em Angicos um velho amigo e então desembargador. Ficou combinado que o magistrado seguiria com A.A. até Mossoró e o regresso a capital seria de avião. Francisco de Assis, o "Negão de Persina", motorista da confiança de A .A. voltaria dali com o carro do desembargador, uma veraneio novinha em folha e a deixaria na calçada do TJ/RN. Era uma sexta-feira. O negão caiu na farra com o carrão e no domingo a veraneio chegava em Natal de reboque, mais parecendo um maracujá murcho. O chefe de gabinete estarrecido, perguntou: "Mas como foi isso?". Francisco de Assis, jurando pelo seu padroeiro, jogou limpo: "Sei não doutor! Se não fosse o santo que protege os "bêbos", eu "num" tava aqui pra contar a história! Foi três capotada! Três cangapé grande!". O governador, claro, assumiu o prejuízo, p. da vida.

 

02) Tempo de convenções partidárias. Líderes, pré-candidatos se abraçavam, deputados da região trocanvam apertos de mãos, disputando popularidade na câmara municipal de Lagoa Salgada. O vereador Néo de Almeida, procurando um lugar para sair bem na foto, vez por outra roçava nas costas do então deputado Tarcísio Ribeiro. Em dado momento, o parlamentar olhou para trás e reclamou: "Amigo, você tá roçando demais!". Neo, com um sorriso amarelo, ainda respondeu: "Mais taí. Eu por trás do senhor "fazendo outra pessoa", nem me dei conta! Não lhe reconheci deputado. "Adesculpe, visse"?!".

 

03) Está escrito: tudo que sobe, desce. Tudo que tem princípio tem fim. Quando prefeito, Costa Leitão e Maroquinhas, em Assu, formavam um verdadeiro "casal vinte". Apesar da censura da sociedade, viviam juntos numa harmonia perfeita. Só se ouvia, benzinho pra lá, meu bem pra cá. Passados os anos, Costa elegeu Maroquinhas sua sucessora na prefeitura, aí a coisa mudou. As brigas eram constantes. Veio a separação. Costa dizia para Antônio Domingos, seu verdadeiro leão de chácara: ""Ontonho", antigamente era meu bem! Hoje é: eu quero meus bens. E premonizando o futuro: amigo, amor de luvana, é real". Estava certo o brocardo.

 

04) Um ex-prefeito de Guamaré, que segundo seus conterrâneos, "Deus o tenha bem longe da prefeitura", após ter ouvido a secretária ler vinte vezes um discurso, assimilou alguma coisa para falar na inauguração de uma creche municipal. Depois de anunciado, assim falou a indefectível sumidade: "O Brasil cresceu, com a garra do seu povo, com a esperança e a alegria de cada brasileiro, abrindo caminhos para o futuro!". Nisso, Zequinha pau-d'água, um inve-terado cachacinha da cidade, gritou do meio do povo: "E tu prefeito, crescesse com as garras afiadas metendo a mão na bufunfa da prefeitura, heim cabra veio?! Heim? Heim?". O péssimo gestor olhou de lado e pediu indulgente: "Alguém vá deixar esse bêbado chôco em casa! Por favor!".

05) Numa campanha política em Mossoró, Expedito Bolão guiava seu jeep surrado, visitando os amigos na zona rural. Vez por outra, uma parada, um abraço e ali deixava paga uma garrafa de Pitú para os amigos, além daquele papo, etc, etc. Um eleitor advertiu: "Expedito, pague aí uma grade de cerveja rapaz! Só sai cana...". Bolãozinho amenizou: "Você pensa que eu sou rico, é? Eu sou como pneu, quanto mais trabalho, mais vivo liso!". 

22 de Junho de 2012 às 11h53

RECORDAÇÃO DA CASA DOS MORTOS

01) O saudoso vereador Severino Galvão, detentor de vários mandatos, por ser muito mulherengo, era conhecido como "O Pingo de Ouro" do bairro do Alecrim. Um crítico de plantão, zombeteiro, pontuou: "Severino, rapaz pára com isso! Com essa moral, você jamais será prefeito de Natal. Todo dia é uma mu-lher diferente". Sarcástico, alfinetou: "Você gosta mais de quenga do que coqueiro! Volte-se para a família. Vá criar sua prole!". Depois do sermão, o vereador respondeu com aquela seriedade: "Eu não vim para criar ninguém. Eu quero uma mulher que me crie...".

 

02) Padre Júlio Alves Bezerra, dedicou toda sua vida à paróquia de São João, no Assu. O vigário não era de "correr atrás" de político, mas como o prefeito Costa Leitão chegava com uma promessa de administração dinâmica muito forte, ele achou por bem reivindicar algum benefício para a igreja. Em audiência, lançou suas petições e várias foram as datas e palavras ao vento da parte do prefeito. Passado um ano, o sacerdote foi se queixar e ouviu de um amigo o seguinte conselho: "Padre, aquele sujeito é um amancebado (era um palavrão na época), sem palavra!". O padre, que ansiosamente aguardava essa ajuda, passou a mão na cabeça e desabafou: "É meu filho... Quem precisa né? Até de amancebado recebe". E num bom latim, fechou: "Dum spiro spero!". O interlocutor não entendeu bulhufas. Mas, a tradução da esperança litúrgica era: "Enquanto respirar, espero".

 

03) Agora vamos pra Macau do tempo de Venâncio Zacarias. O fato ocorreu no velório do mestre Zuza. O velho Zuza Barcaceiro, por demais conhecido na cidade, entregara o corpo à terra fria naquela manhã de inverno. O então prefeito Venâncio Zacarias, que, para aparecer, desfilava até com um abacaxi pendurado no pescoço, foi ao centro de velório e lá, bem alto, mandou o verbo: "Quero render minha última homenagem ao velho Zuza!". Alguém explicou: "Certo prefeito. Mas deixe terminar a missa de corpo presente, ok?" Ao findar o ofício, Venâncio arrebatou o microfone das mãos do vigário, e discursou trovejando: "Nessa hora, com os olhos "lacrimejosos", quero dizer a você mestre Zuza, que vamos sentir sua falta! É certo que todos iremos um dia!". Nesse instante, alguém tropeçou no cabo elétrico do pedestal e saiu arrastando o microfone. Naquela hora, Venâncio dizia: "Todos iremos, mas... ei, pra onde vai esse fdp?" Desculpem em tô falando com o microfone". A oração fúnebre terminou ali mesmo.

 

04) Em sua passagem pelo senado, Dix-Huit teve missões importantes no exterior. Seu grande desejo era conhecer o povo chinês. Desfrutar momentos com as inteligências que descobriram a pólvora e inventaram a bússola. Ele sublinhava: "Se a maior população do planeta, tomar dois cafezinhos por dia, nós venderemos o produto para o resto do mundo". Foi ao tempo de Mao-Tsé-Tung, que a visita do nosso parlamentar ocorreu. Em conversa informal, com o ditador, Dix-Huit batia no peito e apresentava-se: "Eu, Dix-Huit, Mossoró! Mossoró!". Isso dito várias vezes e Mao querendo aprender, tentava repetir. "Dix-Huit?", Mao balbuciava. "Mosx... Mosx...". Os circunstantes caiam na risada. Já no avião de volta pra casa, um funcionário da comitiva falou: "E então senador, o senhor queria ensinar português ao "china" em tão pouco tempo?". Dix-Huit sorriu e comentou, imerso na poltrona: "Você viu, que chinês da cabeça dura?! Ah filho da mãe, não comprou nosso café!". 

15 de Junho de 2012 às 12h44

VIDÊNCIAS E EVIDÊNCIAS

01) O líder inconteste Zé Absalão, dava literalmente, o ponta-pé inicial a sua campanha visitando os correligionários de Pendências de Cima. A romaria era cansativa, mas necessária. Já escurecia quando o político reclamava que os sapatos apertavam-lhes os pés. Babão de plantão, sempre existiu e ai um su-geriu: "Seu Absalão, tire os sapatos um "pedacim". Já está escuro...". O líder aprovou a idéia. Uma meia hora depois, uma pedra no caminho. O dedão de Absalão acertou em cheio. A unha levantou e o sangue espirrou. O assessor tirou o lenço do bolso e tentou amarrar o dedão do candidato para parar a sangria.  "Foi um estrago, heim, Seu Absalão?", disse o moço. O experiente líder, olhando para o outro rapaz que conduzia os calçados, falou: "É. Já pensou se isso fosse no meu sapato novo? Foi sorte!". Vão-se os anéis, ficam os dedos. 

 

02) O vereador José Barbosa, o Zé Doido, lá de Angicos, sabia dos deslizes da esposa, mas pouco ligava para tal fato. Duas vezes por semana, a mulher viajava a Natal "para fazer compras". As más línguas "costuravam" o passeio. Numa sessão, Zé Doido num inflamado relato, criticava o prefeito local. O líder da situação saiu em defesa do gestor e rebateu: "Vossa Senhoria não olha sequer o que tem dentro de casa, ou melhor, na própria cabeça!". Zé Doido depois de certa pausa, resumiu: "Eu sei onde o senhor quer chegar. Eu não ligo para isso! Como já disse o filósofo "João Espapau", um homem sem chifre é um animal desprotegido!". Havia rasgado o véu da hipocrisia e do corno filósofo.

 

03) A campanha do Touro contra o Capim enchia as ruas da cidade. Apostas e "adesões", eram os assuntos em todas as rodas. Falava a lógica, se é que tem lógica em política, o Touro "comeria o capim". O grande trunfo para Antonio Rodrigues de Carvalho era a presença de Aluízio Alves em palanque. Os dias passavam rápidos e o três de outubro estava próximo. Os candidatos apelavam para tudo. Certo dia, alguém a mando das "araras", foi até a casa de Maria Augusta, uma cartomante de fama na cidade. Cartas, búzios e bozós, foram postos à mesa. A vidente falou: "Vejo minha cidade entregue a um cachaceiro vagabundo e sem futuro! Ele será eleito". Todo o grupo de araras achou que a velha estava maluca. Toinho, o Capim, foi eleito. Da vidência à evidência

 

04) O ex-prefeito José Targino, tinha tudo para ser hoje, o vice-prefeito da cidade. Sua campanha não decolou, graças a lei que barra o analfabeto. Ele parou aí. A partir daí, o nosso "Super Zé" tem investido pesado no aprendizado. Já se vão mais de três anos e Targino tendo contratado um professor, já canta de galo e diz: "A justiça mim aguarde! Eu agora "seio" ler e "iscrever"! Quero vê quem "mim" "esbarra"!". 

 

05) Anos 1950, 1960, o "Diário de Natal" circulava à tarde. A turma do Grande Ponto esperava ansiosa a passagem do jornaleiro "Cambraia", que enchia as ruas com seu vozeirão forte: "Olha o Diário! Olha o Diário de Natal!...". Eu mesmo o vi muitas vezes. Uma tarde, a tiragem atrasou e o jornal "boiou". "Cambraia" dobrou a Av. Deodoro com a João Pessoa e sapecou: "Olha o Diário de Natal! O jornal traz o aumento!". Antônio Avelino, louco para saber o percentual estabelecido pelo governo, comprou logo dois exemplares. Avelino revirou o jornal e nada de aumento. No dia seguinte, desceu a ladeira e na redação, reclamou da propaganda enganosa do jornaleiro "Cambraia". À tardinha, "Cambraia" entrou na João Pessoa gritando: "Chaleira quebrou o bico; quem tá na frente é penico! Olha o Diário, olha o Diário!". Estava explícita a insatisfação da redação. 

08 de Junho de 2012 às 01h53

MEDIDAS CABÍVEIS

01) José Ivan Alves, chegou à cidade de Macau graças a um concurso feito no Banco do Brasil. Zé Ivan, não casara, tornou-se "um rapaz velho". Inteligente e bem afeiçoado, o moço logo entrou para a política e se elegeu vereador. As moças viam em Zé Ivan, um bom partido. Uma senhora de mais ou menos trinta anos, começou uma paquera. O problema era que a lindona tinha marido. Certo dia, a dona parou o moço e cantou: "Meu marido viaja, e eu queria ficar com você. Já sei tudo sobre a sua vida. Dizem até que "naquela hora", você grita muito, faz escândalo. É verdade isso?". "Que nada. O povo tem é inveja da minha vida. Isso não acontece", disse o vereador arenista. O encontro foi marcado, depois das dez, na casa da moça. Zé Ivan não jantou. Estava ansioso. Na hora do pega pra capar, o rapaz mais seco que o Nordeste, estava se derretendo precocemente. Queria gemer, gritar, dizer do prazer que estava sentindo. "Tá vendo aí amor", gemia o moço, "não é o que dizem de mim", e aumentando o tom de voz, "tá vendo minha filhaaa? Ai como tá gostoso! Ai amor! Apareça!", isso já aos berros, "apareça o f.d.p. que disse que eu grito, quando atinjo o orgasmo! Apareça seu covarde! Aí meu amor, eu tou me acabando!". A mulher não sabia o que fazer, pois morava numa casa cuja parede era conjugada. O mexerico estava feito e a paixão desgovernada.

 

02) O velho senador Dinarte Mariz, em conversa informal em sua fazenda, dizia aos amigos desabafou: "Enfrentei a Intentona Comunista e turbulências outras na política. Isso não me meteu medo. Vários foram os adversários de peso, que vi na política. Isso não me meteu medo. Agora, o que na verdade, me dá medo, são as marchas das massas, quando sem controle encaram o governante seja qual for a esfera do poder!'. O senador, naquela época,  previa o rolo compressor dos "caras pintadas", "dos sem terras" e a queda de Collor.

 

04) Na cidade de Janduís, um senhor de boa índole, chamado Francisco Gurgel de Almeida, político da velha guarda. Ele foi prefeito e vice, porém com esse nome pomposo, ninguém o conhece no município. Agora, se perguntarem por Chico Tampa, todos dão uma boa nota. Francisco ingressou na política e gostava de proclamar: "Vou tampar a buraqueira da cidade! Vou tampar o rombo das finanças!". Isso foi o suficiente para logo ganhar o codinome de Chico Tampa. Nas passeatas efervescentes, onde o sangue fervia nas veias, os adeptos de Chico, fechavam os dedos polegar e indicador da mão esquerda, formando o símbolo "zero", e com a palma da mão direita, batiam no explícito "zero", da outra mão. E gritavam: "É Chico Tampa! É Chico Tampa! É tampa pra acabar com a lambança...". E assim, o modesto cidadão foi eleito prefeito, e ainda é conhecido como forte líder no seu município.

05) O Canto Mangue em Natal, sempre foi uma área esquecida e maltratada da cidade. Algumas décadas passadas, campeões de votos, passaram a "vê com bons olhos" e cuidar melhor daquele logradouro, e até um mercado foi construído para a venda do pescado. Numa entrega dessas melhorias, um líder comunitário chamou de lado o candidato e sentenciou: "Só para orientar o se-nhor, o cacique dos pescadores aqui é aquele negão lá! Ele é conhecido por Chico Burrão, isso como alegoria à sua genitália. No seu discurso, faça alusão a ele". Passados alguns instantes, o líder informante foi procurado, e ao pé do ouvido o então candidato a prefeito perguntou: "Aquela história de "Burrão", é verídica mesmo?". 

25 de Maio de 2012 às 15h26

BARBEIRADAS

01) No Grande Ponto dos anos sessenta, quem não se lembra da famosa Barbearia Bom Jesus onde pontificava o exímio cirurgião-barbeiro Antônio Guedes? Toinho, baixinho, bigode astucioso, era um mulherengo incorrigível. Aliás, sofria de uma doença benéfica e invejada por muitos chamada "priapismo" (ereção permanente). Certa manhã, chega o seu freguês habitual: o não menos popular Luiz Tavares, com aquela "insustentável leveza de ser". A ope-ração foi iniciada, com espuma em profusão espalhada pelo rosto de Luiz.  Nisso, ao largo, passa uma mulher com os seus dotes expostos e generosos. Toinho não resistiu. Abandonou o freguês e iniciou o ritmo da busca. De repente, Luiz Tavares abriu o vozeirão: "Cadê Toinho?? Aquele f.d.p. saiu assim e me deixa com essa porcaria na cara?". Irritadíssimo, vai a porta da barbearia de revólver em punho, esperar Guedes. A manicure percebendo o perigo iminente corre para avisar a Toinho que lépido e fagueiro sem nada perceber se aproximava: "Guedes por favor não vá! O homão lá tá armado  pra lhe dá um tiro!". Toinho escafedeu-se. E, por via das dúvidas, só voltou dia seguinte, após a providência preventiva de colocar um pastorador à porta da barbearia.

 

02) Fernando Macedo contou-me essa do nosso Antônio Guedes, cabeleireiro famoso de Natal. Toinho é o conhecido barbeiro das figuras políticas do estado, célebre pelas posições e votos afirmativos dependendo do freguês da hora. Quando o presidente João Batista Figueiredo visitou Natal logo imaginaram uma presepada para o inefável Toinho. Recebeu um telefonema de um alguém se identificando coronel da segurança do Planalto chamando-o ao hotel a fim de barbear o presidente. Para um supremo mandatário da Revolução não poderiam faltar exigências e aquele clima de mistério. "Olha senhor Guedes, esteja no hotel às 06:30 da manhã munido de uma navalha nº 01, creme de barbear mentolado, talco neutro, bata branca com uma capa de chuva por cima. A senha para a segurança a fim de facilitar a identificação é "Navalha Afiada", entendeu?". "Entendi sim senhor", disse Guedes ao telefone já fazendo antecipadas reverências. Dia seguinte, partiu célere para o hotel conforme as recomendações. Ao chegar no saguão, dirigiu-se aos agentes e soltou a senha: "Navalha afiada!!". Desconfiada, a turma da PF pensando em um atentado  caiu em cima de Toinho que só foi liberado horas depois quando descobriram ter sido vítima de um trote. 

03) O grande Luiz Tavares, de inesquecível memória, trabalhou na Merenda Escolar, em Natal. Vez em quando, dirigia a velha pick-up Willys da repartição e fazia as suas "barbeiragens". Afobado e teimoso, com aquele corpanzil era difícil ser contraditado. Certa manhã, ao fazer uma manobra na pick-up guerreira subiu a calçada ameaçando alguns assustados pedestres que tiveram ainda de troco, do Luiz Tavares a sentença cavalar: "Olhe os pés felas das putas". Quem iria refutar aquela insustentável leveza de ser. "Esse povo não sabe que pick-up da Willys não tem jogo!", justificou sem contestação. 

18 de Maio de 2012 às 11h52

DOZE DE MAIO LÁ NA FRANÇA

Falar sobre a figura do macaibense universal Augusto Severo, ao longo do tempo, significa repetir o elogio do estoicismo, tal e qual, Erasmo de Rotterdam com o seu "Elogio da Loucura". Ele foi o gênio visionário, o cientista predestinado, desde as suas premissas teóricas que resultaram em insucessos temporários que não apagaram a determinada vocação de voar num "mais pesado que o ar". Suas idéias para a conquista do espaço aéreo remontam desde a juventude. Observava curiosamente o voo dos pássaros. Mais tarde, quando professor de Matemática, no velho Colégio Atheneu, em 1882, construiu um "papagaio" de forma inovadora, com asas e forma de pássaro, sem a calda e o empinou durante um passeio com os alunos pelas dunas de Natal. Esse invento empírico que denominou de "Albatroz" voou calmamente para o encanto e vislumbre dos seus alunos. Augusto Severo, estava antevendo o futuro. Já vaticinando, explicou para a meninada: "Ele terá hélice, será dirigível, levantará voo e viajará pelo espaço acionado por um motor leve e de alta potência".

 

Quando dos preparativos da sua viagem no "Pax" em 1902, Severo explicou que desenvolvera um sonho de vinte anos. Com o início de seus trabalhos para a navegabilidade, nessa trajetória, pode-se enumerar o projeto do balão "Potuguarânia", depois já no Rio de Janeiro o "Bartholomeu de Gusmão" até finalmente em Paris o épico "Pax".

 

Ele foi o oitavo dos quatorze filhos de Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão e Feliciana Maria da Silva de Albuquerque Maranhão. Nasceu aos 11 de janeiro de 1864 e faleceu em Paris, no dia 12 de maio de 1902. Realizou seu curso primário em Macaíba e o secundário em Salvador. Em 1880, viajou para o Rio de Janeiro e iniciou seus estudos de engenharia na Escola Politécnica. Casou-se, em 1888, com a pernambucana Maria Amélia Teixeira de Araújo, com quem teve cinco filhos. No mesmo ano começou a escrever para o jornal "A República", de propriedade de seu irmão Pedro Velho. Este, sendo eleito, em 1893, para governar o Rio Grande do Norte, o irmão assumiu a vaga na Câmara Federal. Viúvo aos trinta e um anos casou-se com a italiana Natália, que lhe deu um filho, a quem chamou de Augusto Natal Severo, em homenagem à sua amada terra.

 

Ao invocá-lo, na epopéia trágica do seu voo, a nossa memória está submetida às mais fortes e profundas emoções. As lembranças telúricas que povoam nosso mundo interior entrelaçam-se aos sentimentos dos fatos dramáticos vividos por Severo Pinço nos versos do lirismo de Paulo Mendes Campos, a magnitude do martírio de Severo, mas repleto de profundidade vital: "Que âncora poderosa carregamos / Em nossa noite cega atribulada! / Que força do destino tem a carne / feita de estrelas turvas e de nada! /Sou restos de um menino que passou. / Sou rastos erradios num caminho / Que não segue, nem volta, que circunda / A escuridão como os braços de um moinho."

Nossa homenagem é dirigida ao grande brasileiro que foi Severo, a Natália, a companheira apaixonada e à Paris onde ambos viveram belos sonhos, prematuramente interrompidos pela violência da morte. Ali se ergueu depois a praça que limita a rua Augusto Severo, a três edifícios denominados, PAX, NATÁLIA e PARIS. E no 12 de maio de 1902, daqueles dias, quando aqui chegou a notícia fatídica, em uma Natal sem os ruídos de hoje, pequena e provinciana, ouviu-se de repente o som grave e triste da chaminé da fábrica de tecidos de Juvino Barreto. Foi a primeira queixa, o primeiro clamor dorido da cidade inteira e de todo o estado. Desaparecera o jovem que empinava papagaio no monte dos Guarapes de sua terra Macaíba, onde tudo começou. 

11 de Maio de 2012 às 11h18

QUESTÕES DE INTERPRETAÇÃO

01) Germano Caenga, de Grossos, chegou à prefeitura graças aos movimentos salariais do sindicato do sal. Caenga descobriu uma artimanha montada por Jânio Quadros, nos anos sessenta quando simulou sua permanência e deu no que deu. Ele solicitou a renúncia para ter o seu "dia do fico". Sonhou ser "o ditador da salinésia" e arrematou: "Se o povo não estiver comigo, eu deixarei a prefeitura amanhã". No dia seguinte, amanheceu na porta da prefeitura uma faixa enorme onde se lia: "Já vai tarde e atrasado!".

 

02) A campanha parecia fácil em Mossoró mas quase se complicava. O professor Vingt-Un, que fazia questão de dizer que não era médico, garimpava votos na zona rural, com o vereador Expedito Bolão. Estavam na comunidade Riacho Grande, ouvindo as reivindicações populares. Na área rural, ainda hoje, muita gente chama bronquite asmática de "puxado" (dificuldade de respirar). Uma idosa que sofria desse problema, parou Expedito e suplicou: "Homem de Deus! Me dê um remédio... O que eu faço pra deixar de "puxar"?". Expedito com ar professoral, respondeu: "Bote na frente e tanja". "Ô cabra felá da...", explodiu a velha pedindo desculpas a Vingt-Un. 

 

03) Ainda sobre Expedito Bolão, flagrado quando lia um jornal, sentado na praça da matriz, aguardando a missa. Uma balzaquiana estava próxima ao vereador, quando abriu o zíper (naquele tempo era "ri-rí") de sua enorme bolsa. O puxão foi tão forte ao ponto de produzir estranho barulho. Expedito aproveitou o inusitado para dizer: "Que pressão, heim?". A coroa olhou de desdém e replicou: "Não foi o que você pensou não seu imoral!". O presepeiro não se fez de rogado: "Eu não pensei nada. Até porque a sua "cavidade fóssil" não tem mais essa pressão toda não!". A coroa retirou-se com impropérios, ao som das gargalhadas de Bolão.

 

04) O nosso amigo Didi, pai do ex-prefeito de São Gonçalo do Amarante Jarbas Cavalcanti, é o tipo de pessoa que será jovem sempre. Ele crê que a "idade está na cabeça" de cada um. Pra começar, estacionou nos trinta. Certa feita, ainda secretário municipal, enfrentou uma longa fila no BB da avenida Rio Branco. Uma linda jovem, ao lado, observou complacentemente: "O senhor, se quiser, pode ir para a fila dos preferenciais". Didi saiu de fininho e pegou a fila sugerida, vez que estava bem menor. Aí aconteceu o desagradável. Um amigo que adentrava, o viu e exclamou: "Aí Didi! Pegando a fila dos velhinhos, heim? Quando sair, vá tomar a vacina dos idosos. Estão aplicando aqui mesmo na calçada!". Nosso Didi, não titubeou e logo rebateu: "Que é isso, meu caro! Eu estou apenas guardando lugar para os amigos, você quer vir?". Uma saída pessedista.

05) Transcorria em Ponta do Mel uma festa para os colonos, sob a direção do então prefeito Cortez Pereira. A Superintendência da Petrobrás foi convidada, pois se falava na possibilidade de petróleo naquela área. Uma moça muito bonita, filha de um vereador, dava as boas vindas a todos. Ao ser apresentada a um engenheiro bonitão, a moça sentiu-se atraída pelo rapaz. "Muito prazer, senhorita", disse o profissional. "Quanta beleza numa só pessoa. Muito prazer, mesmo", fechou o cumprimento beijando a mão da jovem embevecida. A moça, encantada e inebriada soltou essa pérola de orgasmo: "O gozo é todo meu". 

04 de Maio de 2012 às 12h08

O PASSADO VOLTA AO PRESENTE

01) O velho Ivanaldo Ferreira, ex-prefeito, ex-vereador, ex-tudo, aos 92 anos, ainda liderava os votos da família e da redondeza. Sua palavra era lei, em Martins. Certo dia, posterior a um forró pesado, puxado a muito aluá, o velho acordou sem conseguir falar direito e babando feito cachorro doido. A filha mais velha, coroa encalhada, vendo o estado do velho líder, gritou: "Socorro! Acudam! Papai sofreu um ramo. A boca dele tá torta!". Foi um vexame. Logo juntou filhos, netos, noras e genros. Botaram Ivanaldo numa rural velha e foram para o hospital. Alguém foi à recepção procurar vaga na emergência. A esposa dizia: "Meu velho, você não pode morrer! A "inleição" tá na porta!". A filha mais nova aproximou-se e não aguentando o cheiro de cachaça, exclamou: "Painho, abra aí a boca?!". A mocinha novamente gritou para alivio geral: "Gente num foi nada não. É que painho botou as "chapas trocadas". Botou a debaixo em cima, e a de cima embaixo! Daí o engasgo". A calma e a saúde do velho voltaram a reinar. Foram pra casa.

 

02) O irreverente vereador Ivan Costa, numa quinta-feira santa, instalara-se numa cadeira da vovó, em frente a residência. O prefeito Expedito Alves, por sinal, sempre mal humorado, ia passando e cumprimentou: "Bom dia vereador! Vai tomar um vinhozinho na aleluia?". "Não, prefeito. Estou aqui distribuindo um kit para os meus eleitores quebrarem o jejum. Este ano, não tem chocolate. Vou distribuir dois coquinhos, um molho de coentro e um peixe-espada de palmo e meio. Seja modesto prefeito, leve um também!". O carrancudo Expedito saiu resmungando: "Isso é que é ser espada, igual ao peixe!".

 

03) O então senador Carlos Alberto de Souza tinha o prazer em divulgar nas ondas do rádio que a maioria do seu eleitorado popular era formada por empregadas domésticas. Sempre iniciava suas campanhas no Alecrim em frente ao antigo "Quitandinha", considerado o berço do povão. Um dia, depois de grande comício de Carlos, o ex-deputado Magnus Kelly, seu adversário, no mesmo local, fez outro, onde borrifou toda área com forte inseticida. O deputado dizia: "Só piso em terreno limpo, livre de insetos! Por aqui andou espécie que só o pêlo mata qualquer um!". Dias depois, Carlos Alberto voltou à praça e rebateu: "Olhando para esse relógio eu faço a contagem regressiva da curta vida pública do deputado detefon!". Foi uma verdadeira briga de pragas!

04) Francisco Maltez, popularmente conhecido por Chico de Biau, estivador de profissão e vereador por vocação política. "Nasci para servir", gostava de dizer lá em Macau. Chico era apaixonado pela esposa, a morena Ednalva, mulher de parar carnaval da Bahia. O casal tinha oito crianças, embora o povo boatasse que os filhos dele eram apenas dois. Ednalva, era por demais namoradeira. Certo dia, o vereador não mais suportando as chacotas, aproveitou os salários e foi direto para o cabaré. Passou dois dias na farra. Alguém fuxicou junto a Ednalva que logo marchou para o lupanar, cheia de razão. Ao adentrar no bordel, deu de cara com Chico, tomando cerveja com duas garotas nas pernas. O bafafá foi grande. "Vamos pra casa, velho safado! Dois dias raparigando!". Depois de ouvir vários impropérios, o representante do povo abraçado com as meninas, replicou convencidamente: "O que é isso? É bom levar chifre, é? Tá doendo na testa, bichinha? Vá embora que eu vou ficar aqui mais uns dias! Dor de cornagem também passa!". Bigamia recíproca e extensiva. 

27 de Abril de 2012 às 12h25

MEROS PALPITES

O mundo virou bando de interesses guardados por polícia. E com ele a lei, os direitos individuais, o patrimônio público e até o crime, vez por outra. Os códigos instituídos pelos homens e os mandamentos de Deus são quebrados todos os dias, minuto a minuto. O facínora, o bandido dos crimes hediondos, têm como defesa "os direitos humanos", as ONGs e até ministério. Há mais direitos para eles do que para os cidadãos e cidadãs comuns. O sistema prisional e as penas aplicadas são uma lástima e não corrigem e nem despencam as estatísticas criminais. Antes, são estimulantes para novas práticas e revoltas. Bem, e daí? Aonde quero chegar? Bom, o assunto é tão emblemático que nem sei se chegarei à sua conclusão. Por isso, intitulei o texto de "meros palpites", abordagem ligeira e descomprometida, tudo à luz da experiência de vida, debruçado à janela, lendo jornais e vendo a máquina mortífera chamada televisão. Começo perguntando: o estado brasileiro está falido no enfretamento dos desafios sociais, principalmente a saúde e a segurança? Não. Não está. O problema é de gerência, de competência. O regime democrático é lento e o organismo corroído de chagas é de caríssima manutenção. Anotem: na próxima crise econômica de origem européia ou americana o nosso país pifará. Essa ordem (ou desordem?) econômica explodirá, pois a impunidade que campeia já acendeu o estopim, baldados os esforços do Ministério Público e da Polícia Federal. O abuso de concessão de liminares aí está para confirmar. Os tribunais de contas votam criteriosamente intervenções municipais em prefeituras corruptas, mas os governos estaduais não executam as decisões por conveniência política. Nos hospitais públicos a pobreza morre à mingua, abandonada com dores físicas e morais insuportáveis porque o deficitário sistema único de saúde não dá votos e sim o "bolsa família" e a dinheirama drenada e desviada das "emendas parlamentares". 

Semana passada, uma senhora que reside num condomínio se lastimava com piedade de um marginal, detido por populares em flagrante. Levou uma merecida sova. Aliás, a única punição que receberá realmente. "Minha senhora", disse-lhe, "deixe o povo aprender a punir, porque a dor física é a única que mete medo". Aí me lembrei que foi a dor do corpo (para mostrar a única fragilidade veraz do ser humano) aquela escolhida pelo filho de Deus - Jesus - para redimir os pecados do mundo. Esbofeteado, cravado de espinhos, cuspido, furados com pregos os pés e as mãos, e crucificado. E Pilatos, simbolizando "li-minarmente" a justiça romana e judia de Caifás, lavou as mãos "diante do sangue desse inocente". Jesus deixou-se condenar porque assim estava escrito e predestinado. Mas os homicidas diabólicos do mundanismo de hoje, verdadeiros animais e os ladrões de colarinho branco são tratados com pachorra e facúndia, com homenagens de praxe e de apreço frutos de uma legislação fáctil, fóssil, fútil e fácil. E assim, já dizia o comerciante assuense Luis Rosas, que desfrutou de grande riqueza e, depois tendo perdido tudo, foi surpreendido por amigos vendendo avoetes na feira das Rocas, em Natal: "Amigos, não se preocupem, tudo é comércio!". 

20 de Abril de 2012 às 10h37

MEMÓRIAS POLÍTICAS

01) O governo "Aluízio Alves", via Aliança para o Progresso, trazia para o estado óleo de soja, leite em pó, farinha vitaminada, conhecidos como proteínas para a merenda escolar. Igualmente o governador recebeu em Natal o ilustre senador Robert Kennedy, para inaugurar o busto do irmão no centro da cidade. Até aí nada demais, não fosse a presença do neo-vereador das Rocas, o hilário Manoel Dantas, que instava o professor de inglês e vereador Orlando Garcia, a traduzir tudo o que o visitante falava. Orlando já estava saturado. Robert misturava o inglês com o portunhol. Em dado momento, Bob falou algo, que Manoel Dantas insistiu saber: "E agora, Orlando, que diacho esse gringo disse?". O professor explicou: "Eu não ouvi bem. Mas tinha algo a ver com proteínas". O bom Manoel Dantas coçou a careca, e exclamou: "Vixe, nem me fale! Eu comi essa gota. Tô aqui de bunda assada. Fazem três dias que "faço efeito" direto".

 

02) Domício Guabiraba entrou na política sem levá-la à sério. A coisa deu certo e ele tomou gosto. Conquistou cinco mandatos. Ele era mal desenhado, feio, raquítico, porém inteligente e de bom coração. Uma certa grã-fina teve a idéia de se candidatar a vereadora. Foi uma decepção. Enquanto Domício teve seiscentos sufrágios, a ricaça conseguiu apenas vinte. Um sábado, no labirinto da feira livre do Assu, aconteceu o encontro. A senhora indagou: "Vejam só! O povo de Assu não sabe votar. Esse escárnio da natureza, ganhou de novo?!". Domício, sem se abalar: "Pois é. Imagine se eu fosse rico como você; se eu tivesse esses cento e vinte quilos como você". Irritada a mulher respondeu: "Chega de tanto se. Seu abestalhado! Se eu tivesse quatro pneus, eu era um jeep". Domicio girou, olhou o enorme traseiro da mulher e sentenciou: "Tenha calma. Pelo menos, "dois pneus de suporte cheios" você tem. Você só não ganha porque não quer. Mas tem com quê!".

 

03) O ex-prefeito de Natal, engenheiro Vauban Bezerra de Faria, assumindo a direção do Senai-RN, pegou de chegada a construção do Senai-Mossoró. Vauban tinha o hábito de inspecionar as obras, misturando-se no meio dos operários. Como achava lindo e de simples cultivo uma erva silvestre de nome Chanana, orientou que a plantinha fosse o carro-chefe no jardim, de forma geral. A chanana com suas cores branca, preta e amarela, embelezam o visual. O que estraga, é que a rosa deixa no ar e nas mãos, um odor um tanto acre. Em seu passeio pelo canteiro da obra, sem ser reconhecido, Vauban ouviu de dois peões o seguinte comentário: "Será que esse engenheiro, com "essa venta" de tucano, não sente que essa rosinha tem o cheiro de titica de galinha choca?". Ossos do ofício.

04) A madre Marlene Otto, freira de alto prestígio na diocese de Mossoró, de repente, mudou de idéia e enveredou na política. Naqueles dias, digladiavam-se Arena x MDB. Comparando mal, era como se fossem Caim e Abel. O MDB lançava os seus candidatos à disputa municipal. Foi o bastante para Marlene Otto, sair candidata a vereadora pela Arena. Muito inteligente, Marlene era uma verdadeira metralhadora humana contra o sofrido MDB. Na Praça do Codó, Aluízio em comício, arrebatava multidões. Os bacuraus de Mossoró, pilheriavam Marlene. Numa reunião política, ela aguardava uma ligação telefônica de ordem política. Nervosa, fumando muito, comentou: "Eu sou muito mole! Esse telefone não chama! Dizem que quando o homem tá mole, nada dá certo. É porque pisou em rastro de corno. Eu, por certo, pisei em rastro de quenga! Puxa vida!!". Expedito Bolão, ali perto, sem perder tempo, emendou: "Também, mulher, você só quer andar, não se senta um instante!!". 

13 de Abril de 2012 às 13h30

CONFESSIONÁRIOS

01) O jornalista Vicente Serejo passou-me esta história ocorrida numa tarde verânica natalense. Na avenida Rio Branco, Cidade Alta, acontecia a inauguração da nova agência do Banco do Brasil. Presente, o mundo social, político e empresarial do Estado. Durante os discursos, o então prefeito de Natal Jorge Ivan Cascudo Rodrigues descobriu, ao seu lado, que algo poderia acontecer de pior ao deputado federal Djalma Marinho. O alcaide revelou-se providencial: "Doutor Djalma as cinzas do seu cigarro estão caindo sobre o seu terno!". Djalma, sem perder a mansidão da postura, ponderou profético: "Meu filho, não se preocupe. Esse é o único fogo que ainda me resta".

 

02) Por telefone, Diógenes da Cunha Lima relembra a figura humana e esquisita do poeta e escritor Walfran de Queiroz. Vim a conhecê-lo, mas sem aproximação. Ou melhor, de vista. De muitas vistas quando passava mergulhado em si pelo efervescente Grande Ponto dos idos de 1950 e 1960. Poucos desfrutaram do privilégio de sua fala, companhia ou conversação. Circunspeto, fisionomia de mormaço, além de inabordável, eram suas características marcantes. Conta-me Diógenes que ele caminhava no calçadão da praia circular de calça, sapatos e meias, fumando e de olhar perdidamente fixo em nada. Certa vez, abordado por um transeunte para lhe acender o cigarro, reprimindo-se, detonou secamente: "Use o fósforo para evitar a intimidade do cigarro".

 

03) O abastado João Salustino, pecuarista famoso no município de Augusto Severo, tinha por hábito recepcionar o vigário Militino. A coisa ficou tão trivial que o sacerdote já tomava café e almoçava na fazenda em horas certas e incertas todos os dias. O tempo passou e, um dia, o fazendeiro faleceu. Padre Militino, no entanto, não mudou os hábitos e os costumes. Uma manhã, Salustino Neto, garoto de doze anos de idade, perguntou: "Padre, daqui até ao céu, é muito longe?". "É, Netinho", sintetizou o religioso. "Você tá vendo aquela rocha alta?", apontou para uma pedra enorme. "Tou", disse o menino. "Pois bem, se fosse possível jogar essa pedra rumo ao céu, ela passaria milhões de anos para chegar lá...". O jovem, de repente, cortou a "via Láctea" da pedra, e corrigiu: "Mas se rebolasse o padre de lá pra cá, o senhor ainda chegava antes do almoço, num era?". Militino emudeceu.

 

04) O Grande Hotel era o máximo em termos de hospedagem em Natal nos anos quarentas e cinquentas. Theodorico Bezerra, homem simples, mas de larga visão, logo se tornou arrendatário do prédio da Ribeira. Os anos foram passando e o sucesso do empreendimento deixava o "majó" feliz da vida. Com o tempo, o aluguel tornou-se irrisório, mas contrato é contrato. Certo dia, um empresário local botando os olhos no negócio do deputado, perguntou: "Theodorico, quanto você paga de aluguel por esse prédio?". O "majó" pessedistamente explicou: "Eu pago o que o governo me cobra". Ponto final na boca do especulador.

05) No governo de Tarcísio Maia houve um desfalque na CIDA, sociedade de economia mista estadual. Foi cometido por um funcionário, filho de um liderado político de Epitácio do município de Patu. O servidor, nem precisa esclarecer, foi exonerado sumariamente do cargo. Mas a família do inditoso rapaz, confiando que a liderança de Epitácio poderia reverter a situação ou, pelo menos, conseguir outro emprego, cobrava sucessivamente uma providencia do seu líder e chefe político. No dia de calor e estresse, Epitácio recebeu nova interpelação do pai do barnabé: "E aí, conseguiu alguma coisa para o meu filho?". Resposta enfarada de Epitácio: "Consegui sim. Para ele não ser preso...". Aí o tempo fechou. 

05 de Abril de 2012 às 12h39

O SENTIDO DA CRUZ DE CRISTO

Padre João Medeiros Filho*

jucurutu@ig.com.br

 

João Paulo II, na homilia da missa em que entregou o anel aos novos Cardeais, em 23 de fevereiro de 2001, afirmou: "A Cruz é a Cátedra de Deus no Mundo". (Osservatore Romano, 23/02/01).

A palavra cátedra evoca vários sentidos. Mas, tradicionalmente sabemos que se trata do lugar, onde o mestre ensina. A Cruz de Cristo é um púlpito vivo e permanente, onde Deus continua a proclamar sua mensagem de amor e perdão, de ternura e salvação. O que percebemos, contemplando a cruz ou o Crucificado? Primeiramente, encontramos a grande mensagem de Deus aos homens. Na Cruz, Cristo oferece à humanidade a lição mais importante: a necessidade de nos amarmos uns aos outros como Ele mesmo nos amou (cf. Jo 19, 26), até ao dom extremo de si mesmo. A mensagem da Cruz é uma lição de amor total, sem cobranças, porque se exprime e se concretiza no dom da própria vida para trazer a paz ao outro.

Há algo que talvez só consigamos aprender contemplando a Cruz: o sentido do sofrimento e da fecundidade da dor. Por inclinação instintiva da natureza, a civilização e a cultura modernas evoluíram no sentido de amenizar o sofrimento e a dor, quase sempre considerados como um mal a evitar. Não há em nossa afirmativa nenhuma insinuação de que não é justo e digno lutar para mitigar, até às fronteiras do possível, o sofrimento material ou espiritual de nossos irmãos. Cristo tudo fizera para apagar a dor dos que o procuravam. Mas, Ele mostrou com o seu gesto na Cruz que só é possível vencer o sofrimento do mundo, quando aceitamos dar generosamente nossa vida em favor dos nossos irmãos. Eis o testemunho mais profundo da Cruz de Cristo.

O sofrimento foi e continua sendo, em todos os tempos, uma experiência humana tão universal, como a alegria e felicidade. Ele é físico ou espiritual, causado pela violência, pela injustiça, pela miséria ou pela doença, adquirindo os contornos da solidão, do abandono, da perda do sentido da vida etc. E perante esta experiência tão intensa, ou nos deixamos esmagar pelo seu peso, ou o assumimos de forma generosa, oferecendo-o misteriosamente como semente fecunda de nossa redenção. Podemos aprender esse sentido pascal da dor humana, contemplando e venerando a Cruz de Cristo. E essa é uma compreensão que abre cada vez mais o nosso coração para o significado da própria morte de Cristo, para a beleza do amor com que nos ama, para o sentido da nossa vida, tomada como um todo, chamada a ser dom e comunhão. A dor integra-se, então, na harmonia da vida, e pode mesmo com a graça divina revelar-lhe a sua beleza mais profunda.

Contemplar a Cruz de Cristo ensina-nos também a atualidade redentora do sofrimento do Senhor. O mistério da Cruz não é um acontecimento passado. Mantém a perenidade salvífica através dos séculos. O Senhor continua a oferecer-se pela humanidade, sendo a oferta do sacrifício objetivada no sofrimento dos cristãos, que, no dizer de S. Paulo, "completam no seu corpo o que falta à paixão de Cristo" (2Cor  4, 10). 

É isto o que celebramos e vivemos na Sexta-Feira Santa. A Cruz de Cristo é aparententemente a estranha pedagogia de Deus, mostrando que o seu amor pode chegar a gestos que transcendem à lógica humana. 

 

(*) Da Academia Norte-Riograndense de Letras. 

30 de Março de 2012 às 11h30

PREVENIR OU REMEDIAR SEMPRE

01) O então deputado federal Aluízio Alves, dava início a sua peregrinação pelo estado rumo ao Palácio Potengi. Foi escolhido o município de Angicos para o ponta-pé inicial. Em meio às explanações, Aluízio falava em energia de Paulo Afonso e água do Rio São Francisco. Nesse momento, o vereador José Barbosa, o Zé Doido, que não perdia oportunidade de alfinetar Aluízio, criticou: "Lá vem esse homem com sonhos e fantasias. Olhe deputado, a tal luz de Paulo Afonso, possa ser que os meus bisnetos vejam. Agora, água do São Francisco? Vai morrer todo mundo aqui esturricado e ninguém prova desse precioso líquido. Deixa de onda, rapaz!!". Aluízio teria comentado baixinho com alguém ao lado: "Esse doido às vezes tem momentos de lucidez".

 

02) Decorria uma campanha acirrada e violenta. Diz-se no interior que carreira de velho, é queda. Tem lógica. Porém vale lembrar que os novos também caem. Aluízio Alves buscava apoio no município e marcou uma reunião na casa de um chefe político que tinha como adversário e até inimigo pessoal o temperamental Orlando Azevedo. Aluízio sempre gostou de enfrentar adversidades. Orlando jurou e cumpriu que acabaria a tal reunião, "nem que fosse à bala". Em dado momento, vários jagunços atirando, invadiram a residência onde acontecia o evento. Aos primeiros disparos, o doutor Hélio Galvão, homem de bem e pacato, esquivou-se com um pulo de gato e depois de correr uns duzentos metros, parou e pensou em voz alta: "Valha-me Deus! Deixei Aluízio naquela sala no meio do tiroteio!".  Foi aí que ele ouviu um alerta urgente: "Corre Hélio!! O que está fazendo, parado aí?!". Era a voz de Aluízio, vítima principal da arbitrariedade política.

 

03) O prefeito pro tempore de Paraú, o velho Silvestre Veras era considerado "o pai dos pobres" da região. O que azedava no velho, era a incontinência quando via mulher. Apaixonava-se à primeira vista. A natureza premiara Silvestre com uma forte dose de gagueira e na hora dos galanteios não saía nada. Certo feita, em Assu, acontecia um encontro de prefeitos e deputados. A esposa de um parlamentar foi apresentada ao prefeito Silvestre que, num misto de basbaquice e paixonite agudas, no meio da gagueira amaciou a "massa": "É... é... essa mulher dei... dei... tada.. da em cima de uma car... car... roça, eu co... o... meço a lam... lamber nos cascos do.. do jumento". A jovem senhora se desvencilhou das mãos do prefeito e saiu de mansinho.

 

04) Sílvio Pedrosa, ex-governador do Rio Grande do Norte, através do seu irmão Fernando Gomes Pedrosa, fundador do Iate Clube, foi conduzido ao quadro de sócios dessa agremiação náutica. Sílvio apaixonou-se pelo novo esporte de tal forma, que ao deixar o governo, foi ser presidente do Banco do Nordeste em Fortaleza viajando em seu próprio veleiro. Ao chegar na terra de José Alencar e ser recebido com pompa e circunstância, as primeiras palavras do ex-governador foram as seguintes, fugindo de sua flegma diplomática: "Levem-me a um mictório aparelhado onde em possa ficar a vontade, sem balanço nem marola para eu defecar e vomitar sossegado. Ok?". Quem é do mar e da terra enjoa por igual.

05) A política em Dix-Sept Rosado naquele tempo era "o ano todo, todo ano". Chico Carlos versus Zé Ferreira se engalfinhavam sempre. Chico (MDB) dizia: "Esse hospital/maternidade é a cara dos hospitais públicos do estado! É a ante-sala da morte iminente! Não tem a mínima condição de atendimento. Seus corredores são "um corredor da morte" disfarçado!". O prefeito Zé Ferreira (Arena) dava o troco: "Diga a ele, que não passe da sala. Vá pra cozinha ou ganhe o mato! Vá tomar chá de raiz!" 

23 de Março de 2012 às 11h03

FOLCLORE E FÁBULAS POLÍTICAS

01) Venâncio Zacarias de Araújo, mesmo com forte líder, era um autêntico criador de situações muitas vezes hilárias. Nem o próprio sabia o que vivenciava. Certa vez, aportou na cidade uma caravana política, de hostes adversárias. No dia seguinte, instalou-se inúmeros comentários na praça. "Como falou bem, o candidato tal!", diziam. Para não ficar por baixo, Venâncio convocou seu grupo e fez uma grande concentração. Hora de mandar o verbo, Venâncio bradou: "Macauenses, macauanos e macauzeiros! Eu "saldo" vocês assim, para que não sobre nada para os invasores. Quem já viu se chegar em terra alheia e querer ganhar as "muiés" com palavra bonita! Eu "seio" de tudo aquilo. Aquelas palavras "escafobéticas" e "concravitônicas", não interessa ao povo de Macau!". Já em casa, um puxa-saco alcovitou: "Mas seu Venâncio, onde o se-nhor arranjou tantas palavras bonitas? O senhor abafou!". Venâncio, com ares de sabichão, esnobou: "Pois é. Passei a noite da sexta-feira invocando Rui Barbosa e pelo visto, deu certo, né?".

 

02) A oposição não tinha meios para derrotar Raimundo Pereira, "o eterno prefeito" de Grossos. Com uma trama bem feita, trouxeram para a oposição, Duquinha, o filho de Raimundo, considerado a ovelha negra. Pai versus filho, a campanha pegou fogo. Raimundo no palanque vociferava: "Vamos exterminar esse capitalismo selvagem! Como dizia Voltaire: esmaguemos os infames! Como dizia Juscelino: do alto dessas pirâmides de sal, eu antevejo o futuro de Grossos!". A luta passou a ser chamada de: "o clássico besteirol contra a anarquia". A turma de Duquinha, não muito longe dali, com um megafone, rebatia: "Cala a boca velho trapaceiro!". Raimundo, já perdendo as estribeiras, refutou: "Como disse José Américo: o vil metal não sujará as minhas mãos! E é por isso que eu trabalho dia e noite, enrolado feito tapioca!". De longe, gritaram: "É mentira, cururu velho!". Raimundo não aguentava mais. "Peço licença", disse o líder, "aos meus amigos, mas agora eu vou encher a boca daquele safado de bala!". Galhofando alguém gritou: "Eu não gosto de bala. Meu negócio é chocolate "serenata"". Daí pra frente a debandada foi grande. A turma de Duquinha tinha alcançado o objetivo, que era acabar com o comício do velho político.

 

03) O saudoso Edson Coelho, o Maninho, sonhava um dia ser vereador. Com muita lágrima, suor e cerveja, Maninho chegou lá. O sonho cresceu e o nosso bravo defensor passou a sonhar com a presidência da Casa. Começaram as negociações com os pares. Um outro vereador por ser formado, achava uma aberração, Maninho ser o presidente. Como dizem que "onde dinheiro e cacete for e não resolver é porque foi pouco", Maninho fez contato com o edil formado, seu competidor e foi logo dizendo: "Meu amigo, faz dias que eu quero falar com você! Eu gostaria "mensalmente" de levar um tê, tê, retê, só nós dois. Eu digo logo! O "cacau" vai correr frouxo pra nós! Topa "mim" apoiar?". Sem maiores entreveros, Maninho foi eleito presidente por unanimidade.

04) Em suas andanças e sempre botando fé no oeste, o governador Cortez Pereira dizia em praça pública: "Desta terra de poeira solta, deste chão de calcário, também jorrará leite e mel". O líder bronco, Moisés Oliveira, prefeito de Baraúna, comentava: "Esse "véio" tá ficando doido. Leite aqui, só das cabras e mel ou dos troncos das umburanas". O velho Moisés, apesar do nome, não lia e muito menos interpretava a Bíblia. Cortez não chegou a ver, porém o velho prefeito viu se cumprir a profecia e matutando falou: "Cortez tava certo. Com sua visão no futuro, aí estão duas fábricas "jorrando leite e mel" em forma de cimento e emprego para o povo. 

16 de Março de 2012 às 10h40

ADMIRÁVEL MUNDO DE AFORTUNADOS

Quem merece respeito? Claro que é aquele que respeita a todos no dizer da sabedoria do Talmude. A revista Forbes publicou recentemente a relação dos homens mais ricos do mundo. Ou seja, o grande rol da calamidade moral: o egoísmo, de onde deriva todo o mal do mundo. No seu artigo "Dilemas", domingo passado, Cláudio Emerenciano mencionou que "a fruição da vida não pode ser exclusiva, avarenta, indiferente à existência dos outros". Cadê a partilha? Desses bilionários, quantos contribuem com o social para dizimar a fome no planeta? "Nós pagamos impostos para os governos fazerem isso", poderão aduzir. Mas, somente esse dever não é o bastante. A "felicidade" comprada me faz formular a interrogação de Lao-Tsé: "O que é mais meu: minhas posses externas ou meu íntimo ser?"

 

Quando a China aderiu ao capitalismo selvagem instalou-se outra forma de violência na terra, através do excesso de produção e de trabalho do seu povo submetido ao império escravagista. Ainda existem lá muita fome e miséria, além da privação das liberdades individuais. O poder absoluto das fortunas forbianas do lado ocidental em nada diferem. Existe o mesmo perigo. Aqui, em vez de escravos, se tornam autômatos. O velho Carlos Drummond de Andrade disse, certa vez, que "o cofre do banco contém apenas dinheiro. Frustrar-se-á quem pensar que nele encontrará riqueza". Chegou a hora dos bilionários refletirem e indagarem a si mesmo, como Dom Hélder fez: "Se eu dou comida a um pobre me chamam de santo, mas se eu pergunto por que ele é pobre, me chamam de comunista".

O fato é que tanta fortuna acumulada nas mãos de poucos que não criam programas ou iniciativas em favor do chamado terceiro mundo, subdesenvolvido e subumano, vai gerar a desordem social sem freios, como está acontecendo no Oriente Médio e países asiáticos. A derrocada econômica do poder público na Europa já começou. A culpa não é só dos governos. Mas, também, dos enormes conglomerados privados que ostentam luxo e riqueza, indiferentes a qualidade miserável de vida dos povos. Violência, assaltos organizados e governos falidos formam hoje um quadro grave e dantesco dentro do sistema econômico. Lembre-se, caro leitor, quem faz hoje revolução não é a ideologia, a política (cadáver insepulto) nem os militares. Os que irão promover revoluções armadas até os dentes, serão os facínoras, os baderneiros, os bandidos, os marginalizados, os fugitivos, todos movidos pela fome, o desemprego, a morte do estado que não tem dinheiro para a saúde, para a segurança, educação, além de aplicar uma legislação penal fútil, fáctil e fóssil. Os gigantes da revista Forbes não aplicam as sobras dos seus tesouros nos projetos sociais públicos e privados. Somente praticam a avidez de ganhar mais dinheiro, que dentre outros vícios é o mais radical. Não querem pensar que duros e rígidos ficarão quando morrerem. Vê-se, a cada dia, o poder se ampliar nas mãos das hordas bárbaras, das facções pseudos-sindicais, ong's vampirescas que sugam o dinheiro público. Tudo representa no mundo moderno uma ruína dos valores, dos sonhos, dos anseios individuais da condição humana porque os ricos se isolaram, abandonaram a crença na própria humanidade. Admiro, com reservas, os bilionários desse mundo. 

09 de Março de 2012 às 12h27

GROSSO E VAREJO

01) Walter Sá Leitão não desperdiçava uma parada quando o momento exigia uma boa resposta. Candidato a prefeito de Assu, passando pelo centro, encontrou um velho eleitor que lhe pediu dez cruzeiros. "Pois não amigo", disse Walter. Tirando da carteira dois cruzeiros, entregou ao pedinte. De repente, surgiu um garoto e repetiu a cena: "Seu Walter, me dê um cruzeiro!?". O político retirou da carteira uma nota de dez e entregou ao menino. O eleitor franziu a testa, reclamando: "Que é isso Walter? Eu pedi dez, você me deu dois. O menino lhe pediu um, você deu dez? "Votes"?!". Walter filosoficamente sacana respondeu: "Acontece amigo, que você não deixa eu fazer com sua mãe, o que eu faço com a dele".

 

02) Anos sessenta, um repórter atrevido perguntou ao deputado Djalma Marinho, o que ele achava da "pérola" do então governador Dinarte Mariz. "...todo homem tem seu preço...", Djalma econômico e reticente: "Concordo em parte. Quando a mercadoria é fraca e perecível, nem sei se vale a pena etiquetar".

 

03) O saudoso e grande líder do Seridó Manoel Torres, teve uma longa existência bafejado pelo número 15. Torres, veio ao mundo num dia 15. Na política abraçou e lutou sempre pelo número 15 (MDB). Tinha como seu melhor amigo e confidente "Quinzinho da farmácia". Depois de plantar muitas sementes e colher bons frutos, Manoel Torres foi chamado para o outro lado da vida, exatamente num dia 15. Não se discute os desígnios numerológicos de Deus. 

 

04) A campanha chegava ao fim, e os deuses da vitória sorriam para o grande Zé Absalão, líder denominado "O pai dos pobres". Em ritmo de festa, Pendências de Cima e Pendências de Baixo, festejavam pra valer: "Viva Absalão! Viva Absalão!". Entre os vereadores do grupo, apenas um compadre do prefeito eleito não alcançou a vitória. Sebastião Vitorino foi à casa do líder e cabisbaixo, choramingou: "É compadre Absalão, gastei muito, lutei muito, nadei, nadei, e morri na praia!". O prefeito eleito olhou o infeliz, e sabendo o quanto ele era mão-de-vaca, recitou: "É compadre, meu pai já dizia: quem nasceu pra sofrer, geme, funga no cangote, mas não goza. Endureça o pescoço e tente mais uma vez...".

 

05) Essa não é de política nem de político, mas vale a pena ser contada. João Félix, natalense, velho lobo do mar, vive hoje no "Espaço Solidário" mantido pela paróquia de Mãe Luiza. Conta-nos "Seu João", que trabalhando no Iate Clube, certa vez, tentou ajudar um marujo estrangeiro. "Jogue a âncora!", gritou o bom João. O marujo aperriado respondeu: "I don't understand you!". "Jogue a âncora!", gritou de novo seu João, gesticulando. "I don't understand you!", repetiu o marinheiro, já meio tonto. "Do you speak english?", falou inesperadamente seu João. "Yes, I speak!", retrucou com um sorriso o marujo já contente. "Pois jogue a âncora, seu fdp!", gritou o velho João, morrendo de rir. Acontece que o "inglês" incipiente de João se resumia somente em "Do you speak english" e "Thank you". E nada mais.

06) Deputado federal norte-riograndense atual, um dos campeões de votos, fechou apoio com um prefeito, hoje afastado e deu tudo certo ou quase certo. Passada a euforia da vitória, o burgo-mestre oestano, encontrando-se com o político reeleito, falou: "Deputado, e aí? O senhor sempre foi legal comigo. Agora "quage" quarenta dias e nada do restante... Como é que é?". O maneiroso parlamentar, respondeu: "Ontem mesmo resolvi tudo. Mandei um e-mail pra você amigo!". O prefeito arregalando os olhos, indignou-se: ""Um-meio"  uma porra! Eu quero é todo! "Nóis fechemo" foi por vinte mil...". Vícios da era da informática. 

02 de Março de 2012 às 11h22

POLÍTICA É ISSO MESMO


01) Final dos anos oitenta a política esquentava e o município de Lagoa Salgada fervia, literalmente. As famílias Justino e Queiroz se digladiavam pelo poder. O "Tamborete" - Geraldo Melo - querido por uns, criticado por outros, chegava à cidade para um grande comício. Coincidência ou não, a energia faltou em todo quarteirão, na hora em que anunciaram o discurso de Geraldo. Foi grande o vexame e logo alguém lembrou: "Vá buscar Zequinha eletricista para ligar o gerador! Depressa gente!". Geraldo temperou a garganta e falou para a multidão: "Não precisa ir buscar ninguém! Eu vou falar sem microfone. Sem porra nenhuma!! Agora, que venha aquele que tem um (?) mais do que eu e corte as energias das minhas cordas vocais!". Falou e foi ouvido.

 

02) Na campanha de sessenta, nasceu a idéia da bandeira gigante no pico da serra do Cabugi. Numa manhã de domingo, um grande número de eleitores da Cruzada da Esperança se fez presente no pé da serra. Mas, apenas quinze pessoas subiram levando a bandeira e um enorme mastro. O então deputado estadual Garibaldi Alves (pai), comandava a caravana, porém sequer desceu do carro, vez que estava com a perna direita engessada. Um vereador bacurau teve uma idéia de puxa-saco. "Deputado, seu suplente está ali. Ele se prontificou em levar o senhor nas costas, serra acima. O senhor topa?". Garibaldi riu, e atenuou: "Meu filho, o Cabugi, mede setecentos e dez metros acima do nível do mar! Esse rapaz tá querendo é minha cadeira. É só "escorregar" e me jogar de penhasco abaixo. Diga a ele, que eu trouxe um binóculo, e vou acompanhar a operação daqui. Aluízio vai entender. Ficar aqui, já é um sacrifício. Além do mais, seguro morreu de velho".

 

03) O prefeito Arcelino Costa Leitão, em sessão solene, inaugurava o Espaço Cultural Assuense. Para maior brilho, foi convidado o advogado, poeta e escritor, João Celso, para a dissertação inaugural. Era tardinha e aproveitando o quadro natural, o poeta versejou: "Faço minhas as palavras do grande José de Alencar: "A tarde ia morrendo; O sol declinava no horizonte, tingido com seus últimos raios o verde alcatifa do ocaso...". Nisso, Costa que não sabia bulhufas de literatura, baixou a cabeça, chorando. Abrahão, o capacho número um, preocupou-se e cochichou: "Seu Costa, o senhor está sentindo alguma coisa? O senhor está bem?". "Tô, Abrahão, é que ele falou na "catifa do caso", aí me veio a lembrança dum namoro que eu tive com uma galega que eu a chamava de "Catifa" nas horas das camaradagens. Êta mulé reboculosa! Ela era daquelas que "chorava no tronco da cajarana"! Era boa pra "piula"". É o que acontece quando a poesia aflora em meio ao folclore popular.

 

04) Depois de anos a fio ralando o bumbum no Banco do Brasil, o velho Domício ingressou na política como vereador em Assu. Antes, porém, procurou seus direitos rumo à aposentadoria. No INSS foi um drama. O funcionário pediu vários documentos e os tais foram apresentados pelo vereador. O moço depois de examinar um por um, disse: "O senhor venha na próxima semana, pois quem assina, não chegou e eu não sei se virá hoje". Domício explicou-se: "Rapaz, eu estou com setenta e dois dias de férias e licença, vim aqui para resolver isso. Só tenho isso pra fazer. Caso eu não perturbe, vou me sentar nesse banco, até de tarde, até amanhã, até esse seu chefe aparecer. Segundo estou notando, você e esse outro, são dois grandessíssimos fdp. Eu achava que sacanas, só tinha na política! Me enganei. Ligue para esse filho de uma égua que eu só saio daqui quando ele chegar!". Nisso, o dito cujo ia adentrando na sala e ouviu os protestos e os "elogios". Abriu uma gaveta, carimbou e assinou duas folhas de papel e finalizou: "Pronto senhor, o senhor já está aposentado".

24 de Fevereiro de 2012 às 11h24

CAUSOS CLERICAIS V


Pe. João Medeiros Filho - jucurutu@ig.com.br



 

Os sacerdotes também são humanos. Tem os seus momentos de fraqueza, como todos os mortais. Estas histórias não têm a intenção de criticar, denegrir o clero potiguar, mas simplesmente mostrar a realidade sacerdotal e o que acontece no dia a dia de um padre. Situações pitorescas, cômicas, existenciais, próprias do ser humano.

 

01) Todos os ex-alunos do Colégio Diocesano Seridoense e do Seminário Cura d´Ars de Caicó conheceram as irmãs Abdon: Chiquinha, Eunice e Floriza. Modelo de vida cristã e dedicação à Igreja era Chiquinha, Filha de Maria, zeladora da Igreja São José de Caicó e fabricante de hóstias para as missas. Piedosamente, adorava o Santíssimo Sacramento e era também cantora. Sabia de cor todos os benditos e cantava com muita unção o hino: "Eu te adoro, Hóstia divina". Certa feita, monsenhor Tércio, cansado de suas labutas de pároco, vigário geral, diretor da Rádio Rural e do Colégio Diocesano, foi expor o Santíssimo Sacramento para adoração dos fiéis. A igreja repleta, Chiquinha não dava para perceber o movimento em torno do altar. Padre Tércio, ficou aguardando o canto. Impaciente, disse em voz alta: "Chiquinha, tá na hora. Eu te adoro". Chiquinha do meio do povo respondeu: "Eu também, padre Tércio". O vigário disse: "Não, Chiquinha. É o bendito". 

 

02) Cônego José Celestino Galvão - a quem muito devem a educação e a radiofonia seridoense - foi o sucessor de monsenhor Walfredo tanto no Colégio Diocesano, quanto na Catedral de Caicó. Eram grandes amigos, apesar de uma diferença de quase 18 anos. Padre Galvão, já maduro, beirando os cinquenta, resolveu deixar o ministério, de maneira digna e segundo as normas canônicas. Por amizade e fidelidade ao seu amigo monsenhor, certa vez, chegou esbaforido ao antigo Palácio Potengi e subiu correndo as escadas, dirigindo-se ao gabinete do governador padre. Os seguranças queriam detê-lo. Mas, ele insistia: "Sou colega do governador". Monsenhor ouvindo a voz rouca do seu querido amigo, o fez entrar imediatamente. Galvão disse-lhe: "Monsenhor Walfredo, vim lhe comunicar que vou me casar". Num gesto de compreensão, de amizade profunda, procurou saber sobre o futuro financeiro do seu colega, monsenhor o aquietou e placidamente perguntou-lhe: "Galvão, e na sua idade ainda vale a pena?". Ecoaram fortes gargalhadas, que retumbaram nas salas!

 

03) Padre Galvão, coração bondoso, compreensivo, caridoso, capaz de ouvir e dialogar, apesar de inquieto, era uma das figuras mais importantes do clero caicoense. Escutava a todos, pobres, ricos, simples, importantes e humildes. Certa feita, no confessionário, uma moça aflita lhe faz uma pergunta: "Padre Galvão, é pecado dormir com o namorado?". O sacerdote procurou ouvir, tranquilizar a penitente e cumprir o seu dever de ofício e apaziguar uma alma angustiada. Conseguiu. No final, a jovem mais tranquila, repete a pergunta ao seu confessor: "Padre Galvão, é pecado dormir com o namorado?". Ele, calmamente responde à jovem penitente: "Minha filha, o pecado não é dormir, mas ficar acordada!".

 

04) Dom Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas, primeiro arcebispo de Natal, era um homem sisudo, circunspecto, conhecido pelos seus famosos trocadilhos. Certo dia, uma senhora importante de Natal - precursora do silicone - tinha uma audiência com o metropolita. A caminho, lembrou-se de que seu vestido tinha um decote um tanto desrespeitoso para uma visita protocolar à autoridade eclesiástica. Não havia mais tempo hábil para retornar a sua residência e trocar-se. Passou em casa de uma amiga, que residia perto do Palácio do Bispo, e pediu emprestado um broche, isto é, um grande camafeu, tipo um murano italiano, da Santa Ceia. O arcebispo, que a época, ainda não era cego, num olhar condenatório, verificou o camafeu. A elegante senhora encabulada disse ao metropolita: "O Senhor está admirando a Santa Ceia?". Respondeu incontinenti com um trocadilho: "Não, estou reprovando os seios da senhora!". 

17 de Fevereiro de 2012 às 15h42

FEITOS E DEFEITOS

01) Nos tempos em que vereador não recebia salário, a Câmara Municipal mossoroense contava em seus quadros com o abnegado edil Zadock Xavante. Sem ambições, Zadock dizia: "Eu me espelho muito em Vingt Rosado. O sonho de Vingt é ser deputado sempre. O meu, é ser vereador a vida toda. Pra mim, tá bom! São sonhos iguais. Aliás, minha avó já dizia: pra quem é já basta. A verdade é que eu fui ficando, ficando e gostando dessa bosta e vou morrer atolado nela". Dito e feito.

 

02) O amigo Gilberto Targino, hoje advogado, foi no passado, funcionário do Tribunal de Justiça e vereador em Pedro Velho, sua terra natal. Certa vez, ocorria nos salões do TJ a entrega de medalhas a algumas autoridades, entre elas o senador Efraim Morais, da Paraíba e mais a um ou dois "caixas altas" da região. O vereador Giba, como era politicamente conhecido, com raízes na Paraíba, foi apresentado ao senador e logo convidado a sentar-se ao seu lado. Houve um festival de fotografias, e o edil logo imaginou: "Com essas fotos irei crescer politicamente no meu município". A notícia e as fotos se espalharam pela cidade de Pedro Velho. Giba virou celebridade. Um mês depois estourou em Brasília, mais um escândalo, e desta vez na cabeça do vendaval o senador paraibano. Para o então vereador Targino, foi um tremendo vexame. Vários jovens haviam sido recrutados e a ordem era: "Onde tiver cópia de foto minha com Efraim, é pra rasgar. Não deixem nem rastro!".

 

03) Mais uma vez, homenageio Palito, humorista, pesquisador e cordelista de Macaíba, meu conterrâneo, com três poucas e boas do seu folclórico repertório: 

Mais uma de tolerância zero de Bigode, figura popular de Macaíba. Certa feita, houve uma invernada na cidade. Choveu por mais de duas horas derrubando o muro da sua casa. Era água demais e o pobre amanheceu na lama. Nisso, passa o rapaz que lhe vendia tapioca e indagou curioso: "Bigode, isso tudo foi água?". "Não! Foi FOGO meu amigo! Era cada relâmpago com todas faíscas caindo aqui!!.

 

08) Conta Palito que foi falar com o amigo macaibense Nonato dono frigorífico para lhe indagar: "Nonato, a você, que é um dos meus patrocinadores, vou lhe entregar dez cd's para pedir ao popular "Chefia", que é o seu conferente, a fim de vender o cdzinho do seu amigo". "Tá certo!", respondeu Nonato, deixando-os todos com o inefável "Chefia". Nisso, chega uma mulher e compra noventa e cinco reais de carne e paga com uma nota de cem. "Chefia", pra mostrar serviço e começar a vender os cd's oferece a freguesa: "Minha filha, eu não tenho os cinco reais de troco não. Você não quer levar um cd de Palito da Beija-Flor, só de piadas?". A mulher, de pronto, respondeu: "Quero. Ele é de Fortaleza?". "Não. É de Macaíba". "Então me dê mesmo o troco de cinco reais em bofe mesmo!".

09) Cambota era um gaguinho que morava em Macaíba. Certa vez, chegou melado ao bar RioMar de propriedade de João Amaral. Duas pessoas bebiam cerveja falando sobre negócios. Cambota embriagado logo se ofereceu: "Eu po, po, posso to, to, tomar uma ce, ce, ve, veja?". "Meu amigo vá pra lá. Eu não gosto de gago e mais bêbado?". O gago insistiu tanto que os fregueses disseram: "Meu amigo, se você pedir uma cerveja bem gelada a João Amaral sem gaguejar eu pago uma pra você e ainda lhe dou dez reais". Cambota doido pra beber retirou-se e passou a treinar a frase exigida. Após muito esforço e decoreba falou: "João Amaral me dê uma cerveja bem gelada". O freguês espantado disse: "Valeu!!". Quando foi metendo a mão no bolso para dá o dinheiro da aposta, o dono do bar, gritou: "Antarctica ou Brahma??". Ele disse: "A, a, ago, go, agora... fu, fu, .... tudo!!". 

10 de Fevereiro de 2012 às 11h12

OSNI VALMIR DE FREITAS TARGINO

Só depor sobre o mundo vasto e vestuto de Valmir é pouco. Tenho que descer aos porões de sua mente e encarar as emoções desejáveis e indesejáveis que criou, as quais, muitas já narrei em causos memoráveis. Hoje, dele, percebo que o reflexo de sua saudade não cabe na moldura do perfil. Político, combativo, deputado estadual, agro-pecuarista, procurador jurídico, Valmir, fez a vida valer a pena, catalizando ensinamentos, humor, tolerância e intolerância, tudo para ser fiel a si mesmo. Magro, tez morena do Cangaíra, bigode destemido e voz de autoridade. Bebeu o doce veneno dos dias de inverno do sertão e das noites de verão dos comícios do interior. Valmir sempre foi duro e rígido mas tenro e flexível quando devia.

 

Eu o conheci assim. Trabalhamos juntos, divergimos juntos, sem se bater. Era capaz de amar e defender o pobre, uma causa ou um sonho. E quando "existe amor não existe medo", como no dizer do evangelista João. Já ensinava Confúcio "que a humildade é a única base sólida de todos as virtudes". Valmir viveu e conviveu com os mais desassistidos. Veja esse lado cômico de uma história de sua atividade pública que bem traduz o seu sofrimento na lide política: Um fiel eleitor do sistema do deputado Valmir, em Messias Targino, exagerou na coalhada com rapadura e viveu maus momentos. A barriga do setentão mais parecia um zabumba. Depois de uma noite de fermentação, só o médico daria jeito. O deputado Valmir ajudou a colocar o paciente no carro e fez questão de acompanhá-lo rumo a Mossoró. Estrada de barro, muito solavanco, o coitado no banco traseiro sofria com os balanços e os "embrulhos" no estômago. Nos vômitos, o ancião, mesmo trincando os dentes, não evitava os salpicos dos resíduos estomacais nas costas do parlamentar. Em certo momento, "a coisa" ficou demais, Valmir olhou para trás chateado. Aí o velho balbuciou: "Calma compadre. O soro vai, mas 'quaiada' fica".

 

Outra, do seu inconfundível temperamento brincalhão e repentista: O de-putado Valmir Targino se encontrava em Bom Jesus, visitando os amigos e aqui, acolá "batizando o santo". De repente, surge Zezito Nogueira, sujeito alto e magro, que foi logo gritando: "Doutor Valmir! Meu deputado! Me dê um abraço! Quanto tempo!". Targino levantou-se e fixou o sujeito: "Quem é você?". "Eu sou Zezito, oficial de justiça". Valmir abraçou o velho, e em cima da bucha emendou: "Mas homem, eu já gastei mais de quinhentos 'pai nosso' na sua intenção! Pensei que já tinha morrido...". Valmir quando queria era "mui amigo". 

 

Tenho sobre o homenageado dezenas de histórias do seu folclore político. Conto, a última para provar que o seu lado irreverente ficou gravado nas cinzas dos caminhos por onde trilhou, com bonomia, coragem e espírito público, deixando um legado de excelente pai, esposo e líder. Não existe nos quadros da atividade política atualmente ninguém que se compare a Valmir Targino, em termos de sensibilidade, lealdade, espontaneidade, calor humano e bom humor.

 

O deputado Valmir Targino, em uma de suas andanças pelos redutos eleitorais, gostava de levar de carona alguns conterrâneos. Muita conversa animada no percurso, principalmente sobre a "seca verde" que se prenunciava. Já se aproximando da propriedade do parlamentar, via-se o milharal clamar aos céus, curvando o caule por falta de inverno. Uma passageira avisou: "Doutor Valmir, eu fico logo ali". Estacionado o veículo, a mulher complementou: "Quanto é a passagem?". Exclama Targino: "Que é isso, comadre? Vocês todos (eram quatro) não me devem nada. Além de meus amigos, vocês encurtaram a viagem com boa e agradável conversa". "Muito obrigado, doutor", responderam felizes os caroneiros. "Vamos orar para que suas coisas aumentem ainda mais", concluíram. O deputado, entre sisudo e descontraído, replicou: "Não! Pelo tamanho, eu não tenho nada que reclamar. Ore pra ver se levanta ao menos o talo".

Este foi o Valmir que eu conheci: autêntico! 

03 de Fevereiro de 2012 às 10h58

MACETES E MUMUNHAS

01) Diziam que o MDB cabia dentro de um fusca. Essa era a gozação do pessoal da Arena em Serra do Mel. Dentre os emedebistas, encontrava-se o professor e vereador além de esquerdista, Paulo Caetano Davi. Paulo era valente e inteligente. Seu ídolo: Odilon Ribeiro Coutinho. Certo dia, nas dependências da Câmara, o colaborador de um jornal, alcunhado de "baba ovo da Arena", mostrava empolgado, artigo que publicaria na impressa, dia seguinte. O escrito arrasava os componentes do MDB. Paulo Davi ao ouvi-lo lendo o texto, replicou: "Cada um diz o que quer. Mas, antes de mandar isso adiante, analise o que diz. Você esculhambando assim de magote, de repente acaba atingindo um parente teu ou até um credor teu!". O artigo não foi publicado. Motivo: o autor da matéria vivia nas mãos de agiotas e avalistas.

02) Pery Lamartine relembra essa história da antiga Faculdade de Direito da Ribeira cujo protagonista foi o doutor Carlos Augusto Caldas da Silva, desembargador da Justiça do Rio Grande do Norte e professor da UFRN.  Era conhecido pelo seu espírito humorístico que a toda hora se manifestava. Havia no curso de Direito uma bonita jovem de corpo escultural que na sala de aula, sentava-se na primeira fila. Naquele dia usava saia justa de fechar a faculdade. O professor Carlos Augusto ministrava aula de Direito Penal, indagado de repente por um aluno que sentava lá no fundo da sala: "Professor, o que é coação irresistível?". O mestre respondeu em cima da bucha: "Coação irresistível  é ministrar uma aula com essa jovem aqui na minha frente, de vez em quando, passando uma perna sobre a outra...".  A turma não parou de rir. 

03) Raimundo Pereira era um líder do tipo "pai dos pobres", no município de Grossos. Todo tempo e a qualquer hora, sempre havia alguém pedindo alguma coisa. Um domingo, o prefeito mandou matar uma enorme porca e que a carne fosse distribuída com os seus eleitores. Já passava das dez horas da manhã, quando chegou à porta de Raimundo, um sujeito de meia idade: "Prefeito, eu queria lhe pedir uma coisa...". "Diga lá", respondeu Raimundo. "Bem, é que eu tô assim com vergonha", desculpou-se o homem. "Desembuche, rapaz. Fale de vez! Só não peça o meu fiofó!", brincou o prefeito, já se chateando. O homem de cabeça baixa, listou o pedido: "Eu queria um pouquinho de café, um pouquinho de açúcar, um punhado de arroz, umas três xícaras de fa-rinha e um pedaço da porca véia, pro mode cumer assada". Raimundo Pereira desembuchou: "Tá certo! Cadê a carroça pra levar essa feira? De agrado, eu vou botar junto com o pedaço da porca, a chibata do barrão".

04) Tempos atrás, fazer política era um sacerdócio. No bairro do Alecrim onde morava, o vereador Severino Galvão dava as coordenadas. Os adversários usavam mil artifícios para derrubar o velho Severino. Certa noite, no famoso "Quitandinha", onde todos faziam ponto pra bater papo - não havia o tal "point" de hoje - Severino Galvão saiu-se com essa: "Eu sou pobre e feio, mas, vou me eleger só com os votos das mulheres!". Alguém que fazia parte do bate-papo, foi explicito: "Severino, se você é pobre, liso e feio e tem um monte de mulheres dando em cima de você, é porque você mora no térreo, pois, na parte superior do prédio é um bordel". 

27 de Janeiro de 2012 às 12h03

O CELULAR

Não há faca de dois gumes mais cortante e afiada que o aparelho celular. As estatísticas aí estão para comprovar o que afirmo. Favorece a escuta, acidentes quando utilizado na direção de veículos e em penitenciárias nas mãos dos marginais, sem esquecer outros usos e abusos tão conhecidos de todos. Sei perfeitamente de sua serventia em outras tantas situações. Mas, desejo chegar a dois episódios, até certo ponto cômicos, onde o aparelho, respectivamente, vale mais do que o doente no hospital e do que o homem comum diante da autoridade.

O primeiro se refere ao uso rotineiro do celular por alguns médicos na sala de cirurgia dos hospitais. Enquanto os procedimentos operatórios são executados, com as vísceras do paciente expostas, o fone do cirurgião ou anestesista fica ali, sobre a mesa, ora recebendo, ora emitindo ligações. O doente parece assumir um segundo plano e fica à mercê, automaticamente - por conta das manipulações contínuas - da temida infecção hospitalar. Hoje, ela é o fantasma oculto dos nossos hospitais. Por outro lado, a preocupação com o aparelho induz a distração, a leniência e a dispersão da equipe, com a prevalência da máquina mortífera sobre a vida do enfermo.

Tais reflexões me fazem lembrar um episódio, que ainda não contei, ocorrido comigo e um secretário de Estado, José Maria Melo, durante o governo de Garibaldi Alves Filho. Àquela época, eu exercia o mandato de deputado estadual e lhe pedira, via celular, uma audiência, ao lado de dois inefáveis vereadores macaibenses. Após os cumprimentos de praxe, iniciei a narrativa dos assuntos, sendo interrompido três vezes pelo celular Motorola tamanho sapato Fox 41, colocado sobre o birô. Sem que pudesse concluir a conversa administrativa na íntegra, apelei para um procedimento insólito. Lembrando-me que o seu número ainda estava gravado na memória do telefone, liguei-lhe no instante em que pedia água e café: "Alô, é o doutor Zé Maria?". "É, sim. Quem fala?". "É Valério, Zé Maria. Vamos concluir a nossa audiência pelo celular mesmo, e não pessoalmente, ok?". Não desligamos e fomos até o fim da audiência sem sermos perturbados. Conclusão: O celular é bicho incômodo e desatencioso. Desculpas à parte, juntos aprendemos a lição. Principalmente ele, sob os olhares atônitos dos dois edis Ismar Fernandes Duarte e Francisco Pereira dos Santos.

Por último, até já disseram que o uso exagerado do celular provoca irradiações no cérebro e surdez. De outra feita, quando exercia o mandato de deputado estadual, D. Marilene Gomes, então secretária, apressada, adentrou ao gabinete para, do meu celular, cumprir a agenda de ligações porque o telefone fixo havia pifado. O primeiro da lista que solicitei se referia ao jornalista Paulo Macêdo. Completada a ligação, ela confirma: "Alô? É doutor Paulo Mesquita?", e passou-me o aparelho. No momento eu escrevia e só ergui a cabeça para explicar-lhe: "Era meu tio. Ele não vai atender. Só se for em sessão espírita. Morreu há mais de vinte anos...", disse-lhe com a serenidade de um funeral. Celular é fogo..... 

20 de Janeiro de 2012 às 13h24

ONDE ESTÃO OS DISCOS VOADORES?

O oculto está à nossa volta. O mistério circunda as nossas vidas. Quando Jesus virá novamente? Quero trazer sempre à memória aquilo que me dá esperança. Por isso creio no invisível para não me suicidar no palpável. O visível encerra vícios redibitórios. Mas, também, sem ser ufólogo, preocupo-me com os extraterrestres que sobrevoaram o mundo tantas vezes e hoje, em que galáxia se escondem? Desde o início do século vinte ocorrências de objetos voadores não identificados foram manchetes de jornais em todo o mundo. Avistados por milhares de pessoas, fotografados, filmados, televisionados e até restos de naves foram recolhidas para exame, sem explicações satisfatórias até agora.

Observador atento dos canais de televisão nacionais e internacionais e dos jornais, nunca mais tomei conhecimento de nenhuma aparição luminosa nos céus que me devolvesse a curiosidade cientifica ou a percepção da existência de seres interplanetários, como aprendi na meninice com Flash Gordon. Outros, impressionados, chegaram a indagar: "Seriam os deuses astronautas?" A terra, pelos seus governos, preocupou-se bastante, por décadas, com os recados dos céus. Mas, surpreendente e inimaginável é o fato dos discos voadores não aparecerem mais no firmamento. Não há mais registros, nem aqui, nem alhures, como diria o esotérico Marlindo Pompeu.

O sentimento atávico do homem pelo sobrenatural não é apenas bíblico. Remonta às civilizações pagãs que procuravam ler e decifrar o que se achava escrito nas mais remotas estrelas. Os astrólogos, os poetas, os feiticeiros, todos, usaram as sombras, os símbolos e os fantasmas do espaço infinito como veículos cambiantes de suas crenças. E como eram líricas as circunvoluções dos discos a ponto de me induzir a voar com os marcianos (planeta Marte), de onde achávamos provenientes. A chegada do homem à lua, vaga, vazia e vadia, muito me decepcionou. Tornou-se um celeste santuário mórbido, seduzido e abandonado.

Onde estão os objetos voadores não identificados? Por que não se comenta mais sobre eles? Não posso crer que tudo foi uma farsa. Ilusão, obra inventiva do homem. Que doce e sedutor enigma não vestiu os dias e as noites do mundo no século vinte! Resta-me indagar sobre o silêncio, a invisibilidade, o desaparecimento e o mistério que ficou de tudo isso. Persiste algo oculto por acontecer? Continuamos sozinhos no universo? O ser humano não pode viver sem mistério, sem verdade de fé inacessível à razão. E viva a ovniologia! 

13 de Janeiro de 2012 às 10h57

PASSARELA DE NOTÁVEIS

01) Recebi essa história do folclore político de Santa Cruz. O então deputado Theodorico Bezerra possuía em sua fazenda um bonito cavalo manga larga de alta linhagem. Num ano de inverno pesado o servidor que cuidava do rebanho negligenciou, vindo o animal contrair preocupante ferimento na cauda, batizado de "fogagem". Para encurtar a conversa, o rabo do cavalo caiu. Ficou somente o cotoco. O "majó" muito triste, não perdeu a calma. Com cera de abelha e visgo da jaqueira, conseguiu emendar a cauda. Obra perfeita. Dia de feira, montou o cavalo e foi pra "rua Grande". De chegada, deu de cara com o cigano Xavier que se apaixonou pelo animal. Foi feita uma troca, com volta em dinheiro para o bolso do "majó". Ao chegar no acampamento, Xavier foi banhar o quadrúpede no açude próximo. De repente o adereço cavalar saiu boiando. O cigano pegou o rabo, montou no surú, e fez carreira para a rua Grande. Ao avistar o cigano, o "majó" gritou logo: "Negócio é negócio! Tá feito e eu não desmancho!". O velho Xavier encostando-se, falou macio e arrastado: "Ganjão, eu não desmancho negócio! Cigano tem palavra. Eu vim aqui só lhe convidar pro sinhô passar ao "meno" um mês ensinando a "nóis" fazer negócio. Lá só tem "abestaiado", a começar por mim".

 

02) É notório e ciente por todos, que o ex-governador, senador e deputado Lavoisier Maia sempre teve sorte nas múltiplas atividades que desempenhou. Certa feita, quando deputado, participava de uma sessão na câmara, em que vários pares falavam sobre o falecimento de certo parlamentar. Nada demais, não fosse o fato ter acontecido no apartamento da amante do inditoso político, que por sinal, era de uma moral e princípios "acima de qualquer suspeita". O coração pifou, e o escândalo estourou. Um deputado puritano até a medula, desrespeitando todos os princípios, mandou o malho no falecido. Lavo, que até então mantinha-se em silêncio, pediu um aparte e se pronunciou: "Senhor presidente, nobres deputados, peço um voto de louvor para o meu falecido amigo e dizer da minha admiração por aquele que partiu desta vida, demonstrando força e vigor sexual até o último minuto da sua vida, e cumprindo as ordens superiores que diz: Crescei e multiplicai-vos. Tenho dito!". Aplausos para Lavô! O atacante emudeceu.

 

03) O mossoroense tem política no sangue e nos poros 24 horas/dia. Gente de imaginação fértil e de uma espirituosidade que dá gosto. A última pesquisa eleitoral, mostra o bravo vereador Chico da prefeitura em boa posição, rumo ao Palácio da Resistência. É bom lembrar que Chico é filiado ao DEM, e é candidato dissidente. É aí onde entra a criatividade do povão com o seu folclore. Fala-se nas ruas que desde o início de dezembro os sinos das igrejas repicam assim: "Com DEM, sem DEM é Chico e mais ninguém!". Os caciques dos democratas já se preocupam mas o velho Francisco Dantas mesmo assim já prepara o paletó da posse.

04) Djalma de Freitas, - hoje aposentado - é um antigo funcionário municipal. Bacurau do pé roxo, Djalma se orgulha em dizer que fez o percurso no Trem da Esperança, no Caminhão da Esperança e até na grande marcha Natal a Macaíba, levando um pé de bananeira nos ombros. Agnelo chegou à prefeitura e logo Djalma aparecia como o mais novo barnabé municipal. Passado um tempo, surge Garibaldi Filho como prefeito. Nosso Djalma foi falar com Gari. "Garibaldo", disse Djalma, "me ajude. Você sabe a minha história". O prefeito chamou um auxiliar, e orientou: "Faça aí um aditivo pra ele". O secretário chamou Djalma para uma sala, e perguntou: "O senhor tem o 2° grau?". Djalma que não sabia o que "era isso", respondeu: "O quê? Essas perguntas bestas, você pergunta a "Garibaldo". Ele sabe quem sou eu". E dando meia volta na sala, dançando, o nosso barnabé abriu o som para se exibir: "Foi no Trem da Esperança que Aluízio viajou...". Dizem as más línguas que no fim do mês Djalma recebeu por décadas, triplas portarias para provar que o preço do salário é de acordo com a quilometragem. 

06 de Janeiro de 2012 às 11h00

O CALENDÁRIO ELEITORAL

Maciel Gonzaga - Interino


O calendário eleitoral de 2012 já está em vigor desde o primeiro dia do ano em que os brasileiros vão às urnas para eleger prefeitos e vereadores. Candidatos à reeleição e políticos que já ocupam cargos eletivos devem ficar atentos às regras para publicidade institucional a partir deste domingo.


A propaganda institucional é liberada até o dia 7 de julho, mas não é permitido exceder a média do que foi gasto nos três anos que antecederam as eleições. Ainda, de acordo com o calendário eleitoral, a partir do dia 1º está proibida a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios aos cidadãos. Mas, a lei abre exceção para casos de calamidade pública ou emergência e de programas sociais em andamento, autorizados por lei e que tenham aparecido no orçamento do ano anterior. Outra proibição é para a continuidade de programas sociais oferecidos por entidades vinculadas a um eventual candidato nas eleições de 2012.


Também já está em vigor a obrigatoriedade de registro na Justiça Eleitoral de pesquisa de intenção de voto para as eleições municipais deste ano. A lei determina que a pesquisa deve ser registrada pelo menos cinco dias antes da divulgação.


Nas eleições 2012, a Justiça Eleitoral vai inaugurar um sistema de acompanhamento dos registros de pesquisas pelos sites dos tribunais regionais de todo o Brasil. Poderão ser consultadas informações como quem contratou a pesquisa, valor e origem dos recursos empregados no trabalho, nome de quem pagou, metodologia, período de realização da pesquisa e margem de erro. A Justiça Eleitoral promete ser mais rígida. 


 



PESQUISA

Aliás, foi por conta do calendário eleitoral que o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-RN ) adiou para a próxima segunda-feira (9), a divulgação da pesquisa de "Avaliação Política-Administrativa para a Cidade do Natal", que medirá, entre outros quesitos, a preferência dos eleitores à Prefeitura. A pesquisa, que está a cargo do instituto Consult, deveria ser divulgada na quarta-feira (4), mas apesar de todos os esforços desde o último dia 29 de dezembro junto ao TRE-RN não foi possível obter o seu registro, o que inviabilizou sua divulgação. O TRE informou ser impossível registrar e contar o tempo obrigatório – 5 dias entre o registro e a divulgação.




APELO À UNIDADE

O senador José Agripino Maia acaba de fazer, talvez, o último apelo para que o grupo que compõe o arco de alianças em torno da governadora Rosalba Ciarlini no RN se apresente com candidaturas únicas em Natal e Mossoró, na eleição deste ano. O senador incluiu ao leque de aliados o PSDB, o PMDB e legendas próximas politicamente aos democratas. O nome que poderia representar os governistas, no entanto, não foi externado pelo senador. E justifica: "Quem senta à mesa para dialogar e buscar parcerias não pode chegar com um nome pronto", afirmou ele, ao ser indagado se o deputado federal Rogério Marinho, pré-candidato tucano (a sigla mais próxima dos democratas) já sai em vantagem.

 

DESLIGADA

“Não estou me ligando em eleições”, foi com essa frase curta que a governadora Rosalba Ciarlini respondeu à jornalista Michelle Rincon, da InterTv Cabugi, sobre quem será seu candidato, ou candidata, nas eleições deste ano na capital potiguar. Rosalba disse que na hora certa pensará sobre o assunto, mas que o seu partido DEM pode lançar um nome ou partir em aliança com demais partidos da sua base de coligações. Ou seja, DEM, PMN e PV podem ter o voto e apoio de Rosalba para prefeito de Natal.

 

CONDENAÇÃO

A Primeira Câmara do Tribunal de Contas não acatou o pedido de reconsideração impetrado pela então prefeita de João Câmara, Maria Gorete Leite. Em processo relatado pelo conselheiro Marco Antônio de Moraes Rego Montenegro, a matéria foi julgada irregular, com ressarcimento ao erário da quantia de R$ 1.446.158,94 relativo aos valores gastos e não comprovados, além do remanejamento dos recursos do Fundef no valor de R$ 427.218,61 aplicados às despesas alheias ao ensino fundamental.

 

REAPROXIMAÇÃO

A ex-governadora Wilma de Faria (PSD) está muito próxima de se reaproximar politicamente do vice-governador Robinson Faria. Para isso, dona Wilma, que acaba de confirmar o lançamento de sua candidatura à prefeita de Natal para o mês de março, antecipa que o seu vice poderá ser do PSD, partido presidido por Robinson Faria. Wilma foi aliada de Robinson, quando ela era governadora e ele presidente da Assembléia Legislativa. Depois virou adversária, quando ela não apoiou sua candidatura ao governo e ele foi ser vice da governadora Rosalba Ciarlini.

 

EXCELENTE NOME

Ainda demonstrando o seu desejo de reaproximar de Robinson Faria, a ex-governadora Wilma de Faria chegou a afirmar esta semana em entrevista que o vice-governador “é um excelente nome para disputar o governo”. “Estamos pensando em 2012 para chegarmos fortes em 2014?. O projeto de Wilma é Robinson governador e a deputada Fátima Bezerra senadora

 

DELEGACIA

São Gonçalo do Amarante vai ganhar uma segunda Delegacia de Polícia. Nas próximas dias será nomeado um delegado, um escrivão e mais seis policiais civis para a nova DP, que funcionará no Conjunto Amarante. Um pleito antigo da classe política local.

 

IMPOSTO DE RENDA

O governo decidiu acabar até 2014 com a principal declaração entregue hoje pelas empresas ao fisco, a do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica. Para atender a ordem de racionalizar o sistema tributário brasileiro, dada pela presidente Dilma Rousseff em seu discurso de posse, a Receita Federal também vai extinguir mais sete documentos e adotar medidas para simplificar o PIS/Cofins. Segundo a Receita federal, várias declarações não são mais necessárias porque o órgão já dispõe das mesmas informações por meio sistemas eletrônicos, notas fiscais eletrônicas e do Sped (Sistema Público de Escrituração Digital). A mudança pode ser feita apenas com uma instrução normativa.

 

REFORMA

O prefeito Maurício Marques deve fazer uma nova reforma administrativa ainda no início de 2012. Para isso, ele já comunicou aos secretários e auxiliares que quem for candidato nas próximas eleições deverá deixar suas pastas no final de janeiro de 2012.

 

VERBAS

Mesmo na oposição, o deputado federal Rogério Marinho, presidente estadual do PSDB, trouxe para o RN investimentos superiores a R$ 22 milhões em 2011. Para Parnamirim, conseguiu junto ao Ministério do Trabalho e Emprego R$ 299.376,00.

 

NOVAS MUDANÇAS

Um nova reforma administrativa está prevista para os próximos dias na administração Micarla de Sousa (PV). Devem se afastar: Kalazans Bezerra (Gabinete Civil) para voltar ao CREA; Rosy de Sousa (Secretaria da Mulher); Elizabeth Thé, que já deixou a Mobilidade Urbana por questões políticas. Além desses três, são os seguintes os nomes que manifestaram intenção de afastamento por motivo eleitoral: Vagner Araújo (Gestão de Pessoas); Cláudio Porpino (Serviços Urbanos) e Bosco Afonso (Meio Ambiente). Todos pretendem disputar cargo eletivo. Já Rodrigo Cintra (Esportes), indicado pelo vice-prefeito Paulinho Freire, deverá ser cortado pelo desgaste que gerou à administração.

06 de Janeiro de 2012 às 10h59

CAUSOS CLERICAIS IV

A fragilidade humana integra o cotidiano de todos nós. Nenhuma instituição por mais sisuda que seja está isenta. O colega acadêmico padre João Medeiros Filho nos brinda hoje com mais causos de sua observação e pesquisa.

 

01) Monsenhor Lucas Batista Neto, figura muito querida por todos os natalenses, após uma festa em sua homenagem, preocupado com um dos seus auxiliares, se estava alimentado, se lhe serviram algo. O dedicado colaborador suado e exausto dirigiu-se ao monsenhor para cumprimentá-lo e parabenizá-lo. O sacerdote pergunta-lhe: "Você comeu alguma coisa"?  Veio a resposta imediata do seu ilustre auxiliar: "Monsenhor, até agora só engoli a triste e pobre Hóstia!".

 

02) Padre José Celestino Galvão, a quem muito deve a educação, a imprensa e a radiofonia do Seridó, sempre foi um homem apressado, mas de coração generoso, cheio de caridade e amor pelos pobres. Nas secas de 1951-53, era diretor do Colégio Diocesano Seridoense e Dom José Adelino Dantas, bispo de Caicó. Anos de dificuldades financeiras, pois os pais de alunos internos tinham dificuldades em pagar as mensalidades do educandário. Lavavam e engomavam a roupa dos internos a esposa e as filhas do velho Abdon (Maria, Chiquinha e Floriza). A matriarca foi reivindicar ao padre Galvão aumento de preço na lavagem e engomado da roupa dos internos. A senhora Abdon disse ao sacerdote: "Padre Galvão, o senhor precisa levantar a roupa das meninas! (sic!)". Referia-se ao preço. O sacerdote foi comunicar ao bispo com a frase ipsis litteris. Dom Adelino dissera-lhe de imediato: "Mande todas para rua, após pagar os direitos! Galvão, isso é pecado!". O sacerdote foi comunicar a decisão à família Abdon. A matriarca então dissera: "Pode deixar a roupa sem levantar, seu padre". E Galvão deixou por três anos o preço congelado!

 

03) Em 1954, padre Galvão tornou-se vigário da catedral de Caicó, paróquia que compreendia várias capelas, entre as quais, aquela do distrito de Laginhas, cujo patrono é São Francisco de Assis. A igreja fora construída, antes do arruado e da povoação. Tempos depois, a capela estava de costas para as casas e as ruas. Padre Galvão tentou de vários modos mudar o local do altar e das portas principais. Não conseguia, pois os benfeitores não permitiam. Certo domingo, em pleno sermão, veio com o argumento fulminante e decisivo: "Vocês acham justo São Francisco, viver de costa e de bunda para o povo?". Gargalhada geral. Então, todos aquiesceram ao intento de mudar a posição do altar e das portas principais.

04) Monsenhor Luiz Gonzaga Mota, figura lendária e muito querida de Mossoró, sofria de um sério problema intestinal que o atormentava muito. Padecia, quando devia confessar horas e horas, sentado no confessionário. Certa feita, após, uma refeição suculenta e recheada de fécula, foi para o confessionário. Ventre cheio de gazes, se contorcendo dentro do espaço de madeira, o monsenhor não ousava se aliviar. Chega uma penitente. Quando ele lhe faz a indagação de praxe: "Quanto tempo faz que se confessou". A resposta foi: "Hum... hum". A penitente era surda. Padre Mota disse: "Agora vou me aliviar, pois qualquer ruído sonoro não seria ouvido". De repente, o flátuo aliviador. A penitente exclamou em alta voz: "Padre, o povo não respeita mais nem os santos. Bufam forte dentro da catedral". Padre Mota, plácido e discreto, respondeu: "Deus entende as necessidades de seus filhos". O odor era tão forte que a pobre penitente não esperou nem mesmo a absolvição! 

16 de Dezembro de 2011 às 11h18

O NATAL: MANIFESTAÇÃO DA JUSTIÇA E DO AMOR DE DEUS

Padre João Medeiros Filho*

jucurutu@ig.com.br

 

Lemos no profeta Isaías: "Por amor a meu povo, não me calarei. Por amor a meu amado, não terei sossego, até que a justiça surja como a aurora, até que brilhe como uma tocha a salvação" (Is 62, 1.4-12). Cristo é a grande palavra da justiça, não simplesmente da realidade jurídica e dos códigos éticos ou morais. A justiça consiste em proporcionar aquilo de que o outro necessita ou lhe é devido. E Cristo deu tudo ao mundo, ou seja, o amor de Deus, reconciliando a humanidade para um encontro verdadeiro com o Divino, de forma eterna. O homem, no decorrer de toda a sua história, precisou da bondade de Deus, sua compreensão, seu afeto, sua misericórdia e seu perdão. Cristo concretizou este sonho, na medida em que colocou o ser humano em união plena com a Divindade pelo mistério da graça. 

No Natal, Deus abraça a humanidade com sua justiça amorosa e seu amor justiceiro. Por isso, a Igreja e os cristãos têm como missão assegurar e prolongar, através dos tempos, essa presença salvadora de amor e justiça no mundo. A injustiça consiste no fato de que alguns possuem muito e outros, quase nada. Não se trata apenas dos bens materiais, pois a doutrina cristã - eterna mensagem natalina - não é uma ideologia, teoria política, social ou psicológica. 

O Natal é a proclamação do direito de ser de cada pessoa, assumida por Cristo, quando "se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1, 6). Ele anunciou pela sua encarnação que todos podiam dispor daquilo que lhes é fundamental para a realização da natureza humana. E a Igreja só será fiel à mensagem de justiça e libertação, ensinando essa verdade e lutando para que todos alcancem o que necessitam para que se realizem como imagem e semelhança de Deus. 

Os escritos do Antigo Testamento, especialmente os livros do Pentateuco, denominam Deus de Javé, que significa em hebraico: "Aquele que é" (Ex 3, 14). Então, o homem deve ser ele próprio, possuir virtudes e qualidades, que o tornem ele mesmo. Eis a mensagem natalina, ou seja, de vida e equilíbrio para todos, diferente de um discurso ideológico ou de planos políticos e sociais.

O padre Teilhard de Chardin escreveu: "a justiça para o homem é a conquista da sua própria identidade; o pecado, a sua perda". Assim, ser justo, praticar a justiça, é ensinar a própria verdade de cada um e a do outro. Foi exatamente isto o que nos trouxe o Natal. "Não terei sossego até que a justiça surja como a aurora", eis o sonho do profeta Isaías, concretizado em Cristo, quando anunciara a realização do homem ou, no dizer de vários teólogos, a sua libertação.

 

(*) Da Academia Norte-Riograndense de Letras 

09 de Dezembro de 2011 às 13h17

INTENÇÃO E DELIBERAÇÃO

O que é intenção, já é deliberação. Os Tribunais de Contas se impõem na estrutura do Estado como ponto de sustentação e equilíbrio. As instituições são permanentes. Seus servidores passam e elas ficam. Devem se adequar ao determinismo da evolução social. Os governantes não podem se distanciar do povo, como se já não precisassem ouvir a sua voz.  Como se o poder não fosse um bem de todos e não tivesse nas suas tessituras mais nobres o dever de promover o bem estar coletivo sem ferir a liberdade e a legalidade. Assim se configuram, nos dias atuais, a responsabilidade e o papel do Tribunal de Contas como instrumento indispensável na democracia moderna. Ele tem que continuar a otimizar, decisiva e amplamente, a sua contribuição para o aprimoramento da vida institucional do Estado. A sua missão maior é lutar para eliminar duas chagas da administração pública: o desvio e o desperdício. E ser parte e artífice, ao mesmo tempo, da obra infindável, inesgotável e sempre renovada: promover a felicidade individual de cada cidadão e cidadã. Controlar não é só punir. É também prevenir, é detectar, é corrigir e orientar.

No imenso coral da instituição que tenho a honra de presidir, ser amigo tem sido a melhor música na partitura de minha vida. A modéstia de servir e de aprender a encarar desafios continua em mim, com a certeza de que o verdadeiro pragmatismo não será excludente, mas profundamente enriquecedor da formação humanística que recebi na velha Faculdade de Direito de Natal.

A trajetória de todo homem público se diferencia quando ele guarda, como titulação verdadeira, os caminhos exatos e insubstituíveis da bondade humana e da disponibilidade de servir neste mundo áspero e às vezes desumano. O fundamental é ter consciência de que é possível o milagre do compartilhamento para a vida ser sempre uma proclamação plena de convivência humana e funcional. Pois, como se vê, há muito a fazer para continuar os níveis de aperfeiçoamento da ação do Tribunal, realizado nos últimos anos.

Acosto-me, sem restrição, ao sábio preceito segundo o qual "não são os cargos que dignificam as pessoas, mas as pessoas que dignificam os cargos".

Relembro, aqui, o esplendor do pensamento do escritor Mário de Andrade (1893 - 1945), no seu "Valioso Tempo dos Maduros":

"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro."

"Já não tenho tempo para lidar com o supérfluo."

"Já não tenho tempo para conversas intermináveis..."

"Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas..."

"Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…"

"Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial!"

Chego à conclusão de que a missão que me outorgaram pelo voto, é a de garantir a obediência à lei no uso dos recursos públicos. Procuro realizar, assim, o possí-vel. Não obstante a vontade ser imensa e os meios de que dispomos serem limitados. 

02 de Dezembro de 2011 às 12h53

DIÁRIO DE UMA TRAVESSIA

Empreendi a travessia dos feriados e pontos facultativos coletando máximas do Antigo e do Novo Testamento. Uma maneira de orar. De refletir sobre a vida com os seus erros e equívocos. "Porque o temor do Senhor é o princípio da ciência" (Provérbios 1.7). Por isso, "Louvarei ao Senhor enquanto viver" (Salmo 146.2). Neste mundo em que as pessoas permutam os templos pelas praias, shows e queima de fogos, lembrei-me do profeta Amós 8.11 e 12: "Eis que, vêm dias, diz Jeová, em que enviarei fome sobre a terra, não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor. Correrão por toda a parte, buscando a palavra do Senhor e não acharão". A justificativa fui achar no livro de Jeremias 17.5: "Maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do Senhor". 

Continuei a viagem de circunavegação espiritual. Entrei no Novo Testamento pelas mãos de Mateus no portal 11.28 a 30, ouvindo Jesus dizer uma das mais impactantes palavras do seu amor pela humanidade comum: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliarei. Tomai sobre vós o meu julgo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve". E lá no capítulo 24.13, arremata: "Aquele que perseverar até o fim, será salvo". Já era perto da meia-noite e os fogos começavam a saudar a padroeira. O universo profano, movido pelo livre arbítrio de Deus, começava a ser ouvido. Seriam bem-aventurados os ruidosos deste mundo? Dirigi-me ao Evangelho de Marcos, 8.34 a 38: "E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará. Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate de sua alma? Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos."

O evangelista João, no capítulo 36, resume pela voz de Jesus Cristo, quase todo o conteúdo de sua mensagem: "O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita, as palavras que eu vos disse são espírito e vida". E lá adiante, complementa Jesus, através de João 10.10: "Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância", 10.30: "Eu e o meu Pai somos um". Capítulo 16.33: "No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo".

E referindo-se aos discípulos e pedindo por eles ao Pai, o capítulo 17.16: "Não são do mundo, como eu do mundo não sou". Eis aí a essência de Jesus Cristo cem por cento homem cem por cento Deus - o único de todas as religiões do nosso pla-neta que realmente ressuscitou. 

Nessa travessia faltava-me ouvir Paulo, ainda entre outros, igualmente cheio do Espírito Santo. Paulo veio me servir, afirmando em Romanos 1.16: "Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê..." Se os seres viventes dissessem isso em toda parte e em qualquer lugar, o mundo seria melhor. Seguindo para o capítulo 6.23, de Romanos, o grande Paulo, assistido pelo Espírito Santo proclama que o "Salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna..." Mas, na Primeira Epístola aos Coríntios (capítulo 1.18 e 19), o leitor resplandecerá diante da inquietante revelação: "Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós que somos salvos, é o poder de Deus porque está escrito: Destruirei a sabedoria de sábios e aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Eis aí mais um insondável mistério da fé". Lá no versículo 27, aduziu: "Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir os sábios, e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir os fortes". No versículo 29, conclui: "Para que nenhuma carne se glorie perante Ele". 

Terminei tudo, ouvindo, sem ler mais a Bíblia, de memória, a palavra de Jesus antes de subir para o Pai: "Eu vos deixo a paz; eu vos dou a minha paz". Aí refleti: "Tudo posso naquele que me fortalece". Até mesmo enfrentar famigerados feriados e pontos facultativos. É overdose para um país vago, vadio e vazio! 

25 de Novembro de 2011 às 11h30

CHOQUES FITOSSANITÁRIOS

O mundo jamais deixou de viver seus horrores pestilenciais. As pragas, as pestes e doenças contagiosas já dizimaram milhões de pessoas. Nada aconteceu por acaso. Desde a Antiguidade, passando pela Bíblia, fiel registro dessas ocorrências, até as regiões mais antigas e confins superatrasados da terra, todos experimentaram múltiplas epidemias. A grande maioria atinge tanto o ser humano como os animais. E a transmissão pode ser recíproca. Gripe espanhola, febre amarela, varíola, gripe asiática, gripe do frango, doença da vaca louca e a gripe suína. Todo esse elenco epidêmico afligiu os continentes nos séculos vinte e vinte um provocando óbitos. Alguns surtos assumiram proporções de pandemia que desafiaram os higienistas e sanitaristas, os quais, mesmo tendo inventado vacinas, não conseguem deter ou isolar as causas de novos ciclos viróticos. 

Essa é a questão. Por que, em plena era da cibernética, da exploração do universo, da informática, o homem ainda não conseguiu descobrir os males da própria degeneração das carnes humana e animal? Ou poderia tal fato ser atribuído à própria corrupção humana, fruto da depravação hereditária por sermos deste mundo? Faço tais reflexões por razões históricas. A raça humana sempre se inclinou à depravação dos costumes, das relações sexuais, da permissividade das leis, ao afrouxamento das medidas de prevenção às doenças infectocontagiosas, às guerras, e, enfim, à quebra das barreiras fitossanitárias em face das condições miseráveis de vida. Assim acontece com mais de dois terços da população mundial. A chamada gripe suína, por exemplo, surgiu nas fronteiras de dois países (México e Estados Unidos), cujas causas ainda não estão totalmente explicadas pelos cientistas. Todavia, muitas são as ilações a respeito.

O excesso da população do globo, que duplica a cada década, o lixo descartável, os dejetos dos esgotos despejados nos rios e oceanos, o subsolo do mundo afora repleto de restos de animais e cadáveres, as fossas sépticas das imensas metrópoles e cidades, muitas a céu aberto, enfim, os próprios hospitais infectados, tudo deve ser levado ao diagnóstico sobre o ar pestilencial que respiramos. Um descuido aqui outro acolá pode levar o planeta a uma pandemia, porque a ciência médica não evolui na mesma proporção dos desmantelos gerados pelo homem.

Se não forem redobrados os estudos, as pesquisas e os cuidados, peço a Deus que não permita o surgimento da gripe canina, do vírus felino, da virose da barata, como veio do rato a peste bubônica e chegou do mosquito a dengue. O ser humano de hoje luta para superar as enfermidades comuns do seu corpo (enfarto, câncer e segue-se uma lista interminável) e as infectocontagiosas por agentes externos bem demonstram a tragédia comum da carne - de que pouco somos neste circo e ciclo terrestres. 

Sobre essas divagações, aceitem-nas ou não. Que cada leitor reflita por si mesmo. Exercite o pensamento. O seu livre pensar. Necessitamos nos apropriar da fonte sobre a certeza desses fenômenos, verdadeiros inimigos invisíveis. Não devemos para sempre ser escravos dos permanentes temores. De minha parte, já que não tenho a competência de julgar o mundo nem a ciência de curar, é lógico, prefiro sondar as profundezas do Espírito Santo de Deus e crescer na graça e nas palavras consoladoras de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

18 de Novembro de 2011 às 11h30

BEM-VINDOS AO BARBARISMO

Bem-vindos ao novo mundo do exagero! A mulher ideal, festejada, é aquela bombada, coxas grossas e quadris enormes. Morreu o modelo feminino clássico, comportado, que foi decantado em prosa e verso. E viva o rap, onde a animalidade, a macaquice dos gestos humanos são interpretados como manifestação cultural pelos cariocas. Bom mesmo, até chegar ao orgasmo, é a histeria adolescente que promove o trote universitário. Nele, vê-se um desejo mórbido, doentio, sádico dos jovens que sentem no sofrimento humano, na dor, um prazer sexual que só Freud explica. Só pode ser tara. O problema não é só da polícia mas da psiquiatria. E o bullying?

Bem-vindos ao novo mundo do transtorno de conduta. A prática da virtude é vaiada na rua e banida dos lares, trocada pela patifaria do programa Big Brother. O maníaco sexual, hoje, está dentro de sua casa. A juventude continua enferma, sôfrega, cantando forró erótico de letra pobre e homicida, pois assassinaram a memória musical de Luiz Gonzaga e toda aquela corte formidável de intérpretes da verdadeira mentalidade nordestina. Tudo é abuso, transgressão, subversão da ordem social, cultural e política. 

A criança, na escola ou em casa, aprende logo a dançar, remexer o traseiro, a ensaiar os passos promocionais do rap, rumo ao estrelato, para gáudio dos olheiros pedófilos. Ninguém quer ser honesto. Meretriz, em vez de atriz. Eu sei, eu sei que o tempo muda os costumes, o mundo gira, uma geração difere da outra num rodízio interminável. Mas, não poderia mudar pra melhor? Por que os vícios permanecem e triplicam a nocividade no ser humano que cada vez mais sucumbe e se bestializa? 

Bem-vindos ao trágico, ao catastrófico e ao sinistro das estatísticas do pós-carnaval nas estradas, nas ruas, nas praias, onde tudo é subvertido em nome da velocidade, do alcoolismo e da vulgaridade. Quantos inocentes não morrem no lugar dos maus? O fabricante do cenário do crime é sempre o próprio homem, pela ganância do dinheiro, pelo prazer indecoroso do sexo e, enfim, toda permissividade inclinada eternamente para o ilícito. Isso vem da gênese e do Gênesis. Aliás, o pecado não mora ao lado e sim, dentro de nós. 

Não pensem que sou contra o carnaval, a música, a dança, os divertimentos públicos. Absolutamente. Critico o excesso na bebida, o consumo de drogas, a degradação dos costumes pelo modismo em nome de uma falsa modernidade. Esquece o passista que o chão onde pisa é também o repouso da carniça. 

São coisas minhas, muito minhas. Imaginar que as festas ditas profanas reúnem milhões de foliões com gastos e gostos extravagantes! E as festas beneficentes em prol dos oprimidos, dos sem tetos, sem planos de saúde, desempregados e famintos não chegam nem a agrupar um terço de gente e de recursos? Em dezenas de capitais do Brasil o carnaval dura de sete a oito dias. Feriado religioso é mais comemorado nas praias que nos templos. Pode ser que a fé cristã esteja perdendo a parada para o mundo cão. Mas, como o Salvador falou em "benditos do meu Pai", o processo seletivo se resume numa minoria. "Muitos são chamados e poucos os escolhidos", apesar da imensa misericórdia de Jesus Cristo.

Mas, afinal, quem for partidário do barbarismo que me desculpe: a leitura da Bíblia, como um hábito, é fundamental para evitar e se defender do caos. Seja íntimo, pois, do Senhor.  Amém. 

11 de Novembro de 2011 às 10h40

A VIDA COMO ELA É

01) As pessoas, os animais, o mar, o ar, a natureza, enfim, nos dão lição de vida, cotidianamente. É só observar, ouvir e aprender. Nos anos cinquenta, as ruas da cidade eram invadidas pelo vozeirão do gazeteiro Cambraia. O negão, era mais escuro que Pelé dentro de uma batina. Daí o codinome oposto. Cambraia fazia da casa da dona Macionila sua parada obrigatória, onde a velha muito caridosa, dava-lhe sempre um pouco de comida. Certa vez, Macionila trouxe um rosário feito de sementes de cumaru, com um enorme crucifixo. "Tome Cambraia", disse a carola, "é para você usar no pescoço". Dizendo isso, colocou o amuleto em Cambraia. O famoso gazeteiro abrindo um sorriso de orelha a orelha, assim se expressou a sua benfeitora: "Ao invés de andar com uma cruz no pescoço, eu prefiro andar com Jesus no coração". Lição de vida de quem não se esperava.

 

02) Nos velhos tempos, em que imperava a máxima de "você sabe com quem tá falando?", no município da salinésia a lei e a ordem era o capitão Zé Luiz. O militar tinha como braço direito, o cabo Gabí, moço inteligente e cumpridor do seu mister. O que desabonava o cabo Gabí, era que o bichinho era chegado a um rapazinho. Gabí desmunhecava e não fazia segredo. Capitão Zé Luiz engavetava toda e qualquer promoção advinda para Gabí. O cabo tinha tudo para ser um tenente. "Isso vai ofuscar o brilho da polícia militar!", dizia Zé Luiz. Certo dia, Gabí esteve em Natal e descobriu tudo. Um mês depois, voltou à Macau e agora como tenente, só que já reformado. Sem perder tempo, Gabí foi ao quartel, resumiu assim, as suas frustrações: "Capitão, hoje eu sou tenente. O senhor escondeu os meus direitos, mas eu vim lhe dizer que a partir de hoje, eu não lhe obedeço mais!". E, batendo na bunda, exclamou raivosamente: "Essa bichinha aqui, eu faço dela o que quiser e vou dá a quem bem entender. Passar bem capitão!!".

 

03) Cansado e desiludido com a política, plagiando Rui Barbosa (a seu modo), sem saber que estava, Avelino Matias, "Meu Pai", o saudoso líder do município de Brejinho, citava o que seria os dez mandamentos da nova era política, traduzido por amigo comum e conterrâneo, expert em "avelinologia":

1° Honrar só a si mesmo

2° Ter pouca vergonha

3° Não assumir compromisso muito sério

4° Conhecer todo mundo

5° Não conhecer ninguém

6° Prometer tudo

7° Cumprir só o que interessa

8° Ter escrúpulo, dia sim, dia não 

9° Dá bom dia, só de noite

10° Dormir com um olho fechado e o outro aberto.

Por fim, sentenciava: "Quem seguir à risca vai longe. Eu estou me aposentando". Avelino falou com conhecimento de causa e efeito.

04) O prefeito Francisco das Chagas Eufrásio Vieira de Melo, (nome que não acaba mais), é o homem forte do município de Campo Grande. Mas não o procure por esse nome pois, quase o ninguém o conhece. O político pai do povo é "Bibi de Nenca". Aproximavam-se as festas e Bibi de Nenca mandou que um seu secretário cuidasse da praça, um tanto quanto maltratada. O secretário por sua vez, reuniu seus auxiliares e recomendou: "Òi, vamos arrumar a praça. Aquela estátua do Cristo do Pão de Açúcar, tá toda descascando! Tá pelando! Tá pelada! Assim não pode!". Uma carola que passava, ouvindo tal sermão, comentou: "Não respeitam mais nem os santos. Quem já se viu santo pelado?". Valeu aí o adágio de que toda nudez será castigada. 

04 de Novembro de 2011 às 11h58

FAMIGERADA LEI DO FLAGRANTE

Essa história é também interessante. Em 2005, Abílio Frota veio passar o carnaval em Macaíba e visitar o seu irmão Albino. Achou o "mano" mas não viu carnaval. "Ué, cadê a folia?", perguntou-me curioso, com acentuado sotaque mineiro. Abílio saiu de Macaíba em 1971, vítima da própria ingenuidade. O mundo cão lhe foi cruel. E ele, uma ovelhinha da manhã, confiou demais nos códigos, nas leis e nos ditos cartoriais. Era casado com Adelaide, mulher bonita, beleza brejeira que descobrira em Crato e trouxera para a sua cidade. Mal desconfiava que Adelaide iria despertar nos homens paixões descontroladas. Macaíba, perto de Natal, nunca foi tão provinciana como imaginavam ou ainda imaginam alguns.

Abílio trabalhou um tempo no fórum local e aprendeu certos palavreados jurídicos, sentenças, que acreditava como se fossem um dogma, uma norma de ser e agir na vida. "O assassino fugiu ao flagrante do crime para depois respondê-lo em liberdade", foi uma das aberrações jurídicas que captou e foi a ruína do seu casamento. Acreditava piamente na faculdade da lei que privilegiava os bons antecedentes do criminoso como status para usufruto da liberdade condicional. Era o máximo: "Que avanço da legislação penal brasileira!", gostava de elogiar. Passados alguns meses, tomou conhecimento que a esposa o enganava. Após algumas reflexões, decidiu usar os dispositivos da decantada lei para punir a mulher infiel e o "Ricardão" malfeitor. Partiu para o flagrante.

Conhecendo quem era e os antecedentes, estaria à vontade para indigitar à justiça os prevaricadores. Armou algumas armadilhas mas não deram certo. Sempre o "pé de lã" fugia ao flagrante auxiliado pela esperteza da mulher. "Você prova, você viu Abílio?". "Não", respondia desconsolado. E os sussurros na cidade já contabilizavam seis amantes alternativos e rotativos. Abílio enlouquecia. Era a roleta de Silvio Santos.

Certa vez, avisou a Adelaide que viajaria a Macau e sumiu. Na calada da noite foi dormir no telhado de sua casa para lavrar o jurídico flagrante e nada aconteceu. A partir daí passou a crer na inocência de Adelaide, apesar dos consistentes rumores. Numa manhã de quinta-feira, o juiz de direito, seu amigo, penalizado com o sofrimento e a ingenuidade do seu servidor resolveu abrir o jogo: "Abílio, transfira-se de Macaíba. O clima aqui está muito pesado. Esses boatos estão lhe destruindo". "Estão não, doutor", respondeu Abílio com convicção. "Adelaide é honesta. Pela lei nunca a peguei em flagrante e acima de tudo tem ótimos antecedentes. Inclusive, doutor, posso culpar os acusados que nunca flagrei? Até a polícia me forneceu de ambos os atestados de bons antecedentes", concluiu com extrema benevolência. A injusta lei do flagrante havia causado mais uma injustiça. Num sábado de 1971, Abílio e Adelaide partiram. No recente reencontro, arrisquei perguntar por D. Adelaide. "Ela me deixou. Mulher admirável. Nunca pude lhe aplicar a lei do flagrante", finalizou sério e compenetrado. 

28 de Outubro de 2011 às 12h43

INSTITUTO CORTEZ PEREIRA

Escrever sobre ele é relatar uma odisséia. A travessia do sofrimento político, os algozes, os coveiros do seu governo até a eutanásia dos seus sonhos. Recobro os instantes felizes que presenciei ao lado de um homem de cultura, de uma cordialidade que não encobria formas perversas de indignidade e traição.

Meu pai foi seu amigo dileto e colega na Assembléia Legislativa, no período das turbulências entre o PSD versus UDN. O velho Mesquita de pé, altivo e irreverente, apontava para a bancada udenista e disparava ironicamente: "Dessa bancada só quem presta é Cortez Pereira!". A amizade dos dois se alimentava também nos encontros semanais em Macaíba para impressões sobre a política e o inverno, como dedicados proprietários rurais.

Quando Alfredo Mesquita faleceu em abril de 1969, Cortez - sobre quem o meu pai vaticinava que um dia seria governador do Rio Grande do Norte - foi escolhido no ano seguinte. Lamentei muito ele não ter sobrevivido para contemplar a face desse dia. No seu governo fui nomeado subchefe da Casa Civil, tendo ocupado, posteriormente, após uma reforma administrativa, a coordenação de Assistência aos Municípios do Rio Grande do Norte e a diretoria do Departamento de Serviço Social do estado. Daí, me exonerei para ser candidato a prefeito de Macaíba. Eleito, Cortez Pereira levou a Telern para o município, comparecendo a duas posses: a minha e a de Dix-Huit Rosado em Mossoró. Inaugurou uma agência do Bandern em Macaíba, a Casa do Agricultor, eletrificação rural, escolas e a alegria de receber em minha casa o rei do baião Luiz Gonzaga. Em 1973, foi padrinho de batizado de minha filha Isabelle. Relembro, ainda, como seu auxiliar, os memoráveis discursos e palestras. Uma das inesquecíveis, foi a da Federação das Indústrias de São Paulo empolgando Amador Aguiar do Bradesco, Mário Amato, entre outros. Era a pregação do "desenvolvimento econômico" do Rio Grande do Norte, das suas riquezas e potencialidades nos porões do PIB da paulicéia desvairada.

Recordo a sua altivez ao enfrentar e resistir o autoritarismo do general Meira Matos, comandante da guarnição de Natal, que armou estocadas com o objetivo de tirá-lo do governo. 

Evoco Cortez Pereira como professor universitário, orador, polemista, deputado estadual, diretor do Banco do Nordeste, suplente do senador Dinarte Mariz que encantou o senado com os seus pronunciamentos em favor do Nordeste e do Rio Grande do Norte. Relembro o projeto camarão, do bicho-de-seda, do Boqueirão, do turismo (Centro de Turismo, bosque dos namorados, cidade da criança e a duplicação da entrada de Natal por Parnamirim). Relembro Cortez santificado pelo padecimento da dor, mas redivivo na lembrança e na admiração de tantos que conheceram a pureza dos seus sonhos. "Louvar o que está perdido torna querida a lembrança". Shakespeare. Mas, outra injustiça clama alto: Cortez ainda não recebeu da classe política do Rio Grande do Norte o reconhecimento merecido do seu nome constar na frontaria de uma obra oficial importante do estado que amou e por ele foi imolado. 

Agora, a sua memória é lembrada pela iniciativa de uma plêiade de amigos, tendo a frente o jornalista e publicitário Públio José. Funda-se o Instituto Cortez Pereira, voltado ao debate de temas sobre o desenvolvimento de Natal e do Rio Grande do Norte. Neste depoimento louvo a iniciativa do grupo de admiradores por terem aprendido a não desamar os frutos e não desviver o tempo. 

21 de Outubro de 2011 às 12h44

LANCES INEXATOS

01) O deputado José Janildo Belmont, deixava o ninho do bacurau e ligava-se ao grupo Maia. Pensando alto, Belmont em uma reunião de cúpula, dizia-se pronto para se lançar candidato a prefeito de Mossoró, mesmo contra os grupos Rosado e Alves. Como toda decisão passava pelo crivo de Tarcísio Maia, este de pronto atenuou: "Eu acho inviável. Até pelo pouco amadurecimento do jovem parlamentar. "Mas", continuou Tarcísio, "como o vôo é livre, a queda também o é." Estava dado o recado ao audacioso acrobata.


02) O escritor e cordelista mossoroense Crispiniano Neto enviou-me mais uma do folclórico Raimundo Sacristão, autor de muitas manhas e façanhas do cotidiano da cidade. Quando estava perto de morrer, pediu que o sepultassem num caixão de isopor. Estranhando o pedido, os amigos perguntaram-lhe o motivo de tão inusitado desejo. E ele, em cima da bucha, sem desperdiçar jamais a ternura, respondeu: "É para não perder a frescura...".


03) Luis Carlos, ex-prefeito de Monte Alegre e mais conhecido como "Saquinho", além de amigo, foi meu contemporâneo de colégio Marista. Narrou-me um causo recente de sua cidade protagonizada por Janilson, cabeleireiro e locutor nas horas vagas, confusas e difusos dos eventos políticos e administrativos. Na inauguração de uma escola municipal, o "matemático" Janilson para fazer suspense diante da multidão e agradar a prefeita Maria da Graça, pontuou a plenos pulmões: "E agora galera, vamos a contagem regressiva para o corte da fita simbólica! E é um, dois, três e ...", e quando chegou aos oito ele desconfiou do riso da multidão, corrigindo de imediato entre nervoso e agitado: "Oito, sete, seis, cinco, quatro...". Ao chegar no zero pegue vaia maior em maior número que os números ascendente e decrescentes.


04) Terminada a estafante e milionária campanha municipal de Caicó, em que Manoel Torres derrotara Silvio Santos, uma retardatária eleitora foi procurar Vidalvo (Dadá) Costa para pedir os seus óculos. Dadá explicou que a campanha havia encerrado e por que ela não pediu o equipamento antes da eleição? A caicoense, eleitora de mil quilômetros de urnas rodadas pontificou do alto de sua sabedoria: "É porque eu passei três dias chorando pela derrota do doutor Silvio Santos, nosso candidato". Com essa resposta inteligente e emergencial ganhou os óculos de Dadá, sem apelação.


05) Discussão acalorada foi o que não faltou na Assembleia Legislativa nos idos de noventa, numa sessão, discutia-se sobre a homenagem ao ex-deputado Aristófanes Fernandes nominando uma das adutoras construídas pelo governo. E com a palavra, naquele instante, nada mais e nada menos que o guru e deputado Lara Ribeiro. Defendia intransigentemente o nome do falecido político quando o deputado Nelson Freire, de ouvido apurado, pediu um aparte para consertar o que poderia ser um equívoco ou um erro mesmo de Lara Ribeiro, que teria confundido Aristófanes com Aristóteles. O guru de Ielmo Marinho reagiu irritado. Dirigindo-se ao aparteante com muita luz, Lara foi didático e profundo: "Deputado Nelson eu não estou me referindo a Totinha (apelido do ex-funcionário do TRE e da Assembleia). Falo sobre Aristófanes Fernandes, de Santana do Matos..." e por aí continuou a sua grega sabedoria.

14 de Outubro de 2011 às 13h19

POLÍTICA COM AÇÚCAR MAS SEM AFETO

01) Aproximava-se o final do governo Tarcísio Maia. Ele passou a se preocupar com o futuro de poucos auxiliares. Certo dia, em seu gabinete, perguntou ao médico e seu vice: "Genibaldo, o que você vai fazer quando encerrarmos o nosso mandato?". O companheiro foi simplório e resumido: "Vou atender os clientes no meu consultório". "Mas como, Genibaldo? O único cliente que você tem sou eu. Vou embora para o Rio de Janeiro, e aí?". Doutor Genibaldo coçou a cabeça. Não adiantava questionar com "Tatá". O governador, como de hábito, levou a mão ao queixo: "Já sei. Você vai ser reitor. Magnífico Reitor! Aposente-se por lá". Assim foi dito e feito, entre amigos.

02) O deputado Luiz Sobrinho foi procurado por um conterrâneo mossoroense, cujo assunto era doença. ""Cumpadre" Luiz", disse o paciente, "sofro com um problema muito sério. Veja: eu tô com uma "bolota" (testículo) do tamanho do caroço de um abacate. O outro tá normal. Isso me assusta. O que o senhor acha?". O deputado respondeu: " Vou lhe recomendar a um especialista. Deixe comigo". Envolto em papeis, Luiz passou um cartão do especialista ao compadre e orientou-o como chegar ao consultório. O paciente ao adentrar a sala foi logo dizendo: "Doutor olhe como tá isso!". Afrouxou o cinturão e mostrou os testículos. O especialista surpreso falou assustado: "Que é isso? Quem mandou o senhor aqui?". "Foi o doutor Luiz Sobrinho! O senhor não é especialista?. "Amigo, eu sou especialista em direito.". O velho levantou a calça e indignou-se: "Agora pronto! Tem especialista para ovo direito e esquerdo é?". Luiz Sobrinho trocara os cartões e o pobre coitado foi parar num escritório de advocacia.

03) O PMDB é conhecido como o quadro político que promove divergências organizadas. Basta reunir dez militantes, e pronto, está feita a festa. Numa convenção partidária de trinta anos passados, questionava-se o candidato oficial do partido. O líder Aluízio tinha o nome no bolso. Aquilo era só pantomima. Marcos Formiga reivindicava para si, o direito à postulação. Todavia, era oriundo do outro lado, anti-aluizista, no passado. Depois de muita conversa, Marcos era descartado e ficou chateado. Alguém, da intimidade do líder comentou: "E aí Aluízio, o que você fez, ou vai fazer com o Marcos?". Aluízio estratégico e pragmático explicou: "O que mais agrada a Formiga é uma pedra de açúcar...". Foi criado um novo refrão: com açúcar mas sem afeto.

04) Recebi de Macau este causo de quarenta e tantos anos atrás. O líder Venâncio Zacarias apostava todas as fichas no seu candidato ao governo. "Bacurau não tem vez em Macau!", enfatizava o prefeito. A cada visita de Aluizio, crescia o número de bandeiras verdes nas residências. Era adesão por gravidade. Venâncio investia e até praga praguejava contra si: "Se eu perder essa em minha cidade, vou sair pela rua gritando: quem quer! quem quer!". O velho Chico Tubiba, marchante pioneiro no mercado público local comentava: "Coitado do seu Venâncio! Vai ficar com o fiofó só o molambo...". Venâncio Zacarias lutou bravamente no dia da eleição. Vendo que não tinha jeito, saiu de fininho, sem esperar pela apuração. A promessa virou parada federal.

05) O governador Cortez Pereira, com seus sonhos e visão no futuro, chegara à Baraúnas e foi recebido sob festas pelo prefeito Moisés Oliveira. Falando aos agropecuaristas, Cortez anunciou: "Venho aqui, com uma nova mensagem e muitas idéias! Não podemos viver apenas à mercê do inverno! Trago para Baraúnas um projeto para o futuro! Criaremos aqui uma grande área para implantarmos a cunicultura! (criação de coelhos). O prefeito coçou a cabeça e cochichou no ouvido do secretário da agricultura Geraldo Bezerra: "O governador tá doido. É preciso dizer a ele que aqui só tem cabra macho!!".

07 de Outubro de 2011 às 12h06

CAUSOS CLERICAIS III

Ainda do meu caro acadêmico e amigo padre João Medeiros Filho recebo quatro causos.

01) O Bem-aventurado Papa João XXIII, além de sua bondade e simpatia, irradiava alegria pelos corredores do Vaticano. Foi Núncio Apostólico, em Paris, onde mostrou uma face mais amena e acolhedora da Igreja. Segundo os franceses e, especial, os jornalistas do Le Monde, João XIII era um "blagueur", isto é um piadista de muito humor. Um tipo maroto, dir-se-ia atualmente. Convocou o Concílio Vaticano, que foi um novo Pentecostes para a Igreja Católica. Exatamente, na primeira reunião do citado Concílio, recebeu em audiência coletiva, os bispos do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. O grupo era liderado pelo arcebispo dom José de Medeiros Delgado, arcebispo de Fortaleza, que já o conhecia. Em plena entrevista, dom Delgado indaga: "Santidade, quantas pessoas trabalham aqui no Vaticano?".  Respondeu pronta e ironicamente: "Meu irmão, trabalha menos da metade".

02) Dom José Adelino Dantas, segundo bispo de Caicó, era um homem simples, piedoso, culto e humilde. Tomara posse da diocese de Santana, no dia 14 de setembro de 1952. Chegando ao limite da diocese, no Riacho Maxixe, desceu do carro, ajoelhou-se e beijou o solo seridoense. Precedeu aos tradicionais ósculos de João Paulo II. Na catedral diocesana, no seu trono, fora pintado pela exímia artista irmã Estanislava, da Congregação das Filhas do Amor Divino, irmã do monsenhor João Agripino, um quadro muito expressivo do Bom Pastor, rodeado de ovelhas. Dom Adelino sucedeu a dom Delgado, que criou fama em visitar as fazendas e carregar sempre um garrote ou touro para a construção do colégio diocesano, seminário e outras obras de grande significância para a diocese caicoense. Na hora da missa pontifical, um fazendeiro, amigo do monsenhor Walfredo, confidenciou ao ilustre Vigário Geral: "Padre Walfredo, esse bispo aí vem com uma fome danada. Vai carregar até a miuça, não escapará cabrito, borrego, ovelha ou cabra". O monsenhor só fez rir.

03) O terceiro antístite seridoense foi dom Manuel Tavares de Araújo. Grande pregador, catequista exímio, evangelizador e bom administrador, era, no entanto, um homem impaciente. Nada é perfeito no país dos homens! Tinha como lema episcopal a frase de São Paulo aos Filipenses: In Omnibus Christus (Em tudo Jesus Cristo) e pregava muito sobre a graça. Tomou posse da diocese, no dia 17 de maio de 1959. Caicó passava por uma fase de desenvolvimento. Dessa época datam os bairros de Boa Passagem, Barra Nova e Nova Descoberta. A cidade não dispunha de transporte coletivo. A população não se deslocava de bicicleta e não havia o já tradicional moto-táxi. Uma das empregadas de padre José Celestino Galvão, toda alegria, lhe afirma: "Padre Galvão, esse bispo que chegou é muito bom. Vai nos dar e colocar o ônibus de Jesus Cristo". Assim era demais.

04) Padre Manuel Pedro Neto é sacerdote do clero de Caicó. Mestre em teologia, portador de três diplomas universitários, é um homem generoso, inteligente, dedicado, mas fora formado na escola de dom Tavares. Como este, padre Neto tem fama de ser um pouco bruto, intempestivo e impaciente. É o seu jeito. Fora pároco de Jucurutu e Parelhas. Certa feita, numa festa de Nossa Senhora da Guia, padroeira de Boi Selado, distrito jucurutuense, perdeu a paciência na procissão de encerramento. Cansado, suado e temendo pelo destino da imagem, pois ameaçava uma chuva fora de tempo e de propósito, queria que a procissão e imagem fossem recolhidas imediatamente à capela do povoado. A população não atendia aos seus rogos. Do meio do povo, gritou para espanto de todos: "Traga essa danada de volta para a Igreja, seus bandidos!". Gerou tremenda estupefação!

30 de Setembro de 2011 às 13h33

A FORÇA DA PALAVRA

01) Aluízio Alves completava dias de vigília na cidade, lutando para eleger Toinho Rodrigues, - o "Capim" - prefeito de Mossoró. O caminhão-palanque itinerante, estava lotado de candidatos à vereança. Aluízio, sabia-se, não era de falar difícil. Preferia a linguagem do povão. Como Mossoró era exceção da regra, o Cigano, já exausto, vez por outra, lançava uma palavra fora do comum para não se repetir. À certa altura de um discurso, ele sublinhou: "Agora, nossa luta é mais dramática. Estamos enfrentando os condríctes do Oeste!". Luiz Pires, eterno candidato a vereador pro tempore, aproximou-se de Diniz Câmara e perguntou: "Doutor Diniz, "o qui diacho é "condíctes"?". Diniz respondeu: "Sei lá, Luiz, deve ser todos os "diachos juntos"". No popular, condríctes significa tubarões, arraias, cavalo marinho...

02) O velho padre Humberto Bruening, tinha ampla visão da natureza. Tanto assim, que pode ser chamado hoje de pioneiro em termos de apiário na região. Às vezes, padre Humberto se fazia acompanhar do seu auxiliar-mor, o conhecidíssimo Raimundo Sacristão que mesmo sendo um cinquentão fazia questão de se apresentar como "moça usada". Rumo à criação de abelhas, na zona rural do município, abrindo vereda no juremal, o padre Humberto advertiu: "Cuidado Raimundo! Já matei mais de seis cobras por aqui! Até parece que tem cobra engolindo cobra nessa área". Raimundo, que não escondia a ninguém, que "gostava da fruta", disse com trejeito: "Vixe, padre! Elas não vão deixar nenhuma para eu engolir? Malvadas!". O vigário fez de conta que não ouviu.

03) Carvalho Neto deixara o ninho do bacurau e saiu atirando impropérios em tudo quanto era aluizista. O violeiro-deputado Luiz Sobrinho, liderança da região oeste, à época: "Esse "cavalo nato" não sabe o que diz. Ele não conhece o interior como eu conheço!". O malcriado Carvalho Neto, na rua João Pessoa em Natal, abria o verbo: "Esse tocador de viola de cordas quebradas, diz que conhece o interior. O interior que ele conhece bem, não é o do Rio Grande do Norte. É o interior do Banco do Brasil e do Bandern, onde vive fazendo empréstimos, que não paga, para gastar no carteado das noites de jogatinas. Você é um sobrinho fraco. Eu já sou tio, vou ser avô e serei deputado!". Naquele tempo o verbo vergastava mais que a chibata...

04) Essa veio de Pendências. A velha Jovina, com "suas dezesseis toneladas", vivia num canto da sala, grudada numa enorme almofada, que mais parecia a cópia do seu traseiro. Juninho, o neto de onze anos, era sua companhia, vez que, o pai trabalhava o dia todo, só chegando à noitinha. Já se fazia tarde, a cruviana já açoitava e o menino encostado na avó, enroscou-se na saia-balão da velhota. O garoto grudado no bumbum da coroa, espantava o frio. Por outra visão, "o bilolinho" do Juninho encrespou-se. Jovina, muito ligada nos seus bilros, quando deu fé, o bilro do neto já estava nas polpas. Jovina passando a mão "nas redondezas" sentiu um preguinho, e ralhou: "Menino, tenha vergonha. Eu sou sua avó! Vou dizer a seu pai, para ele lhe dá uma surra! Tenha vergonha!". O garoto sabendo o pai violento que tinha, suplicou: "Tá bom, "voínha". Não diga nada a painho não. Eu tiro". A velha olhando de lado, ordenou: "Eu num mandei você tirar nada! Eu disse: Tenha vergonha!".

05) Nos tempos difíceis, em que o MDB cabia dentro de um fusca, "O Mobral", - como chamavam por chacota - o Movimento Democrático Brasileiro, detinha em seus quadros o aguerrido barbeiro Luiz Pires. "Que chova, que faça sol, sou candidato a vereador!" - proclamava Luiz. Em noites de palanque, até os adversários iam ouvir Luiz Pires. Empolgado, acentuava: "Num pense que sou otário, nem "indiota"! Eu vim pra "brigá, lutá e ganhá, cuma dixe" Aluízio". Não mais suportando a hecatombe ortográfica, um arenista gritou no meio do povo: "Cala essa boca imbecil!". Luiz Pires rebateu: "Imbecil? Eu? Quem me dera! Imbecil é o doutor Duarte, que fala bem três "indiomas"! Viva o MDB!".

23 de Setembro de 2011 às 12h39

CAUSOS CLERICAIS II

Hospedo hoje neste espaço o amigo e irmão padre João Medeiros Filho, membro da Academia Norte-Riograndense de Letras, justamente a cadeira que pertenceu a Dom Nivaldo Monte. Medeiros celebrou em agosto passado o seu 46º aniversário de vida sacerdotal. Abaixo transcrevo algumas facetas do seu talento literário.


01) O anedotário em torno do famoso monsenhor Motta, ex-pároco de Santa Luzia de Mossoró, é inesgotável. Teve na pessoa do padre Huberto Bruenning, catarinense de ascendência alemã, um colaborador e amigo. Sendo porta-voz de inúmeras reclamações dos fiéis, padre Huberto pede ao monsenhor Motta para afastar o seu dedicado sacristão Raimundo, árduo defensor das diferenças e gay assumido e confesso. As queixas chegaram até o bispo dom Eliseu Simões Mendes. Monsenhor Motta foi obrigado, apesar de constrangido, a afastar o zeloso Raimundo. A sacristia, após sua saída, virou uma bagunça e havia um transtorno geral. Monsenhor Motta voltou ao bispo e disse que devia readmitir Raimundo. O prelado aquiesceu. O dedicado sacristão voltou ao posto, exercendo as funções eclesiásticas e as pessoais. Monsenhor Motta, então lhe disse: "Raimundo, leia o que dizem os santinhos: Nihil obstat (nada a opor) e com aprovação eclesiástica." Raimundo disse então ao padre Huberto: "Agora, o senhor não pode dizer nada. Eu tenho a autorização do bispo!".


02) Monsenhor Motta, quando prefeito de Mossoró, foi criticado por uma tradicional família da cidade. Nada disse, mas guardou para si as palavras injuriosas. A matriarca da citada família fazia as nove primeiras sextas-feiras do mês. Evitava ir à missa na catedral e frequentava o convento do Alto da Conceição ou a Igreja do Coração de Jesus. A dita senhora perdera o horário das missas nas outras igrejas da cidade. Não houve outro jeito, teve de ir à missa na catedral. Na fila da comunhão, quando chegou a sua vez, o monsenhor não perdeu a pose e disse: "Fulana, está aqui Ele. Mas, como disseste que eu era ladrão, vou roubá-lo de ti.  Olhe, tá aqui, sua danada, ta aqui nas minhas mãos, mas não te dou. Agora pode me chamar de ladrão!."


03) Caicó em peso conheceu Siloé de Oliveira Capuxu, homem probo, trabalhador, evangélico, que primava pela ecumenicidade. Era amigo de todos os padres. Siloé era quase mouco e só andava correndo. Era dedicado funcionário dos Correios e Telégrafos, mas exercia também o ofício de advogado provisionado em Caicó e comarcas vizinhas. Certa manhã, Dom Manuel Tavares vinha, a pé, pela avenida Seridó. Eis, quando chega no cruzamento com a rua Otávio Lamartine (perto dos Correios), depara-se com Siloé todo apressado, levando nas mãos uma pilha de processos, entre eles o de acusação de "ofenderem a uma menor". Não viu o bispo e o derrubou. Dom Tavares levantou-se e disse ao provisionado: "Da próxima vez, o senhor meta a mão na buzina, viu Siloé?". Este, atordoado e meio surdo, sem reconhecer ainda o bispo, respondera: "Mas, foi o senhor que meteu a mão na menina?". Respondeu Dom Tavares: "Deixe de ser mouco, falei de buzina, Siloé!".


04) Monsenhor João Agripino Dantas, atual pároco emérito de São João de Sabugi, além de sua fama de um homem erudito e preparado, tem a reputação de ser um torcedor fanático de futebol. Na copa do mundo, enfrentaram-se Brasil e Holanda. O padre Agripino foi escolhido para conduzir o ostensório com o Santíssimo Sacramento, durante a procissão de Corpus Christi, exatamente no horário do jogo. O sacerdote não queria perder de modo algum a partida. Foi criativo. A cinco metros de distância, colocou um seminarista com um rádio de pilha no bolso da batina, bem atento à locução. O levita dava conta ao monsenhor do desenrolar do jogo. Lá pelas tantas, a seleção holandesa marca um gol. O jovem seminarista viera avisar ao padre Agripino. Este deu um pulo com o Santíssimo nas mãos e grita para espanto das almas piedosas, olhos atentos na Eucaristia: "Merda, assim não dá, vamos pra casa!".

16 de Setembro de 2011 às 11h40

CAUSOS CLERICAIS

Hospedo hoje neste espaço o amigo e irmão padre João Medeiros Filho, membro da Academia Norte-Riograndense de Letras, justamente a cadeira que pertenceu a Dom Nivaldo Monte. Medeiros celebrou em agosto findo o seu 46º aniversário de vida sacerdotal. Abaixo transcrevo duas facetas do seu talento literário e espiritual.


01) Monsenhor Mota, figura lendária do clero mossoroense, apesar de sua fé na vida eterna, tinha muito medo da morte. Perto de sua partida para a casa do Pai, o bispo Dom Gentil envia-lhe Monsenhor Júlio Alves Bezerra para confessá-lo e administrar-lhe os últimos sacramentos. O ex-pároco do Assu não logrou êxito. Fora escolhido para essa tarefa Monsenhor Joaquim Honório, vigário de Macau, que tinha fama de santidade. Este dissera a Monsenhor Mota: "Luís, esteja preparado para ir para o céu, a casa de Deus, lá é muito bom, reina a paz e a alegria." O ex-pároco de Santa Luzia retrucou na hora: "Eu sei, Júlio, mas acontece que eu gosto tanto de Mossoró e não queria sair daqui"!


02) Antes da reforma litúrgica acontecida após o Concílio Vaticano II, as vestes episcopais eram suntuosas e calorentas para as missas pontificais. Em Caicó, era bispo Dom Delgado. Numa missa solene por ocasião da tradicional Festa das Almas, em pleno calor seridoense, numa cerimônia pontifical das 10 horas, o bispo Delgado era o presidente, acolitado por Monsenhor Walfredo, Cônego Estanislau, Monsenhor Paulo Herôncio e Padre Ambrósio. A catedral de Santana estava repleta. O coral estava a cargo de Monsenhor Amâncio Ramalho, que era chegado a uma polifonia. Na hora do Kyrie, rebuscado e quase interminável, Dom Delgado suado, sedento e cansado, volta-se para o seu vigário geral e diz: "Walfredo, se não existir céu, nós estamos lascados!".


03) Dom José Maria Pires, mais conhecido como Dom Pelé, estava viajando de avião a Brasília, com seu auxiliar e posteriormente seu sucessor Dom Marcelo Carvalheira, quando começa uma grande turbulência. Todos ficaram assustados! Dom Marcelo diz para Dom Pelé: "Dom José, o avião vai cair, vamos nos preparar para ir para o céu." Dom Pelé, meio atônito e confuso, afirmou: "Marcelo, não fale uma desgraça dessas não, homem de Deus!".


04) Dom Tavares foi o terceiro bispo de Caicó. Tinha fama de impaciente e às vezes bruto. Estava celebrando na Igreja de São José de Caicó. Capela repleta, inclusive alunos do colégio diocesano e do seminário. Fazia a primeira leitura o seminarista Manuel Cirilo. Lia a passagem que dizia que as rolinhas têm seus ninhos etc. Ao pronunciar a palavra rolinha, o escrupuloso seminarista engasgou. Repetia parte da palavra. Dom Tavares impaciente gritou do altar: "Homem, solte logo essa rola!"


05) Na Igreja de São Paulo do Potengi havia um belo crucifixo, muito expressivo. Um dos paroquianos contemplando a imagem e lendo as iniciais I.N.R.I (Iesus Nazarenus, Rex Iudaeorum, Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus), disse para o saudoso Monsenhor Expedito: "Padre, a dor foi tão danada que Jesus gritou: innrii!"


SONETO DO PAI NOSSO

Pai nosso, que é Deus, e está nos altos céus, santificado pra sempre teu nome seja por todos, sobretudo pela tua Igreja, como ensinaste, um dia, pelo Filho Teu.

Venha a nós teu reino de paz e de ventura. Seja feita a tua vontade verdadeira, fonte de perdão e amor na terra inteira, assim como é e tem sido, lá nas alturas.

Ó Pai, dá-nos hoje o indispensável pão. Perdoa nossas ofensas, como perdoamos a todos aqueles que nos têm ofendido.

Não nos deixa, Senhor, cair em tentação e fazer tudo aquilo que repudiamos. Livra-nos do mal, teus filhos arrependidos!

(Momento de oração e reflexão do padre João Medeiros Filho).

09 de Setembro de 2011 às 12h31

O NOVO LIVRO DE SEVERINO VICENTE

"Amar uma cidade é vivenciá-la, conhecer os seus segredos, caminhos, avenidas, ruas, vielas, becos". A declaração é do pesquisador e folclorista Severino Vicente e dá o mote para este seu novo livro, que ele intitulou corretamente de "Por amor a Natal - poesia, história e arte". Em nossa opinião, trata-se de um livro que se destina especialmente aos natalenses e às pessoas que elegeram a capital potiguar como a sua cidade, a ela integrando-se e entregando-se de corpo e alma e, assim, colaborando para torná-la cada vez mais uma cidade melhor. Evidentemente que eventuais visitantes - turistas de ocasião ou estação - lucrarão substancialmente da leitura de suas páginas. É que aqui vão encontrar uma síntese da história e da cultura de Natal, cujas origens remontam à construção da Fortaleza dos Reis Magos - marco fundador da cidade e seu cartão postal mais amplamente difundido.

A partir desse monumento tão significativo para os natalenses, o autor realiza um criterioso passeio pelos vários prédios históricos que pontuam a geografia dos bairros da Ribeira e da Cidade Alta, plano e altiplano privilegiados pela ação administrativa colonial.  Nesse périplo o leitor transita pelo cais da Tavares de Lira, Praça Augusto Severo e Teatro Alberto Maranhão, prossegue pela igreja de Nossa Senhora do Rosário, tem livre ingresso à Casa Câmara Cascudo e, em seguida, ao Solar Bela Vista, e chega finalmente ao Palácio Felipe Camarão, sede da Prefeitura, podendo ainda optar pela Casa da Cultura, já na Cidade Alta. De permeio, pode visitar a Igreja do Galo, o Hospital Infantil Varela Santiago, informar-se sobre o importante Clube da Sociedade Araruna, ou ainda sobre o Bosque dos Namorados, a Vila de Ponta Negra, todas opções recomendáveis. Entre tantos registros arquitetônicos, sobra espaço neste livro para a apreciação de dois nomes indispensáveis ao conhecimento da cidade de Natal. O primeiro é o padre João Maria, que Severino Vicente corretamente denomina de "O Santo de Natal", cujo sacerdócio, pautado pela caridade e amor aos desafortunados da sorte granjearam-lhe a fama de santo; o outro é o folclorista, historiador, etnógrafo, biógrafo, memorialista e epistológrafo Luís da Câmara Cascudo, referência indispensável para quem queira conhecer realmente a capital dos potiguares em seus múltiplos aspectos, haja vista que Cascudo é o primeiro e o mais importante historiador da nossa cidade. Assim, "Por Amor a Natal" se abre como um amplo leque colorido pontilhando ruas, iluminando casarões, realçando igrejas, destacando nomes que ajudaram a fazer dessa cidade a tradução perfeita da alma dos potiguares.

02 de Setembro de 2011 às 11h22

MELINDRES

01) Venâncio Freitas, funcionário aposentado do INSS, é meu velho conhecido e irmão do ex-prefeito e líder político de Pendências, Levani. Fez-me uma gentil visita e como apreciador das histórias do folclore político e social do Rio Grande do Norte, passou-me essas do seu cultivo e criação em cativeiro.

a) O sargento Lolô, célebre personagem de um crime ocorrido em Natal, lá pelos idos dos anos cinquenta, participava do júri que definiria sua culpabilidade. Sala cheia, calor, fumaça profusa dos fumantes, tensos e aflitos. O réu, sabendo que o seu destino estava selado, soltou um poderoso flato que chamou a atenção dos circunstantes. Para responder aos olhares dos curiosos justificou-se: "Eu fico preso, mas você sai".

b) Em Macau, o comerciante Adauto Fonseca viajava com o seu motorista Osório com destino a Natal. Quando passava à altura de Maçaranduba (São Gonçalo do Amarante) o caminhão faltou freio. "Adauto!", grita o chofer, "segure aí que vou virar o carro pro seu lado". Resposta espavorida do patrão: "Por que não vira pro seu!!!".

c) Em Pendências, havia um indivíduo alcunhado de "Cão". Na zona rural do município, achando-se popular, foi pedir água numa residência. "Quem é?", gritou lá de dentro a dona da casa. "É "Cão"", respondeu o confiante comunitário. "Então vá beber água no inferno!", fuzilou a mulher sem mais contemplação.


02) Chegando a Macau, deparo-me com o causo de Adalberto, que sofria de total surdez. Em 1957, a cidade ainda não era servida pela rede de abastecimento d'água. O precioso líquido provinha de Pendências, distante vinte quilômetros, transportado por caminhão-pipa. O motorista do veículo, o surdo Adalberto, havia casado naquele dia e quando estacionou em frente à casa de Levani de Freitas, este perguntou em voz alta: "Mouco, casou?". Pensando que o prefeito se referia ao número de viagens para Macau, respondeu de pronto: "Já dei duas!".


03) Odilon Ribeiro Coutinho e mais um grupo de amigos percorriam o Oeste. Discursos inflamados soltavam faíscas por onde a caravana passava. Mossoró, Baraúna, São Francisco do Oeste etc. Começaram a notar que toda vez que ia falar, François Silvestre começava com uns versos extensos por demais, e que diziam: "Sou filho da gitirana, neto da Jurema Preta...". E vinha discorrendo o parentesco misturado com o meio ambiente. No percurso entre uma cidade e outra, Odilon ponderou: "François, declama outra coisa. Essa estória de jurema, gitirana, urtiga, tá espinhoso demais. Adoça essa nossa caminhada, fala em rapadura, mel de engenho, que é o meu ramo". Aí jorrou melaço pra todo o lado.


04) O deputado Valmir Targino visitava sua região, um período em que se desenhava uma seca. O parlamentar conversava com uns amigos no comércio de Janduís, quando chegou um moreno alto, seguido de umas quinze pessoas. "Deputado", disse o rapaz, "nóis, aqui, vota no sinhô! Mais se o sinhô num der um sacolão a cada um, agora, ninguém vota mais!" Valmir fitou bem a todos, chamou o proprietário do mercadinho e ordenou: "Despache um sacolão para cada um deles, menos para esse rapaz aí", apontando para o "líder". Em seguida, virou-se para o moreno e deu uma targinada: "O senhor pegue o seu voto e coloque-o naquele lugar (citou o lugar) que eu não preciso dele para ser eleito!". Targino, depois, comentou com um amigo: "Eu ainda saio da política por conta desse tipo de coisas." Profecia cumprida lá na frente.

26 de Agosto de 2011 às 11h51

DEDUÇÕES PRETERINTENCIONAIS

01) Em São Paulo do Potengi, nos bons tempos do monsenhor Expedito Medeiros, me chega a história acontecida à época de momentosa campanha eleitoral. O padre não se envolvia diretamente nas disputas mas, nas entrelinhas, externava sua preferência. Sub-repticiamente. Ou no popular, por debaixo do pano. Na campanha eleitoral das mulheres contra os homens, a verve popular criou a designação de peruas para classificar a candidata a prefeita Nini Souto e sua vice contra Geraldo Macedo e seu companheiro de chapa. Aqui e acolá, nas aparições públicas do vigário, o pessoal gostava de indagar: "E, aí monsenhor, com quem o senhor está?". Expedito Medeiros, arguto, sutil e despistador, respondia: " Eu não estou com ninguém. Apenas estou piruando". Estava quebrado o decoro e dado o recado.


02) Voltando ao interior, chega-me a história de Luís, empregado do misto de São Tomé. Para os que não sabem, misto era um caminhão de duas boléias que imperava no transporte de feirantes lá pelos idos de 50 e 60. Dona Maria, tia de Levi, ex-bancário natalense, hoje radicado em São Tomé, possuía um terreno ao lado de sua casa, que oferecia banho aos caminhoneiros e feirantes, calcinados pela poeira e sol escaldante dos tempos de seca e falta d'água. Chegado de viagem, Luís foi procurar o banho. Dona Maria, porém, advertiu que "a água estava escassa". Luís insistiu. "Só se for economizando muito", resumiu dona Maria. Ao cabo de alguns minutos, observando por perto que não ouvia o barulho da água derramada pela cuia, preocupou-se e bateu à porta do banheiro. "Seu Luís, ô seu Luís, tá acontecendo alguma coisa? Não tá tomando banho, não?". Uma resposta tranquila veio lá de dentro: "A senhora não falou pra não gastar a água. Tou tomando banho dentro do tanque...".


03) Nas suas andanças políticas pelo Oeste, João Faustino Ferreira Neto trouxe-me uma história de um correligionário singular do doutor Mousinho, líder político de Alexandria. Como médico, atendia aos seus correligionários em toda parte. Um deles, foi se queixar de uma rebelde prisão de ventre. O médico receitou-lhe um laxativo pronto e eficaz. Dia seguinte, o enfezado eleitor retornou para dizer que o remédio não fizera efeito. Doutor Mousinho aviou uma receita de três potentes comprimidos afirmando-lhe que, dessa vez, daria certo. Desolado, após uma noite indormida de busca do reflexo defecatório, queixou-se: "Doutor, eu estou mesmo entupido. Tenho que ser operado". A impactação fecal do paciente era famosa na cidade. O médico, impressionado, passou a examinar detidamente o paciente e detectou um fato estranho que lhe fez formular uma pergunta: "Quando você se senta no aparelho, onde você acomoda essa enorme genitália?". "Fica dentro da tampa mesmo", respondeu o obstruído doente. "Então", diagnosticou o doutor Mousinho, "coloque ela pra fora da tampa. Seu problema é "cucomêdo". E encerrou a consulta.


04) José Melo, pecuarista em Santana do Matos, é sogro de Nilo Soares, pessoa conhecida e bem relacionada em Natal. Acometido de problemas prostáticos, Zé Melo não pode evitar a temida cirurgia. Hospitalizou-se e no dia da operação submeteu-se com a enfermeira designada ao asseio pré-operatório. Sentindo mãos femininas roçar as partes genitais começou de pronto uma ereção espontânea que não o constrangeu. Olhou para a enfermeira meio encabulado e comentou: "Minha filha pode deixar de fazer isso que ele se põe em pé sozinho".

19 de Agosto de 2011 às 12h21

PERFÓRMANCES

01) Dix-Huit tinha o orgulho de dizer que o deputado Vingt era o seu grande líder. Certa vez, em palanque, empolgado sublinhou: "Mossoró não pode perder sua representatividade em Brasília. O grande líder Vingt, pela vontade popular será mais uma vez reconduzido à Câmara Federal. Será inconteste a miríade ovacional deste pleito!". O perpétuo candidato a qualquer coisa, o já indesejável Liminha, que ao lado babava com a grande retórica de Dix-Huit, depois de tudo, perguntou: "Doutor Dix-Huit, o que significa a palavra miríade?". O alcaide olhou, dissertou de forma pedagógica: "Você estuda?". Liminha pensando abafar, respondeu: "Faço o primeiro ano de direito!". Dix-Huit detonou: "Pois estude mais e estude direito! Quem sabe...?". Liminha ali encarnava o eterno aprendiz.


02) Como todo mundo não acessa internet, um amigo de Caicó, pede que transcreva um fato acontecido com Robson Pires, lá no Seridó. Dona Ana, terceira idade mas que detesta ser velha, solicitou ao "Xerife" para ser fotografada ao seu lado. Robson atendeu a admiradora e querida amiga. Satisfeito o desejo, veio a grande surpresa. Dona Ana assim se expressou: "Agora meu "fio", eu quero que você bote essa foto no seu "boga"!". Entenda-se blog. Mas Robson sacou as poucas e trocadas letras.


03) A campanha para prefeito e vereador, estava a mil por hora em Mossoró. Com um palanque recheado de feras como Dix-Huit, Raimundo Soares, Vingt, entre outros, levavam a oratória em alto estilo. Em meio a esse quadro, um candidato a vereador de masculinidade duvidosa, levava o oposicionista José Andrade - o Zé Gago - ao deboche. Em certa concentração o moço foi eloquente: "Eles começaram mal!", citando até Macbeth, "O mal reforça a ação má começada!"... Na noite seguinte, Zé Gago em palanque respondeu ao seu jeito: "Ê, ê, ele quer di, dizer, que, fi fizeram mal em me, me inscrever; mas ê, ê, eu vou é no, no popular: É melhor uma, uma, pom omba na mão, que, que dez voando!".


04) A guerra fria e a corrida espacial, mexiam com todos. Em Assu, aconteciam até apostas para saber quem chegaria à lua primeiro. O professor Ferreirinha com a última edição do jornal, fazia roda na praça. Certa noite, Abrahão, o segundo nome mais forte do escalão do prefeito Costa Leitão, quis saber: "Professor Ferreirinha, eu conversei com seu Costa, pra "nóis butar" uma "estauta" na praça em "homenage" a esse russo aí que foi pra lua. Mas diga aí? Não tem como mudar o nome dele não? Esse nome de "Cagarím" na praça fica "horrive", né não?". Na verdade, a homenagem seria a Yuri Gagarin. Ela foi suspensa e ainda vaga no espaço sideral do Assu. Valeu a intenção do velho Abrahão.


05) Numa roda de terceira idade, no "senadinho" do Natal Shopping, as proezas e conquistas verberam de boca em boca. Cada um tem uma nova para contar. Quebrando o silêncio que vinha mantendo o doutor Meroveu revelou interessante pesquisa: "A coisa é séria! A ciência acaba de descobrir que o café quente, deixa por terra a masculinidade, o tesão do homem". Um ex-secretário de estado, que por sinal ia com uma xícara da rubiácea rumo à boca, parou no ar, e indagou: "Verdade presidente?". O espirituoso Merô sentenciou: "Pois é. O pretinho quente, queima a ponta dos dedos e a ponta da língua". Iminentes revelações ficaram no ar com quorum bastante para deliberar.


06) Com seu jeito maroto, nunca se sabe quando Garibaldi Filho é o ministro, o senador ou simplesmente o torcedor apaixonado pelo ABC F.C. Não difere em nada. Certo dia, no Frasqueirão, um amigo perguntou em voz alta: "Ministro Gari, o senhor está equilibrando o INSS. Mas quando é que vai anunciar um aumento para nós, os aposentados? Só quando tiver perto de se aposentar?". Garibaldi riu e cumpriu só a tabela: "Aqui e agora eu sou elemento suspeito para opinar...". E ainda rindo pegou o beco do túnel do tempo.

12 de Agosto de 2011 às 00h00

VELHOS TEMPOS... BELOS DIAS

01) Germano Caenga, que se intitulava em Grossos "o prefeito eleito pelo povo", mandou que sua secretária redigisse uma mensagem a ser lida na câmara municipal. Lá pras tantas, a coroa funcional, dirigiu-lhe a palavra para tirar uma dúvida: "Prefeito, "planário" tem assento?". Caenga, ajeitando o nó de jabá da gravata, respondeu: "Dona Amélia, ter tem. Mas providencie mais, muito mais, porque com certeza vai ser casa cheia, e eu não quero vê ninguém em pé!". Inaugurava-se a ortografia cadeirante.


02) Em Caicó, o sábio Vivaldo Costa ensaiava perante o povo o seu apoio a candidatura de Márcia Maia à deputada estadual. "Márcia", proclamava o experimentado líder, "é mesmo que ser pessoa nossa. É filha de Vilma, amiga de infância aqui em Caicó!". Aí, do meio povo uma voz conhecida - Zeca Diabo pilheriou bem alto: "Os dois brincavam até de boneca, ora...!". Vivaldo Silvino perdeu o rumo e o prumo para sentenciar em cima da bucha: "Eu ainda mato um f.d.p. desse!!".


03) O deputado Lavoisier Maia garimpando votos e visitando os compadres, postou-se na fazenda de um velho amigo em Almino Afonso. Como a visita já era esperada, foram servidas muitas iguarias. A mesa era farta. O fazendeiro, enfático brindou: "Compadre Lavô, relembrando os bons tempos, aqui está um bom pedaço de queijo de coalho com rapadura do Cariri. Vamos comer?". Lavô concordou prazerosamente: "Bons tempos, heim? Hoje, com um pedaço dessa rapadura, eu passo três horas chupando!". Os amigos riram. Aí Lavô emendou: "Não riam não. Será sorte de vocês, se ainda na minha idade vocês estiverem ao menos lambendo!...". O nosso querido Lavô não era apenas um político, um cientista mas também, um filólogo e pedagogo de longo coturno.


04) O prefeito Dix-Huit Rosado visitava as obras da tricotomização do rio Mossoró. Era uma corrida contra o tempo, pois o inverno se aproximava. Um operador de máquinas pesadas foi até ao alcaide e pediu: "Eu queria que o senhor me desse um aumento de salário, prefeito". O velho, sem se perturbar, asseverou: "Muito justa a sua reivindicação. Quando terminar esse trabalho, eu darei". "E se não chegar ao fim?", duvidou o operário. "É porquê não acabou!". Fechou o firo a voz da experiência.


05) O radialista J. Belmont, despontava como um trunfo nas bases do aluizismo dos anos sessenta. Logo o comando da Cruzada da Esperança mandou Belmont para Mossoró com carta branca no bolso. O rapaz assumiu a emissora do grupo e comandando campanhas assistencialistas, logo se fez vereador. Bel era a voz do povão. No palanque, arrebatava aplausos sem fim. Uma noite, os líderes se faziam presentes na praça do Codó. Agnelo, próximo a Aluízio, raposa indômita, comentou: "Esse rapaz vai longe. Você já viu o tamanho "das asas" dele?". Aluízio, braços cruzados, olhando por baixo, nem temperou a garganta: "Nezinho Alves já dizia: "Quanto mais alto o vôo, maior a queda"." Não deu outra. Na primeira exigência descabida de Belmont, cortaram-lhe as asas e o moço começou a descer em queda livre. Até nas ondas do rádio.


06) O feirante Agenor Maria, usando o famoso "ponto de apoio", a feira de Currais Novos, sonhou alto na política. Certa noite, num grande comício na sua falação, acentuava sempre: "Eu quero ser o gemido do povo!! Esse povo que já não tem voz, pois nunca teve vez! Eu quero ser o gemido do povo!". Tempos depois, eleito, Agenor Nunes de Maria encontrou um vereador amigo do Seridó e cumprimentou: "Como vai o amigo velho? Tudo bom?". O vereador triste com o ano de seca: "É senador, o gemido passou, mas a dor continua!". O congressista enxugou a testa com um lenço verde desbotado e pegou o beco: "É isso ai amigo, é isso aí...!". Velhos tempos, velhos dias...

05 de Agosto de 2011 às 12h06

MOSAICO DE HUMOR

01) O jornalista Gerson de Castro, profissional conceituado, abecedista de quatro costados, enfrenta sempre o dia-a-dia com bastante humor e disciplinada educação. Certo dia, dirigia seu automóvel, por sinal, novo e bem cuidado, quando sentiu forte impacto na traseira. Calmamente desceu do veículo e foi se entender com o motorista. O sujeito, um brutamontes, vozeirão de apito de navio, muito arrogante, achava-se cheio de direito, quando não tinha nenhum. Depois de muita conversa, sem acordo, o jornalista, usando a máquina fotográfica, resolveu filmar a placa do carro abalroador. O grosso sujeito,  adentrando no veículo, simplesmente lhe aconselhou: "Bateu a foto? Agora,  aproveite e jogue no bicho!!!".


02) Leonice, "moça velha" muito conhecida na cidade de Assu, alguns juram que ela foi garçonete na ceia larga, não falava para ninguém a idade que aparentava. Certo dia, desembarcando na estação rodoviária, informou a irmã: "Ai querida, esqueci três pacotes e mais uma bolsa...! E agora?". O maluco beleza, o "Bonzinho", que lá estava para pegar fretes, como fazia sempre, observou: "É isso mesmo, coisa da idade!". A irmã da coroa, que logicamente, sabia dos seus janeiros, rebateu: "Mas Bonzinho, ela só tem 30 aninhos...". O doido, que não é bobo, replicou grosseiramente: "Então são outros problemas. Coisa de esclerose, bom de procurar um psiquiatra!". Só esqueceu que a "idosa" ainda portava outra bolsa, com a qual lhe bateu no "quengo". "Bonzinho" ficou bomzinho.


03) O prefeito Francisco Ferreira de Melo, - tio do ex-governador Geraldo Melo - quando gestor em Campo Grande, enfrentou um grave problema. Uma invernada muito pesada invadira o cemitério deixando a área bastante encharcada, ao ponto de vários cachorros famintos escavarem as covas e devorarem cadáveres. O fato chocou a cidade. O prefeito Ferreirinha, usando os altofalantes da igreja, prometeu a população solucionar o problema. De sua fazenda, vieram dois cabras com ordem de atirar em todo e qualquer cão vadio que fosse encontrado na rua. Até deitado na calçada do seu dono, foi fuzilado. A mãe de um secretário municipal, que passeava com sua cadela de estimação, teve a surpresa de ver a bichinha dizimada. A mulher indignada dirigiu-se à prefeitura. "Mas prefeito...", reclamou a senhora, "Eu ia puxando meu bichinho pela corrente...". "Ora dona", explicou Ferreirinha ironicamente, "Continue puxando. Só que agora, um cadáver!". Consumava-se o "cachorromicídio".


04) Da cidade de Assu, chega-me esta estória de dois irmãos gêmeos, Nico e Neco. Eram por demais admirados pela semelhança fisionômica. Até os hábitos eram iguais. Rapazes, Nico "provou cachaça" e como de hábito, Neco o acompanhou. Um domingo, ambos foram assistir a missa. No momento da comunhão, Neco, sob forte efeito etílico, caminhava rumo ao altar, quando o padre Militinho, antes da distribuição, emitiu alguns avisos sobre a organização das filas. Estendendo a mão para o alto, falou: "Eu comunico...". Nico, cheio de "mé", que tentava manter-se aprumado na porta principal da matriz, interrompeu em voz alta: "Primeiro coma Neco que tá aí pertinho, ora bolas...".


05) Chicão Albuquerque, advinho e filósofo do cotidiano de Janduís, lembra que certa vez, em sua cidade, aconteceu um bombástico caso de traição matrimonial. Não tinha como abafar a situação. O inditoso enfeitado, como sempre o último a saber, procurou Chicão e o interrogou: "Você sabia dessa situação?". O provinciano pensador com toda sapiência respondeu: "Meu caro vereador, em cidade pequena, todo mundo sabe de tudo: quem sabe não conta, e se conta ninguém acredita! Daí, o meu sepulcral silêncio". Moral da história: quem sabe a verdade não se compromete. Só pensa.

29 de Julho de 2011 às 12h26

PEGANDO PESADO

01) Luciano Marinho, abriu uma farmácia em Parnamirim e entregou-a aos cuidados de João "Urubu", - assim apelidado. Era o sujeito metido a doutor na redondeza. Fazia de tudo. Aplicava injeção, curativos, costurava cortes no couro cabeludo ou não, cuidava até de bicheiras em animais. Verdadeiros milagres, desde que o paciente tivesse coragem e nervos para suportar o tranco. Certa vez, Antônio Fonsêca, rapaz de quinze anos, numa caçada, fraturou o tornozelo. O moço aportou na farmácia e com muito cuidado, populares tiraram-no da montaria. João Urubu, examinou sua perna, aplicou-lhe uma benzetacil, e aconselhou: "Você leva mais quatro injeções e toma em casa, dia sim, dia não. Eu vou dar um trato no local e pronto". João, mandou que alguém segurasse o moço na cadeira, deu um puxão tão violento no tornozelo do rapaz, que num instante o coitado foi a lua e voltou. Ao chegar em casa, o pai quis saber: "E aí, Antônio?". Fonsêca respirou fundo e suplicou: "Papai me tira desse cavalo, que eu tô todo mijado, e vem mais "coisa" por aí, viu...?".

02) Dona Macena, muito popular no bairro de Lagoa Seca, não se conformava com a velhice. "Imagine você", dizia a idosa, "eu com vinte anos, bonita, gostosa, fogosa, desejada pelos homens. Hoje, oitenta anos, cheia de pelanca, tenho mais pregas no rosto do que saia de normalista! Isso é vida?!. Certa tarde, comadre Joana, muito religiosa, veio chamar para ir às novenas de São João! Vou o quê?! Peguei no meu braço, cheio de pelanca e... outro dia, peguei no braço de são João Batista, bem durinho, bem lisinho... e observe, que ele tem mais de duzentos anos! Quem quiser mangar de mim, que venha na minha casa".

03) Chico Paulino de Angicos, cabra macho, desentendeu-se com um sujeito que "mexeu" com sua filha. Na contenda, disparou duas vezes contra ele. A vítima foi removida para Natal e quanto a Chico, ficou detido na delegacia local. Após vários dias no xilindró revelou ao filho o desejo de tomar uma caninha. "Mas como?", disse o jovem, "O tenente não vai deixar entrar!". O assunto passou a ser da família. O rapaz teve uma idéia. Como Chica Côco, a rainha da zona local, "tinha surrão" para guardar qualquer macaxeira, o moço ofereceu-lhe dez contos para que ela introduzisse na caçapa, uma garrafinha de guaraná "caçula", cheia de cachaça e numa visita de cortesia, repassaria para o preso. Chica Côco pensou, pensou... "É... dez contos é uma importância tentadora! Mas, você pensa que minha b... é prateleira de boteco pra guardar garrafas? Bom, eu vou testar. Se couber, eu lhe comunico". Resultado: foi um sucesso. A partir daí, Chica Côco foi a precursora dos celulares, carregadores, etc e tal, que hoje adentram "vaginalmente" nas cadeias públicas dos nossos dias.

04) Manoel da Carne, irreverente sempre, levava a vida pilheriando os fregueses lá de São Gonçalo do Amarante. Suas tiradas eram hilariantes motivo para que não faltassem amigos e clientes. Certa manhã, chegou um freguês habitual, só que desta feita, se fazia acompanhar da esposa, por sinal, desconhecida dele. "Manoel", disse o visitante, "bote aí três quilos de chã-de-dentro!". O comerciante pondo a mercadoria na balança, sorriu e informou: "Deu três e oitocentas; leva toda?". O freguês sorriu amarelo e ironicamente comentou: "Eu não!". E, olhando para a esposa, o sarcástico Manoel pilheriou: "E aí, a mulher, quer levar toda?". Manoel insistiu: "É sua esposa? Desculpe aí, minha senhora; é que todo dia, ele leva meu peso e não reclama nada!". A mulher sorriu e entendeu o duplo sentido da brincadeira. E ajudou o marido a levar... as compras.

05) No circo "tomara que não chova" (sem cobertura), tinha sequência o espetáculo. O impagável palhaço Cebolinha, com a sua coadjuvante, passeavam pelo picadeiro. Como se aproximava a data magna de setembro, a moça recitava: "Lá vem a lua saindo por detrás da bananeira, não é lua nem é nada, é a bandeira brasileira!". Aplausos da platéia, inflada de civismo. Cebolinha, que apostava ser o autor do verso mais bonito, postou a bengala, e exclamou: "Lá vem a lua saindo, clareando o sertão da gente, não é a lua nem é nada, é o burro de Geralda, que "armado com sua espada" faz festa a meninada!". Final de espetáculo, tenente Zacarias, delegado de Angicos, "convidou" o palhaço para dormir no xilindró à bem do respeito e do civismo.

22 de Julho de 2011 às 11h19

INESQUECÍVEIS

01) Quando governador, Geraldo Melo criou um programa tipo: "Conversa com o povo". O pessoal escrevia e Geraldo respondia a missiva pelo rádio. Um jovem inventor dirigiu uma missiva ao governador pedindo um motor de um fusca, o qual seria usado num aeroplano concebido pelo próprio. O governador, num misto de sapiência e ironia, comentou via rádio: "Meu caro José, desde já admiro sua inteligência. Não vou poder atendê-lo, pois tenho medo que você saia voado - se voar - por aí e caia em cima de uma casa e, eu seja chamado de irresponsável. No entanto, vou lhe presentear com um jumento andaluz. É um meio de transporte bem mais seguro. Um abraço do seu governador."


02) Chico Carvalho, assessor parlamentar da Assembléia Legislativa, testemunhou erudito papo entre o então governador José Agripino Maia e o deputado estadual Paulo de Tarso Fernandes, ambos cultos e apreciadores de óperas. José dava contas de óperas clássicas que assistira na Europa e elogiava o desempenho dos atores e a trilha sonora do espetáculo. Paulo, por sua vez, salientava que, no Brasil, em São Paulo, já estavam produzindo grandes óperas com excelente elenco de artistas. Ao lado, como que penalizado pelo nível alto do emocional tetê-à-tête, o deputado Patrício Junior atreveu-se a interromper o diálogo para destacar o sucesso retumbante das últimas composições de Roberta Miranda as quais, "só em citar me deixa todo arrepiado". E concluiu, ante os olhares estarrecidos dos intelectuais: "A nêga ta botando pra quebrar...". A conversa havia se transformado, a partir dali, em opereta bufa.


03) Nas suas andanças políticas pelo Oeste, João Faustino Ferreira Neto trouxe-me uma história de um correligionário singular do doutor. Mousinho, líder político de Alexandria. Como médico, atendia aos seus correligionários em toda parte. Um deles, foi se queixar de uma rebelde prisão de ventre. O médico receitou-lhe um laxativo pronto e eficaz. Dia seguinte, o enfezado eleitor retornou para dizer que o remédio não fizera efeito. Doutor Mousinho aviou uma receita de três potentes comprimidos afirmando-lhe que, dessa vez, daria certo. Desolado, após uma noite indormida de busca do reflexo defecatório, queixou-se: "Doutor, eu estou mesmo entupido. Tenho que ser operado". A impactação fecal do paciente era famosa na cidade.


04) Avelino Matias, certa vez, discursava calorosamente na solenidade de formatura dos concluintes do 2º grau, de sua terra, quando num arroubo estatístico, enfatizou: "Isso aqui, "dotô" João "Fostino" é que é educação. Minha "fia", por exemplo, em Natal estuda medicina na faculdade de Direito!". Foi o contraponto da oração que João não queria ouvir.


05) Corria o ano da trégua de 1978. Falava-se em armistícios e desarmamentos. Até parecia que a paz de Cristo estava com todos. Mas, verdadeiramente era a paz pública preconizada e aceita pelo então governador Tarcísio de Vasconcelos Maia. Nas ruas a eleição pra senador: Jessé Freire versus Radir Pereira. O grupo político liderado por Aluízio Alves que saía da pena cominatória da cassação, apoiava a candidatura da Arena. Período de melindres, de gestos estudados e de discrição. Instalara-se o reinado tarcisista da circunspecção. Os estilos diferenciados de Alves e Maia não tardariam a ser descobertos nos palanques. Certa noite, o comício rolava solto embalado pelas frases de efeito e a animação irreverente do famoso locutor Souza Silva, o Chico Telefone: "Alô, alô, frasqueira", "Alô Deus, tá demais, tá demais..." e por aí saudava um e outro orador da vez. Ao lado, Tarcisio Maia, em pé, sereno, compenetrado, fazia sinais parcimoniosos para o assessor João Batista Machado, a fim de se aproximar, numa simbologia aflita de S.O.S, porém prudente, sem perder a liturgia do cargo. Inclinando a cabeça, Machadinho foi todo ouvidos. "Machado, não quero ser apresentado por esse rapaz. Chame o Samuel Fernandes do Cerimonial do Palácio para me anunciar...". E assim foi feito. Ficou a lição do velho Boileau: "O estilo é o homem mesmo".

15 de Julho de 2011 às 11h36

ECOS DOS IDOS 60

Uma testemunha oculare auricular daquele tempo é o coronel Queiroz (Benedito Florêncio de Queiroz), da reserva remunerada da polícia militar. Foi ajudante de ordens do monsenhor Walfredo Gurgel durante o período que governou o Rio Grande do Norte, de 1966 a março de 1971. Conheço-o desde essa época. Os nossos contatos, apesar de escassos, se tornaram amiudados graças ao cafezinho do Natal Shopping. Fiel amigo do padre governador, relata fatos importantes dos bastidores políticos com excelente memória. Um deles, dentro do carro oficial com destino a Caicó, ouviu de Aluízio Alves que estava deixando o governo, solicitar ao governador eleito: "Monsenhor, gostaria de lhe fazer um pedido. É a indicação de Manoel de Brito para a secretaria de finanças". "Aluízio", responde o padre, "Para essa secretaria já escolhi um nome: é o doutor José Daniel Diniz, meu sobrinho afim". Aluízio não tocou mais no assunto e nem se aborreceu com Walfredo. Tempo depois, Brito foi para a casa civil.

No início do governo, Walfredo Gurgel enfrentou problemas com a nomeação do novo presidente da Fundação José Augusto. O doutor Hélio Galvão, amigo de Aluízio e que viera de sua gestão, iria ser substituído. Falanges da "Cruzada da Esperança" pediam a sua permanência. Mas, o monsenhor assumira compromisso com outro nome. Houve crise. Em meio as escaramuças, certa noite, o governador foi esperar no aeroporto o líder Aluízio Alves procedente de Brasília. Naquela fase, partida e chegada de Aluízio sempre juntava correligionários. E no momento em que os dois se cumprimentavam, uma voz passional e anônima saiu da multidão: "Aluízio, ele demitiu o doutor Hélio!!". Aluízio virou-se dirigindo-se a aglomeração: "O governador agora é o monsenhor Walfredo Gurgel". Assunto encerrado. Fez-se silêncio.

De outra feita, Natal recebeu a visita do então presidente Castelo Branco. Alojado na Base Aérea de Parnamirim, de lá, o marechal veio primeiramente à reitoria da UFRN para receber o título de "Doutor Honoris Causa" das mãos do reitor Onofre Lopes. No gabinete do reitor, onde hoje funciona o Comando do III Distrito Naval, Castelo comentou para os circunstantes, na maior simplicidade: "Eu não sei porque o professor Onofre me confere esse título porque nem formado eu sou". Risos. Convenhamos que era um tempo propício a essas coisas e Castelo era um homem de bem.

Mas, odisséia mesmo foi a construção da ponte de Igapó. Falo da primeira ponte, pois, a segunda, foi erguida no governo de Geraldo Melo. O padre governador enfrentou toda a sorte de problemas políticos e administrativos para concluir a obra tocada pela empresa Norberto Odebretch. O então ministro dos transportes Mário Andreazza sofreu todo tipo de pressão das lideranças políticas do RN que se digladiavam com a "Cruzada Esperança". Algumas vezes, a empreiteira ficava de dois a três meses sem receber os pagamentos. Finalmente, o governador concluiu e inaugurou a obra. Mas, o radicalismo havia atingido o clímax. Para a inauguração não deixaram que comparecesse nenhum ministro da área civil. Todavia, apenas dois da cota da amizade pessoal do governador estiveram presentes: o da Aeronáutica e o da Marinha. O Rio Grande do Norte ainda se dividia entre os pastoris: verde e vermelho.

Prometo retornar com mais histórias. O coronel Queiroz deseja tornar o esquecido inesquecido.

08 de Julho de 2011 às 09h01

SEGUIR JESUS

Ouço uma voz que me diz, lá dos confins do mundo, que a única lição importante é seguir Jesus. No Brasil, a força da mídia eletrônica influencia mais que a religião. Impõe vícios, deturpam costumes, derrubam códigos e mandamentos. A necessidade vital de se fazer conhecer a pessoa e a mensagem de Jesus, está suplantada pela liberalidade de decisões judiciais ao arrepio da constituição federal. O postulado institucional da família com Deus está sendo mutilado. Jesus já não constitui o melhor que temos nas igrejas e o melhor que podemos oferecer hoje à sociedade moderna. E Ele continua ainda o melhor que a humanidade já produziu. Jamais deixou de ser o potencial mais admirável de luz e de esperança que os seres humanos podem contar. Somente tenho a deplorar, que sem Ele, o horizonte da história se empobrecerá caso caia no esquecimento.

A luta que se trava no país para substituir a família constituída no casamento por um homem e uma mulher, não pode submergir na crise e na confusão dos sexos. A família brasileira sofre a hostilidade ostensiva dos desajustados sob a passividade das igrejas que não se entendem. Preferem o duelo das escaramuças dogmáticas no pretório das iniqüidades. Onde está o maior inimigo hoje da família propugnada nos ensinamentos cristãos? Quem levanta as multidões nas ruas para consagrar a sodomia, a droga e a subversão das leis e dos bons costumes? Todos sabem. Não preciso apontar. São pouquíssimos os religiosos que se levantam no púlpito para defender o seguimento fiel do legado de Jesus quando se contesta hoje nas ruas seus ensinamentos. Se as igrejas se unissem no plano das idéias e dos postulados bíblicos, tal decisão mudaria tudo. Se separadas, são fracas, litigantes elas não representam nada. Os cardeais, os arcebispos, bispos, pastores, apóstolos, sejam quais forem os títulos das denominações devem se unir, na hora premente e presente, para reencontrarem o eixo, a verdade, a razão e o caminho.

Sentados à mesa, devem ficar, iguais a Jesus quando instituiu na santa ceia a eucaristia. Com o exemplo oferecerão ao país e ao mundo um conteúdo realístico de adesão a Deus. É possível a unicidade: segui-lo por caminhos eclesiásticos diversos. Os aspectos e matizes do serviço a Jesus Cristo para o reino de Deus, é único e básico para todos. Neste momento crucial, em que periga a fé - com tendência a piorar - é imperativo assumir sua defesa. Seguir Jesus, defende-lo, significa eliminar a descriminação. Fazer nosso, do cristianismo - sem barreiras fronteiriças - o seu projeto integrador e includente de construção de pontes, sem conviver com mentalidade de seitas. Dos congressistas brasileiros, pouco ou quase nada se deve esperar. O papel de postular, de rebater, de se contrapor ao ilícito, cabe mesmo as igrejas que professam e crêem no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Se são três numa só pessoa, porque não uma vintena de igrejas num só ideal, sem perda da contextura de cada uma, no instante em que as luzes do mundo novo tendem a se apagar.

O propósito fundamental desse texto é sugerir uma reflexão um caminho pelo qual as igrejas cristãs possam inaugurar os primeiros passos em direção ao mistério da aproximação histórica, por mais difíceis que sejam os obstáculos. Comunidade cristã nenhuma pode ser empresa, nem exercitar-se como tal. No plano das idéias e dos postulados cristãos quando ameaçados, é possível a união em torno da mensagem do Mestre. Jesus amparou pecadores, de todo gênero, publicanos, eunucos e prostitutas, sem discriminar ninguém. Instruiu aos seguidores para que fizessem o mesmo. Quando se trata de desrespeito a Bíblia e as leis vigentes no país, as igrejas devem se fortalecer, advogar fielmente os propósitos das Escrituras. Hoje, correntes sociais se organizam, invadem, depredam, tudo para defender reivindicações políticas, futebolísticas, culturais, comportamentais, profissionais e sexuais, etc. Mas, não é crime agredir a Deus, difama-lo publicamente. Tudo cai na vala comum do direito ou opção individual de cada ser. Agridam Maomé, no mundo mulçumano, pra verem a reação? Apesar das diferenças de raça, culto, civilização e raízes culturais. O respeito às instituições valem mais. Jesus em Mateus: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo. Porque o meu jugo é suave e meu fardo é leve" (Capítulo 11, versículos 28, 29 e 30).

01 de Julho de 2011 às 11h31

FLAGAS DA VIDA COMUM

01) Nos anos de chumbo, a coisa ficou preta também no Seridó. A repressão e o medo eram explícitos. João da cigarreira recebia os jornais da capital, e com o auxílio de Zé Pretinho, o gazeteiro, distribuía pela cidade. O Exército através do 1º batalhão de engenharia, "cuidava da revisão". Como Zé Pretinho saía pelas ruas gritando as manchetes, ficou resolvido que o vendedor passaria pela sala de um oficial e esse grifaria o que ele não poderia gritar como chamariz de vendas. O jornaleiro ficou triste e a vendagem caía a cada dia. Certa manhã, ia Zé Pretinho cumprir a missão, porém triste e cabisbaixo, sem anunciar nada de impacto. Um leitor contumaz perguntou: "E hoje, Zé? O que tem de novo?". O gazeteiro respondeu: "Tá tudo vendido pro Batalhão!! Mas, na paz, por livre e espontânea pressão".

02) No Apodi dos anos quarenta, havia um velho delegado, o sargento Djalma Silveira, que, graças ao seu tipo avantajado, era conhecido por Djalmão. Naquelas paragens, Djalmão era juiz e júri. Arbitrário e violento, o "sarja" fazia a lei como bem entendia. Certo dia, chegaram com um sujeito manietado e disseram: "Seu Djalmão, esse aí "buliu" com uma velhinha e a neta. Pelo estrago, era bom que o senhor explorasse o "fiofó" dele!". Djalmão, logo respondeu: "Tá bom. Bota ele aí no xadrez". Chegou outro que roubava galinhas. Pediram que lhe cortasse os dedos das mãos. "Tá bom. Bota no xadrez!", outra resposta. Meia noite, era a "hora da justiça" de Djalmão. Na hora do sapeca ai, ai e sabendo do sadismo do delegado e com medo de ser levado por engano, o estuprador logo se adiantou: "Sargento! Eu sou aquele do "fiofó!" Tem brilhantina aí? Pode fazer a fila".

03) O advogado Gilberto Targino conta como é ruim, muitas vezes, a vida das travessias processuais. Seu tio contou-lhe, que certo sujeito estava à beira da falência, abarrotado de dívidas. Muito cedo o endividado refletiu: "Tenho que procurar um bom advogado". Na tarde seguinte, alguns acordos já haviam sido elaborados, processos arquivados, SPC, Serasa, etc., tudo livre e liberado. O cliente estava liberto das dívidas e das dúvidas. À noite, o ex-endividado, na área de sua casa, cabeça fria, relendo alguns papéis, deduziu preterdolosamente: "Que advogado sacana, numa semana ele me levou três mil contos?!". É isso ai...

04) Nos anos sessenta, não havia Ciosp, Bope, Patamo, nem Rádio Patrulha em Mossoró. O velho "xerife", tenente Clodoaldo, fazia a ronda na cidade, no velho jeep, que sequer tinha capota. Assim fazia valer a lei e a ordem. Uma noite, ao chegar em casa, mal tirou os sapatos, o telefone tocou. Mal humorado atendeu: "Quem é? Diga!". Uma voz feminina, nervosa, sussurrou: "Tenente Clodoaldo, eu sou Amélia, esposa do Nascimento Brabo! Ele não está em casa e um ladrão arrombou uma janela, e tá aqui comigo!". Clodoaldo tirando o charuto da boca sugeriu quase aos berros: "A senhora disse: "o cabra tá aqui comigo!" Você tem é muita coragem. E se o seu marido chegar?". Desligou. Mal entendido.

05) Diante das dificuldades e acúmulos, as paróquias "importavam" vigários. Por esse motivo, o padre francês Pierre Lonigno, veio dar com os coitados no Rio Grande do Norte. Bonitão, comunicativo, padre Pierre logo criou um grupo de irmãs de "Marilac", formado por coroas carolas, lá em Areia Branca. Passado algum tempo, uma das moças procurou o vigário e falou: "Padre, a minha amiga Lucy, me confidenciou que nove noites rezou um Pai Nosso, tomando um copo d'água fria de madrugada e ficou grávida. Eu queria que o senhor me ensinasse essa simpatia. Também quero engravidar!". Pierre Lonigno, com um português meio afrancesado aconselhou: "Minha "filia", não foi "Pai Nosso" não! Foi "Padre Nosso"! Mas eu já estou de viagem marcada. Não dá mais tempo para "orientacion".

24 de Junho de 2011 às 18h43

RECEITUÁRIOS

01) Anos sessenta. Às 23 horas desligavam o "motor da luz" e, Assu ficava sob a luz das estrelas. Era assim em quase todo o Rio Grande do Norte. Chico Coró havia sido nomeado guarda noturno responsável pela segurança da praça Getúlio Vargas. Convertido ao evangelho, Chico varava o serviço cantando hinos e louvores. Certa noite, Valter Sá Leitão - a irreverência em pessoa - e, às escuras, cobriu-se com um lençol branco, à espera do guarda debaixo de um pé de fícus. Apareceu de repente e de braços abertos. O pobre Chico espantou-se: "Só pode ser uma benção! Diz, minha alma, qual a tua mensagem para este mundo de perdição". A aparição nada dizia. "Fala, alma bendita", repitiu Chico Coró, "amanhã vou dar meu testemunho na igreja. O que queres de mim?". Vendo que a assombração não metia medo ao religioso homem, apelou para a ignorância: "Eu quero o seu c...". "Dou-te figa, alma sebosa", desembuchou Chico Coró, "eu vou é moer você no cacetete, alma sem-vergonha!!!". Valter vendo que "o pau ia comer", jogou o lençol fora e saiu em desabalada carreira perdendo-se dentro da noite.

02) Em Augusto Severo, antigo Campo Grande, Valmir Targino conversava amenidades com uns amigos, quando entrou o assunto: inverno. A época chuvosa estava demorando e Valmir já se preocupava com o seu rebanho. "E aí compadre", disse a um amigo agricultor, "o inverno vem ou não?". "Compadre Valmir, minha esperança vai até o dia de São José." O deputado, cético que era, refutou: "Que José que nada. Zé não ligava nem pra casa dele... Vai ligar pro meu gado com sede!". O velho sertanejo fez o sinal-da-cruz e saiu de perto. Um mês depois, o inverno pegou pra valer enchendo barreiros e açudes. Mais de cinco postes na propriedade de Valmir foram parar dentro do rio. O ex-deputado encontrando o sertanejo, suplicou: "Compadre Simião, eu já pedi desculpas a São José. Agora peça por mim, que a sua fé é maior que a minha malcriação."

03) Numa reunião presidida pelo deputado Vingt Rosado, em Mossoró, vários nomes se lançavam à vereança, outros se apresentavam apenas como lideranças comunitárias. O líder a todos recebia com cordialidade. No grupo havia um elemento recém-chegado, muito petulante e boçal que já se dizia eleito. O deputado não acreditava em fanfarrões. O sujeito chegou questionando o sistema. Vingt dizia: "Calma, doutor, não é por aí". O sujeito teimava: "Mas, deputado, era bom que fosse assim". "Calma, doutor", respondia o parlamentar. Terminada a reunião, um amigo chegou junto: "Deputado, nunca vi o senhor tão calmo. Esse sujeito não é doutor coisa nenhuma. O senhor o chamou assim várias vezes?". Vingt respondeu didaticamente: "Meu filho, quando você presenciar eu chamar um cara de doutor, e todo mundo sabendo que ele não é, eu estou me contendo para não chamá-lo de f.d.p e mandar sair de perto de mim". Aula gratuita encerrada.

04) Até a década de 1960, Mossoró contava em sua periferia com o rezador e "fabricante de garrafas" Antônio Carabodé. O velho Carabodé fabricava preparados de raízes as mais variadas para todo tipo de dor. Certa vez, o agricultor Joaquim Ribeiro, 85 anos de trabalho árduo, foi acometido de enfermidade gravíssima. Depois de muito gastar com médicos e remédios sem ver melhoras, um filho do velho procurou Antônio Carabodé. Depois de visitar o doente, o curandeiro revelou: "Tenho lá em casa um santo remédio. Chama-se: Pinochape Chibebá. É bater e ver o resultado", finalizou. O rapaz foi à farmácia do Carabodé e voltou rápido com o "santo" medicamento. De chegada, duas colheres de sopa, repetindo-se a dose de duas em duas horas, era a receita. Na manhã seguinte, o filho de Joaquim procurou o falso médico. "Seu Antônio", disse, "papai morreu pela madrugada. Só tomou umas seis colheres do remédio". "Seu Joaquim morreu?", interrogou Carabodé admirado. "Mas eu lhe digo que ele morreu muito melhorado. Ontem ele tava tão mole...".

17 de Junho de 2011 às 14h41

BATO OUTRA VEZ

O rio Jundiaí, no trecho em que atravessa a cidade de Macaíba, perdeu o solo, o curso, o chão, o cheiro, a visão e é ameaça o bem-estar dos habitantes. Entre o parque governador José Varela e a praça Antônio de Melo Siqueira deixaram crescer no leito poluído imensos manguezais que enfeiam um dos mais bonitos logradouros urbanos. Essa selva esconde lixo doméstico, carcaças de animais, marginais do tráfico de drogas em todo o seu percurso e os galhos já ultrapassam a altura da ponte e das balaustradas. A Tribuna do Norte publicou anteriormente, excelente matéria sobre tudo que ameaça e destrói os rios Potengi e Jundiaí. Mas, o foco da minha questão e, creio, dos cidadãos macaibenses, reside exatamente neste aluvião de perguntas: por que o Idema e o Ibama não evitam, aparando, podando, somente nesse trajeto o "matagal" entre o antigo cais do porto até a outra lateral da ponte? Por que não licenciam a prefeitura para faze-lo? Não tem nada a ver com agressão ao meio ambiente? Tem? Tem não.

A praça e o parque perderam o charme de antigamente. Ninguém enxerga ninguém, olhando de um lado para o outro. A conscientização ambiental deve ser obedecida até onde não prejudique a funcionalidade urbanística e o senso prático e plástico do mapa citadino. Desde quando, em 1950, se planejou e se construiu a estrutura de pedra e cal das duas margens, o choque do progresso jamais prejudicou a superfície do rio. Nem, tão pouco, o molestaram, a expansão e o desafio do crescimento habitacional. Pelo contrário, as balaustradas de proteção ordenaram a trajetória das águas e defendeu as ruas periféricas contendo os transbordamentos das enchentes. Contemplo, hoje, que os problemas das inundações estão equacionadas com a construção da barragem de Tabatinga. Por que o Idema e o Ibama, tão preocupados com o meio ambiente, não permitem, apenas, nesse, pequeníssimo trajeto fluvial o corte da poluição visual da paisagem urbana e memorial de Macaíba?

Ali, a vegetação gigantesca e desproporcional encobre um dos pontos históricos do município. Refiro-me ao cais das antigas lanchas que faziam o percurso fluvial entre Macaíba e Natal: a lancha do mestre Antonio, o barco de João Lau, além da lancha "Julita" que transportou tantas vezes Tavares de Lyra, Eloy, Auta e Henrique Castriciano de Souza, Augusto Severo, Alberto Maranhão, João Chaves, Octacílio Alecrim e tantas outras figuras notáveis da vida social, cultural, política e econômica. Todos se destacaram nos planos estadual, nacional e internacional. Ali, o centenário cais, jaz sob os escombros de verdes balizas envergadas e fantasmagóricas. A visão noturna é tétrica e arrepiante. Desfigura e mutila os padrões estéticos do planejamento da urbe que a faz parecer abandonada e suja. Até a lua cheia que nasce lá por trás do Ferreiro Torto foi encoberta. A turma do "Sempre-Macaíba" e da nossa Academia de Letras convidam o pessoal do Idema para uma visita à noite ao tétrico ambiente para assistir um filme de terror.

Assim como se deve obedecer a educação ambiental, do mesmo modo, exige-se o tratamento e o corte do matagal por parte dos órgãos públicos responsáveis a fim de evitar o represamento do lixo no leito, exclusivamente urbano. Nas capitais e cidades importantes do Brasil banhadas por rios não se vê tratamento tão displicente e indiferente da parte dos setores responsáveis. Sei que a prefeita de Macaíba, já postulou a solução do assunto. Mas, deve insistir. Ao redimensioná-lo neste texto, cabe aos institutos prefalados uma reflexão, um reestudo sobre o cenário dantesco do rio Jundiaí na parte descrita. O povo macaibense tem o direito de ouvir e a coragem de duvidar que essa selva fantasmagórica que devora e perturba a todos seja explicada e resolvida, sem slogans, clichês, palavras de ordem, lugares comuns, peças de marketing ou princípios dogmáticos. Que venha à lume as boas intenções e que não fique Macaíba submersa na má fama da poluição de manguezais. Porisso, bato outra vez, tal qual Cartola, com esperança no endurecido coração do Ministério Público. Há dez anos nada mudou: o rio Jundiaí continua punido.

10 de Junho de 2011 às 12h14

DE TREVO A TREVO, MAIS UMA VEZ ME ATREVO

Devagar, como compete aos penitentes, vou soprando minha flauta aos ouvidos das autoridades. Esse prelúdio indefectível diz respeito ao Centro Industrial Avançado - CIA. Continuo sendo o fantasma dos seus mistérios circundantes. Aqui e acolá apareço que nem visagem pedindo e lembrando. Vamos ao assunto. Partindo de Natal a BR-101 vem duplicada e iluminada enrolando a curva no trevo de Parnamirim. Nessa bifurcação a estrada que segue à direita para Macaíba chama-se BR-304. Na sua extensão implanta-se paulatinamente o Centro Industrial Avançado (CIA), obra estadual.

São dez quilômetros do trevo de primeiro mundo de Parnamirim até o trevo mixuruca de Macaíba. Trata-se de um trecho no qual estão sendo investidos milhões de dólares representados nos investimentos de mais de trinta empresas. Somadas, essas indústrias irão oferecer nos próximos anos mais de dez mil empregos diretos. O fluxo, hoje, de veículos, segundo as pesquisas do DNIT já é preocupante. E irá, com certeza, ficar congestionado quando o CIA atingir a plenitude do funcionamento, com o tráfego permanente de coletivos e caminhões pesados. E qual a solução pretendida em  prosa, oração e verso: a  iluminação do canteiro central da BR-304, de trevo a trevo, de pólo a pólo. Semana passada, diretores das fábricas queixavam-se de que, à noite, os ônibus não estavam mais parando para os operários, aumentando o perigo de todos que trabalham ao longo do trecho. Mais aí vem a interrogação irreprimível: a quem compete iluminar a BR-304 nesse trecho? Para ser pontual respondo: o governo do estado, cuja reivindicação já completou dez anos. Mas, acima de tudo, é preciso o impulso, a sensibilidade e a vontade política de alavancar o projeto e buscar a decisão de executá-lo, igual a Rota do Sol que liga Natal a Pirangi.

Gostaria de pedir, como cidadão e eleitor, que o DNIT e o DER informassem algo a respeito. Uma obra dessa importância, com tantos usuários se perguntando a cada dia (o que está acontecendo?) não pode ficar sem justificativas, até mesmo as óbvias. A BR-304 serve de escoamento de quem vem das regiões do Seridó, do oeste do Rio Grande do Norte e do Ceará, bem assim para quem vai ou vem da Paraíba, Pernambuco, além do litoral agreste do estado.  As prefeituras, as câmaras de Parnamirim e Macaíba, os deputados federais e estaduais que representam os dois municípios devem se pronunciar, suscitar questionamentos, como também as associações de classe, setores do comércio e do próprio CIA. Calar é consentir com a inércia e o abandono.

Tenho certeza e confio na nova administração que assumiu os destinos do Rio Grande do Norte que despertará para o problema. Não é tão difícil o enfrentamento. A governadora sempre encarou desafios, embora saiba-se a situação que hoje as finanças públicas atravessam.

Não, não estou sendo visionário apesar de ter falado, no início, em fantasmas. Isso porque, tanto na política quanto na gestão pública, é preciso acreditar no invisível para não incorrer nos equívocos dos que se suicidaram no palpável. Sonhar é necessário até mesmo sozinho porque o sonho é contagiante. Virótico. De trevo a trevo. De pólo a pólo. Uma avenida iluminada de dez quilômetros na BR-304 para salvar os operários e usuários dos assaltos e da morte. E, ainda, incentivar a economia. É um grito, um clamor. Apenasmente. O tempo urge. Que alguém sonhe também esse sonho por mim.

03 de Junho de 2011 às 11h59

DESORDEM AMBIENTAL

Feio é o leito do meu rio. O Jundiaí. Negro e ácido como a valeta onde mijava o sudorético Taperoá. Era o rio do sol nascente e da maré cheia. A lua nascia imensa tão rente às águas que dava para carregar no bote do mestre João Lau. Com a lua cheia chegavam notícias antigas de morticínios coloniais lá pelas bandas do Ferreiro Torto. Da donzela que engravidara de Sotero, o preto feitor do pelourinho. De corpos mutilados comidos por siris esfomeados nas mangabeiras. Tudo funcionava como se fosse o jornal vespertino do tempo, daqueles dias e noites de assombrações e mistérios profundos. O rio era límpido e líquido até o advento do óleo, do óleo Benedito, da borra de sabão, do sabão da ganância, do lucro fácil e fóssil.

Mataram o rio de antigamente. Aí Macaíba passou a feder 24 horas por dia. O leito poluído do Jundiaí exalava odor cadavérico. De cima da ponte o padre Alcides Pereira, recém-falecido, ministrou extrema-unção benzendo-o com água benta da aurora. Do cais, seu Mesquita fez o discurso mais inflamado. Transcorriam os anos sessenta. Não havia ainda Ibama, Idema, Eugênio Cunha, Covisa e ecologistas de plantão. As agressões à natureza eram perpertradas sem anestesia. Época da queda da casa onde nasceram Auta de Souza e Henrique Castriciano. Período em que foram derrubados os antigos prédios centenários da Intendência na praça Augusto Severo e da ex-cadeia pública da rua Francisco da Cruz. Fase destrutiva e tenebrosa. Por terra e água. Caça às bruxas. Parecia que a nova ordem política instalada se descompromissava com o passado histórico e o meio ambiente da cidade invadida. A lei era o desrespeito sob o império de um falso modelo industrial. Familiar. Dominador. Político. Oficial.

A decadência de um povo ou de uma cidade pode ser a poluição do seu rio. A pesca - o sustento de centenas de famílias, a navegabilidade (antigamente todo o comércio com Natal era efetuado pelo rio Jundiaí) e a saúde da população são rudimentos de qualquer núcleo de civilização. Os nativos cuidavam melhor dos seus mananciais que os invasores europeus, ambiciosos predadores da natureza. Assim aconteceu com a Macaíba de seu Mesquita, lá pelos idos de sessenta, quando os hunos passaram por ali.

Hoje, a história se repete. O rio virou foco de dengue e faz adoecer a população. Quem pescar e comer caranguejo, siri e goiamum de suas águas putrefatas morre sem direito a liminar do medicamento. Até a metade dos anos cinqüenta tomei banho no cais do porto, com Campina, Prego, Xixico, Toinho Chimba, Silvan, Chico Cobra, Edílson, Foreca, Batista Pinheiro, Tasso Cordeiro e tantos outros.

Era a "maloca querida". Todos pobres, meninos e pastoradores de auroras boreais.

Hoje, o Idema e o Ibama cultivam pestilento e pantanoso plantaram manguezal fedorento no leito nobre do rio, do cais histórico até a ponte de setent'anos  para represar bosta e carcaças de animais, punindo de novo o Jundiaí que virou túmulo dos melhores dias e dos bons tempos. Por favor, retirem do tradicional cais à ponte, esse lixo que denigre a memória urbanística da cidade.


JM