Ano XIII | Edição 757 | 27 de Junho de 2017
Públio José

Públio José

publiojose@gmail.com

22 de Maio de 2015 às 12h25

VAI UM PAPO SOBRE JESUS?

Eu gosto muito de Jesus Cristo. E quem não gosta? Mas você já observou que qualquer pessoa que tenta falar a respeito de Jesus é logo interrompida com uma observação do tipo “olha, nesse papo de religião eu não entro. Tenho minha religião e respeito a dos outros; prefiro conversar sobre outro assunto”. Aí desanda a falar mal da vida alheia, de futilidades e vaidades. Já faz algum tempo, comecei a ficar invocado a respeito desse preconceito absurdo. As pessoas conversam sobre tudo. Os vinhos da moda, os uísques da moda, a roupa da moda, o escritor da moda, o time da moda, o filme da moda, a novela da moda. Isso no caso de pessoas de inteligência mediana. Porque os ditos cultos, eruditos, conversam a maior parte do tempo sobre Marx, Engels, Eco, Hemingway, Machado, Trotsky, Danton, Drumond, Sócrates, Lenin, Cony, Almodóvar, Guevara, Buarque, Amado, Wharol e tantas outras personalidades que fazem e fizeram história.

Falar sobre Jesus, ao que parece, causa desconforto. Por quê? As dondocas bocejam, os analfabetos ou pouco letrados o ignoram e os eruditos têm sempre algo mais importante a tratar. “Jesus é religião e isso é coisa de gente ignorante”; ou “religião é o ópio do povo”; ou ainda “esse é um papo careta, quadrado”; e por aí vai. Eu tenho estudado sobre Jesus na Bíblia e tenho descoberto coisas incríveis, importantes. E muita sabedoria. Primeiramente: Jesus não é religião. Em nenhum de seus discursos ele tocou nesse assunto. Então, porque acusá-lo de um fundamento que ele não plantou? Acredito que isso ocorre por dois motivos: por desconhecimento a respeito da essência do seu discurso e para nivelá-lo aos fundadores de religiões. Pois é, existe uma vontade enorme de colocar Jesus no mesmo patamar de homens famosos como Kardec, Buda, Maomé, Ghandy e outros mais ou menos votados. Com que propósito se Jesus é Deus?

Em segundo lugar aprendi que as religiões nos oferecem um céu futuro, após a morte. Ou seja, você tem que penar aqui na terra e achar bom para, após a morte, ser premiado com uma vida celestial. Até que não é mal este conceito. Mas Jesus nos oferece algo muito melhor. Ele assegura agora uma vida bem aventurada, de paz abundante, de amor, alegria, perdão e até de prosperidade material – aos que crêem, é claro! É ou não é diferente? Sendo assim, porque as pessoas têm receio, inibição, de conhecer Jesus mais profundamente? De garimpar conhecimentos que lhes assegurem a vida que Ele prometeu? Afinal, porque Jesus tanto incomoda? Porque modifica, restaura, transforma. E as pessoas normalmente não querem isso. Elas têm o receio de perder o controle de si mesmas, seus manuais de poder, seu desejo de fazer, de dominar, de controlar sua vida e a dos outros. E também porque – à primeira vista – não entendem.

E porque não buscam entender? O que tanto lhes impede? Há nas pessoas um receio enorme de sair da rotina, de se reposicionar na vida. Jesus – ao contrário - é transformação e renovação permanentes. Observe um tanque com água. Se a água não for renovada ela apodrece. Da mesma forma, se sua vida, seu intelecto, não se renovar, o que dele vai restar? Saia dessa posição de imobilismo e inflexibilidade. Procure conhecer melhor o seu lado espiritual. Dê chance a Jesus de fazer na sua vida o que fez na vida do cego de Jericó, dos leprosos, do paralítico, de Maria, Pedro, Paulo, Tiago, João, da prostituta, do ladrão, do fariseu, de Zaqueu, Mateus, e de outros que, já nos dias atuais, deixaram para trás o que estava arraigado, estabelecido, e se direcionaram na busca de um novo e melhor projeto de vida. Concretizando algo realmente original e diferente que só Jesus sabe e tem para dar. A experiência é maravilhosa. Vamos vivenciar? 

15 de Maio de 2015 às 13h54

FUTEBOLISMO POLÍTICO

 É desestimulante, de uns tempos pra cá, assistir-se a uma partida de futebol no Brasil. É claro que no campo o que se joga é futebol – ou algo parecido; é claro que no campo todos os elementos têm ligações com o tal esporte bretão. Lá estão o estádio, as torcidas, os atletas, os juízes, os dirigentes... Mas futebol mesmo é mercadoria difícil de se achar. E um dos fatores a contribuir para esse desencanto é o relacionamento dentro de campo entre jogadores e juizes. No Brasil, o que se passa nos estádios é digno de estudo para psicólogos, psiquiatras e neurologistas – e de outros profissionais ligados ao comportamento mental das pessoas. Em campo, além do pouco futebol, o que se vê é um repetitivo festival de histeria dos atletas a tudo que o juiz apita. Se é um lateral o xingamento logo se faz presente; se é um impedimento do mesmo jeito. E raro, muito raro presenciar-se um gesto de educação, de civilidade.

Agressões físicas e verbais, faltas maldosas, malandragens explícitas, simulações desavergonhadas – e nunca, nunca mesmo, os jogadores aceitam a punição. Sempre tem aquela rebeldia chata, aquela indisciplina tristemente já esperada. Ou os tais – sem exceção – fazem parte de um quadro patológico além da compreensão ou são instruídos pelos técnicos e dirigentes a agirem como irracionais. Na marcação de um falta correm todos pro juiz como se ele fosse voltar atrás da decisão; na marcação de um pênalti é um deus nos acuda; no caso de uma expulsão a reação é bem pior, chegando muitas vezes a agressão física. Técnicos e dirigentes também não ficam atrás. Vociferam, xingam, jogam a culpa em tudo e em todos – menos no faltoso. E quem pensa que tal cenário está circunscrito aos campos de futebol está redondamente enganado. É só olhar para o universo político que a realidade é a mesma.

Quando funcionários de governos, altos dirigentes de partidos e parlamentares são flagrados roubando descaradamente, logo aparecem superiores hierárquicos para colocar culpa em tudo – menos nos larápios. E, como no futebol, logo sobram acusações para o Judiciário, para os adversários, para a imprensa – menos para os faltosos. No caso específico dos ladrões do atual governo, e dos corruptos do partido petista, o argumento é sempre o mesmo: o mensalão – apesar de fartamente comprovado – foi invenção das elites, da mídia golpista, da direita reacionária. Já a corrupção da Petrobras é invenção de quem quer acabar com a empresa; da direita revanchista; dos que não aceitam a eleição de um operário à Presidência da República – nunca dos corruptos. E o caso da Petrobras é exemplar. Simples. Nela, jamais houve alguém com tanta influência como a Dilma Rousseff.

Como Ministra de Minas e Energia, como Ministra Chefe da Casa Civil (período no qual foi também Presidente do seu Conselho de Administração) e depois como Presidente da República. É público e notório que ela mandava, mandava e mandava na empresa. E não somente na Petrobrás, mas em tudo que diz respeito ao setor petrolífero brasileiro. E o que se observa? Para o governo, ao contrário de toda lógica, Dilma de nada sabia a respeito do escândalo que devasta a Petrobras – e, por extensão, a toda economia brasileira. Quanta inocência! Também dela não se tem um pedido de desculpa, nenhum reconhecimento ao prejuízo causado aos brasileiros, aos contribuintes, aos acionistas. Nada. No futebol, embora pressionado, de vez em quando o juiz expulsa um de campo. Já no caso de Dilma, ela vem dando botinadas pra todo lado e nada lhe acontece. Cadê o juiz? Cadê o apito? Prrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!! 

17 de Abril de 2015 às 11h55

A MENSAGEM DA CRUZ

Todos sabem que Jesus Cristo morreu crucificado. Muitos conhecem particularidades e minúcias da vida que viveu entre nós. Alguns até defendem teses tecendo mil comentários a respeito do fenômeno que foi Cristo. Em todos os momentos, principalmente no período da Semana Santa, a humanidade, quase por inteiro, celebra a sua morte. Encenações teatrais, filmes, reuniões, retiros, conferências - enfim, os eventos mais diversos marcam a paixão, a vida, o ministério e a morte do homem que dividiu o tempo do mundo em dois tempos: antes e depois Dele. Mas, nesse momento de tanto emocionalismo, de tanta comoção, algumas perguntas necessitam ser feitas: o que o sacrifício de Jesus na cruz representa para nós? O conhecimento do gesto de Jesus na cruz traz alguma diferença no nosso dia-a-dia?  A morte de Jesus nos fez pessoas diferentes ou continuamos os mesmos?

A questão vital é se tomar conhecimento de que nada do que Jesus fez foi gratuito. O menor dos seus gestos teve uma significação especial. E o evento no Monte do Calvário, com sua crucificação, morte e ressurreição, foi o fato mais extraordinário já acontecido até hoje na história do homem. Aliás, Jesus só rivaliza com ele próprio. Pois outro acontecimento que pode se ombrear em magnitude à sua morte e ressurreição é o seu nascimento, único até hoje ocorrido nas condições especiais em que ocorreu. Mas hoje o assunto é a sua morte; do nascimento de Jesus cuidaremos outro dia. O relato sobre como tudo se passou recai na leitura do livro de Lucas, capítulo 23, a partir do versículo 33. Ali, após ser crucificado, Jesus profere uma das sentenças de maior significado prático para as nossas vidas, ao dizer "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".

Nunca, jamais - e em nenhum outro momento da história humana - alguém manteve tamanha lucidez diante de uma realidade de tanto desconforto físico e tanta dor espiritual. Rejeitado, traído, cuspido, execrado, Jesus exalou amor até os minutos finais de sua vida. A humanidade O matava, porém Ele intercedia junto ao Pai em favor dos homens. Este gesto de Cristo deve ser seguido, praticado em todos os momentos de nossa vida. Afinal, se não perdoarmos a quem nos magoa, terminamos por transformar em acontecimento inútil o sacrifício de Jesus na cruz. Esta é, portanto, a primeira mensagem que Jesus nos envia da cruz - daqueles dias até os dias de hoje: o perdoar em qualquer circunstância. Pelo seu gesto, o perdão é uma condicionante fundamental para um viver cristão, para todos aqueles que se dizem seguidores de suas ideias e detentores de seu legado espiritual.

Passemos agora ao versículo 46, do mesmo capítulo 33 de Lucas. Ainda na cruz, já exalando seus últimos minutos de vida, Jesus faz uma confissão surpreendente - naquelas circunstâncias - de fidelidade incondicional ao Pai, dizendo: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". O que é o espírito? A vida, a nossa essência, o nosso eu. Com a sua exclamação, Jesus queria dizer que o seu espírito, a sua essência Ele só entregaria ao Pai - e a mais ninguém. O que isso significa? Comunhão total, absoluta com Deus, apesar do extremo sofrimento que estava enfrentando. Com seu gesto, Jesus nos remete à segunda mensagem da cruz: mantermos a comunhão com Deus em qualquer situação, mesmo nos momentos mais dolorosos. 

Será que é fácil? Não, não é. Daí a necessidade de não apagarmos da mente o cenário da cruz, local onde Jesus praticou comunhão e fidelidade a Deus em condições extremamente adversas.

Ao lado de Jesus dois homens também foram crucificados, conforme o mesmo Lucas capítulo 33, versículo 43. Numa delas, um homem ruma para a morte. De repente, de forma surpreendente, se volta para Jesus: "Mestre, lembra-te de mim quando entrares no teu reino". Momento terrível para ele descobrir que Jesus era mestre, um título nobilíssimo naquele tempo, e proprietário de um reino. Noutra cruz, o Filho de Deus, também nas piores condições físicas, se volta para ele: "Filho, ainda hoje estarás comigo no paraíso". Estranho momento para chamar um marginal de filho e lhe garantir a salvação, não é verdade? Aí está, então, a terceira mensagem da cruz: ao nos voltarmos para Jesus - seja qual for a circunstância - Ele nos garante a salvação, a morada com Ele no paraíso! Portanto, sem a aceitação e vivência dessas três mensagens, de que serve, para nós, o sacrifício de Jesus? Perdão, comunhão e salvação - a verdadeira essência da cruz. Vamos vivê-la? 

 

10 de Abril de 2015 às 15h38

O ABSURDO DA UNIFICAÇÃO DAS ELEIÇÕES

Toma corpo Brasil a fora a ideia absurda da unificação das eleições. E, o que é pior, em um momento como esse, no qual - repleto de dificuldades de toda ordem - o Brasil enfrenta um tempo de escuridão política, marcado pela ausência de mentes lastreadas ética e moralmente para a discussão dos temas que envolvem a vida nacional. É exatamente numa pedreira dessas que se observa prosperar um projeto de consequências tão desastrosas. Do ponto de vista da argumentação, pelo menos até o presente momento, nenhuma das cabeças que defendem as tais eleições unificadas conseguiu ultrapassar o terreno da mediocridade retórica e da pobreza política. Ora, analise-se uma das colocação que fazem os tais: de que as eleições de dois em dois anos estão se tornando caras demais para o Brasil. Pelas barbas do profeta!!!!!!, como diria aquele narrador esportivo. E, por acaso, o processo eleitoral é o culpado disso?

O culpado, além dos homens de mente corrompida, e sem estatura moral para se fazer presente à qualquer tipo de disputa, é o sistema eleitoral corruptor e caro em si mesmo. Culpada é a Justiça Eleitoral que demora até dez anos para julgar as questões que emergem da disputa eleitoral - um atraso que só incentiva a transgressão e a impunidade. Além do mais, ao invés de se celebrar um processo democrático que se renova e se fortalece a cada dois anos, joga-se no colo do processo eleitoral o custo das eleições no Brasil. Que, além de caras, reconheçamos, carregam penduricalhos esdrúxulos, como as coligações partidárias e o famigerado coeficiente eleitoral. Por acaso, esses tais, que defendem a unificação, já pararam para analisar o verdadeiro caldeirão de safadezas e malfeitos que se apoderou do processo político brasileiro por conta das coligações partidárias? É quase certo, certíssimo, não chegaram a tanto.

Outro perigo que ronda as eleições é a mania de se promover a extinção pura e simples das instituições, ao invés de se condenar os malfeitores que nelas se instalaram. Lembram-se da Sudene? Envolvida na onda da corrupção, viu-se tragada pelo torvelinho da extinção porque, aos olhos dos dirigentes, era mais fácil passar-lhe a régua do que condenar quem lhe raspara o cofre. Vê-se, assim, que o negócio é matar o animal ao invés de curar-lhe a doença. E a história de que há eleições demais? No parlamentarismo, eleições podem ocorrer de seis em seis meses, de ano em ano. Basta que o Parlamento aprove um voto de desconfiança que o governo cai e novas eleições são convocadas. Na Alemanha, no Japão, paises de democracia sedimentada, de eleições parlamentares de quatro em quatro anos, já houve casos de eleições sucessivas em curtos períodos pela busca de solu-ções governamentais - à luz da democracia.

Enquanto isso, no Brasil, onde a democracia tem pouco mais de três décadas, debiloides de plantão diagnosticam que o país tem eleições em demasia. É de lascar! Na verdade, o que o Brasil precisa é de uma análise séria, profunda, em seu sistema eleitoral que desague numa reforma política com início, meio e fim. E com uma Justiça Eleitoral ágil, um Ministério Público ainda mais atuante - e uma legislação que puna com rigor quem incorrer em malfeitos. Porém, caso venha a unificação (Deus nos livre!), como ficará o debate numa disputa na qual o eleitor terá de optar de vereador a presidente da república? 

 

20 de Março de 2015 às 12h16

QUE SAFRA!

Parafraseando um certo líder latino-americano, nunca nesta região se viu uma safra tão ruim de governantes e lideranças políticas. Até onde alcança o olhar do analista político (livre e desembaraçado de qualquer ideologia, ressalte-se) o cenário é desolador. Particularmente, desconheço outro período da história tão árido e carente da presença de lideranças ajuizadas como o que atravessa atualmente a América Latina. No Brasil, a catraca do desenvolvimento - agente catalizador para a conquista de um razoável padrão de crescimento - está rodando para trás há bastante tempo. A Venezuela, por sua vez, já cansou a plateia, tanto interna quanto externa, de tanto causar vexames. No país a crônica da insensatez chegou a tal ponto que o prato de rotina do venezuelano é a insuportável escassez de tudo - seus moradores já encontram dificuldades até para adquirir papel higiênico. Já pensou?

Na Argentina, a treslouquice de seus mandatários tirou o país do patamar, a até poucas décadas atrás, de um dos mais prósperos e avançados do mundo, para jogá-lo numa trilha de empobrecimento e atraso cujo desfecho final se afigura de cores trágicas e de indigestas consequências, culminando com a ascensão ao poder da Presidente Kirchner, cuja desmiolabilidade vem alcançando índices inimagináveis. Correndo por fora, numa desabalada e incompreensível disputa para ver quem alcança a primeira posição desse verdadeiro campeonato do caos, outros países da região também se dizem presentes, como a sinalizar a existência, entre eles, de uma irmandade de ações e pensamentos. De quebra, atiram para longe qualquer atitude de bom senso e de sensatez, demonstrando que, quanto mais ilógico e estapafúrdio for o desempenho de seus governos, mais pontos perfazem na disputa.

As consequências, diante da existência de tal trupe, são nefastas. Desabastecimento generalizado, contas públicas em frangalhos, déficits públicos monumentais, portos, aeroportos e estrutura viária em pandarecos, dificuldade para obtenção de créditos externos, moratória, falência de empresas e bancos - e uma imagem na comunidade internacional que condiz com o ditado popular: "fulano está mais sujo do que pau de galinheiro". Entretanto, e apesar dos altíssimos sacrifícios impostos às populações, tais mandatários administram seus países com mão de ferro, impondo-lhes um regime que vacila, no fio da navalha, entre a democracia de araque e a ditadura. Em comum, a adoção de medidas que amordaçam a Imprensa, escravizam o Judiciário e emporcalham o Legislativo através da concessão de cargos, verbas de origem criminosa e vantagens de fazer corar o mais sem-vergonha dos canalhas.     

E o Brasil? O Brasil também não fica atrás nesse contexto - embora ainda conte com uma Imprensa razoavelmente livre, um Judiciário não escancaradamente governista e um Congresso onde ainda se vê lampejos de oposição. O futuro, porém, é incerto. E para se ombrear aos demais integrantes do bloco, conta com uma Presidente que desperdiçou o primeiro mandato, prepara-se para fazer o mesmo no segundo - e segue com um discurso de difícil entendimento, caracterizado por uma tortuosidade mental insondável e um labiríntico raciocínio que ninguém alcança. Difícil. De quebra, se vê às voltas com uma onda de corrupção como nunca se viu, para a qual demonstra solene desprezo pela punição aos envolvidos, e uma ferrenha disposição de defender amigos e aliados - quando tudo aponta para o oposto. Um desastre! Que pode ficar bem pior: pelo risco de vê-la vencedora do certame. 

 

13 de Março de 2015 às 12h50

UM PAÍS DE LARÁPIOS?

Já se disse muita coisa acerca do Brasil - tanto por aqui como por aí afora. País do futuro, nação em desenvolvimento, país emergente, futura potência mundial, etc, etc. Lamentavelmente, tudo isso está ficando para trás. Ultimamente, por aqui, o que se percebe em expansão é o pessimismo em galope solto tomando conta dos corações e mentes dos brasileiros - diante de uma repetitiva e dolorosa rotina. É lamentável, não resta dúvida, o que vem ocorrendo no e com o Brasil. Tendo o escândalo da Petrobrás como carro chefe, outros exemplos de mau caratismo se avolumam, atingindo todos os poderes. O Executivo, há muito tempo, deixou de ser levado à sério; pelo Judiciário ninguém mais põe a mão no fogo; e o Legislativo se transformou em casa mal assombrada pelos sucessivos exemplos de práticas condenáveis. Agora, da Petrobrás, emerge um nauseante mar de lama.  

À medida que o tempo passa mais se cristaliza nas pessoas a inclinação de que não há vantagem nenhuma em permanecer por estas latitudes numa posição de honestidade. E muito menos no cultivo de um caráter reto, firme, voltado para a defesa de valores e princípios que norteiem o bom proceder. A realidade que se vê, por onde se anda, é a presunção, assumida de forma acintosa, na grande maioria das pessoas, de que o negócio é levar vantagem - não importam os meios, os instrumentos, as condições. Haverá exceções? É a grande esperança que nos resta. De que um remanescente, mesmo que uma diminuta semente brasileira, segure, mantenha, preserve a bandeira da dignidade, da moralidade, da honestidade, da nobreza de caráter, enfim. E de onde virá tal contingente? De qual extrato social surgirão esses defensores da implantação de novos hábitos, de novas práticas, de novos costumes?

Olhando-se hoje para os Olimpos nacionais, onde vicejam e transitam o que se convencionou denominar de lideranças, a coisa está feia. Pois é das tais lideranças - quer sejam políticas, governamentais, empresariais, judiciais, policiais e mais outros ais que não me lembro agora - de onde surgem e prosperam os piores exemplos de corrução, indignidade, desfaçatez, desonestidade, hipocrisia, roubo e outros "predicados" semelhantes. Aí está, portanto, o grande dilema nacional: para quem olhar, a quem recorrer. Pois em qualquer ajuntamento civilizado, nos momentos das piores crises, sempre há que se buscar exemplos em pessoas que exalem confiança, que transmitam dignidade, que impregnem o ambiente nacional com o halo de sua sabedoria, com a firmeza de seu caráter. Agora me responda sinceramente: no Brasil atual em quem nos mirar? Há quem seguir? Há quem ouvir? Em quem confiar?

Na qualidade de brasileiro, me vejo assim em situação bastante desvantajosa em relação a habitantes de outros países. Não que, com isso, eu queira dizer que tudo lá fora é bom e que por aqui nada presta. Não é isso. Mas vejo, por exemplo, o caso de um Primeiro Ministro inglês renunciar ao cargo em função de medidas, por ele adotadas, em desacordo com o povo, relacionadas à guerra do Iraque. Já por aqui... Por aqui o Presidente do Senado Federal, flagrado em convivência escandalosa com a tesouraria de uma empreiteira, permanece ancorado na sua cadeira por conta de uma vergonhosa operação de blindagem executada pela maioria de seus pares. Será que terei de concluir, então, que brasileiro é brasileiro e que inglês é inglês, espécimes, portanto, de origens e escopos diferentes? Recuso-me a aceitar isso. Prefiro sonhar com um horizonte diferente. Será que me darão, pelo menos, direito a isso? 

06 de Março de 2015 às 11h05

ECONOMIA NEGATIVA (OU ATIRANDO NO PRÓPRIO PÉ?)

O que mais se tem ouvido falar ultimamente, em se tratando de noticiário econômico, é o corte de gastos que o governo está promovendo para equilibrar o orçamento. É a tesoura dos tecnocratas penetrando fundo nas entranhas do orçamento para adequá-lo, segundo as próprias bocas governamentais, à realidade vigente. As manchetes, por sua vez, têm apregoado essa medida governamental com volúpia e estardalhaço, como se o fato de o governo projetar um volume de investimento, para depois cortá-lo, tivesse um viés meramente econômico ao invés de embutir alta taxa de imprevisibilidade governamental. Os cortes chegam à casa dos bilhões e bilhões de reais. Coisa de assustar. Isso, por acaso, soa como medida racional? Ou sugere haver, no mínimo, um padrão meio doidão, meio bamboleante, no tocante ao planejamento dos investimentos e dos gastos governamentais?

Com isso, não estou querendo ser contra uma realidade econômica que se impõe. O que acho estranho é se anunciar, com bandas e fanfarras, um volume de investimentos que deixa todos os segmentos na maior expectativa, para, dias depois, anunciar-se cortes de tal monta que nos deixam tontos, capazes até de nos lançar em clima de bovina melancolia. Isso sem falar na prejudicial falta de credibilidade que tais iniciativas do governo passam a merecer da opinião pública, aí incluídos, principalmente, os segmentos mais interessados no assunto, como economistas, empresários, políticos e Imprensa. O que levanto, portanto, não é uma posição contrária aos cortes em si, mas tão somente uma postura crítica em relação à planejamentos fantasiosos e a facilidade com que, no Brasil, os governos anunciam vultosos investimentos sem a necessária e obrigatória substância orçamentária.

É lá se vão tantos milhões pra ali, tantos milhões pra acolá, outros tantos bilhões pra isso, outros tantos pra aquilo, em investimentos tão alvissareiros, que, se transformados em realidade, já teriam feito o Brasil se encarapitar na cumeeira da mansão do Primeiro Mundo. Atrelado a esse mundão de dinheiro que os governos, imprudentemente, fazem escorregar pelo vale profundo do desgoverno, são divulgados, com estrepto e foguetório, números impressionantes na criação de empregos. Aí a galera começa a sonhar. Sonhar com a compra da tv de última geração, com o celular que toca, canta, requebra, fotografa, com a ida ao shopping mais chique, com aquela viagem tão acalentada... E haja sonhos para, dias depois, vir tudo de água abaixo com mais um comunicado das autoridades. Desta feita para informar que, ao invés dos tais investimentos, a vez agora é de cortar, e cortar, e cortar. Como pode?

Dias desses uma revista semanal fez um levantamento do volume de obras inacabadas pelo país afora e descobriu um patrimônio incalculável de dinheiro jogado fora, de recursos desperdiçados pelos nossos governantes - irresponsavelmente. Culpar, em vista desse descalabro, somente os atuais ocupantes do poder? Nem pensar, pois tal comportamento ensejaria uma enorme injustiça, embora os de hoje também venham contribuindo para a continuidade desse fenômeno tão brasileiro. Aliás, essa visão distorcida e desprovida de rigor com o planejamento estatal, essa postura de iniciar obras sabendo, de antemão, que o dinheiro não dará para terminar vem de muito longe. E caracteriza muito bem o pensar e o agir dos nossos homens públicos desde priscas eras. Falando nisso, tem circo no pedaço? "E o palhaço que é, é ladrão de mulher!". Olha o circooo! O circo chegooou! Olha o circooo! Legaaaaaal!!!

 

27 de Fevereiro de 2015 às 12h02

PELO MUNDO AFORA - EM BUSCA DE PAPEL HIGIÊNICO!

Há um ditado popular que assegura existir para cada mulher um homem. Por mais feio, fedorento, desdentado, desajeitado, pobre, burro, tapado, grosso, ignorante, que alguém seja, ou, por outra, com qualquer atributo (ou desatributo) que possua, dificilmente alguém - seja homem ou mulher - fica desacompanhado. É como se para cada fechadura houvesse uma chave.  Adaptando esse raciocínio ao campo político, pode se afirmar que para cada ideologia existe uma plateia correspondente. A História não nos deixa mentir. Ao longo do tempo, reis, imperadores, generais, mandatários, enfim, de qualquer índole, sempre contaram com (muitas vezes numerosíssimos) seguidores. Não à toa, pode ser relembrado aqui o episódio ocorrido em 18 de novembro de 1978 na Guiana, quando o líder religioso Jim Jones levou à morte centenas de pessoas, a maioria por envenenamento.

O argumento? O de que a "terra mãe" (os Estados Unidos), se transformara no império do Satanás - com isso, mantendo-as confinadas na selva da Guiana até a morte. Já Adolf Hitler conduziu a nação alemã à prática de crimes horrendos com base na pureza da raça ariana. Ora, ora! Para cada louco uma plateia; para cada ideologia - por mais ilógica - multidões dispostas a dar-lhe crédito. Nesse contexto, a América do Sul também não fica atrás. Sob o manto de uma tal "revolução bolivariana", a Venezuela está sentindo de perto o péssimo negócio que fez ao dar ouvidos a Hugo Chávez. Seu período no poder coincidiu com o boom consumista mundial, com as exportações de petróleo trazendo fartos recursos a Venezuela - e a ele altíssimos índices de popularidade. Tanto dinheiro o elevou à líder regional, em condições até de enxergar a implantação do bolivarianismo em outros paises.

No Brasil, várias vertentes de partidos de esquerda - órfãos de profetas e gurus em razão da queda do Muro de Berlim, da derrocada da União Soviética e de outros acontecimentos semelhantes mundo a fora - entregaram-se de corpo e alma às teses chavistas, tentando, de todas as maneiras (algumas até ao arrepio da lei), implantá-las em solo brasileiro. E os frutos resultantes? No Brasil, um desastre. A mistura de lulopetismo com bolivarianismo deu no que deu: inflação alta, baixo crescimento, corrupção incontrolável, entre outras mazelas - Petrobrás no destaque. Na Venezuela, o sucessor de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, deu de cara com outra realidade econômica - e está levando o país à bancarrota. A China não é mais o dragão devorador de commodities e petróleo como antes, fato que fez seus preços descerem a ladeira, muito em função da produção de petróleo americano extraído de xisto.

Em vista de tal realidade, e pela não priorização em infraestrutura, a Venezuela escorrega em direção ao caos social e econômico com o qual o bolivarianismo não sonhava, embora, paradoxalmente, Maduro tenha sido reeleito presidente (diz a oposição em eleições vergonhosamente fraudadas), e ainda conte com simpatizantes suficientes para continuar a tomar as mais loucas atitudes. Enquanto isso, a inflação dispara, o crescimento é zero, o desabastecimento de gêneros de primeira necessidade se generaliza, incluindo papel higiênico - e Maduro nem, nem. Quem faz crítica é taxado de traidor da pátria, a liberdade de Imprensa inexiste e o Parlamento e o Judiciário endossam toda tipo de patifaria. Recentemente, em verdadeiro tour, visitou a China tentando recursos para tapar o rombo. Será que a China lhe deu dinheiro pra comprar papel higiênico? Trágico. Ou será ridículo?

 

13 de Fevereiro de 2015 às 12h45

AOS PÉS DA CRUZ: O MELHOR LUGAR PARA FICARMOS EM 2015

Há dias atrás, ouviu-se no meio evangélico uma afirmação que encarei como muito interessante: ?no Reino de Deus, para subir, o melhor caminho é descer ? aos pés da cruz?. Até lamento o fato de não lembrar o autor da frase, pois gostaria de lhe dar o devido crédito. Porém, mesmo no anonimato, nosso desconhecido frasista cunhou uma dessas verdades que a rotina, a competitividade profissional, o desenrolar sucessivo dos acontecimentos diários, nos fazem esquecer: a importância da cruz para os que se dizem cristãos. Tal colocação também me lembra a resposta de João, o batista, a alguns de seus discípulos e a um judeu, sobre o fato de Jesus também estar batizando (prerrogativa que os tais creditavam somente a João): ?É necessário que ele cresça e que eu diminua?, respondeu, conforme João, capítulo 3, versículo 30. Ou seja: no conceito de Deus, na visão do Pai Celeste, só cresce quem diminui.

Este conceito, por sinal, Jesus deixou bem claro inúmeras vezes em que tratou de humildade, em contraposição à arrogância, elevando João ? o mesmo que se diminuiu para que Ele crescesse ? a um patamar moral e espiritual de dimensão quase inalcançável, conforme Mateus 11, versículo 11: ?Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista?, ao mesmo tempo em que, no mesmo versículo, arremata: ?mas aquele que é o menor no Reino dos céus é maior do que ele?. Paradoxo? Inexplicabilidade? Incongruência? Tortuosidade mental? Claro que não. Na verdade, o que Jesus traduziu para atônitos circunstantes foi um dos mais sublimes enunciados da inteligência divina, pilar da concepção de Deus para a vivência e o testemunho do rebanho pertencente ao seu reino e que se estabelece na estranha equação: para ser grande é preciso ser pequeno.

E qual a melhor escola, qual o melhor ambiente, qual o melhor curso, qual a melhor condição para aprendermos sobre esse (muito estranho e impraticável para a grande maioria) extraordinário conceito: aos pés da cruz. Não para sofrermos as dores indescritíveis que Jesus padeceu; mas para entendermos o que significa, para Deus, ser grande no seu reino. Pois, se atentarmos, vivenciarmos, estudarmos, compartilharmos, nos aprofundarmos o que na cruz se passou, veremos de como Jesus se tornou pequeno (para o mundo de então e, ainda hoje, para empedernidos sabichões), porém enorme, maiúsculo, grandioso, imponente, monumental, gigantesco ? majestoso para Deus. Para enxergarmos a real dimensão que Jesus alcançou na cruz (e até mesmo antes dela, nos diálogos com Pilatos), basta depurar sua resposta a Pedro, no Getsêmani, diante dos soldados do Sumo Sacerdote que vieram prendê-lo.

O episódio, narrado em Mateus 26, versículos 52 e 53, todos conhecem. Após recompor a orelha do soldado atacado por Pedro, Jesus volta-se para o discípulo, dizendo: ?Mete no seu lugar a tua espada, porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?? Ora, uma legião era composta por seis mil soldados. Ao se referir a 12 legiões, Jesus enumerava 72 mil guerreiros celestiais, àquela altura um exército formidável diante do pequeno comando que Pilatos mantinha em Jerusalém. Por alguns instantes, Jesus mostrou todo o seu poder, enquanto ? em humildade e estrita obediência a Deus ? submetia-se às ordens de pouco mais de uma dúzia de soldados. Começara ali o caminho do Calvário. Local de sofrimento, de morte ? porém sem vez, nem espaço, para a soberba e a arrogância.

 

06 de Fevereiro de 2015 às 17h33

NO MEIO DO JARDIM

De acordo com a origem da humanidade narrada na Bíblia, segundo o livro de Gênesis (Gn. 2.15-17), Deus colocou o homem no jardim do Éden para dele tomar conta e usufruir das benesses daí advindas. Está lá escrito: "E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás". No capítulo 3, versículo 3, também de Gênesis, a localização geográfica da árvore (um item norteador deste artigo), fica bem explícita, conforme diz o texto: "Mas, do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais". Portanto, a localização da árvore no meio do jardim se constituiria um problema contínuo para o homem, haja vista a proximidade física dela para com ele, em contraposição à proibição.

Pelo texto bíblico, manifestando o desejo de Deus, ali tudo era harmonioso, inofensivo, e de livre acesso ao homem. O problema - aliás, o único problema - estava no meio do ambiente. Ao mesmo tempo em que representava a vitória, a conquista definitiva de um destino pleno de paz e prosperidade, o jardim (com a árvore proibida no seu contexto) ensejava também o enfrentamento permanente do homem com a tentação, com a curiosidade, com o desejo inato humano de desvendar o desconhecido, mesmo quando este desejo é operado no terreno da desobediência. Uma realidade, como se vê, a exigir-lhe um alto grau de renúncia, de obediência, de domínio próprio - ao que tudo indica elementos, àquela altura, ainda não amadurecidos no homem. O desfecho dessa história é por demais conhecido, embora, ainda hoje, cheio de distorções, lendas, sofismas e falsas interpretações.

O que o texto bíblico assegura é que o fruto da árvore, ao ser consumido, abriria ao homem o conhecimento do bem e do mal. O que, lamentavelmente, terminou acontecendo. Nos dias atuais, também temos nosso jardim, representado por tudo aquilo que recebemos de Deus para cuidar - e usufruir. O casamento, a família, a saúde, os sonhos, o conhecimento, a prosperidade nos negócios, os amigos... Conquistas, enfim, que se concretizam em nossas vidas diariamente sem nem ao menos percebermos e que, na maioria das vezes, pouco valorizamos. Entretanto, no meio de tudo, há sempre a necessidade da prática da renúncia, do exercício de contenção de nossos desejos mais caros (muitos dos quais inconfessáveis), como se, à semelhança do Éden, bem no meio das nossas pretensões, tivéssemos também a nossa árvore proibida sinalizando até onde podemos ir - materializando nossos próprios limites.

Desobedecer à orientação de Deus, abrir a cortina do desconhecido, vasculhar espaços antes inacessíveis, constituem atitudes que trouxeram conseqüências extraordinárias na vida do homem. Primeiramente, a responsabilidade de arcar com sua própria sobrevivência. Em segundo lugar, a obrigatoriedade de exercer o livre arbítrio com o conhecimento nítido da existência do bem e do mal, e a consciência de que, na consecução de qualquer iniciativa, estas duas realidades se farão sempre presentes - latentes, acessíveis, praticáveis. O que Deus permitiu ao homem, na essência do episódio, foi a capacidade de conviver no jardim tendo, no seu interior, condições de resistir e refrear a própria sofreguidão quando o que pretende alcançar transpõe o limite do ético, do moral, do legítimo, do recomendável. Resumo: o homem, o jardim, a árvore, o fruto do bem e do mal. Você é livre. Qual a sua escolha?

 

30 de Janeiro de 2015 às 14h29

OS MUROS DE BRASÍLIA

A guerra fria legou ao mundo, entre tantas desgraças, o Muro de Berlim. Anteriormente, Mao Tse Tung já dera sua contribuição ao tema ao erguer a Muralha da China. Tanto um como outro são símbolos físicos, palpáveis, do desejo do homem de separar, segundo loucas ideologias, determinados agrupamentos humanos dos demais. É também uma forma de se elitizar, de se diferenciar em relação a outros, em função do estabelecimento de doutrinas as mais diversas, de cunho ideológico, social, cultural, político, esportivo, religioso, militar, econômico... É ainda, e principalmente, uma forma de aprisionar pessoas segundo conveniências as mais variadas. São notórios os casos recentes da Coréia do Norte e de Cuba, e da antiga União Soviética, todos à esquerda do espectro político, países onde o ir e vir das pessoas era e é dificultado a todo momento, conforme apontem as idiossincrasias de seus dirigentes.

A direita também não ficou atrás e tratou de erigir seus muros, muitos dos quais, se não em formato físico, também contribuíram para o estabelecimento dos guetos mais diversos. Aliás, basta consultar a História para se ter conhecimento dos muros físicos e não físicos que o homem construiu para se separar de outros, ou para aprisionar populações inteiras - segundos seus interesses. Na China, das dinastias imperiais, a Cidade Proibida é um exemplo clássico de elitização e domínio de uma classe em relação às demais; na Grécia e na Roma antigas, as castas também serviram de muro para separar os nobres de escravos e plebeus; a Índia é famosa ainda hoje pelo sem número de castas que servem de muro no contexto geográfico e populacional do país. Enfim, até onde o olhar do passado e do presente alcançam, o homem teve em muros e separações de toda ordem uma forte marca do seu mover na História.  

Também pode ser incluído nesse tema a utilização, como muro, do aparato econômico para separar pessoas, embora, de certa forma, isso possa ser visto como incentivo às pessoas para a conquista de espaços maiores no ambiente social que habitam (o tal do "subir na vida" que nossos pais tanto bradavam). Mas, e os muros do Brasil? Como país diferente dos demais, ou melhor, mais criativo que os demais, o Brasil tinha que arrasar nesse quesito. Aqui, além dos formatos de muro conhecidos em outros quadrantes, a corrupção se estabeleceu com um forte baluarte da separação entre as pessoas. Outro muro a vicejar em solo verde e amarelo, além da corrupção, é o da impunidade. No Brasil, legislação, costumes, hábitos, canalhices, sem-vergonhices e que tais se transformaram em verdadeiros muros a beneficiar pilantras, ladrões de colarinho branco, políticos, autoridades, funcionários públicos, magistrados...   

Como exemplo de muro, de fenômeno a distinguir pessoas, a corrupção brasileira, principalmente em Brasília, chegou a tal ponto que saiu do terreno do palpável, do real - e achegou-se à ficção. Ora, em um país onde o trabalhador conta centavos para chegar ao fim do mês, como explicar um funcionário de quarto escalão da Petrobras ter em banco estratosféricos 100 milhões de dólares! Uau! Isso, sim, é que é muro! E o que se vê mais em Brasília? Integrantes do establishment local vivendo como nababos, padrão de vida incompatível com os salários declarados - surrupiando, para tanto, recursos da merenda de estudantes humildes, dos remédios dos idosos, de postos de saúde, estradas, portos... Note-se que, de toda a roubalheira divulgada, a Petrobras atingiu um nível ainda mais superior - pelos volumes registrados. Alguém da empresa na cadeia? Não. Não é Brasília cidade de portentosos muros? 

24 de Dezembro de 2014 às 15h34

INTELIGÊNCIA E CARÁTER - O EMBATE


Pesquisas mais recentes sobre o funcionamento da mente humana, sobre os elementos que regem a formação da inteligência e suas várias formas de manifestação, demonstram não haver, necessariamente, nenhuma relação entre a inteligência e a moral. Os estudos, da mesma forma, concluem pela inexistência de conexão entre a inteligência e a ética, como também entre ela e o caráter. Nesse território ainda pouco vasculhado da mente, a conclusão a que se chega, lamentavelmente, é que o personagem de uma história, para ser inteligente, não terá, obrigatoriamente, de agir em sua comunidade como pessoa de moral, de caráter, de boa índole. Por tais estudos, a inteligência está desatrelada dos demais elementos que constituem a base do comportamento humano, para planar, como águia, acima dos valores e escolher o rumo indicado pela individualidade e pelo livre arbítrio.

Tais considerações são pertinentes pelo momento de verdadeira inversão de valores que se observa, praticados na vida das pessoas, independente do segmento social que se venha a analisar. Maliciosos, antiéticos e imorais são visíveis em todos os quadrantes a olho nu, sem a necessidade, para descobri-los, de sofisticados instrumentos de medição científica. De todo modo, a conclusão dos estudiosos vem a calhar, pois passa a estabelecer uma rigorosa conexão científica entre o resultado dos trabalhos acadêmicos e a realidade que se vive no dia a dia contemporâneo. E no que isso tudo resulta? Que conclusões, do ponto de vista prático, podemos tirar de tais observações? É que, se antes o homem, em sua grande maioria, agregava à inteligência fortes conceitos carregados de moral e de ética, atualmente posiciona-se numa direção contrária, separando-a e cultivando-a para a prática de delitos de toda ordem.

Se agora está explicado, cientificamente, que a inteligência corre por fora, desligada do caráter, da moral, da ética, nos trejeitos que articula diante dos embates diários da vida, está justificada, então, a onda de safadezas e malandragens que abarrota o noticiário e enche de vergonha, entre outros, os espaços mais nobres da rotina nacional. É corriqueiro, pois, notar-se o uso que se faz da inteligência a serviço dos valores mais mesquinhos, para, como isso, glorificar-se a máxima de que o negócio é levar vantagem - em tudo. Rigor exagerado no que afirmo? Gostaria demais que assim fosse. Gostaria, inclusive, de serem totalmente erradas as observações que faço em torno deste assunto e de outros que compõem o cotidiano humano. Entretanto, não se tapa o sol com a peneira. E o que fica em nós, inexoravelmente, diante da realidade que rola, é o gosto amargo da decepção, da impotência, do desengano.

E o caráter como é que fica? Pra que direção se inclina, afinal? Segundo o dicionário, o caráter é o conjunto de traços psicológicos, o modo de ser, de sentir e de agir do indivíduo. Já a inteligência é a capacidade de fazê-lo perspicaz, de fazê-lo aprender com rapidez, de adaptá-lo a situações adversas. Enfim, de resolver pepinos e propor soluções. Daí, logo se vê que a inteligência trava uma luta renhida entre devotar-se a causas nobres, tendo no caráter um bom parceiro, ou amoldar-se de vez às exigências que afloram no contexto da tão apregoada modernidade. Para o caráter manter-se atrelado a princípios morais e éticos, com a inteligência se lambendo por vantagens imorais, não é tarefa fácil. Das duas uma: ou ele vence-a, subjuga-a - para permanecerem ambos num elevado padrão ético -- ou também embarca na gandaia. Pois, como justificam - com cinismo - os tais inteligentes, resistir, quem há de?

 

20 de Novembro de 2014 às 14h28

EGOÍSMO, O ISMO DO EU

Todos nós já estamos acostumados com os ismos da vida. Nacionalismo, esquerdismo, anarquismo, direitismo, numa sucessão sem fim, entronizada para rotular tendências religiosas, políticas, econômicas, esportivas, culturais de quem quer que seja. Por mais esforços que se faça, ninguém escapa de ser encaixado em um ismo qualquer. É latente, intestina a necessidade no ser humano de rotular, de entalar o outro num ismo. "Fulano é de um esquerdismo revoltante". Com certeza você já ouviu esse tipo de comentário de alguém a respeito de outra pessoa. Ou por outra: "Sicrano não passa de um reles defensor do capitalismo selvagem". Os artistas, os intelectuais, os políticos, sofrem muito com esse, digamos, rotulismo. Independente de serem ou não o que os outros pensam a respeito deles, são logo encalacrados, mal surgem, como sementes do modernismo, conservadorismo, populismo, expressionismo...

O ismo é um sufixo que encerra em si mesmo um projeto de doutrinação, um conjunto de ações voltadas à implementação de uma tendência, de uma escola, de um movimento ou princípio artístico, filosófico, político ou religioso. Tem sempre atrás de si mil interesses. Nunca surge de graça, como também ninguém inventa um deles por acaso. Ao longo da história da humanidade os ismos se sucederam como panacéia para inúmeros males, ditando moda, hábitos, costumes, além de pautarem a rotina das atividades artísticas, políticas, econômicas, culturais e sociais. Alguns ismos se caracterizam pelo seu conteúdo exterior. É o caso do militarismo, do expansionismo, do ativismo voltado a fazer uma comunidade tentar um crescimento para fora de suas fronteiras. Outros são mais intrínsecos aos sentimentos e posicionamentos interiores, como idealismo, comodismo, egoísmo, altruísmo, individualismo - e por aí vai.

Há os de conotação política, como comunismo, nacionalismo, esquerdismo, direitismo, como também os mais sintonizados com a administração pública: monetarismo, liberalismo, capitalismo, socialismo, trabalhismo, todos, logicamente, direcionando a visão, as políticas, ações e projetos nos governos onde se enraizaram. A prática de um ismo qualquer diz bem a pessoa ou o conjunto de pessoas adeptas de sua essência. O ateísmo, por exemplo, enquadra em torno de si os que são contrários à existência de Deus. O altruísmo, por seu lado, já inclui o sentimento de quem põe o interesse dos outros à frente dos seus. E o egoísmo... Ah, esse é bronca! Bronca pura! Significa a eleição do próprio ego, do próprio eu, como início, meio e fim de todas as coisas. Ou seja, uma vida calcada na celebração de tudo que diz respeito a si. Só e somente só. Em suma, a doutrina da valorização excessiva do eu.

Se o sufixo ismo caracteriza a junção de atividades em torno de uma tendência, de um movimento, o egoísmo, por sua vez, encarna todo um posicionamento interior no sentido de erguer um trono à própria personalidade, um culto fanatizado à defesa dos próprios interesses. Entretanto, se o egoísmo ficasse por aí tudo bem. O problema com seus detentores é que, na medida em que supervalorizam os próprios interesses, agem no sentido contrário na escala de importância em que catalogam as pessoas. Para o egoísta o próximo vale muito pouco - quando não coisa nenhuma. E, muitas vezes, percebendo ou não, o egoísta vai deixando pelo caminho um rastro de destruição e ódio, oriundo de ações carregadas de um profundo menosprezo pelo outro. E agora? Agora? É constatar-se, vida a fora, o altruísmo de uns poucos em contraponto ao egoísmo de muitos. De muitos. Ah, o egoísmo... Que bronca!

 

31 de Outubro de 2014 às 13h38

QUE TIPO DE LÍDER VOCÊ É?

Segundo o dicionário, liderança é a capacidade de influenciar pessoas, de comandar, de guiar, de orientar, de exercer fascínio sobre os outros. Qualidade baseada e alicerçada no prestígio pessoal e na aceitação pelos dirigidos. O conceito atual de liderança envolve a idéia, errônea, por sinal, de que a prática de liderar está ligada a números eloqüentes. Por esse raciocínio, líder é aquele que se impõe sobre um número expressivo de pessoas. Engano. Ao contrário, é bom você saber que todos nós somos líderes. Na família, no trabalho, na vizinha, na comunidade, em todo lugar exercemos liderança, influenciamos pessoas. A alguns é dada a condição de liderar grandes grupos; já a outros a condição é mais restrita, mais econômica numericamente falando. Entretanto, se ampliarmos o nosso olhar sobre o moderno horizonte dos dias atuais, veremos como está distorcida e mal entendida a questão da liderança.

E o que é pior: como a nossa capacidade individual de liderar está sendo comprometida pela ausência da prática. Isso, em grande parte, pelo receio de correr riscos, de assumir responsabilidades. Enfim, de se expor. Pois um dos principais atributos do líder é o destemor na nomeação precisa do tempo certo de agir, na escolha do momento exato de surgir como ponto de referência. Certa ocasião, durante a celebração da Páscoa, em Jerusalém, estando todos sentados, Jesus levantou-se e disse: "Aquele que crer em mim de seu interior correrão rios de água viva". Todos estavam sentados, obedecendo, letárgicos, a uma tradição que em nada enriquecia suas vidas. Jesus, ousadamente, pôs-se de pé. Esta é a postura do líder: impor-se pela visão profunda, pela análise acurada, pelo discernimento de apontar rumos e caminhos novos. Pôr-se de pé no momento em que todos permanecem sentados.                      

Liderança, enfim, envolve muito mais a essência da qualidade do que a da quantidade. Jesus, por exemplo, liderou um exército de doze apóstolos. E transformou-os, de homens rudes e incultos que eram, em competentes divulgadores de seus ideais. Eram apenas doze. Depois formaram um grupo de setenta, depois de... Hoje, mais de dois bilhões de pessoas em todos os recantos seguem os princípios que ele ensinou. Já outros reuniram em torno de si, inicialmente, grandes multidões, exércitos formidáveis, mas, desprovidos da visão correta de liderança, perderam seus seguidores, no decorrer da vida, pelo exercício vacilante ou errôneo da liderança. Portanto, a capacidade de liderança não está ligada, necessariamente, a números expressivos para fazer valer a qualidade do líder. E sim à capacidade de ditar novos rumos, de encontrar novos e prósperos caminhos para os liderados.

Na família, por exemplo, o pai é um líder. E as famílias, pelo menos nos dias atuais, são núcleos constituídos por poucas pessoas. Nem por isso o pai deixa de ser um líder. Um professor em sala de aula também é um líder. Como também o é um chefe de uma repartição. A questão é saber que tipo de liderança está sendo exercido por essas pessoas. Ou por outra, que tipo de resultado a liderança está gerando nos outros. Ou, ainda, o que está acontecendo pela omissão da liderança. Pois a não liderança é uma omissão grave. Por sinal, você, que está lendo agora este artigo, é um líder. Mesmo que não queira, você é um líder. Pois influencia, orienta, sugere, causa fascínio em outras pessoas. Esta constatação é que nos leva a refletir na qualidade da liderança que estamos praticando. Será uma boa ou uma má liderança? Afinal, que tipo de líder você é? Qual o fruto que está sendo gerado através da sua liderança? 

17 de Outubro de 2014 às 11h24

BRASIL EGÍPCIO

A cada eleição que o Brasil realiza, conforme constatam os números, mais cresce o universo dos que escolhem a opção pelo voto branco e nulo - além dos que simplesmente se negam a comparecer às urnas. O quadro é preocupante. No fragor das apurações, esse cenário aflora com tal intensidade nos comentários da imprensa, e na análise dos cientistas políticos, que chega até a enganar: "ah, dessa vez os políticos, as lideranças partidárias vão levar esse fenômeno a sério". Ou: "agora, os políticos vão se emendar, prestar atenção ao protesto do eleitorado". E por aí vai. Realmente, ano após ano, mais cresce o exército dos desencantados com o mundo político brasileiro, aí considerados os poderes Executivo e Legislativo. Mancha que, lamentavelmente, também vem colorindo com tom cada vez mais cinza o Poder Judiciário, seara de escândalos emergindo ultimamente com nefasta regularidade.

Hoje em dia, é raro o local em que a obrigação (alguns falam em direito ao voto, mas tal colocação é uma balela em função do voto no Brasil ser obrigatório) de votar seja vista com bons olhos. É o tipo da responsabilidade vista por quase todos como um fardo insuportável, algo de cheiro infecto e sabor nauseante. É bem verdade que na alma do eleitor - mesmo o mais humilde, o mais desinformado - bate a noção clara, nítida da importância do voto. O povão sabe que através do voto se acentuam as conquistas coletivas e as mudanças que se traduzem em benefícios gerais. Porém, o desencanto, o desalento, a constatação, enfim, de que uma geração de políticos dos mais diversos partidos está corrompendo sistematicamente o terreno da administração pública e as engrenagens do nosso sistema político/eleitoral, faz esgotarem-se mais rapidamente a cada eleição os limites do civismo e da paciência dos brasileiros.

Guardadas as devidas particularidades, é como a praga de gafanhotos que assolou o Egito nos tempos bíblicos e que - é perfeitamente mensurável - tanto prejuízo causou à economia e à qualidade de vida de um país que tanto dependia da atividade rural para viver e progredir. No caso do Brasil, a onda de descrédito na atividade política, nas instituições, nos governos representa também uma verdadeira praga de gafanhotos a corroer raizes, caules, galhos, folhas e frutos da terra, tornando mais improdutivo, a cada ano, o terreno onde a semente da democracia, da civilidade, da ética, das boas práticas administrativas deveria vicejar e produzir frutos benéficos a todos. A Bíblia não entra em detalhes sobre as consequências que os gafanhotos trouxeram ao Egito. Já em relação à democracia brasileira, o prejuízo é enorme. E não é bom aguardar os estragos desse malefício para que as providências sejam tomadas.  

Porque a realidade está aí. Em certos estados, o número de votos brancos e nulos ultrapassou o total de votos dados ao candidato que alcançou o primeiro lugar, enquanto em outros o total de votos brancos e nulos, adicionados ao crescente universo dos que se negam a ir às urnas, alcançou marca superior aos 40% do eleitorado - percentual inquietante, considerando-se o voto obrigatório. Terá conserto tal cenário? Como se observa, devagar e sempre, a praga de gafanhotos a atacar o sistema eleitoral - e, por extensão, a democracia brasileira - não é fenômeno que venha ser deixado ao largo. A incerteza gira em torno da nova geração que está chegando ao poder. Se empenhada em resgatar a confiança e o ânimo do eleitor, ou contagiada, viciada pelos métodos dos que estão aí, impunes, engordando à custa da corrução generalizada. Afinal, o Brasil terá inseticida suficiente ou não para tratar gafanhoto? 

 

02 de Outubro de 2014 às 11h49

UM CHUTE DE (SIMPLESMENTE) DEZ ANOS!

Na recente divulgação, pelo IBGE, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, muito se falou a respeito do analfabetismo no tocante às informações relativas à educação. É uma chaga crônica no tecido social brasileiro que vem desde a chegada ao Brasil dos primeiros portugueses. Enquanto nos Estados Unidos, no período colonial, mesmo sob a vigência da escravidão, o índice de analfabetismo era praticamente zero, por aqui o “zelo” dos colonizadores com a alfabetização dos nativos – fossem eles índios, negros, escravos – nos fez perder um precioso tempo rumo a um desenvolvimento mais consistente, nos fazendo disputar, ainda hoje, as piores colocações no ranking mundial da alfabetização. Na América, onde a colonização se fez sob a fé evangélica, a alfabetização pegou carona nos intensos movimentos de evangelização, à Bíblia como carro chefe, e alcançou a todos – indistintamente.

Mas, deixemos de lado as nossas diferenças, em relação a outros países, e voltemos à PNAD. E, nela, toma vulto um dado pouco observado pelos analistas, e pela grande imprensa, que é a meta estabelecida, na década passada, pelo governo federal, para erradicação do analfabetismo. A meta – pomposamente anunciada à época no contexto do Plano Nacional de Educação – fincava as “bases redentoras” no ano de 2010. Ou seja: segundo o governo, até 2010 o analfabetismo seria reduzido a zero no Brasil. Agora, junto com a PNAD, o mesmo governo estabelece o ano de 2020 como novo patamar para alcance do objetivo de tirar o Brasil da incômodo situação de país com altíssimo percentual de analfabetos. Como se observa, o intervalo de 2010 para 2020 se constitui num salto de dez anos. Dez anos! Uma década! Uma vida, portanto, para que a máquina do governo se volte de vez ao cumprimento do nobre objetivo.

Ora, em um país cujo mover da estrutura oficial só ocorre sob intensa pressão (haja vista as iniciativas do governo após os protestos do ano passado – e que, apesar do barulho, geraram, pelo menos até hoje, pouco resultado), vê-se, já a partir de agora, que tal objetivo também não será alcançado! E veremos o Brasil atravessar mais uma década carregando um fardo pesadíssimo – tanto do ponto de vista econômico (o analfabeto pouco produz em razão da falta de conhecimento), como do ponto de vista social. E pior: com números estarrecedores; vergonhosamente estarrecedores: No Brasil, nada menos que treze milhões de pessoas são analfabetas. Adicionando-se a estas aquelas tidas como “analfabetas funcionais” o número ascende a assustadora soma de mais de 30 milhões. A questão não é a constatação de tal cenário. A questão é o governo chutar para mais dez anos a solução do problema.

É sabido que na vida de uma nação dez anos são um tempo até razoável; porém, na vida de pessoas comuns é um prazo longo demais. Basta qualquer um, no plano individual, estabelecer para si um prazo de uma década para alcance de um objetivo. Haja ansiedade e sofrimento! Mesmo que esse tempo de espera venha encontrá-la numa boa posição econômica e social. Para os remediados, a passagem do tempo não é algo tão doloroso. Mas, para aqueles que têm diante de si, sem esperança, sem perspectiva, um monótono passar de dias... Chutar ao bel prazer de circunstâncias discutíveis o tempo de alfabetização de um exército de mais de treze milhões de brasileiros para mais dez anos é algo realmente criminoso. É condená-las, por antecipação, a um destino sem brilho, sem cor, sem sabor. A uma vida, enfim, sem objetivo, sem rumo. Ah, se os analfabetos agissem! Imaginem treze milhões nas ruas!  

26 de Setembro de 2014 às 13h29

A ELEIÇÃO QUE JESUS PERDEU

De um lado Barrabás. Do outro Jesus de Nazaré. Entre os dois o procurador romano na Palestina, Pôncio Pilatos, representando o sistema político-militar vigente na região. De Jesus muito se sabe - do ponto de vista histórico. Já do seu legado espiritual pouco se tira proveito. A respeito de Barrabás pouco ou quase nada é sabido. Uma nesga da história narra Barrabás como um criminoso, culpado de sedição e homicídio, que merecia morrer por crucificação segundo a lei romana. Outros historiadores tentam colocar uma neblina de charme à sua biografia, taxando-o de terrorista que promovera algumas ações na tentativa de derrubar o governo romano na Palestina. De uma forma ou de outra alguém que vivia ao arrepio da lei. Merecedor, portanto, de julgamento e condenação, o que de fato ocorrera já que Barrabás estava na prisão tão somente à espera da hora de ser crucificado.

Do ponto de vista eleitoral o cenário estava completo. Num patamar superior - lembrando os palanques de campanha dos dias de hoje - os dois candidatos. Junto a eles o TRE daquele tempo, representado na pessoa de sua excelência Pôncio Pilatos. O período de campanha, embora curto, fora muito bem trabalhado por um dos contendores e seus correligionários. O outro candidato não teve o direito de falar nada, embora anteriormente já tivesse feito inúmeros discursos sobre o seu programa de governo, àquela hora totalmente esquecido. Pelo marketing empregado, havia uma nítida vantagem para Barrabás sobre Jesus de Nazaré. Os cabos eleitorais do bandido doutrinavam o povo sob intenso frenesi. Havia pressa, uma vez que não era desejo da elite religiosa permitir que o eleitorado viesse a raciocinar. Barrabás tinha que ganhar - mesmo que condenáveis os métodos utilizados.

Esse paralelismo em torno dos fatos reais da condenação de Jesus serve para demonstrar como são irracionais, em certas ocasiões, as escolhas que fazemos em nossas vidas. Em sã consciência ninguém deixaria de votar em Jesus para sufragar o nome de Barrabás. Mas todos sabem o desfecho ocorrido naquele tempo. Por leviandade, emocionalismo e superficialismo gritante, cometeu-se uma das maiores injustiças já praticadas pela humanidade, fruto de um processo eleitoral cheio de vício e de técnicas deturpadas de persuasão coletiva. Embora não tendo a carga dramática da escolha que condenou Jesus à morte, o processo político vivido pelo Brasil atualmente tem uma importância crucial para a vida de milhares e milhares de pessoas. E da mesma forma que naquele tempo, processos cavilosos de comunicação e persuasão tentarão vender gato por lebre, fantasia por realidade.

O direito de exercer o voto é algo realmente extraordinário. Através dele ciclos inteiros na vida da humanidade foram alterados. Pela força do voto - não somente o voto do ponto de vista eleitoral, mas todo processo de escolha que envolva um posicionamento, uma alternativa - o que era deixou de ser e o que não era passou a existir. Falo do voto muito além do contexto político. Das tomadas de decisão que temos de adotar diariamente, de pessoas que temos de escolher como companheiros, parceiros, sócios. Dos processos que tomamos parte e que envolvem outras vidas. As chefias nas empresas, o comando nos quartéis, a liderança que exercemos na vizinhança, na comunidade, no seio da família..... Em todo momento há a necessidade de votar, de escolher, de se direcionar. E todo processo de escolha deve ser visto e tratado com responsabilidade e equilíbrio, visando o bem comum.

E Jesus? Ah, a Ele nós traímos diariamente. Há uma tendência generalizada de condenar as pessoas que condenaram Jesus. Assistindo aos relatos da Paixão de Cristo as pessoas choram, se emocionam - e julgam quem levou Jesus à cruz. Acontece que a todo instante um processo de escolha se estabelece diante de nós. Entre o que Ele nos ensinou e o que nosso querer determina. E agora, qual o procedimento a ser adotado? Viver a Palavra que Jesus Cristo nos deixou é o caminho a ser seguido. Perdoar, amar ao próximo, não corromper nem ser corrompido, defender o direito dos mais fracos, dos mais humildes. Mas, será que é assim? Ao agir diferente do Seu legado estamos ou não traindo-O como os escribas e fariseus fizeram naquele tempo? O período eleitoral de agora é também uma oportunidade de praticarmos o bem comum levando a sério o processo de escolha. Você confirma?  

12 de Setembro de 2014 às 13h18

Um estranho cortejo

Há uma passagem na Bíblia, no livro de Marcos, (2. 3.) que nos mostra uma cena bastante estranha. Jesus chegara a Cafarnaum, vindo da Galiléia, e logo a notícia correu de que Ele chegara à cidade. Sua fama já era bastante conhecida. Por onde andava grandes multidões se apertavam para vê-lo e ouvi-lo. O versículo 3 narra, então, que "alguns foram ter com Ele, conduzindo um paralítico, levado por quatro homens". Pelo que se vê, uma pequena multidão se aglomerara em torno de um paralítico, sendo que destes todos quatro foram escolhidos para levar o paralítico a Jesus. O paralítico foi carregado em sua própria cama, certamente em razão de dificuldades de movê-lo até Jesus de outra maneira, ou pelas dificuldades financeiras de contratar outro tipo de transporte. O que se depreende do episódio é que o paralítico não era um qualquer - uma vez que muitos se juntaram para socorrê-lo.

Assim, fica configurado o inusitado da cena. Um bando de homens, (às mulheres não era permitida tal empreitada, em função da cultura e hábitos judaicos) carregando uma cama, desfila com um paralítico pelas ruas da cidade em busca de solução para suas dores. Da cena se extrai, no mínimo, uma alta demonstração de solidariedade, pois é muito difícil conciliar tempo e interesses de um bom número de pessoas dispostas a desfilar, pelas ruas de uma cidade, carregando um paralítico numa cama. A cena, olhando-se de fora, teria também algo de ridículo, de insólito, de cômico. Mesmo assim, temos que admitir o forte fascínio que o doente exercia sobre as pessoas a ponto de convencê-las a se irmanarem com ele na incomum tarefa. Embora pobre, houve argumentos da parte dele que sensibilizaram outros homens a ajudá-lo na busca da solução para os seus problemas.

Do episódio podemos tirar várias lições. A principal delas é que aquele homem jamais se entregou à sua desdita. Podemos concluir isso pelo simples fato de que, ao primeiro sinal da presença de Jesus na cidade, ele se movimentou para procurar ajuda. Pelo pronto atendimento dos amigos ao seu chamado, podemos concluir também que em redor de si havia sempre trânsito de pessoas. Isso demonstra que, apesar de suas dores, de sua vergonha, da sua incapacidade física, ele tinha um comportamento que gerava nas pessoas afeição, carinho, afinidade - irmandade até. Afinal, como narra o texto bíblico, aquele grupo de companheiros topou uma empreitada nada fácil. Ao chegarem na casa onde Jesus atendia o povo se depararam com uma difícil realidade: não havia como entrar na casa; não havia como chegar a Jesus, pois o ambiente, de tão freqüentado, estava completamente tomado. 

Mesmo assim eles não desistiram. Acredito que tenham feito uma pequena conferência em torno da dificuldade. "E agora, como vamos fazer?" Um deles, certamente o mais afoito, sugeriu a cena que se perpetua até os dias de hoje: "vamos pelo eirado". E subiram o paralítico, com cama e tudo, até o telhado, cavaram um buraco no teto e desceram o conjunto até Jesus. Muita coragem, ousadia e disposição para ajudar uma pessoa necessitada! Você chegaria a tanto? Do episódio o que me fascina é o carisma do paralítico. De como ele - em meio a uma realidade dolorosa - permaneceu firme, deixando de lado uma realidade de derrota, para seguir em frente. E como conseguiu unir ao seu projeto um grupo compacto de homens dispostos a tudo para ajudá-lo. Ah, o melhor é o resultado. Curado por Jesus, voltou para casa ereto, feliz, levando de volta o leito às costas. Vitória. Pura vitória...   

 

29 de Agosto de 2014 às 12h45

COTOVELADAS

Quem acompanha futebol talvez não tenha percebido. Mas ocorre hoje dentro de campo um festival de cotoveladas digno de lutador de vale tudo. Em quase todas as partidas, principalmente as exibidas pela televisão, o torcedor presencia, de vez em quando, com apreensão e constrangimento, um atleta sendo atendido à beira do gramado, sangrando, vítima de traiçoeira cotovelada. De repente, lá está um jogador com uma bandagem lhe tomando boa parte do rosto, ou da cabeça, mostrando à torcida, com tal adereço, o absurdo da agressão. Interessante se notar que essas ocorrências têm vida recente. Não se tinha notícia de tantos casos assim antigamente. Até parece que os jogadores estão sendo treinados e orientados para a prática desse tipo de agressão. A cotovelada se dá, normalmente, na disputa de bola pelo alto. Um dos jogadores se aproveita do elemento surpresa e acerta o adversário.

Sempre na testa, no nariz, no alta da cabeça... E aí cabe a pergunta: essa agressão - covarde, gratuita, matreira, antiesportiva, antiética, desleal, inoportuna - traz algum benefício à equipe do agressor? Por acaso, a cotovelada garantirá a vitória ao time cujo atleta pratica essas coisas? Ganhará o esporte em termos de beleza plástica, de emoção, de resultados práticos com esse tipo de atitude? Observe-se que, apesar dos aspectos negativos desse costume, os jogadores continuam se aproveitando de certos momentos da partida para acertar o adversário com a mais "proveitosa" das cotoveladas. Entretanto, passando do plano esportivo para o cenário geral da vida, também cabe a pergunta: e as cotoveladas acontecem somente no campo esportivo ou invadem outras áreas do convívio humano? Hum... E agora? As tais cotoveladas fazem sangrar somente o adversário esportivo ou derramam sangue em outras paragens?

Na verdade, o que faz um agente público que desvia o leite e a merenda das escolas, como forma de engordar seu patrimônio, senão desfechar uma violenta cotovelada nas pobres e indefesas crianças? E os altos executivos que compram equipamentos e contratam obras superfaturadas? Da mesma maneira, não estão acertando dolorosas cotoveladas no cidadão que paga seus impostos esperando ter de volta as soluções para suas demandas diárias? E os políticos que prometem mundos e fundos, além de se colocarem como guardiães da ética, da moral, dos boas práticas administrativas em períodos eleitorais - e que, ao serem eleitos, se lambuzam com todo tipo de falcatrua, de roubalheira, de atos de corrupção? Não são tais atos verdadeiras cotoveladas no pau da venta do pobre e indefeso eleitor? E o pai que mente à esposa, aos filhos, para levar vantagem também não está procedendo da mesma maneira?

E o funcionário público que aceita suborno no exercício da profissão? Também não está dando cotoveladas na ética, no código de conduta que lhe veda tal procedimento? E quem suborna o guarda de trânsito em troca de se ver livre de uma multa também não está, de certo modo, distribuindo suas cotoveladas? Na verdade, o que se observa em campo é a extensão de práticas que acontecem o tempo inteiro nas mais diversas situações e circunstâncias vida afora. Não é o jogador, não é o funcionário, não é o político, não é o gestor estatal simplesmente que distribui cotoveladas a torto e à direita. É o ser humano. Sim, ele mesmo. Com sua agressividade, sua animalidade inata. Enfim, as cotoveladas nos campos de futebol -  e que têm chocado muita gente dita educada, civilizada - é o retrato por inteiro do ser humano. Simples assim. Por sinal, quando você vai desferir sua próxima cotovelada?

 

08 de Agosto de 2014 às 12h37

O MERCADO LOCAL E O INVESTIMENTO

A busca pelo lucro fácil tem desviado muita gente de boas oportunidades. Em qualquer cultura, em qualquer lugar, em qualquer sítio humano que se tenha conhecimento é comum a procura pelo encurtamento do caminho que leva ao lucro, à vantagem imediata. E isso acontece em todos os campos da atividade do "homo sapiens".  Não ficam livres dessa praga os ambientes mais carentes aos mais refinados, nem mesmo os polos onde impera o conhecimento científico, cultural, tecnológico. A Ciência costuma jogar na vala comum da "natureza humana" esse pendor incontrolável para a transgressão, enquanto a cultura bíblica explica essa inclinação predadora do homem como consequência do pecado (de desobediência) de Adão no Jardim do Éden. De um modo ou de outro, a conclusão é uma só: o homem de todos os quadrantes se aproveita dos momentos mais fugazes para levar vantagem.

Esse arrazoado acima se justifica em razão da recente informação, divulgada pela grande imprensa, de que a Telexfree finalmente deu com "os burros n'água" em território americano. Segundo a notícia, foram indiciados, por fraude e conspiração, os dois fundadores da empresa - por sinal, um deles brasileiro - com bloqueio de bens, incluindo casas e barcos. O crime? Transferência de 10 milhões de dólares de fundos pertencentes à Telexfree para contas pessoais dos dois diretores. Já pensou? No Brasil, recentemente, a empresa levou ao prejuízo e ao desespero milhares e milhares de pequenos e médios investidores - todos, sem exceção, à cata da vantagem rápida. E o que se vê é que o tempo passa, a roda gira, e sempre aparece alguém vendendo a ideia do lucro fácil, se utilizando do marketing de rede como elemento de montagem de pirâmide financeira - para alcance de objetivos imediatos.

Não é preciso ser expert no assunto para entender que não existe almoço grátis. E que, no campo da ilegalidade, ganho e distribuição de lucro - sem trabalho, sem produção de bens e serviços - só traz tropeço. Todo lucro é suado. E obtido com enorme sacrifício, principalmente no Brasil onde a carga tributária arranca quase 50% do lucro em qualquer atividade empresarial. Assim, apesar dos inúmeros casos de enrolação de grandes contingentes de pequenos e médios investidores por sabichões do lucro fácil, muitos embarcam nessas aventuras em busca de melhoria da renda doméstica, no caso dos pequenos, e na engorda rápida de patrimônio, através de "negócios milagrosos", caso dos investidores de maior porte. A essa altura, cabe a pergunta: e há saída para maximizar investimentos no Brasil diante da remuneração insignificante dos bancos e do retorno minúsculo da caderneta de poupança?

É claro que nenhum investimento legal pode competir com a rapidez e a voracidade das pirâmides, dos paraísos financeiros. Mas, analisando com lucidez e espírito profissional, e contando com a orientação de entidades sérias como o SEBRAE, o BNB, o Banco do Brasil, o investidor poderá auscultar a realidade do mercado para apostar suas fichas em empresas necessitadas de capital para expandir negócios, gerar mais empregos, mais impostos, distribuir lucros honestos, e contribuir ainda mais para o progresso da região e do país. Em outros países, quem produz é respeitado e admirado. No Brasil, a ideologia da moda enxerga o empreendedor apenas como interessado no lucro a qualquer preço - e, pior, à custa da exploração do trabalhador. Balela ideológica. A empresa precisa de capital; o trabalhador do emprego; e o investidor de retorno para seu dinheiro. Simples assim.

 

18 de Julho de 2014 às 12h17

O QUE SERÁ DE NOSSAS CRIANÇAS?

Uma das maiores preocupações dos pais atualmente é manter distância entre seus filhos e o alcoolismo. Distância que, lamentavelmente, fica mais curta a cada dia que passa. Embora seja um fenômeno ao qual as autoridades têm dado pouca atenção atualmente, o vício do consumo do álcool no âmbito infantil se constitui uma ameaça futura de alto poder de destruição. Afinal, a criança, o adolescente, o jovem de hoje será o profissional de amanhã, o futuro dirigente de empresas, o político a comandar os destinos de cidades, estados e do próprio país. E assumir tamanhas responsabilidades sendo íntimo do consumo do álcool é algo realmente preocupante. O interessante é que todo mundo sabe disso, mas as providências para que este público seja mais protegido, mais fortalecido, mais resguardado do consumo prematuro do álcool passam muito longe de uma base mais efetiva, mais objetiva.

Por outro lado, as estatísticas no tocante ao problema se apresentam, a cada dia, mais carregadas de negras projeções. A cada ano mais diminuem os espaços que separam as crianças do acesso ao álcool. Recentemente, uma reportagem de uma emissora de televisão constatou que o consumo costumeiro, rotineiro, diário de bebida alcoólica já chega, naturalmente, à faixa dos nove anos de idade. Você entendeu bem? Vou repetir: o alcoolismo já atinge crianças de nove anos de idade! E o que é pior: esse fenômeno só se alastra a cada ano, descendo cada vez mais na faixa de idade. Há até pouco tempo atrás, o vício do consumo do álcool era comum em jovens de 16 anos para cima; depois o vício passou a atingir os de 14 anos; depois os de 12. Agora, a conclusão dos estudos é que crianças com nove anos já se "deliciam" com os prazeres advindos do consumo rotineiro de bebidas alcoólicas.

Este fenômeno, extremamente negativo, passa por dois agentes como principais responsáveis pela sua propagação. O primeiro, indiscutivelmente, é a mídia. Com competência largamente demonstrada na glamorização dos mais variados assuntos, os veículos de comunicação têm contribuído, em muito, para a difusão do hábito de beber na população infantil. Durante a cobertura de campeonatos mundo a fora, as tv's só têm exibido pessoas, nos mais diferentes países, comemorando as vitórias dos seus times com vistosos copos de cerveja na mão. As crianças estão vendo isso? Claro que sim. E a conclusão a que chegam? Também nos intervalos comerciais as tv's mostram produções publicitárias sofisticadíssimas nas quais o charme, o enleio, a alegria, o prazer só são alcançados com um copo de bebida alcoólica bem à vista. Como as transmissões ocorrem em horário aberto aos olhos infantis...

Outro agente impulsionador do desejo infantil de atingir o mais cedo possível o tal "mundo de prazer" dos adultos - e de preferência com um copo na mão - é a família. Recentemente, uma adolescente alcoólatra declarou que se iniciou no álcool passando o dedinho nos copos de cerveja dos pais. Como fazíamos, quando crianças, (lembram?) ao passar o dedo na panela do bolo. A diferença é que era bolo o que comíamos. Já nos dias atuais... Outro, vejam só, começou sua vida de alcoólatra tomando cachaça na tampinha da garrafa do papai. Muitos pais não sabem da enorme influência que têm sobre os filhos como guias, amigos - educadores, enfim. E que sai muito caro praticar uma postura de desconhecimento, de omissão em relação ao exemplo que devem dar. Assim, pelo que se vê, só falta agora o bebê já nascer pedindo uma. "Por favor, um 12 anos on the rocks". E a tv mostrando. Já pensou? 

 

27 de Junho de 2014 às 13h13

VOCÊ AINDA SABE CHORAR?

Quase diariamente eu vejo pessoas chorarem. Manifestando, através das lágrimas, os sentimentos dilacerados que carregam dentro de si. Na maioria das vezes são pessoas hipersensíveis, de um lastro de princípios extremamente rigoroso, convictas de suas posições e detentoras de muitos sonhos. Também são cheias de boa vontade, de um desejo imenso de contribuir, de influenciar, de fazer parte do dia a dia dos outros, do próximo, de sua cidade, de sua região, de seu país. Destas, muitas têm os nervos sempre à flor da pele, a sensibilidade exacerbada, o ponto de equilíbrio normalmente estourado, semelhante a um correntista de banco que tem feito, de forma exagerada, o uso do cheque especial. Estão sempre no vermelho, expostas demais às intempéries da vida, às agressões naturais que grassam do meio ambiente social. E choram, e sentem - e declaram sua dor abertamente através das lágrimas.

Outras não sabem chorar. Estão esterilizadas por dentro, trancadas em si. De uma forma ou de outra, foram induzidas a não se manifestar nunca, a não declarar, diante dos outros, o que se passa em seu íntimo. A vida atual, pela sua extrema competitividade, tem muito a ver com essa postura. Para essas pessoas o chorar é uma demonstração de fraqueza, de vacilo, de pequenez de atitudes diante do enorme desafio que a vida requer de todos nós. Chorar, então, passa a ser um gesto menor, de gente desqualificada, despreparada para os embates do cada vez mais exigente mundo globalizado de hoje. Indiferentes ao que se passa à sua volta, essas pessoas seguem em frente, muitas vezes sem levar em conta o rastro de dor que estão deixando atrás de si. Não sabem chorar. E isso lhes acarreta uma postura de vida carregada de insensibilidade, dureza de coração e a relativização de conceitos e valores.

Para que chorar, imaginam, se o choro nada resolve? Na sua insensibilidade não vislumbram que, junto com o choro - ou na ausência dele - desabrocha todo um estilo de vida, um direcionamento em relação ao meio em que vivem, à sociedade como um todo, e ao próximo em particular. E que, ao vir, o choro traz em sua manifestação uma tomada de consciência, um "cair em si" que muitas vezes altera radicalmente o curso de uma vida. Um terrorista, por exemplo, não sabe chorar. Um corrupto que rouba o leite de crianças, o remédio dos idosos, que desvia recursos públicos para seus projetos pessoais e que, com isso, alastra dentro de si, mais ainda, o fogo da insensibilidade, uma pessoa assim, com certeza, não sabe chorar. E, com seu "modus operandi" agride, maltrata, adultera, fere - e muitas vezes, por conseqüência, mata. Insensível, egoísta, árido, seco - sem nem sentir.

Grandes personagens da história choraram. Fraqueza ou demonstração de grandeza? Pedro negou Jesus. Depois chorou - amargamente. E o choro reacendeu nele "a palavra que o Mestre lhe ensinara". A partir daí nunca mais foi o mesmo. Jesus também chorou em inúmeras ocasiões, principalmente por sentir, momentos antes da sua prisão, a que ponto chega a avareza de homens voltados tão somente para seus próprios interesses. Mas, para os que não choram, ou desaprenderam a chorar, há sempre a oportunidade do reaprendizado. Acompanhado sempre, lamentavelmente, de um grande sofrimento, de uma grande dor. É o preço, por exemplo, que corruptos arrependidos têm que pagar para se reencontrar com o lado benéfico do choro. Limpando-se por dentro e redescobrindo a prática do sentimento de respeito para com os outros. Alegre-se se você ainda sabe chorar. Por sinal, você ainda sabe? 

 

20 de Junho de 2014 às 13h38

O PRINCÍPIO DA QUALIDADE

Os consultores, os entendidos em marketing, em processos industriais, os profissionais de venda, todos, enfim, envolvidos com a produção e a comercialização de produtos e serviços sabem que a qualidade é fundamental. Parafraseando Vinicius de Morais - que em certa ocasião falou "que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental" - eu chego a afirmar: que me desculpem os produtos que não têm qualidade, mas qualidade é fundamental. Em tudo. Nas embalagens, na apresentação, no marketing, na assistência técnica e, principalmente agora, no que concerne à responsabilidade social e ao respeito ao meio ambiente. Todos esses passos têm que ser dados com qualidade. Chego até a ir mais além. Nos relacionamentos, no trabalho, em família, no que você produz, na palavra empenhada, no estilo de vida, a qualidade também se faz necessária, inclusive com o mesmo rigor da praticada no mundo dos negócios.

Alguém certamente irá pensar ser absolutamente óbvio o que estou dizendo. Entretanto, apesar da qualidade ser um princípio lógico, óbvio até demais, sua execução e sua prática deixam muito a desejar. Vejamos, por exemplo, os homens públicos. Quando agem movidos por estímulos ligados à corrução, estão agindo, com certeza, fora do princípio da qualidade. Pois a qualidade, no tocante ao desempenho de um homem público, significa, entre outros procedimentos, a prática constante da honestidade no manuseio do dinheiro alheio e a resistência a todo tipo de tentação que o induza a meter a mão naquilo que não é seu. Como se vê, o homem público também tem seu desempenho analisado sob a ótica da qualidade no que faz e no que produz, obrigação, aliás, a que todos eles estão sujeitos quando se dispõem a trabalhar em cargo público ou quando submetem seu nome, numa eleição, ao julgamento do eleitorado.

Do mesmo modo, o funcionário público, estando ali para servir, por isso mesmo chamado, apropriadamente, de servidor, também deve se submeter ao princípio da qualidade no serviço que presta à população. Entretanto, na realidade, o que se vê por esse Brasil afora? Tanto no que diz respeito ao comportamento dos homens públicos, como ao dos servidores estatais? No caso dos primeiros, um desprezo quase total às pessoas de quem mereceu o voto (afinal, uma procuração baseada na confiança), e, no caso dos segundos, uma má vontade no atendimento ao público de causar arrepios, aliada a um despreparo funcional gritante - com honrosas exceções, graças a Deus. Para essas pessoas, afinal, o que significa o princípio da qualidade? O que representa para elas estarem numa posição propícia à prática do bem comum e ao encaminhamento de soluções para problemas que afligem milhares e milhares de pessoas?

Pensando bem, a essas pessoas faltam, na verdade, o crédito e a prática do amor e da misericórdia. Aliás, os mesmos sentimentos, os mesmos princípios para os quais Jesus Cristo tanto se sacrificou para que deles tomássemos conhecimento. Falando em Jesus, a respeito do princípio da qualidade, ele nos dá uma grande lição na célebre passagem das bodas de Caná, conforme está escrito no livro de João, capítulo 2, versículo 1 ao 11. Trata-se da transformação, ocorrida em um casamento, da água em vinho. Na efervescência da festa, o vinho acabou, fato gerador de um desconforto enorme ao responsável pelas bodas. Procurado, Jesus salva a situação, transformando água em vinho. Entretanto, há que se ressaltar, no episódio, o compromisso de Jesus com a qualidade, com o rigor do produto a ser oferecido. Havia um profissional contratado para organizar a festa, que aprovou entusiasmado a qualidade do vinho que antes fora água.

Seu comentário de que "todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior", marca, profundamente, a diferença do conceito de qualidade para Jesus ("tu, porém guardaste o bom vinho até agora") e o mesmo conceito na visão dos homens. Pois o noivo, mesmo tendo na festa pessoas importantes na sua escala de interesses, ainda tentou iludi-las com vinho de boa qualidade no início, para, posteriormente, enganá-las com uma bebida de qualidade inferior. Infelizmente, esse é o típico comportamento humano. Que cumula de gentilezas as pessoas segundo o retorno que delas terão, passando a tratá-las de forma diferente quando for incerto o retorno da vantagem. Essa não é postura de qualidade. O princípio da qualidade, segundo Jesus, deve ser exercitado antes, durante e depois de qualquer relacionamento. Até para aquele que você julga não ser merecedor de um gesto seu - de qualidade.

 

13 de Junho de 2014 às 12h47

"Alarme educacional"

Todos sabem ser muito sério o problema do analfabetismo no Brasil. Governo após governo, essa chaga social vem se eternizando, apesar dos programas, projetos, intenções e pacotes os mais diversos divulgados ao longo do tempo. E tudo isso acontece por uma questão muito simples: falta priorização das autoridades para enfrentar o monstrengo. Pode crer. É isso mesmo. Mentalmente, psicologicamente, intelectualmente, materialmente, governamentalmente o assunto educação, no Brasil, é semelhante à escolha do goleiro, tempos atrás, no futebol da meninada. Quando, nas peladas de rua, ou nos rachas dos terrenos baldios, se apresentava um garotão que não dava certo em nenhuma posição do time, era enquadrado naturalmente como goleiro. Não tinha apelação: ao gajo reconhecido e declarado como "perna de pau", se quisesse mesmo jogar, não restava outra alternativa senão defender o gol.

Ao longo do tempo, essa desvalorização do goleiro, imposta pela visão infantil, alterou-se radicalmente, a ponto de termos hoje atletas consagrados, no Brasil e no exterior, defendendo as cores de seus times embaixo dos três paus - como os jornalistas esportivos qualificam também o território entregue à responsabilidade dos goleiros. Mas, afinal de contas, o que tem de comum entre o futebol, com seus naturais "pernas de pau", e a educação? E, mais especificamente ainda, entre o futebol e o analfabetismo? Historicamente, também se assistiu o mesmo fenômeno atingindo o sistema educacional. Quando, num grupo político dominante, algum correligionário não se enquadra em nenhum posto, é logo lembrado para assumir a pasta da educação. Não por mérito, reconheça-se, mas por injunções políticas. "Vai cuidar das professorinhas!", jogavam-lhe, de pronto, na cara, em tom de gozação.

Enquanto isso, na Bolívia - vejam bem, na Bolívia, li recentemente - o tema educação é tido como de altíssima prioridade, se constituindo numa verdadeira devoção das autoridades o cuidado com o assunto. Isso também ocorre na China, nas Coréias, no Vietnam do Sul, do Norte, no Canadá, no Japão, no... Afinal, em qualquer país que queira ser levado a sério. Já por aqui vi, dias atrás nos jornais, declaração do Ministro da Educação se dizendo alarmado com o índice de analfabetismo no Nordeste. Ôxente, Ministro! E só agora sua Excelência enxergou isso? Afinal, quem não sabe que aqui a taxa de analfabetos atinge mais de 15% da população dos 15 anos para cima? E que, dos estatisticamente alfabetizados, 76% (isso mesmo, cara pálida, 76%) não sabem escrever? Quem não sabe? Ou será que o Ministro de Educação é o goleiro do sistema político encabeçado pela Presidente Dilma?

Longe de mim criticar aqui gratuitamente as autoridades educacionais. Mas isso tudo revolta. E como! Afinal, nenhum país pode atingir um patamar de desenvolvimento social, pelo menos razoável, com uma taxa de analfabetismo como a brasileira - e, pior ainda, como a nordestina. Feitas as contas, chegaremos a um número assustador de analfabetos. No Brasil é um contingente superior a 20 milhões de pessoas; no Nordeste de 4,5 milhões; no Rio Grande do Norte de 450 mil pessoas. Estes números, além de desonrarem a memória das autoridades educacionais que já se foram, e das que estão aí, nos condenam, inexoravelmente, a ocupar um posto de irrelevância no contexto global. Ou será que, no campo da educação, por absoluta incapacidade de atingirmos outros objetivos, somente nos estará reservada a posição de goleiro? Quando estaremos em condição de lutar pela ponta-de-lança?

 

23 de Maio de 2014 às 11h55

FORTE CHEIRO DE MOFO NO AR

Nessa época do ano é comum o surgimento do mofo. Por onde você anda, ele se faz presente, afetando narizes e impregnando as roupas de manchas acinzentadas e bolorentas. O mofo aparece em razão da combinação do ar saturado de umidade, pela ocorrência da chuva, com o calor inerente ao clima tropical natalense. Para as donas de casa traz bastante preocupação. As crianças são logo acometidas de longas seções de espirros e o conseqüente aparecimento de corrimento nasal, gripes, garganta inflamada, etc, etc. Além de doentio, o mofo tem uma característica interessante: ele é anti-social. Gosta de sombras, de lugares não visitados, de enclaves pouco freqüentados, fechados, obscuros e inacessíveis. O mofo não gosta de locais abertos, claros, limpos, arejados, renovados. Sintomaticamente, a roupa clara não lhe é apetecível. Prefere os tecidos escuros, de pouco uso, entocados há bastante tempo.

Entretanto, o mofo não mata. Eu, pelo menos, nunca fui a um enterro de alguém que tenha sucumbido vítima do mofo. Ele enche o saco das donas de casa diante de roupas imprestáveis para o uso, impregna ambientes com seu odor característico, causa crises de sinusite, olhos lacrimejantes, nariz entupido, dor de cabeça, deixa você com um jeitão caído, entristecido, arrasa seu humor... Mas, matar não. Isso não ele não faz. Outro detalhe evidente no mofo é que ele não escolhe classes sociais. Sua ocorrência se registra de maneira universal, atingindo a todos, em todos os lugares. Logicamente que os mais abastados têm mais e melhores elementos para combatê-lo do que os menos favorecidos. Enfim, metaforicamente, há uma semelhança incrível entre este período de tempo - no qual o ar e os ambientes estão carregados de mofo - e o atual momento político vivido pelo Brasil.

Ambos não matam. Mas causam um prejuízo considerável. Semelhantemente ao mofo, a corrupção é um silencioso elemento nocivo às engrenagens políticas, administrativas e institucionais. A corrupção não gosta de ambientes abertos, da luz clara e ofuscante do debate de idéias. De ambientes visitados por gestores detentores dos princípios da honestidade, da seriedade, das boas práticas administrativas. Como o mofo, a corrupção impera em lugares obscuros, vedados ao exercício investigativo, auditorial, dos órgãos destinados ao seu combate. Da mesma forma que o mofo, a corrupção não resiste a uma boa investigação. Quando uma dona de casa abre um armário ou joga à luz do sol uma roupa impregnada de mofo, seu arsenal doentio desaparece rapidamente sob o poder antisséptico, regenerador e crestador dos raios solares.

Num processo inicial, o mofo e a corrupção não matam. Mas suas conseqüências, além de imprevisíveis, podem desaguar num processo de morte. Da congestão nasal dos primeiros momentos, o mofo pode progredir para distúrbios gravíssimos. Sem o tratamento adequado, seu desenvolvimento descontrolado, após se estabelecer no organismo humano, pode gerar até óbitos, pela ocorrência de distúrbios pulmonares e de outra natureza. Do mesmo modo, nas engrenagens públicas, a corrupção pode causar infecções tremendamente danosas e abalos políticos de enormes proporções. As donas de casa aprende-ram a combater o mofo e têm contra ele armas bastante eficazes. Por seu turno, o organismo estatal precisa aprender a combater a corrupção e encontrar rapidamente remédios eficazes contra a sua proliferação. Senão, atchim, atchim, atchim... Cadê o descongestionante!!!?

 

17 de Abril de 2014 às 13h32

DA GALILÉIA A JERUSALÉM

Por menor que seja o conhecimento bíblico das pessoas, muitas sabem que Jesus nasceu em Belém, na Judéia, e que depois se transferiu para a Galiléia. Por qual motivo? Qual a explicação para a mudança? Mistério... O termo galiléia vem do hebraico, galil, que significa círculo, anel. Assim, trazendo o termo para o sentido geográfico, galil envolve uma circunscrição, uma região, um distrito. De origem antiqüíssima, o termo sofreu transformações através dos tempos, até se fixar como designativo do nativo daquele espaço geográfico. Desde longo tempo, a Galiléia, juntamente com a Judéia e Samaria, passou a integrar o território da Palestina. Das três, a Galiléia era a mais pobre, a mais atrasada e a que mais se distanciou, ao longo da história, dos preceitos religiosos que caracterizaram mais fortemente as outras duas províncias, e que redundaram no surgimento do judaísmo - a fé no Deus único.      

Desde suas origens, por um capricho geográfico, a Galiléia se viu espremida entre as maiores potências da região, fazendo fronteira com a Assíria e a Babilônia. Por conta de tal vizinhança, foi invadida, dominada e explorada inúmeras vezes, com seu povo sendo escravizado por longos períodos. Daí o seu atraso intelectual, material e religioso em relação à Judéia e Samaria, motivo de preconceito, afastamento e desprezo dos outros dois povos em relação aos galileus, apesar das origens comuns. Aliás, o preconceito da parte dos outros dois povos aos galileus era tão grande que eles não eram considerados do "tronco de Davi", sendo-lhes negado também o cumprimento amistoso, o parentesco com o Messias (que ainda viria), casamentos e transações comerciais que os envolvessem. Dita com arrogância e soberba, a frase "pode sair algo de bom da Galiléia?" resumia todo o preconceito.

É aí que entra Jesus Cristo na história da Galiléia. Embora nascido em Belém, também conhecida por Belém de Judá, povoado situado a oito quilômetros de Jerusalém, Jesus estabeleceu-se logo cedo em solo galileu, fazendo, nos seus trinta e três anos de vida, um sintomático itinerário: nasceu em Belém (que significa "casa do pão"); foi criado em Nazaré (que significa "renovo", "ramo novo"); fixou sua base de operações em Cafarnaum (que significa "compassivo", "misericordioso"), e terminou seus dias em Jerusalém (que significa "lugar de paz"). É importante se ressaltar que o período mais importante e frutífero de sua obra, durante três breves anos, transcorreu quase sempre em terras da Galiléia. Como (em linguagem popular) para bom entendedor, meia palavra basta, no caso de Jesus, mesmo que não tivesse dito uma só palavra, só o percurso que percorreu já soaria como um recado claríssimo.

Senão, vejamos. Jesus nasceu em Belém, cujo significado expressa "casa do pão"; não foi à toa, então, que Ele disse "eu sou o pão da vida". Jesus foi criado em Nazaré, cujo significado ("renovo", "ramo novo"), retrata sua pessoa como a proposta renovada de Deus para a salvação dos homens; também não foi à toa que disse: "eu sou a videira verdadeira". Jesus estabeleceu seu ministério em Cafarnaum, que significa "compassivo, misericordioso", termos que marcaram fortemente a essência do seu ministério; igualmente, não foi à toa que disse "misericórdia quero e não sacrifício". Jesus, crucificado, encerrou seus dias em Jerusalém ("lugar de paz"), gesto que traduz com fidelidade seu desejo para que a paz prevaleça entre os homens; por isso não foi à toa que falou "eu vos dou a minha paz". Dádiva, aliás, de difícil aplicação em razão de exceder o entendimento humano. "Amai-vos uns aos outros..."

 

11 de Abril de 2014 às 12h27

O (EFICAZ) AMOR DE DEUS

Quando se fala em amor nada consegue se comparar ao amor que Deus direcionou ao homem desde a criação do mundo. Aliás, antes da criação do mundo. Pois é certo que o Criador, antecipando-se ao nascimento físico do homem no desenrolar do processo da criação, investira um bom tempo no planejamento de sua obra. Ocupação, atividade, digamos assim, traduzida como gesto de puro amor, qual artista que tem sua obra em alta conta desde a idéia inicial, desde o momento primeiro de sua concepção, mesmo não conseguindo divisá-la, quando conclusa, em sua total grandeza. Por outro lado, se observarmos atentamente para a "máquina humana", veremos, pela perfeição de sua criação, manifesto no encadeamento preciso de seus tecidos, órgãos, membros, pela capacidade de raciocinar, de formular idéias, de fazer escolhas, ser ação genuinamente amorosa o ato autoral que produziu o homem.  

Como também podemos catalogar como gesto amoroso perfeito o esmero em trazer o homem ao cenário da vida na qualidade de herdeiro e detentor de um território inteiramente seu e capacitado, integralmente, a provê-lo de todos os itens necessários à sua subsistência. "Um jardim para cultivar e guardar", com está escrito no Gênesis. Além do mais, não podemos nomear de outra forma - que não seja como do mais puro amor - o ato de Deus dotando o homem de livre arbítrio, atributo que agregou ao ser humano uma qualidade única em toda a natureza e que fê-lo construtor do seu próprio destino. Ou que título se pode dar ao ato daquele que fez de sua criação um ente livre, instrumentalizado, inclusive, da condição de amá-lo ou odiá-lo de acordo com a sua vontade? Quem chegaria a tanto? Quem daria condições de vida a alguém capacitado a voltar-se contra seu criador na medida em que assim o desejasse?

E Deus não ficou somente nisso. Tempos depois de dar ao homem todas as condições de viver, com Ele, uma existência de comunhão, de harmonia, de paz - tendo o mesmo homem, ao contrário, escolhido o caminho do pecado por livre e espontânea vontade - se fez homem na pessoa do Senhor Jesus Cristo para, através do sacrifício de sangue, quitar a fatura, a nota promissória de nossa dívida para com Ele desde os tempos de Adão. Atentem bem: sacrifício Dele; pecado nosso. Só nosso. E, da mesma forma que das vezes anteriores, agindo em amor genuíno e desinteressado, inaugurou, com a morte e ressurreição de Jesus, um novo tempo. Não mais baseado em sacrifícios, em ordenanças, nem em pesadas responsabilidades, mas em troca do exercício da fé, que, em última análise, quando praticado, transmuda-se, pelo conceito divino, em atitude da mais genuína doação e do mais puro amor.

E como se concretiza, como se realiza o amor de Deus em nossas vidas? Ou por outra, que efeitos são visíveis em nós em função do seu amor? Afinal, se este é um ato fundamental de Deus para o relacionamento salutar entre os homens, algo deve surgir, em nós, para testificar os seus efeitos. Este mistério é esclarecido pelo apóstolo Paulo em Gálatas 5.19-22: "as obras da carne são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias. Mas o fruto do Espírito é: caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança". As primeiras obras atestam a ausência de Deus; já as segundas sinalizam, em nós, a prevalência do seu amor, sua eficácia, alterando nosso caráter, nossas atitudes e nosso relacionamento com o próximo. Uma nova vida, enfim. Inteiramente nova. E amorosa. 

 

14 de Março de 2014 às 13h00

ÍNDICE DE MORALIDADE E A SELEÇÃO NACIONAL

O panorama de crescimento econômico, de desenvolvimento social de um país se observa também pela avaliação constante de que são objetos os seus vários segmentos. O sistema educacional brasileiro, por exemplo, está indo muito bem no que toca às suas atividades de avaliação. A ministração das aulas é muito ruim, como o é também o aprendizado da parte dos alunos, mas um bom instrumento para melhorar a situação o governo está utilizando: medir o sistema, mesmo que os resultados sejam dolorosos. De vez em quando, a opinião pública brasileira é bombardeada pelos resultados, positivos ou não, que surgem de tais elementos de medição. É o Ideb, é o Enem, e o Eanes, o Provão, o Simuladão, etc, etc. Da mesma forma, em se tratando de desempenho econômico, os diversos institutos de pesquisa também trombeteiam as maravilhas ou desacertos que as políticas governamentais estão fazendo junto ao público.

No plano internacional a coisa também é levada bastante a sério. Hoje, já se mede o índice de desenvolvimento social alcançado por um país, cotejando-o rigorosamente com o índice de desenvolvimento econômico. Isso é feito para se analisar a questão da distribuição de renda, da qualidade da prestação dos serviços públicos, etc, etc. Até a corrução passou a ser medida. Já existem, para efeitos internacionais, instrumentos que indicam se um país, no contexto global de suas instituições, é muito corroído ou pouco corroído pelo câncer da corrução. Tudo isso é muito bom - e tem trazido resultados extraordinários para o desenvolvimento de atividades anteriormente relegadas a planos secundários nos planejamentos dos governos. Entretanto, até os dias atuais, não existe um índice que meça a moralidade dos homens públicos, que indique, principalmente, o caráter positivo ou negativo dos parlamentares em suas várias latitudes.

Pois, se tal índice de moralidade fosse implantado, o Brasil, com certeza, ascenderia a uma das piores (ou melhores?) posições. Seria, digamos assim, um campeonato mundial da safadeza parlamentar. Para tal competição, nossa seleção seria imbatível. Quem, por exemplo, seria escalado para o gol? Nessa posição teríamos ótimos atletas. Deputados e senadores que costumam segurar o andamento do jogo, impedindo a investigação dos fatos. Mesmo que um deles fosse ungido para titular do gol, os demais dariam um excelente banco de reservas. Para o cargo de técnico poderíamos indicar o bem sucedido José Sarney. Quem melhor do que o rico Sarney para instruir o elenco a atacar e defender da forma mais vantajosa possível? Afinal, não é o Maranhão o estado mais pobre do Brasil, apesar da dinastia Sarney dominá-lo por mais de 40 anos?  

Da defesa para o ataque, passando pelo meio de campo, os nomes do catálogo seriam abundantes e fartos. Dor de cabeça para escalar o melhor time o técnico, com certeza, não teria. Imagine ter à sua disposição, para tal empreitada, atletas do porte de Genoíno, Maluf, Jader, Renan, Roriz... Isso sem falar num bloco especial, já treinado e experiente nesse tipo de escaramuça, o dos mensaleiros. O técnico, inclusive, poderia até se dar ao luxo de deixar de fora, para efeito de escalação, competentes jogadores da bancada dos lavadores de dinheiro sujo; dos sanguessugas; dos trambiqueiros do imposto de renda; dos que têm contas particulares pagas por executivos de empreiteiras; dos que têm campanhas financiadas por bicheiros, estelionatários e assassinos; dos que praticam nepotismo escrachado... Ufa! Que elenco, que time, que seleção! Já pensou a repercussão internacional? Viva a seleção dos safados nacionais! Viva!!! Vivaaaaaaaa!!!

 

28 de Fevereiro de 2014 às 14h49

LUDISMO CONTEMPORÂNEO

Diferentemente dos tempos antigos, quando o processo de comunicação era demorado, do momento em que o fato acontecia até chegar ao conhecimento da população, hoje a cobertura é instantânea. Por mais desligado o cidadão, e mais distante o local onde resida, a informação chega até ele em tempo cada vez mais curto. Por um lado, isso trouxe a vantagem da instantaneidade; de outro, um altíssimo volume de exposição a cenas para as quais muita gente não está preparada. E o que se vê, em tempo demasiado, diante da tv, do computador, do smartphone não traz nenhuma satisfação. O mundo vive um daqueles momentos em que miséria, ignorância, fome, violência, corrução, analfabetismo e fenômeno climáticos contribuem para a formação de um caldeirão de tal dimensão que afeta as emoções (para alguns) a um ponto próximo da ruptura e (para outros) muito além do suportável.

Entretanto, tal fenomenologia é exclusiva dos dias de hoje? Claro que não. A diferença está nos métodos utilizados e no espaço de tempo em que os fatos chegam ao conhecimento geral. No mais, como dizia Lavoisier "na natureza (ou na vida) nada se cria; nada se perde; tudo se transforma". Tanto é assim que o que é visto hoje já arregalou os olhos de muitos séculos atrás, milênios atrás. Populações inteiras igualmente aterrorizadas como as de hoje. Ora, o marginal que, de carro importado, arrasta alguém quilômetros e quilômetros não é o mesmo que, nos tempos bárbaros, ou mesmo na Idade Média, puxava o inimigo pelas aldeias de então amarrado à cela do cavalo ricamente ajaezado? Ora, direis, qual a diferença? Uma passada de olhos no Século XVIII e as cenas se repetem. Em plena ação, no nascedouro da Revolução Industrial, partidários de Ned Ludd quebrando tudo que encontravam pela frente.

Como se observa, no tempo o que difere é o discurso, o argumento. A energia para quebrar tudo o homem sempre teve. De sobra. E o que tem Ned Ludd a ver com essa história? Ele foi um personagem famoso durante quase uma década nas origens da Revolução Industrial, período de efervescentes descobertas na Inglaterra de 1779. As máquinas pondo em cheque a atividade artesanal em razão da produtividade que propiciava no confronto com o trabalho individual de então. Desemprego em alta, exploração da mão de obra feminina e infantil, péssimas condições de trabalho, salário vil. Nesse contexto, surge Ned Ludd (que muitos historiadores dizem ser o nome falso de Michel Homere) como o primeiro operário a arrebentar uma máquina em represália à realidade vigente - um verdadeiro "black bloc". Seu gesto foi o rastilho de pólvora para a quebradeira generalizada que se espalhou pelos centros industriais.

Tudo muito semelhante ao que se vê hoje. Ned Ludd chegou ao ponto de se intitular general e levou a Inglaterra a um nível altíssimo de terror e insegurança, o que obrigou a Governo a editar leis duríssimas para combatê-lo. A partir daí, o "ludismo" passou a rotular os que se colocam contra novas tecnologias e que se insurgem pelo simples desejo de quebrar. Mesmo inconscientemente, os "black blocs" repetem o que ele fez séculos atrás. Enquanto Ned Ludd, sem nenhuma ideologia, arrebentava máquinas apenas pelo sentimento de revolta (sem buscar o diálogo nem apresentar proposta alguma ao Governo de então) os "Black blocs" contemporâneos se movem pelo mesmo afã estéril e improdutivo. Violentos gratuitos, difusos nas pretensões, assassinos potenciais, falta a eles tão somente a marreta ludista. De quebra, contam com a audiência e a impunidade que Ned Ludd nunca sonhou de ter.  

21 de Fevereiro de 2014 às 12h39

O HOMEM SÁBIO; O HOMEM ESPERTO

Não é de hoje que o homem - na busca por vantagens materiais, políticas, profissionais, sociais, familiares - decidiu adotar costumes, hábitos, procedimentos e atitudes para alcançar seus objetivos nem sempre empregando métodos aconselháveis. A História mesmo nos dá conta de um bom número de personagens que atropelaram os chamados "bons costumes" para atingir seus propósitos. É sabido também que existem inúmeras maneiras de tais propósitos serem alcançados. Inicialmente, o que difere o homem esperto do homem sábio é a paciência. A paciência é da essência da sabedoria, enquanto a esperteza tem na pressa, na agitação, na precipitação, na imoderação o "modus operandi" mais apropriado. O termo sábio vem do grego "sofós", daí gerando "sofia" que significa sabedoria. Tem como características principais a habilidade para agir de maneira acertada.

O vocábulo tem a ver com a inteligência de certas pessoas no sentido de exercitar, mais do que outras, o dom de se proverem de conhecimento de forma mais rápida, mais eficiente, mais racional. O sábio é aquele que tem paciência para aprender a respeito das coisas e inteligência para executá-las corretamente, sempre respeitando a moral, a ética, os costumes. Outra característica do termo é sempre se inclinar para o bem, além de dotar de humildade, respeito para com o pensamento dos outros, gentileza no trato com o próximo e espírito público as pessoas dispostas a se lastrearem nessa concepção. Ao sábio também está reservada a capacidade de enxergar longe, fugindo das implicações do dia-a-dia, não permitindo que dificuldades ocasionais lhe turvem a visão ampla do futuro - isso sem lhe tirar a qualidade de reconhecer seus próprios erros e buscar as soluções com rigor e desassombro.

Já o esperto... Bom, o esperto sempre cai na graça da torcida. Principalmente no Brasil onde os princípios são atropelados e se mesclam de tal forma que ninguém consegue mais enxergá-lo na inteireza de suas (negativas) qualidades. Por aqui até os sábios já concluíram que não tem muita vantagem em ser sábio. O negócio é ser esperto, agir com competência para lograr êxito, mesmo que através de práticas que abusem de atos desonestos, imorais. É bem verdade que em certas ocasiões os sábios podem até ficar (não são) espertos, se valendo da esperteza para, digamos assim, encurtar caminho na busca do que procuram. Porém, dificilmente o contrário acontece. Dificilmente, podemos afirmar que alguns espertos se utilizam da sabedoria para alcançar seus objetivos. Por quê? Pela própria essência, pelas próprias características, pelos propósitos que movem o esperto em todas as direções.

Embora agindo com competência no contexto da esperteza, o esperto sempre se utiliza do logro, da sutileza, da perspicácia, da astúcia, da manha para iludir, para enganar - e, assim, alcançar seus intentos. Por sinal, essa prática tem levado muita gente a convencionar que o esperto é inteligente. Ledo engano. Erra o alvo quem confunde esperteza com inteligência, embora vários estudiosos tratem os dois termos como sinônimos. Porém, na prática, analisando-se os frutos das ações do esperto e das ações do inteligente, vê-se que é grande a distância que os separa. A inteligência - tida como a capacidade mental de raciocinar, de planejar e resolver problemas, de abstrair idéias - tem em seu âmago muito mais afinidade com a sabedoria. Sábios, espertos, Brasil... Sarney, Maluf, Renan e tantos mais... Teremos sábios no Brasil? Ou o Brasil é um país de espertos? Deus meu, acuda o Brasil!!!  

31 de Janeiro de 2014 às 11h14

MAL EDUCADOS, RETORNEM AS LIGAÇÕES!!!

Uma das maiores e mais constantes reclamações que ouvimos, no contato diário com as pessoas das mais diversas classes sociais, é o desrespeito e a desconsideração que recebem daquelas outras ditas importantes, ocupantes de altos cargos na administração pública e também na iniciativa privada. A queixa envolve a constatação de como é difícil a um integrante do primeiro, segundo, e até mesmo do terceiro escalão da administração pública, seguir as mais elementares noções de educação e etiqueta profissional para com os demais mortais, retornando as ligações e recados a eles dirigidos. Na iniciativa privada o índice de frieza e insensibilidade é bem menor. Porém, mesmo assim, atinge taxas igualmente altas de má educação e má vontade. É impressionante como atualmente por aqui e alhures, sem exceção, alastrou-se essa verdadeira praga de arrogância, soberba e descortesia.

E olhe que estamos falando de pessoas comuns. Gente assalariada, que tem problemas e dificuldades na sua rotina diária como qualquer outra. Porque se falarmos das elites, aí enquadrados empresários, autoridades, personalidades do mundo artístico e políticos em geral, o quadro fica pior, muito pior. No caso específico dos políticos, é interessante se notar que, para lograrem êxito, fazem todo tipo de paparico ao eleitor, principalmente aos mais necessitados. Aí, depois de alcançar seus objetivos, montam uma razoável estrutura para se livrar daqueles que os procuram, normalmente constituída de pessoas insensíveis, agressivas, escolhidas a dedo. O que se vê, então, é um quadro humilhante, degradante, de difícil narração. Pessoas, normalmente de condições humildes, perambulando de gabinete em gabinete, de sala em sala, solicitando atenção para suas dores, dissabores, aflições.

Recebendo, em troca, de assessores e secretárias, já devidamente instruídos, todo tipo de manifestação de descortesia, indiferença e arrogância. É interessante se observar, por outro lado, que tais profissionais são trazidos para funções importantes, estratégicas no tocante ao atendimento público, sem passar por nenhum preparo da parte daqueles que os nomeiam, que os constituem seus prepostos. Aí é de fazer dó as cenas presenciadas. Umas pessoas se dirigindo a outras – no sentido de terem seus pedidos atendidos; e estas se negando a atendê-las ou praticando um atendimento de péssima qualidade – gerando, com isso, tristezas e decepções de toda ordem. São, em resumo, as pessoas erradas, colocadas nos lugares errados por pessoas erradas, para atender gente que escolhe hora e lugares errados, com gente errada para recebê-las e erradas para encaminhar seus problemas, demandas e aflições.

O caos, enfim. Tais pessoas agem como se fossem habitantes de um mundo à parte, como componentes de um extrato social diferente, majestático, desconectadas de responsabilidades e atenções para com o próximo. Retornar recados e ligações para elas é totalmente dispensável. Tanto faz como tanto fez. Insensíveis, não calculam o prejuízo que causam aos outros e aos órgãos que servem em razão da descontinuidade ocasionada pelo seu mau comportamento. Enganam-se, se pensam que estão “abafando”. Na verdade, agindo assim, estão mal diante de si e dos homens – e mais ainda perante Deus. Pois foi Jesus mesmo que disse “Aquele que recebe os que Eu envio, a mim me recebe”. Deu pra entender? É muito séria – e edificante para quem a faz com amor e zelo – a atividade de atender, receber e encaminhar pessoas. Digno e fidalgo é aquele que a cumpre com dedicação, carinho e boa vontade. 

24 de Janeiro de 2014 às 11h13

EMPANTURRAMENTO SARNEYANO

Uma das piores conseqüências do coronelismo é o personalismo, o culto exagerado à imagem, ao nome, à atuação político/profissional de alguém. O personalismo, além do mais, é filhote perverso, asfixiante, anacrônico, de um processo absolutista, ditatorial, que deságua normalmente na tentativa de imposição – orquestrada por um sistema político, econômico, intelectual ou militar – de um contexto idolátrico em torno de pessoas ou de propostas de natureza diversa. E mais: o personalismo carrega em seu íntimo a semente da ignorância, da insensibilidade, da arrogância, da truculência (embora nem sempre de caráter policialesco, fisicamente intimidatório e agressivo), fatores, por sua vez, suficientemente capacitados a gerar os frutos do alheamento, da alienação, do isolacionismo, da cegueira coletiva, do fanatismo, do puxassaquismo e outros ismos de conteúdo semelhante.

Em suma, o coronelismo – e seus filhotes adjacentes – é praga horrenda, epidemia a deixar marcas e seqüelas de nefastas conseqüências na existência de um povo. Felizmente, no Brasil, analisando a balança, o prato onde se situa o coronelismo está, gradativamente, perdendo peso em relação aos outros fenômenos que acontecem no nosso sistema político, econômico, social. Entretanto, mesmo com o aperfeiçoamento gradual das engrenagens que movem a nação, sempre resta um embrião, um remanescente dessa raça, alguém, portanto, disposto a querer impor sua visão e, conseqüentemente, tirar dela inúmeras vantagens. Olhando para o horizonte atual brasileiro quase não se nota mais a forte presença dos coronéis de antigamente, prova concreta – mesmo que lenta, lentamente – do amadurecimento do nosso sistema democrático. A exceção atende pelo nome de José Sarney.

Quem já foi ao Maranhão sabe do que estou falando. E o pior é que, do solo maranhense, o coronelismo à moda Sarney espalhou-se pelo Brasil. Ocupou o Acre e abancou-se no Congresso Nacional, de onde processa sua influência para alhures e quejandos. Antes, esteve no Palácio do Planalto, período em que usufruiu da presidência da república, e onde se fortaleceu mais ainda, até chegar ao nível de poder que exerce hoje. Mas voltemos ao Maranhão. Lá o nome Sarney está em todo canto, em todas as áreas que detenham algum grau de importância, de exercício de mando. É escola com nome Sarney, é hospital, é clínica, é fórum, é rua, é avenida e mais o que se possa imaginar. É tanto exagero na utilização do nome – como forma de ocupação de espaços – que agora o estômago do organismo de tão empanturrado, de tão embrulhado, de um estágio de engulho passou para o vômito escancarado.

Ou não é assim que acontece com o estômago quando se vê invadido por alimentos em demasia? Inicialmente, um simples enjôo aqui, um pequeno desconforto ali, umas cólicas acolá... Que vão se agigantando, terminando por ocasionar forte ânsia de vômito ou o surgimento de uma baita diarréia. É o que acontece com o Império Sarney. De tanto empanturrar o organismo local, regional e nacional com seu coronelismo bizarro e de alto teor corruptivo, vê-se agora na iminência de ser vomitado da esfera do poder pela indigestão que acomete os organismos onde desfila sua influência. E pode até continuar no poder, como ocorre com aquela pequenina parte do vômito que volta pra barriga. Mas já não é o mesmo alimento; é, na verdade, resto putrefato e indesejado, a ser, mais dia menos dia, forçosamente expelido. Se não em novo vômito, pelo menos na ocorrência de nova diarréia. E a fedentina? Cruzes!!!  

10 de Janeiro de 2014 às 10h37

UM ESTRANHO CORTEJO

Há uma passagem na Bíblia, no livro de Marcos, (2. 3.) que nos mostra uma cena bastante estranha. Jesus chegara a Cafarnaum, vindo da Galiléia, e logo a notícia correu de que Ele chegara à cidade. Sua fama já era bastante conhecida. Por onde andava grandes multidões se apertavam para vê-lo e ouvi-lo. O versículo 3 narra, então, que "alguns foram ter com Ele, conduzindo um paralítico, levado por quatro homens". Pelo que se vê, uma pequena multidão se aglomerara em torno de um paralítico, sendo que destes todos quatro foram escolhidos para levar o paralítico a Jesus. O paralítico foi carregado em sua própria cama, certamente em razão de dificuldades de movê-lo até Jesus de outra maneira, ou pelas dificuldades financeiras de contratar outro tipo de transporte. O que se depreende do episódio é que o paralítico não era um qualquer - uma vez que muitos se juntaram para socorrê-lo.

Assim, fica configurado o inusitado da cena. Um bando de homens, (às mulheres não era permitida tal empreitada, em função da cultura e hábitos judaicos) carregando uma cama, desfila com um paralítico pelas ruas da cidade em busca de solução para suas dores. Da cena se extrai, no mínimo, uma alta demonstração de solidariedade, pois é muito difícil conciliar tempo e interesses de um bom número de pessoas dispostas a desfilar, pelas ruas de uma cidade, carregando um paralítico numa cama. A cena, olhando-se de fora, teria também algo de ridículo, de insólito, de cômico. Mesmo assim, temos que admitir o forte fascínio que o doente exercia sobre as pessoas a ponto de convencê-las a se irmanarem com ele na incomum tarefa. Embora pobre, houve argumentos da parte dele que sensibilizaram outros homens a ajudá-lo na busca da solução para os seus problemas.

Do episódio podemos tirar várias lições. A principal delas é que aquele homem jamais se entregou à sua desdita. Podemos concluir isso pelo simples fato de que, ao primeiro sinal da presença de Jesus na cidade, ele se movimentou para procurar ajuda. Pelo pronto atendimento dos amigos ao seu chamado, podemos concluir também que em redor de si havia sempre trânsito de pessoas. Isso demonstra que, apesar de suas dores, de sua vergonha, da sua incapacidade física, ele tinha um comportamento que gerava nas pessoas afeição, carinho, afinidade - irmandade até. Afinal, como narra o texto bíblico, aquele grupo de companheiros topou uma empreitada nada fácil. Ao chegarem na casa onde Jesus atendia o povo se depararam com uma difícil realidade: não havia como entrar na casa; não havia como chegar a Jesus, pois o ambiente, de tão freqüentado, estava completamente tomado.  

Mesmo assim eles não desistiram. Acredito que tenham feito uma pequena conferência em torno da dificuldade. "E agora, como vamos fazer?" Um deles, certamente o mais afoito, sugeriu a cena que se perpetua até os dias de hoje: "vamos pelo eirado". E subiram o paralítico, com cama e tudo, até o telhado, cavaram um buraco no teto e desceram o conjunto até Jesus. Muita coragem, ousadia e disposição para ajudar uma pessoa necessitada! Você chegaria a tanto? Do episódio o que me fascina é o carisma do paralítico. De como ele - em meio a uma realidade dolorosa - permaneceu firme, deixando de lado uma realidade de derrota, para seguir em frente. E como conseguiu unir ao seu projeto um grupo compacto de homens dispostos a tudo para ajudá-lo. Ah, o melhor é o resultado. Curado por Jesus, voltou para casa ereto, feliz, levando de volta o leito às costas. Vitória. Pura vitória... 

03 de Janeiro de 2014 às 12h14

E PRA ONDE VÃO OS NÃO SELECIONADOS?

 O ser humano é, por natureza, seletivo. Seleciona amizades, relacionamentos, profissão, local de morada, de trabalho, bebidas, comidas, livros, filmes e uma série infindável dos mais variados itens que compõem o universo humano. E, da mesma forma que age seletivamente no campo racional, o homem é levado biologicamente a permanecer na esfera seletiva quando suas ações envolvem escolhas de natureza sensitiva, metafísica, espiritual. O olfato é seletivo, o tato também – como também o são todos os demais sentidos. Em vista disso, seria mais do que lógico gestar-se, no âmbito dos elementos que circunscrevem o homem, uma cultura correspondente. E isso realmente acontece, com a seletividade invadindo os terrenos mais díspares e celebrando os objetivos igualmente os mais variados. E aí (afinal, ninguém é de ferro) os limites extrapolam e os absurdos se fazem presentes, atingindo o inimaginável.

Hitler, por exemplo, praticou a seletividade na população alemã a grau extremo, querendo, com isso, atingir a expressão maior da pureza ariana, um sonho louco que outros loucos infelizmente apoiaram. Franco, na Espanha, à mesma época, exercitou a seletividade político/ideológica torrando, no campo do conflito armado, quem não se enquadrava nos seus devaneios ditatoriais. Stalin, um pouco depois, também se aprofundou na seara da seletividade, matando, a torto e a direito, aqueles que não se encaixavam no perfil que escolhera. Chegou, inclusive, a fazer seleção além mar, ao fincar, através de um fanático militante, uma machadinha na cabeça do camarada Trotsky. Como se vê, a prática da seletividade entregue ao livre arbítrio do homem consegue tisnar de negro a história em todos os quadrantes. (Embora, no que toca à Ciência, o selecionar tenha contabilizado enormes benefícios).

Mas não fiquemos somente ao lado de tais figuras. Aliás, bizarras figuras. Busquemos facetas mais amenas do ato de selecionar. Encontraremos? Dia desses, vendo um comercial de tv, tive a curiosidade despertada por um chavão que impregna a atividade publicitária e que quer nos fazer de idiotas. Em meio a imagens belíssimas de uma área gramada, (era um comercial de vinho), em idílico cenário, o locutor informa que o produto era resultado de um rigoroso processo de seleção de uvas. Fiquei a imaginar, então, a enorme quantidade de uvas lançadas fora após a seleção. Montanhas e montanhas delas certamente. Mais adiante, em anúncio de carne de frango, outro locutor comunica que a fábrica coloca no mercado frangos “rigorosamente selecionados”. E os não selecionados onde vão parar? O mesmo acontece com perfumes, leite, cervejas, roupas, produtos de beleza...

Faço um exercício mental e não consigo enxergar onde se encontra o resultado dessa gigantesca operação seletiva. Jogaram no mar? Distribuíram entre os pobres? O negócio começa a ficar complicado quando o processe envolve gente. Porque, entre frangos, uvas, roupas e que tais, sou “trabalhado” por outra empresa, cujo apresentador afirma, professoralmente, que o seu quadro funcional é resultado de uma “rigorosa política de seleção de recursos humanos”. Daí ser o seu produto o melhor, o maior, etc, etc, etc. E agora? Se em um processo seletivo apenas uma pequenina parte de um todo é escolhida, o que será feito da parcela sobrante? Em se tratando de mercadorias ainda dá pra amontoar o que restou da seleção em algum lugar. Ou, no mínimo, esperar que compradores menos exigentes adquiram o restolho. Mas com pessoas, com seres humanos, como se faz? É bronca! Alguma sugestão?  

13 de Dezembro de 2013 às 13h00

FALSA PIEDADE

Começou o festival de falsa piedade que todo ano, nesse período, infesta nossas caixas de correio e ocupa preciosos espaços da mídia. Refiro-me a essa onda que ocorre no período natalino de se fazer caridade a favelados, desvalidos, desempregados, aos mais necessitados, enfim, através da distribuição de roupas, alimentos, brinquedos, remédios e outras coisas mais. Alguém, aí no seu canto, poderá indagar "mas não é essa a essência do espírito natalino?" Não, não é. O espírito natalino é muito mais profundo e muito mais duradouro. Aliás, quem restringiu, quem convencionou adotar essa postura de voltar-se ao próximo com mais intensidade somente nesse tempo foi o homem. Pois isso, com certeza, não é coisa de Deus. Ao contrário, aproveitar-se de um momento, de uma época, para praticar solidariedade a necessitados é a mais pura demonstração de falsa piedade.

Ou será que a ausência de suprimentos, de empregos, de roupas, de dignidade, enfim, só ocorre no período natalino? E o restante do ano como fica? Isso tudo é uma hipocrisia generalizada, uma onda de falsa piedade que acomete principalmente a classe média nessa época. É como se todos quisessem se livrar, na virada do ano, dos remorsos, das crises de consciência, ocasionadas pelo que deixou de fazer em benefício do próximo ao longo do ano. Miséria, fome, ausência de suprimento ocorre o tempo todo. Além do mais, o tal "espírito natalino" serve, sob medida, para esconder o principal culpado disso tudo: o governo federal. Que incentiva essas campanhas para, com isso, acobertar sua omissão, sua falta de planejamento sério, maduro, em relação às carências dos mais humildes. Aproveitando-se, inclusive, da boa vontade dos ingênuos, dos desavisados, daqueles que agem no emocional.

Pois a falsa piedade opera, principalmente, na falta de conhecimento e se concretiza nas pessoas, por excelência, no campo emocional. Aí, quando chega o período natalino, a um estalar de dedos da mídia, impulsivamente, todo mundo corre a tentar alegrar a vida dos que não têm nada para comemorar, integrando essa corrente demagógica, hipócrita, carregada de dissimulação que todos estamos acostumados a ver. Com isso, não quero dizer que seja maléfico, prejudicial ou anticristão fazer caridade no Natal. E que não tenha gente de boa vontade envolvida nessas campanhas. Tem. Tem, sim, gente bem intencionada na parada. Mas tem também aqueles que agem mais em função dos holofotes do que das carências reais e autênticas dos necessitados. A esses é hora de perguntar: a caridade feita agora tem o mesmo ímpeto, a mesma ênfase durante os meses de janeiro, fevereiro, março, abril?

O espírito cristão, traduzido em amor e respeito ao próximo, é coisa muito séria, pois é matéria prima gestada no coração de Deus. Não é à toa que o próprio Jesus classificou como o segundo maior mandamento "o amar ao próximo como a ti mesmo". O primeiro, logicamente, é amar a Deus sobre todas as coisas, embora os dois preceitos estejam tão interligados e intrinsecamente tão associados um ao outro, que um não subsiste sem o outro - e vice-versa. Porque é impossível amar-se a Deus sem amar ao próximo. Como, igualmente, é impossível amar ao próximo sem amar a Deus. Assim, faça caridade nesse Natal - também. Distribua alimentos, roupas, amor, atenção, sabendo que estará, com isso, alegrando, em muito, o coração de Deus (se essas ações forem também repetidas em janeiro, fevereiro, março...). Aí, sim, estará sendo praticado o verdadeiro espírito cristão. Certo?  

 

22 de Novembro de 2013 às 14h16

ROTULAR (NA MAIORIA DAS VEZES) É EMPOBRECER

Praticamente toda atividade patrocinada pelo homem sofre o fenômeno do rotulismo. Pra onde você se volta, até onde sua vista alcança, os rótulos se fazem presentes. Isso independe de questões culturais, econômicas, sociais, geográficas, existenciais, políticas, ambientais... O homem rotula, carimba, cataloga, nomeia e estamos conversados! Essa atitude o homem cultiva desde os tempos mais remotos. Narra a Bíblia, por exemplo, que no Jardim do Éden, Deus colocou todos os animais diante de Adão para este dar-lhes nomes. E Adão rotulou todos. Não deixou nenhum deles sem nome. Ao lado a atividade intelectual de denominar, sabe-se que Deus assim o fez por uma questão de delegar autoridade, já que, por Sua vontade, depois Dele, Adão seria o senhor do jardim. Fica implícito, assim, que o ato de rotular é também um ato de exercício de autoridade, de escolha, de aplicação do livre arbítrio.

Ou por outra: "quero, logo rotulo". O problema é a veracidade, a autenticidade, o conteúdo do rótulo empregado. Quando se diz, por exemplo, que um político é ladrão, não se tendo a prova real, cabal que dê lastro à afirmação, está-se cometendo um ato de irresponsabilidade, de leviandade - quando não de crime de lesão à honra alheia. E não foi com este objetivo que Deus nos distinguiu com autoridade para rotular. A capacidade de agir por impulso, impensadamente, tem levado a humanidade a cometer injustiças terríveis, com a agravante de que o rótulo, além da injustiça que pode trazer em si mesmo, tem o poder de destruir, de criar famas de características e conseqüências imprevisíveis. Quem foi vítima de um rótulo injusto sabe o sofrimento que tal fato acarreta. O rótulo maldoso e infundamentado é fogo destruidor e quem dele se utiliza torna-se senhor de poder incontrolável.

Tome-se o exemplo (e as conseqüências) do rótulo apensado a Getúlio Vargas, pela cúpula udenista, de corruto, assassino e ladrão. Depois de morto, segundo ele próprio para salvar a honra, nada restou provado. O próprio Jesus Cristo foi rotulado de glutão e beberrão pelos seus detratores. Logo Ele! Observe-se, também, o rótulo que vigiu, durante séculos, sobre Dom João VI, de glutão, abobalhado, indeciso, medroso, entre outros epítetos, quando, vê-se hoje, ter sido ele um dos maiores estrategistas do seu tempo, e o real construtor de um país chamado Brasil - de colossal patrimônio econômico e territorial. Foi também o tão mal rotulado Dom João que causou uma fragorosa derrota ao gênio militar Napoleão Bonaparte - sem sacrifício de uma vida sequer - quando transferiu a Corte portuguesa para o Brasil. Também na política, nas artes, basta surgir uma idéia nova que o rótulo é logo providenciado.

Modernista, pós-modernista, expressionista, primitivista, barroco, romântico, naturalista... Na política: conservador, liberal, socialista, comunista (este meio fora de moda), esquerdista, monetarista, neoliberal, arrivista, revisionista, reducionista, revolucionário, direitista... Fora os mais agressivos como trânsfuga, corruto, mau caráter, desonesto, infiel, néscio, ignorante - até ao mais sonoro e corrosivo ladrão. Vejam o que é rótulo: ainda hoje, quando se fala em Adhemar de Barros, ex-governador paulista, sua fama de ladrão logo surge. Verdade? Mentira? Dos atuais, Paulo Maluf também é assim designado. O que se observa, na verdade, é que o rotulismo impensado é um ato perigoso para quem o pratica (quando não uma demonstração de pobreza moral e intelectual) e, na maioria das vezes, um ditame a restringir, apequenar, a dimensão da pessoa rotulada e a essência da sua obra.

 

14 de Novembro de 2013 às 12h48

A ORDEM DE MARIA

O cenário é de uma festa de casamento. Estamos há mais de dois mil anos atrás, quando Jesus Cristo, seus apóstolos e sua mãe, Maria, comparecem às bodas de um jovem casal, em Caná da Galileia. Caná vem do hebraico e significa cana. O nome, assim, provém da proximidade da aldeia com uma área de alagadiço, com certeza terreno propício à plantação do vegetal. Era também o lugar de nascimento de Natanael, um dos apóstolos de Jesus, e ganhou fama e notoriedade como local do primeiro milagre de Jesus. A passagem é clássica e integra o relato, registrado na Bíblia, do evangelho escrito pelo apóstolo João. Ao que tudo indica, a festa seguia normalmente quando seus organizadores observam que ia faltar vinho. (Imaginem a bebida faltar em plena festa! Seria um transtorno para o noivo!) De imediato, parentes do noivo solicitam a Maria uma intervenção, uma solução para o problema.

Ela, numa atitude natural, como amiga da família, e também querendo retirar do currículo da festa o constrangimento geral que redundaria a falta da bebida, dirige-se ao filho. O gesto de Maria implica várias deduções e ecoa para a posteridade como semente, lastro, elemento impactante para o acontecimento que viria a seguir. Da cena se conclui, em primeiro lugar, ser Jesus - pelo menos até aquele momento - desconhecido no ambiente. Pois, ao invés de procurá-lo para acudi-los, os responsáveis se dirigem a Maria. Ela, por sua vez, deveria ter um forte motivo ou, no mínimo, uma vaga convicção de que o filho representava a solução para o problema. Sabe-se perfeitamente que Jesus não mantinha nenhum envolvimento com o comércio do vinho. Como é certo, também, não ter ele à mão, no momento, nenhum elemento que justificasse, humanamente falando, ser solicitado para sanar a questão.

Qual a explicação, então, para Maria dirigir-se a ele? Por ser seu filho? É pouco provável. O que Jesus sugere de extraordinário, o que sinaliza, o que manifesta para que ela o veja em condições de trazer outro desfecho à situação? Soa estranho, por outro lado - quase beirando à reprimenda - a maneira como Jesus, em resposta, se dirige à mãe: "Mulher, que tenho eu contigo?". Colocada de forma pública, tal afirmação deve ter causado constrangimento a Maria. O texto, entretanto, não se refere a essa circunstância nem reporta ne-nhuma atitude sua decorrente da exclamação de Jesus. Enigmas à parte, o que se deduz do episódio é que Maria entrou nele como figura principal - em razão de ter sido vista como solução à falta do vinho - e saiu como coadjuvante, deixando para Jesus o papel principal do fantástico enredo. E - mais mistério ainda - portando uma ordem: "Fazei tudo quanto ele vos mandar".

Saberia ela, então, dos atributos divinos do filho, já tendo vivenciado milagres anteriores por ele promovidos, motivo pelo qual fez dele o foco principal do evento? Ou, além disso, já antecipava sua autoridade de Deus e o poder de solucionar problemas a ponto de encaminhar-lhe a questão e solicitar aos presentes obediência a ele "em tudo?" O certo é que a frase de Maria transcende, em muito, sua própria circunscrição. É a constatação de que em Jesus estão presentes os atributos necessários e suficientes à condição de ser procurado, ouvido, seguido, obedecido. Após sua ordem "Fazei tudo quanto ele vos mandar" Maria saiu de cena, deixando a Jesus o foco, a atenção, o mando, o poder, a autoridade, entronizando-o no ambiente como pessoa capacitada a merecer a confiança, o crédito e a obediência dos presentes. E o vinho? Bom, o milagre aconteceu. Voltou a ser servido. Farto. De qualidade. Excelente.

 

08 de Novembro de 2013 às 12h17

FALSA PIEDADE

Começou o festival de falsa piedade que todo ano, nesse período, infesta nossas caixas de correio e ocupa preciosos espaços da mídia. Refiro-me a essa onda que ocorre no período natalino de se fazer caridade a favelados, desvalidos, desempregados, aos mais necessitados, enfim, através da distribuição de roupas, alimentos, brinquedos, remédios e outras coisas mais. Alguém, aí no seu canto, poderá indagar "mas não é essa a essência do espírito natalino?" Não, não é. O espírito natalino é muito mais profundo e muito mais duradouro. Aliás, quem restringiu, quem convencionou adotar essa postura de voltar-se ao próximo com mais intensidade somente nesse tempo foi o homem. Pois isso, com certeza, não é coisa de Deus. Ao contrário, aproveitar-se de um momento, de uma época, para praticar solidariedade a necessitados é a mais pura demonstração de falsa piedade.

Ou será que a ausência de suprimentos, de empregos, de roupas, de dignidade, enfim, só ocorre no período natalino? E o restante do ano como fica? Isso tudo é uma hipocrisia generalizada, uma onda de falsa piedade que acomete principalmente a classe média nessa época. É como se todos quisessem se livrar, na virada do ano, dos remorsos, das crises de consciência, ocasionadas pelo que deixou de fazer em benefício do próximo ao longo do ano. Miséria, fome, ausência de suprimento ocorre o tempo todo. Além do mais, o tal "espírito natalino" serve, sob medida, para esconder o principal culpado disso tudo: o governo federal. Que incentiva essas campanhas para, com isso, acobertar sua omissão, sua falta de planejamento sério, maduro, em relação às carências dos mais humildes. Aproveitando-se, inclusive, da boa vontade dos ingênuos, dos desavisados, daqueles que agem no emocional.

Pois a falsa piedade opera, principalmente, na falta de conhecimento e se concretiza nas pessoas, por excelência, no campo emocional. Aí, quando chega o período natalino, a um estalar de dedos da mídia, impulsivamente, todo mundo corre a tentar alegrar a vida dos que não têm nada para comemorar, integrando essa corrente demagógica, hipócrita, carregada de dissimulação que todos estamos acostumados a ver. Com isso, não quero dizer que seja maléfico, prejudicial ou anticristão fazer caridade no Natal. E que não tenha gente de boa vontade envolvida nessas campanhas. Tem. Tem, sim, gente bem intencionada na parada. Mas tem também aqueles que agem mais em função dos holofotes do que das carências reais e autênticas dos necessitados. A esses é hora de perguntar: a caridade feita agora tem o mesmo ímpeto, a mesma ênfase durante os meses de janeiro, fevereiro, março, abril?

O espírito cristão, traduzido em amor e respeito ao próximo, é coisa muito séria, pois é matéria prima gestada no coração de Deus. Não é à toa que o próprio Jesus classificou como o segundo maior mandamento "o amar ao próximo como a ti mesmo". O primeiro, logicamente, é amar a Deus sobre todas as coisas, embora os dois preceitos estejam tão interligados e intrinsecamente tão associados um ao outro, que um não subsiste sem o outro - e vice-versa. Porque é impossível amar-se a Deus sem amar ao próximo. Como, igualmente, é impossível amar ao próximo sem amar a Deus. Assim, faça caridade nesse Natal - também. Distribua alimentos, roupas, amor, atenção, sabendo que estará, com isso, alegrando, em muito, o coração de Deus (se essas ações forem também repetidas em janeiro, fevereiro, março…). Aí, sim, estará sendo praticado o verdadeiro espírito cristão. Certo?

 

01 de Novembro de 2013 às 12h16

DEUS LHE OUVE?

Uma das maiores dúvidas do homem está relacionada ao seu contato com Deus e a incerteza de ser ouvido. Essa questão está ligada a duas realidades: a primeira é que ninguém tem a capacidade de visualizar Deus, de vê-lo fisicamente como se vê as demais pessoas; a segunda é que ninguém ouve a Deus do ponto de vista físico, como se ouve o trinar de um passarinho ou o bate-boca de dois adversários. Para quem nunca o fez, ouvir a Deus, na verdade, é atividade de demasiada complexidade e que habita um terreno intrincado - o terreno da fé. Entretanto, embora pouco relacionada entre as dificuldades que compõem o dia-a-dia atual, a incerteza de que se é ouvido ou não por Deus é uma das piores calamidades de hoje. O fato de um governante não ouvir os reclamos de um segmento já gera um desconforto e uma incômoda sensação de rejeição, quanto mais o fato de não ser ouvido pelo Pai Eterno.

Assim, o fato de não ver Deus e concluir que não é ouvido por Ele - em razão de não escutar claramente a sua voz - tem levado muitas pessoas a abdicar totalmente de um contato com Sua Pessoa e, em conseqüência, adentrar perigosamente no terreno da descrença e da incredulidade.  Pois a pior sensação experimentada pelo ser humano, no encaminhamento de seus problemas existenciais, é quando cessam suas tentativas, suas buscas para a solução que almeja, e sua mente é invadida pelo vazio, pelo sentimento de que nada mais resta a fazer. A não ser se defrontar com o fruto cruel e amargo da impotência e da insustentabilidade. É também o tempo de se abraçar com a conclusão e a certeza de não se ter mais a quem recorrer. E agora? Do interior, angustiado, parte o grito, o clamor: "Porquê ninguém me ouve? Porquê ninguém me socorre; qual a razão para tamanho menosprezo?".

Imaginemos, por exemplo, a situação de um suicida. Porquê o atentado à própria vida? Com certeza, pelo sentimento de que o momento de continuar a luta chegou ao fim, exauriu-se a força para permanecer na peleja. E, se nas pessoas que vivem essa dolorosa experiência, se aconchegar uma certeza de que alguém lhe ouve, de que alguém muito poderoso está disposto a lhe escutar? Certamente as atitudes serão outras, não é verdade? Mas, afinal de contas, Deus nos ouve ou não? Se nos ouve, como é a Sua voz? Grave, aguda, alta, baixa, calma, Toni troante, acariciadora, intimista, impositora ou audível, simplesmente? E, se não nos ouve, qual o tom do seu silêncio? Duro, seco, ausente ou tão somente o ronronar do nada? Muitas pessoas há no mundo dando testemunho de que ouviram a voz de Deus. E ficaram maravilhadas. Dizem até que tal experiência modificou totalmente as suas vidas.

E o que fizeram de tão especial para ouvir a voz de Deus? Creram. Simplesmente creram. Personalidades bíblicas do porte de Davi também testemunharam ter ouvido a voz de Deus. No salmo 40, versículo 1, por exemplo, Davi assegura: "Esperei confiantemente pelo Senhor; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro".  

25 de Outubro de 2013 às 12h25

AS (POUQUÍSSIMAS) MOEDAS DE JUDAS

A narração bíblica e a conteúdo histórico nos colocam a par dos acontecimentos que dizem respeito à vida de Judas. (Falo do Iscariotes, o que traiu Jesus. A Bíblia cita vários deles, inclusive o Judas irmão de Jesus). Sua trajetória tem um início fascinante, embora o desfecho tenha sido trágico. De modo geral, sabe-se que Judas traiu Jesus em troca de 30 moedas, passando à História como um assassino frio e calculista. Esse estigma levou até alguns estudiosos a traduzirIscariotes como assassino, mas essa tentativa esfumou-se com o tempo por falta de consistência semântica. O mais provável é que o termoIscariotes se refira à localidade onde Judas nasceu, da mesma forma que Maria Madalena (antigamente escrito Magdalena), leva o segundo nome por ter nascido em Magdala (ou Magadã – outra forma de grafia) povoação de localização incerta, provavelmente próxima ao Mar da Galiléia.

Voltemos ao Iscariotes. Detentor de um dos postos mais importantes do ministério de Jesus, destacou-se desde o início por se situar bem acima dos demais do ponto de vista intelectual. Era o tesoureiro do grupo, escolha que comprova o reconhecimento do seu talento e a confiança nele depositada. Ao que tudo indica, os problemas de Judas tiveram início a partir da conceituação, feita para si, da missão de Jesus. Para os apóstolos de cunho messiânico, ou seja, de forte lastro espiritual; já para a massa judaica – Judas entre estes – o messianismo do Cristo compreendia fortes tons de atividade político-militar, daí derivando para a sonhada reconquista do território pátrio – e a conseqüente expulsão do invasor romano. Aparentemente inócua de início, tal disparidade cresceu sorrateiramente, e em tal dimensão, que levou Jesus e Judas a caminhos totalmente opostos, culminando com o desfecho da irremediável traição.

O fato de ter recebido dinheiro para indicar a localização de Jesus – àquela hora buscando isolamento e proteção para si e para os apóstolos em razão das crescentes ameaças da cúpula judaica – não indica uma simples busca pela vantagem financeira. O dinheiro foi o último empurrão a ferir, num lance de morte, um contexto há muito carregado de desânimo, decepção, frustração e revolta. Seu gesto, na realidade, foi um ato de vingança e a tentativa última de trazer Jesus ao ponto original, quando esquentava corações e mentes com a promessa da vinda de um novo reino. Para Jesus espiritual; para Judas – e a maioria – um reino tomado pelo sangue derramado aos romanos. E o dinheiro? Foi muito? Foi pouco? Numa atualização aproximada, as trinta moedas de prata que Judas recebeu (equivalente a cinco meses do salário mínimo de então) totalizariam hoje em torno de três mil e cem reais.

Como se vê, quantia de valor baixo para a dimensão do serviço prestado por Judas aos sacerdotes judeus, motivo que certamente – após uma profunda reflexão – levou-o a cultivar o remorso intermitente que redundou na sua morte. Hoje, quando se presencia as barbaridades cometidas em troca de milhões e milhões de reais pelos larápios de plantão, principalmente na seara política, dos quais o Brasil é produtor privilegiado, vê-se o quanto foi franzino o valor recebido por Judas. Por mais inflação que se enxerte nas estimativas, a conclusão é que, se o homem de hoje não evoluiu espiritualmente, se não aprendeu a cultivar princípios e hábitos que Jesus pregou, soube “crescer e se multiplicar” nos valores cobrados para se corromper, para cometer os crimes mais abjetos. Coitado de Judas. Ficaria estupefato ao descobrir que, hoje, na cena do crime, seria fichinha, aprendiz de aprendiz de meliante de quinta categoria. 

18 de Outubro de 2013 às 10h32

A DITADURA DA DEMOCRACIA

A cada dia o brasileiro fica mais desorientado com a eclosão de fatos à sua volta carregados de transtornos e prejuízos diversos, e que, em conseqüência, vêm atingindo a todos com agressividade incomum. Aliás, há tempos o brasileiro médio - aquele que pensa sair do trabalho para casa a tempo de assistir a novela, o noticiário, o futebol pela tv - é impactado com o que se passa no vídeo. Nele, vê-se o Brasil como se uma câmera desfocada gerasse uma sucessão de imagens distorcidas. Ou que um pintor, muito loucão, invertesse a lógica estética e trouxesse à luz algo muito além do que imaginam os mais empedernidos expressionistas. Crimes, mortes horrendas, assaltos, seqüestros, tudo ali, à frente de todos, oferecido por estrelas ascendentes do jornalismo televisivo, sempre às horas das refeições, feito prato comercial servido nos restaurantes self service da vida. Apelação? Realidade? Loucura?

Essa salada indigesta vem pontuando o dia a dia do brasileiro com uma regularidade obsessiva e ininterrupta - a fazer todos se indagarem "que país é este? onde estou afinal?" Além do mais, se observamos assim o que vemos no campo do crime, da marginalidade, do bruto e tenebroso terreno das delegacias de polícia, em outras searas o cenário não é diferente. Na política, por exemplo, o que acontece que leve o brasileiro a se orgulhar? O judiciário, por seu turno, à frente o Supremo - onde até pouco tempo se ancorava a esperança do brasileiro comum - lambuzou-se a tal ponto com a influência de governos e partidos políticos que hoje nem merece mais ser visto como "a suprema corte". Suprema em quê, afinal? Pelo dicionário, o termo se mostra uma maravilha:dignidade, pureza absoluta, preeminência, o mais importante, superior a tudo. É assim que é visto o Supremo nos dias de hoje?   

Agora, vem somar-se a esse quadro horroroso as tais manifestações - os protestos de grupos organizados. E o que se vê? Em passeatas de professores, por exemplo, cenas de agressões, vandalismos, quebra-quebra, puro desrespeito à autoridade. Os alunos, em casa, confusos, vendo os mestres do saber, das boas práticas de vida engalfinhados com a polícia, certamente se indagarão se professor é aquilo que mostra a televisão. A todo instante, o termo democracia é distorcido, amarfanhado, para utilização da forma que mais agrada ao transgressor de plantão. Nas escolas, professores são espancados - e mortos - a bem da democracia escolar, amontoado de hábitos que confere à meninada uma impunidade absoluta, além de péssimos índices de aprendizado. Nos locais de trabalho, desceu pelo ralo a autoridade em louvor do igualitarismo que tudo pode. Não é da essência democrática a igualdade de direitos?

Nas esferas partidárias, alianças absurdas são sacramentadas sob o argumento de que "é necessário garantir-se a governabilidade". Ah, pera lá! Governabilidade, teu nome é safadeza! Baderneiros, quando presos, são soltos em seguida, sem nada a pesar-lhes no cocuruto. Quando muito alguns arranhões, logo esquecidos em razão do estrelato garantido pela mídia. Enquanto isso, com receio de desagradar o que vai pelas ruas, governantes se omitem - e a ordem que vá pro beleléu! O intuito? Serem vistos como... democratas. Em casa, o brasileiro engole tudo isso, se perguntando se no dia seguinte encontrará de pé a loja onde trabalha. Impunidade, incivilidade, impatriotismo... Isso é democracia? Ou estamos, sem sentir, numa ditadura. De que tipo? Vinda de onde? Patrocinada por quem? Cadê o Brasil que amo? Brasiiiiillllll, onde estás que não respondeeeeeees? Te cuida, cara pálida!

 

11 de Outubro de 2013 às 11h24

QUEM ESTÁ COMENDO ALFARROBAS?

Na parábola do filho pródigo, contada na Bíblia, (Lucas, capítulo 15, versículo 11 em diante) de conteúdo bastante conhecido, fica esboçado o desejo muito forte, da parte de um dos principais personagens da história, em conquistar muito cedo a liberdade. Trata-se de um dos filhos de um próspero fazendeiro que não estava aceitando a realidade simples, bucólica, singela até, que vivia no campo. Ele queria rebuliço. Queria viver novas emoções, experimentar o que se passava no horizonte distante da cidade. As notícias chegavam até ele com cores fortes, dando conta do charme, do frisson, dos prazeres que a urbe oferecia. Assim, essas informações começaram a atiçar sua curiosidade. E o desejo de colocar a mão noutro estilo de vida se instalou, definitivamente, em seu íntimo. Só uma coisa ele não sabia: o preço que teria de pagar pela liberdade precocemente conquistada.

Os problemas começaram na divisão do patrimônio. O pai do rapaz não estava preparado para fazer a partilha da riqueza. Mas, para atender à vontade do filho, aceitou vender parte dos bens da família para antecipar a cota que cabia ao herdeiro tão ansioso. O desfecho da história todos conhecem: o moço pegou o dinheiro da herança e partiu para a cidade, onde torrou a fortuna inteira. Arruinado, teve que trabalhar. E, como não tinha nenhuma qualificação profissional, contentou-se com o primeiro emprego oferecido. Nesse momento o preconceito começou a falar mais alto e a sua condição de falido fez surgir a face cruel da frieza e da insensibilidade humanas. O rapaz, antes tão cheio de amigos e de garbosos companheiros da alta sociedade, fora contratado para tratar de porcos. Assim, de repente, viu-se rodeado apenas pela solidão do curral dos porcos e pelo fedor sempre presente dos animais.    

Além do mais, cuidar de porcos era uma atividade desprezível. Segundo a tradição, eram animais impuros. Mais degradante ainda, e inteiramente impensável, era dividir com eles a comida, o que terminou acontecendo em razão da sua penúria financeira. Os porcos eram alimentados com alfarrobas, fruto, em forma de vagem, da alfarrobeira, árvore comum na Palestina. E as pessoas sem recursos, em caso de extrema necessidade, também recorriam a ela para fugir da fome. O moço chegara, assim, ao fundo do poço. E a ansiedade da juventude, enfim, cobrara seu preço. Agora, o que fazer? Como sair de posição tão humilhante? O filho decidiu, então, voltar ao pai. O consumo da alfarroba, na história do filho pródigo, representa o estágio mais dramático na luta de um homem pela sobrevivência, semelhantemente aos que ainda hoje, praticando uma rotina degradante, recorrem à lata do lixo.

Estes o fazem tão somente para continuar a ruminar sua miséria e indigência. Já o rapaz encontrou na alfarroba o desfecho doloroso pela busca ansiosa, insana até, pela liberdade, sem dispor ainda de uma estrutura psicológica condizente para tanto. Na Bíblia, há um livro de uma sabedoria imensa, o Eclesiastes, que diz em seu capítulo 3, versículo 1: "Tudo tem seu tempo determinado". Antecipar o tempo pode acarretar prejuízos incalculáveis, além de dar início, precocemente, ao consumo de porções indigestas da vida.

Portanto, retornar ao pai foi, antes de tudo, um gesto de maturidade. Uma prova de sensatez. Já o fazendeiro, no episódio, representa a figura do próprio Deus. Que se coloca sempre de coração aberto para receber - e perdoar - o filho que retorna ao lar paterno. Mesmo que este tenha decidido, por conta própria, antecipar seu tempo, causando ao pai, com isso, incontáveis prejuízos.

04 de Outubro de 2013 às 12h02

VOCÊ TEM PAZ?

Um dos grandes problemas na vida das pessoas, nos dias atuais, é a falta de paz. Ah, como tem gente que não conhece o que é ter paz! Até porque tudo - ou quase tudo - que ocorre em suas vidas contribui para a falta de paz. Este, por sinal, é um problema de ordem universal, que atinge pessoas de todos os lugares, de todos os credos, todas as raças, ideologias e todas as condições sociais. E o mais interessante é que o ser humano deseja a paz, clama por paz, busca a paz, anseia pela paz - mas não sabe como construí-la, como alcançá-la. A mesma falta de paz que acarreta problemas na esfera individual também afeta a esfera coletiva. Como alguns indivíduos, isoladamente, não conseguem atingir um salutar estágio de paz, comunidades inteiras, países inteiros também padecem do mesmo mal, vivendo um exagerado e elevado patamar de ansiedade e conflitos que sempre deságuam na ausência de paz.

Segundo o dicionário dos homens, paz é a ausência de conflitos, de lutas, violências ou perturbações sociais. Também significa sossego, descanso, tranqüilidade, concórdia, harmonia. Como se vê, não deixa de ser interessante e alvissareiro o conceito, a definição de paz segundo a ótica dos homens. Aliás, respeito muito esse conceito, esse significado de paz segundo a visão humana. Mas prefiro a paz segundo o conceito de Deus. Este nos introduz num contexto bem mais amplo, profundo e abrangente do que, realmente, significa a paz. O termo vem do hebraico "shalom" e tem um sentido tão amplo que em nenhuma outra língua pode ser expresso através de um só termo. Originalmente, paz significa está completo, está são, está bem em todos os sentidos, ser próspero e feliz. Ter saúde, alegria, vida digna demonstrada através do perfeito equilíbrio entre a necessidade e a provisão.      

Portanto, paz é o completo bem estar traduzido no seu mais profundo significado: paz com Deus, paz conosco e com os nossos semelhantes. Na Bíblia há uma passagem que bem demonstra a profundidade do termo, através de um dos textos do apóstolo Paulo (2 Ts.3.16) que diz: "Ora, o Senhor da Paz, ele mesmo, vos dê continuamente a paz em todas as circunstâncias". Nessas simples palavras de despedida, escritas numa carta endereçada aos cristãos de Tessalônica, Paulo chega ao âmago da questão quando recebe a revelação de Jesus Cristo "o Senhor da paz". Está aí, portanto, o grave equívoco cometido por grande parte da humanidade quando tenta, fora do contexto construído por Jesus, encontrar a paz. Ora, a paz não é atributo de homens! A paz é um dom de Deus que se expressa em Jesus. Afinal, não foi ele quem nos garantiu "Eu vos dou a minha paz?"

Então, porque buscar a paz fora de Jesus? Em outra ocasião, logo após a ressurreição, ao aparecer aos discípulos, antes de falar qualquer coisa, Jesus disse: "A paz seja convosco". Pois era exatamente de paz o que mais seus seguidores precisavam naquele momento. Estavam trancados, atemorizados após a crucificação de Jesus, sem saber o que poderia lhes acontecer da parte de Roma e dos poderosos sacerdotes judeus. Jesus sabia do temor que se apossara de todos eles e ministrou-lhes, de início, a paz. A paz que equilibra, que acalma, que acalenta. Hoje, do mesmo modo que naquele tempo, o temor, a insegurança, a ansiedade se apossam das pessoas infernizando suas vidas, tirando-lhes o sono e apequenando-lhes a qualidade de vida. Para estas, Jesus continua a oferecer a paz, a sua paz, a "que excede todo o entendimento". Por sinal, agora, nesse momento, você está em paz?

27 de Setembro de 2013 às 12h33

ELEITOR "ASSUM PRETO"

Luiz Gonzaga, na música "Assum Preto", relata o sofrimento de um pássaro que fora mutilado dos olhos para que passasse a cantar melhor. Seus versos ainda ecoam pelas mentes e corações nordestinos de todos os portes e tendências: "Assum preto seu cantar é tão triste quanto o meu, também roubaram o meu amor, ai, que era a luz, ai, dos óios meus". O lamento mostra o sofrimento do personagem ao se ver privado da presença da amada. Segundo ele, da mesma forma que a vida impusera o furo aos olhos do pássaro "para ele, assim, cantar melhor", também lhe colocara numa situação de dor, com a perda da mulher amada. Ambos fazem do sofrimento o combustível necessário para aprimorar a inspiração, enquanto também fazem do novo canto motivo para suportar as agruras da vida. Nenhuma penalidade, entretanto, surge para o terceiro personagem da história, o causador de tudo.

Este se esgueira pelo anonimato sem pagar pelo seu crime. Afinal, a letra deixa bem claro que alguém, na música não identificado, havia furado os olhos do pássaro. O canto também ressalta o prejuízo sentimental que alguém sofrera porque outro roubara o seu amor, "que era a luz, ai, dos óios meus". Como se vê, esse terceiro personagem causou sofrimento e dor e, no entanto, nenhuma penalidade lhe aconteceu. Essa pérola do cancioneiro nordestino também serve de metáfora para as práticas atuais na vida política brasileira. Políticos inescrupulosos "furam" os olhos do eleitor, para que este não consiga enxergar a realidade dos seus atos, enquanto outros "roubam" os sonhos daqueles que neles depositaram sua confiança. O resultado é eleitor lamentando a cegueira na qual vem tateando há muito tempo e eleitor que teve tirado de si a luz dos seus anseios, de seus desejos perdidos e destroçados.

Políticos atuais representam bem esse personagem. À numerosa galera, ou seja, o eleitorado, os olhos foram furados. Durante longo tempo militantes de certo partido celebraram a pureza ideológica da agremiação sem se dar conta do enorme abismo que separava "as conversas pra boi dormir" da verdadeira realidade. Com raríssimas exceções, ninguém da massa, da famosa militância chegou a enxergar o mastodôntico estelionato que era praticado à vista de todos. Como descobrir o jogo se estavam todos cegos? E, como nos versos da música eternizada por Luiz Gonzaga, o pássaro com os olhos cegos canta - e canta muito melhor! O desempenho da militância era de fazer inveja aos demais partidos. A cegueira motivava inspiração toda especial. Ir às ruas, comprar camisetas, bottons e bonés do próprio bolso, além de brandir, com aguerrida devoção, os dogmas do partido, tudo era feito com cega determinação.

Aos demais eleitores sobrou também o lamento pela dura realidade. "Também roubaram o meu amor, ai, que era a luz, ai, dos óios meus". Quanta gente no Brasil embalou seus sonhos, seus maiores anseios civis em cima das promessas defendidas por famosos políticos, não é verdade? Para muitos era como se fosse um novo amor, algo arrebatador, que lhes traria um novo país. No Brasil esse fenômeno aqueceu mentes e corações de milhões e milhões de apaixonados, de embevecidos, que creram em um novo amanhã. A eles, com raríssimas exceções, restou a descoberta da dura realidade: olhos furados de uns; sonhos roubados de outros. De palpável apenas o seguir tranqüilo do causador de tamanha decepção. Pois devagarinho, devagarinho, tal figura vai se esgueirando pelos desvãos da impunidade, deixando atrás de si o som de um forte lamento. "Assum preto meu penar é tão triste quanto o seu..."

 

20 de Setembro de 2013 às 12h21

O VANTAJOSO É GANHAR SEMPRE. SERÁ?

Desde que o homem se entende por gente, por mais diversos que sejam os hábitos, as tradições, a cultura, a hora e o lugar, o negócio é levar vantagem. A História está cheia de exemplos de homens e mulheres extremamente sabidos, ardilosos, manhosos, cuja máxima de vida era levar vantagem - sempre.  Aqui no Brasil, logo após a Copa do Mundo de 70, notabilizou-se o jogador Gérson quando, ao estrelar um comercial para uma marca de cigarros, afirmava que o negócio era levar vantagem. Criou-se o estigma de que Gérson é que tinha inventado a Lei da Vantagem. Bobagem, conversa pra boi dormir. E onde ficariam Cleópatra, Lucrécia Bórgia, Jacó, Saul, Herodes e tantos outros personagens que fizeram do levar vantagem, do atropelar os outros, a expressão máxima do governar, do guerrear, do conquistar, do sempre chegar primeiro?

Ou por outra, quem é Gérson diante de tão sabidas criaturas? Não estou aqui para defender Gérson, mas para estabelecer uma análise fria, real, sem emocionalismos, entre o viver somente em busca da vantagem e a vantagem verdadeira que isso acarreta. Aliás, pelo que se nota, querer viver sempre na vantagem acarreta uma desvantagem incrível. Cleópatra, por exemplo, teve de se suicidar arrodeada de cobras, venenos e outras maldições em razão da opção de vida que escolhera; Saul terminou seus dias de Rei de Israel espetado numa lança de um amalequita, povo ao qual combatera e vencera tempos atrás com galhardia, mas através do qual encontrara a morte após querer ser sabido demais diante de Deus. O próprio Gérson depois do comercial que instituiu a Lei da Vantagem nunca mais foi o mesmo, amargando uma vida de ostracismo e isolamento das massas. Como se vê, desvantagem pura.

Hitler, louvado e celebrado como estadista e líder super dotado, que sempre sobrepujava os seus oponentes, inventou de enlarguecer seu horizonte de guerra abrindo uma nova frente na Rússia e se deu extremamente mal. Terminou seus dias ilhado num bunker, onde a única alternativa que lhe restou foi abraçar a morte. Judas, o mais letrado entre os discípulos de Jesus, imaginou ser uma grande vantagem vender o Mestre por 30 moedas e terminou tendo também a morte como a melhor das companheiras. A lista é enorme e permanecerá sempre inconclusa. Abrange políticos, atletas, profissionais liberais, religiosos... Enfim, líderes dos mais diversos quadrantes e especialidades. Todos almejando o melhor da vida, o reconhecimento dos adversários e amigos e a glória das massas. De comum entre eles os métodos e a indiferença pelos que foram atropelados e ficaram para trás.     

Mas, graças a Deus, também temos exemplos de pessoas que fundamentaram suas vidas em razão do outro. Que se doaram sem nada pedir. E que, através desse caminho, encontraram uma prazerosa razão de existir.  Exemplos como o de Moisés, Maria, Samuel, Daniel, Pedro, João, Paulo. Mais recentemente Ghandi, Teresa de Calcutá, e tantos outros. Uns mais reconhecidos, outros que preferiram a estrada do anonimato. Todos, porém, encarando um estilo de vida que contempla o ser ao invés do ter, a alegria pelo espaço ocupado positivamente na vida do próximo ao invés do sucesso efêmero. É interessante fazer uma comparação para se ver, verdadeiramente, com quem ficou a vantagem. Ou por outra, qual a glória melhor. Se a de Cleópatra ou a de Maria, a de Moisés ou a de Faraó, a de Nero ou a de Ghandi, a de Saul ou a de Davi, a de Pilatos ou a de Jesus?Jesus, por sinal, é um caso a parte. Ninguém se doou tanto, se deu tanto quanto Ele.

 

13 de Setembro de 2013 às 10h42

Projetos “Mal-Amanhados”

Tem muita gente que ainda faz beicinho ou torce o nariz para a Internet como instrumento divulgador de culturas, de idéias, de informações. Confesso que durante um bom tempo eu também pensei assim. Mas depois de comprovar que, ao lado de muito porcaria, você pode colher também verdadeiras preciosidades no campo do conhecimento, passei a encarar a rede de modo totalmente diferente. O que é bom eu guardo e o que me desagrada eu deleto imediatamente. Aliás, a Bíblia já nos ensina que devemos ouvir o que os outros têm a nos dizer “retendo o que é bom”. Do contrário você se torna um chato, um pernóstico, um arrogante, chegando até a ser um escravo de suas próprias idéias e convicções. Ou seja, aquele que só aceita e consome o que vem de si próprio. A essa demência os entendidos dão o nome de “cárcere intelectual” – você preso a você mesmo, ao seu próprio conjunto de conhecimentos.

Será que consegui, com esse arrazoado, vender a Internet direitinho? Porque tudo o que falei até agora foi para lastrear o conteúdo, muito interessante, que recebi através da rede dias atrás. Era uma matéria mostrando os projetos de autoria de alguns deputados na Câmara Federal. Projetos, por sinal, ridículos, estapafúrdios – para não dizer coisa pior. Estava lá, por exemplo, a idéia de um parlamentar tentando criar o Dia do Macarrão. Outro defendia com unhas e dentes a criação do Dia da Esperança. E mais um outro, imbuído talvez do desejo de disputar com os companheiros o Campeonato Nacional da Idiotice e da Inutilidade, lutava bravamente para instituir o Dia do Sono. Estes eram os itens principais da matéria que recebi pela Internet. Outros absurdos integravam também o teor da mensagem. Preferi me ater a esses três para efeito do espaço que temos para este artigo.

De início, uma curiosidade me assaltou com relação ao projeto que tenta estabelecer a data comemorativa ao macarrão. Como seria essa celebração? O produto seria distribuído nas ruas para o povo? Grandes macarronadas seriam promovidas para distribuição gratuita nas periferias das cidades? E nas favelas como seriam as comemorações? Por acaso não haveria eventos festivos nas favelas? E nas escolas como o macarrão teria seu dia comemorado? Certamente um hino ao macarrão seria composto. Por quem? E quem se encarregaria de tal façanha? Outra questão importante se impõe: quem coordenaria as comemorações? Uma data cívica de tal magnitude deveria contar, com certeza, com um lastro institucional muito forte para coordená-la. O prefeito de cada cidade, o governador de cada estado ou a própria presidência da república tomaria para si a tarefa de coordenar o evento?

Muitas perguntas, não é verdade? Como, para tais perguntas, não existem respostas, conclui-se, então, pela total inutilidade do tão acalentado projeto do nobre deputado. Passemos, assim, ao outro, o do Dia da Esperança. Como seria isso? Nessa data aumentaríamos nossa esperança ou passaríamos o dia totalmente desesperançados? Ou grandes multidões seriam conclamadas a sair às ruas para renovarem, unidas, as suas esperanças? Mas em quê? Em quem? O que se conclui é que devemos manter a esperança para os eleitores desses deputados despertarem para a não renovação dos seus mandatos. Ou que a esperança nos embale o sonho de vermos tais figuras ocupando o tempo com projetos que contemplem a nossa realidade. Dia do Macarrão, Dia do Sono. De tanto me ocupar com essas besteiras, faltou espaço hoje para coisas sérias. Dia da Esperança, do Macarrão, do Sono, zzzzzzzz… 

06 de Setembro de 2013 às 11h50

PATRIOTISMO, ONDE ESTÁS?

Não é nossa pretensão atiçar aqui uma onda de sentimento saudosista. Afinal, no modernismo em que vivemos muitos acontecimentos são passivos de comemoração; conquistas surgiram e merecem celebração. A Tecnologia, por exemplo. Seus avanços trouxeram progresso inestimável às Telecomunicações, Medicina, Aeronáutica, Automobilística, Agricultura... Enfim, em todos os ramos da atividade humana. A exceção, mesmo com tais avanços, fica por conta da Política, seara na qual hábitos e costumes estão contaminados pelo lado perverso da Tecnologia, que lhes facilita a corrupção e a roubalheira. Nisso tudo chama a atenção a falta de patriotismo que impregna o brasileiro de todos os níveis, ou, para não sermos rigorosos demais, do pouco patriotismo que impera por aqui. Diferente de décadas atrás, não é verdade? Aliás, no Brasil, postura patriótica passou a ser exceção, quando deveria...

Analistas, pensadores, sociólogos, jornalistas e demais entendidos no assunto nomearam como patrióticas as manifestações que ocorreram Brasil afora recentemente. Olhando-se superficialmente as tais manifestações, vê-se que elas não deixaram de conter em seu âmago algum resquício de patriotismo, porém desprovido de um foco nítido, visível, concreto, palpável. E, deixando-se de lado o quebra-quebra e as agressões gratuitas a prédios de instituições e de empresas privadas (que podem e devem ser vistas como ira irracional, irrefletida, sem sentido e, portanto, passivas de punições no âmbito da Justiça), veremos que as massas que saíram às ruas não se revestiram de ardor patriótico em função do conteúdo difuso e impraticável de muitas de suas reivindicações. Ora, é patriotismo sair por aí bradando um corolário de centena de coisas, umas conflitantes com outras, e várias de adoção impossível?     

Por outro lado, não é justo taxar os movimentos de rua simplesmente de improdutivos e impatrióticos. Não. Alguns frutos foram gerados. Porém, por falta de visão patriótica, de objetividade patriótica, é certo que, do que se viu, fique muito pouco. Interessante se notar que os dicionários são econômicos quando conceituam o termo patriotismo: "sentimento de amor e devoção à pátria" - enunciado que deveria ser complementado: "e ao seu povo". Pois, uma pátria não é simplesmente seu chão, seus símbolos, seus mares, rios e oceanos. Patriotismo verdadeiro é aquele que se manifesta em amor e devoção à pátria de modo a trazer benefícios e bem estar ao seu povo. Assim, trazendo o assunto para o âmbito pessoal, num exemplo prático de amor, é oportuno indagar se é amor o ato de entulhar-se o ente amado com propostas, além de numerosas em excesso, conflitantes, impraticáveis, descabidas?

Imagine o maridão exigindo da amada: "querida, voe até o Pólo Norte e, de lá, me traga gelo em abundância"; ou "quero que essa feijoada fique pronta em dois minutos". Isso é amor? Semelhantemente não é amor, nem tão pouco patriotismo, bradar slogans e palavras de ordem que não levam a lugar algum. Patriotismo, além dos grandes gestos que resultam mudanças concretas, se traduz também em coisas simples do dia a dia: respeitar fila; não furar sinal de trânsito; não subornar - nem receber suborno; não ocupar vaga destinada a idoso/deficiente; cumprir as obrigações profissionais; não sonegar impostos... Por acaso, houve mudanças dessa ordem no Brasil? Foi decretado o fim do jeitinho brasileiro? Os líderes das ruas passaram a ostentar conduta diferente da que mantinham? De concreto, até aqui ficou apenas a algazarra. Patriotismo? Ainda fumaça. À espera de cabeças de melhor conteúdo. 

 

30 de Agosto de 2013 às 13h14

TEM ALEGRIA NO SILÊNCIO?

O silêncio é associado normalmente à manifestação de um estado de tristeza. Dificilmente se vê alguém, em condições normais de saúde física e mental, mergulhado em dificuldades, angústias, apreensões, que não seja calado, introspectivo, semblante fechado. Mas será que o silêncio é sempre sinal de tristeza? Ou será que, nele, cabe espaço para a alegria, para o cultivo de prazerosos instantes interiores? Com certeza, no silêncio estão embutidas altas doses de prudência, necessárias durante situações de perigo, e também nos momentos de ansiosa expectativa em função do alcance de algum objetivo. Se partirmos para uma análise mais profunda, teremos no silêncio motivo para outras práticas, inclinações para outros comportamentos. No tocante ao mundo exterior, por exemplo, podemos afirmar que o silêncio é a ausência de ruído, fato que nos desobriga a ter que ligá-lo a um estado específico da alma.

Mas será que, de algum modo, podemos associá-lo à alegria? É certo termos condições de aliá-lo à meditação. Autores, artistas, políticos, músicos, místicos e religiosos, principalmente, usam-no para dele fazerem tema, condições e argumentos para longos e introspectivos períodos de meditação. Cientistas e estudiosos da natureza humana também receitam a utilização do silêncio como terapia, lenitivo para nos contrapormos a longos espaços de tempo dedicados a atividades desgastantes. Afinal, ninguém pode ficar com a máquina mental ligada ininterruptamente. É necessário desligá-la durante alguns momentos e o silêncio é aliado imprescindível nessas horas. Ao contrário daqueles que o associam a dificuldades, angústia, apreensões, outros já o têm em alta conta para a obtenção de um estado de sossego, de calma, de satisfação. Satisfação? Pronto! Conseguimos! Eis o elo que faltava ligar silêncio à alegria!

Pois, o que é satisfação senão um formato, uma exteriorização de um sentimento de prazer, de alegria que algumas vezes se aconchega no fundo da alma totalmente em silêncio? Porquanto, se pode haver satisfação no silêncio, podemos concluir, com toda certeza, haver nele alegria! E quais os frutos dessa constatação? Afinal, pra que serve termos alegria em ou no silêncio? As pessoas sábias, bem lastreadas interiormente, fazem uso do silêncio como elemento de fortalecimento e de capacitação física e mental necessária aos desafios da vida. Levadas pelo silêncio ao fértil terreno da meditação, da reflexão, retiram da experiência lições proveitosas de como se mover, de como se estabelecer na vida para a longa batalha da existência. Entre essas pessoas, uma houve que fez do silêncio uma esplêndida ferramenta de interação entre ele e o tormentoso mundo dos homens. Seu nome? Jesus Cristo.   

Por várias ocasiões, Jesus se utilizou do silêncio para criar dentro de si condições ideais de enfrentamento aos grandes desafios da vida. É natural, então, que, desse exercício, brotasse uma agradável sensação de prazer, uma crescente alegria pelas soluções obtidas e pelos novos caminhos passíveis de serem trilhados. Seria o caso de vir a ocorrer em nossas vidas, fruto da meditação, desfecho semelhante? Ou devemos argumentar que o que ocorria com Jesus é vedado aos homens em razão de sua natureza divina? A resposta é do próprio Jesus: "Tudo é possível ao que crer". Na verdade, a prática reflexiva de Jesus - que redundava na transformação de tristeza em alegria - era a fórmula perfeita do aprofundamento de sua comunhão com Deus, condicionante maior a dar lastro à mudança de seu estado de espírito. Eis aí, portanto, a fórmula, o caminho. Trilhá-lo e praticá-lo é escolha nossa. Vai aprender?  

 

23 de Agosto de 2013 às 10h49

O CAVALO DE PAULO; O JUMENTO DE JESUS

"Incitatus", o cavalo de Calígula, entre outras regalias, tinha 18 servidores e colar de pedras preciosas no pescoço. Foi incluído pelo imperador no rol de senadores (ou seja, para todos os efeitos, para Calígula, "Incitatus" era uma personalidade senatorial), além de cogitado para cônsul. A História não esclarece os artifícios utilizados pelos homens da alta cúpula do governo romano para demover o Imperador de seu extravagante projeto político. O fato, porém, é que "Incitatus", por muito pouco, não foi alçado à condição de alto executivo da máquina administrativa de Roma. Outro cavalo, "Mossoró", vencedor do Primeiro Grande Prêmio Brasil, em 6 de agosto de 1933, quase foi carregado no colo pela vitória e virou ídolo no Brasil daquele tempo. "Botafogo", na Argentina de 1920, assim chamado pela estrela na testa, era uma instituição nacional a ponto de ser tido como "El caballo Del pueblo".

A História também registra a importância que "Bucéfalo", o cavalo de Alexandre, o Grande, representou na vida do conquistador. Seu nome provinha do agigantado formato de sua cabeça e significava cabeça grande ou cabeça de boi. Com ele, Alexandre mantinha um relacionamento todo especial, em reconhecimento à robustez e às proezas que realizava, em batalha, como animal de alto desempenho. "Baloubet Du Rovet", montado por Rodrigo Pessoa, foi alçado à condição de estrela de primeira grandeza do turfe pelo tricampeonato mundial conquistado em 1998, 1999 e em 2000, além de campeão olímpico em 2004. São inúmeros, portanto, os exemplos de cavalos famosos, admirados, reverenciados, mimados em função do apego de seus donos ou por admiráveis atributos demonstrados nas mais diversas competições. Já acerca do jumento não consta nenhuma celebração, nenhuma pompa semelhante.

Com seu passado ligado a conquistas militares e a demonstrações de poder, autoritarismo e esquisitices de seus proprietários, o cavalo herdou o estigma da força, da arrogância, ao contrário do jumento - visto como símbolo de humildade e docilidade devotado ao trabalho. É sintomática, assim, a opção feita por Jesus pelo jumento todas as vezes que necessitou de animal de montaria, ao contrário de Saulo, chamado assim antes da conversão. Segundo a Bíblia, "Saulo, montado em seu cavalo, assolava os cristãos, invadindo suas casas, oprimindo-os e enviando-os para a prisão". Temos, então, de um lado, Jesus e o seu evangelho - em um jumento; e, de outro, Saulo - a cavalo - cruel no cumprimento de sua missão de caçador de cristãos, despótico, intransigente e arrogante no plano pessoal. Entre outros fatores, pelo fato de ser, entre os fariseus, um dos mais profundos conhecedores da Lei - O Velho Testamento.

A opção pelo jumento não é tão singela quanto parece - e está muito longe de registrar uma mera escolha de animais de montaria. Sem proferir nenhuma palavra, Jesus propôs o caráter, a visão espiritual, o procedimento ministerial que pretende dos seus seguidores, ao se utilizar de um símbolo ligado à humildade para impregnar suas mentes com a essência da sua mensagem. Seu gesto representa também o desejo de ver acontecer no íntimo dos homens um processo de mudança que os faça priorizar o despojamento, a simplicidade, o altruísmo, a desambição. E Saulo é forte exemplo: em viagem de perseguição aos cristãos, caiu do cavalo e converteu-se. De Saulo perseguidor, passou a ser Paulo, o perseguido; de intransigente defensor da Lei, a incansável e memorável pregador do Evangelho - o do amor, do perdão, da salvação, da misericórdia, da graça. O Evangelho de Jesus. Em jumento.         

 

16 de Agosto de 2013 às 08h01

POR QUE JOGAR A TOALHA?

Na linguagem do boxe, jogar a toalha significa desistir da luta, se dar por vencido. É o gesto extremo do treinador no sentido de preservar a integridade física do lutador, tentando lhe causar o menor mal possível diante do inevitável da derrota. É um ato extremamente frustrante. O lutador ainda está de pé, mas o julgamento de outrem determina que suas chances acabaram, que seu tempo se encerrou. Depoimentos de entendidos dão conta de que a renúncia do treinador causa uma frustração muito grande, um impacto muito forte no boxeador. E que ele preferiria até ser derrotado por nocaute, de que pela toalha jogada no ringue. A realidade competitiva do ringue se assemelha em muito com a dura realidade da vida. Entre trombadas, safanões, dores físicas e interiores você vai se transformando num bom ou num mal lutador - à medida que a vida desfila seus longos dias diante do tempo.

Vários exemplos de homens ilustres, através da História, vão fixando a grande diferença entre uns e outros. Entre os que, às primeiras dificuldades da vida, desistem logo, jogam a toalha, abandonando seus projetos, seus ideais. Destes a História nem se ocupa. E os vencedores, aqueles dotados de uma capacidade enorme de resistência, persistentes, perseverantes, que fazem das barreiras e obstáculos da vida combustível para seguir adiante, robustecidos interiormente para empreender a luta - e vencer. A visão lógica dos fatos tem enterrado muitos sonhos. Tem contribuído para levar para o solo estéril do improvável, do impossível, uma boa quantidade de sementes de bons projetos. O realismo do ser humano mata a sua capacidade de sonhar, de retirar de dentro de si a força necessária para seguir em frente, vencendo os obstáculos para conquistar vitórias. Um grande vencedor chamado Jesus Cristo já nos assegurava "tudo é possível ao que crê".

Atualmente, são incontáveis os casos de pessoas que já desistiram da vida. Vivem-na pela simples circunstância de estarem vivas. Já não crêem no país, nos homens, em Deus, na família, nas engrenagens políticas e sociais - e muito menos em si mesmas. São meros cadáveres ambulantes a ocupar espaços urbanos sem se darem conta de que estão sem contribuir em nada para o bem estar de si mesmas nem das pessoas que lhe estão próximas. Por covardia medular se negam a ousar, a arriscar, a procurar - diante das dificuldades comuns a todos - o desafio salutar do bom combate, da refrega que, quando ganha, satisfaz a alma e enche o coração de alegria. O homem por natureza é um lutador, um dominador. E quando se nega essa qualidade, esse atributo, propicia uma quebra da ordem natural do seu mecanismo interior. Torna-se um estranho a si mesmo, um inimigo de si próprio, um velejador de um barco sem leme e sem vela.

O objetivo do homem é a vitória - em qualquer circunstância. Os exemplos são belos e inúmeros nesse sentido. Não que para isso tenha de fazer uso da violência, da truculência, da irracionalidade. Churchill, por exemplo, divisou a oportunidade de vitória contra os alemães em meio ao caos dos bombardeios sobre Londres. Como? Simplesmente contando os caças germânicos derrubados pelas forças antiaéreas londrinas. Pelos aviões derrubados, concluiu que Hitler não teria condições de repor tantas aeronaves fora de combate. A virada, portanto, era somente uma questão de tempo. Assim, em meio à dor generalizada, convocou uma cadeia de rádio e bradou o que para todos soou como uma enorme loucura: "a partir deste momento começamos a ganhar a guerra. Ânimo! A Inglaterra não se dobra". Já pensou se Churchill joga a toalha?

 

09 de Agosto de 2013 às 11h37

PROJETOS MAL-AMANHADOS

Tem muita gente que ainda faz beicinho ou torce o nariz para a Internet como instrumento divulgador de culturas, de idéias, de informações. Confesso que durante um bom tempo eu também pensei assim. Mas depois de comprovar que, ao lado de muito porcaria, você pode colher também verdadeiras preciosidades no campo do conhecimento, passei a encarar a rede de modo totalmente diferente. O que é bom eu guardo e o que me desagrada eu deleto imediatamente. Aliás, a Bíblia já nos ensina que devemos ouvir o que os outros têm a nos dizer "retendo o que é bom". Do contrário você se torna um chato, um pernóstico, um arrogante, chegando até a ser um escravo de suas próprias idéias e convicções. Ou seja, aquele que só aceita e consome o que vem de si próprio. A essa demência os entendidos dão o nome de "cárcere intelectual" - você preso a você mesmo, ao seu próprio conjunto de conhecimentos.

Será que consegui, com esse arrazoado, vender a Internet direitinho? Porque tudo o que falei até agora foi para lastrear o conteúdo, muito interessante, que recebi através da rede dias atrás. Era uma matéria mostrando os projetos de autoria de alguns deputados na Câmara Federal. Projetos, por sinal, ridículos, estapafúrdios - para não dizer coisa pior. Estava lá, por exemplo, a idéia de um parlamentar tentando criar o Dia do Macarrão. Outro defendia com unhas e dentes a criação do Dia da Esperança. E mais um outro, imbuído talvez do desejo de disputar com os companheiros o Campeonato Nacional da Idiotice e da Inutilidade, lutava bravamente para instituir o Dia do Sono. Estes eram os itens principais da matéria que recebi pela Internet. Outros absurdos integravam também o teor da mensagem. Preferi me ater a esses três para efeito do espaço que temos para este artigo.          

De início, uma curiosidade me assaltou com relação ao projeto que tenta estabelecer a data comemorativa ao macarrão. Como seria essa celebração? O produto seria distribuído nas ruas para o povo? Grandes macarronadas seriam promovidas para distribuição gratuita nas periferias das cidades? E nas favelas como seriam as comemorações? Por acaso não haveria eventos festivos nas favelas? E nas escolas como o macarrão teria seu dia comemorado? Certamente um hino ao macarrão seria composto. Por quem? E quem se encarregaria de tal façanha? Outra questão importante se impõe: quem coordenaria as comemorações? Uma data cívica de tal magnitude deveria contar, com certeza, com um lastro institucional muito forte para coordená-la. O prefeito de cada cidade, o governador de cada estado ou a própria presidência da república tomaria para si a tarefa de coordenar o evento?

Muitas perguntas, não é verdade? Como, para tais perguntas, não existem respostas, conclui-se, então, pela total inutilidade do tão acalentado projeto do nobre deputado. Passemos, assim, ao outro, o do Dia da Esperança. Como seria isso? Nessa data aumentaríamos nossa esperança ou passaríamos o dia totalmente desesperançados? Ou grandes multidões seriam conclamadas a sair às ruas para renovarem, unidas, as suas esperanças? Mas em quê? Em quem? O que se conclui é que devemos manter a esperança para os eleitores desses deputados despertarem para a não renovação dos seus mandatos. Ou que a esperança nos embale o sonho de vermos tais figuras ocupando o tempo com projetos que contemplem a nossa realidade. Dia do Macarrão, Dia do Sono. De tanto me ocupar com essas besteiras, faltou espaço hoje para coisas sérias. Dia da Esperança, do Macarrão, do Sono, zzzzzzzz... 

 

02 de Agosto de 2013 às 14h23

CONTRATAM-SE LÍDERES!

 “Estado ainda democrático precisa contratar urgentemente, em número ilimitado, pessoas de indiscutível lastro moral, defensoras intransigentes da legalidade, da ética, da honestidade, da transparência, da liberdade de expressão, dos direitos humanos; que sejam administradoras rigorosas das contas públicas; priorizem investimentos em educação, saúde, segurança e infraestrutura; apresentem formação de estadista para enfrentamento de dificuldades, conflitos e turbulências; e saibam executar com senso patriótico, sem determinismos partidários e ideológicos, a política externa de um país de reconhecida liderança regional, priorizando parcerias plurais que resultem em benefícios concretos para todos. Pessoas com tais aptidões deverão se apresentar no escritório do Coração do Povo, à Avenida da Democracia, S/N – Bairro Pátria Amada, para admissão imediata, portando documentos que comprovem as exigências do presente edital”.

Logicamente que o texto que você está lendo manifesta uma pura utopia. Aliás, já deu para perceber que o classificado acima produzido nunca será publicado. Entretanto, está expresso, nele, grande parte de tudo que o povo brasileiro defendeu nos últimos dias e que tem procurado passar às autoridades constituídas através das manifestações, protestos, marchas e passeatas Brasil afora. Talvez as colocações nas faixas, cartazes e gritos de guerra não expressem exatamente o que acima está redigido, mas não resta a menor dúvida de que as aptidões, vocações e posturas desejadas pelo povo nos homens públicos sejam as aqui descritas e enumeradas. Mas, atenção, atenção!!! Tomados de surpresa pelas manifestações, os tais saíram a proclamar não entenderem o que sinalizava, o que pretendia o “grito das ruas”. Ora, ora, meus senhores! Serão vocês marcianos, por acaso? Ou obtusos em demasia?

Qual a dificuldade em decifrar as pretensões coletivas veiculadas nas ruas, praças e avenidas se o berro popular afunila o tempo todo para estas questões: ética, lisura, transparência, brasilidade, gerenciamento zeloso dos haveres e deveres públicos? Afirmar não entender o que o povo quer expressar significa duas situações: ou os tais homens públicos são cínicos o suficiente para não querer auscultar o coração do povo – com o único intuito de priorizar apenas seus próprios interesses; ou, o que é pior, são eles incompetentes demais por não saberem tornar concretas as medidas universais e objetivas que o povo espera que eles adotem. De uma forma ou de outra, por mais rasa que seja a análise, a conclusão a que se chega sobre o comportamento dos homens públicos brasileiros (graças a Deus exceções existem) é que a nação está carente, fragilizada, apequenada e prejudicada com a presente safra.

De preocupar – segundo especialistas no assunto, permanecendo este divórcio entre a prática política e os anseios do povo – são as conseqüências do vácuo produzido pela imperícia e insensibilidade das autoridades e lideranças. A primeira onda de protestos praticamente já passou, restando apenas algumas marolas promovidas pelos mais renitentes – principalmente baderneiros e arruaceiros sem maiores compromissos. Mas, diante das tentativas dos vários níveis do Legislativo, do Executivo e do Judiciário de empurrar com a barriga a atual realidade nacional – que revolta e machuca – o que ocorrerá quando vier a segunda onda, como apregoado por comentaristas e redes sociais? Aonde irá desaguar o mar de gente duplamente revoltada pelo vazio a que foram destinadas suas primeiras insatisfações? É bom não brincar com os sentimentos do povo. Líderes, com “L” maiúsculo, não agem assim.  

26 de Julho de 2013 às 15h29

CUIDADO!!! NATA AZEDANDO!

Quando o leite ferve, o resultado da elevação da temperatura impulsiona para cima a parte mais gorda, mais substanciosa do leite – conhecida como nata. Segundo os estudiosos, é a separação do melhor que o leite tem para oferecer. De tão rica, de tão encorpada de nutrientes, a nata se desdobra numa infinidade de benefícios para quem a consome, além de maravilhar gregos e troianos com os inúmeros produtos a serem extraídos de sua diversidade. Antigamente, a nata era um dos principais elementos na mesa dos nossos antepassados. Isso em razão da atividade braçal que desenvolviam. Hoje, com a atividade física restrita a algumas horas semanais na academia (muitos nem a isso se submetem), a nata entrou em rota de colisão com os manuais da moda, da estética, circunstância que vem tornando-a um indesejado membro da mesa contemporânea, algo a se evitar com unhas e dentes.

Entretanto, independente dessas questões, a nata representa o mais nobre da rica composição do leite, a seleção dos melhores elementos que dão estrutura à sua constituição. Com o tempo, o termo passou a designar o melhor de um contexto, a nomeação dos melhores componentes de um universo que se quer determinar. Daí que hoje se fala da nata dos músicos, dos médicos, dos cientistas, dos artistas, dos... Enfim, do melhor que se quer designar em um extrato social específico. Nesse contexto, seria natural que tivéssemos a nata das lideranças, a nata dos políticos, a nata dos homens públicos. Porém, sejamos sinceros: podemos designar como nata a liderança que hoje ocupa espaços públicos no Brasil? Voltemos à nata – a do leite. Pois esta, com toda excelência de sua composição, se não for bem cuidada, bem conservada, estraga, azeda, vencida por bactérias, fungos, vírus e germes de toda ordem.

Alguma semelhança com o ambiente político do qual fazemos parte? Os saudosistas, com alguma razão, afirmam que não se faz mais lideranças como as de antigamente. E apregoam os nomes de Bonifácio, Mauá, Rio Banco, Prudente, Getúlio, Prestes, Juscelino, Aranha... Segundo os tais, que lideranças! Desonestidade nelas não havia; corrução nem pensar; tibieza, frouxidão de caráter também estavam fora do agir de então. Firmes, honestas, patriotas, assim eram nossas lideranças. Ou, por outra, assim eram os que compunham a nata de nossas instituições. Hoje, o verme da corrução, a bactéria da desonestidade, o germe da insensibilidade, da insensatez, do desatino são os elementos que, preferencialmente, entram no perfil do que se convencionou chamar de líder. Costumes em frangalhos; hábitos em decomposição; escândalos infecciosos, tecido azedo pelo quadro patogênico que se estabeleceu.

Os entendidos em nata dizem que para salvá-la das impurezas tem solução. Lavá-la na água é uma. Outros, de mais rigor no diagnóstico, recomendam levá-la ao fogo. Agravante: após o fogo ela perde a qualidade de nata e, entre outros produtos, vira manteiga. Já no tocante às lideranças, a receita da água e do fogo deve ser bem analisada. Submeter, por exemplo, o político corruto à lavagem em água não é recomendável. Pois, dela, o gajo sai mais refrescado, mais asseado, porém com o interior sujo do mesmo jeito. Já o fogo deve se levar em conta. O fogo do voto, bem entendido. Esse sim, o remédio eficaz para a parte infectada do tecido. O fogo do voto depura, promove mudanças... Além de poder ser utilizado vezes sem conta. Com ele não se faz manteiga. Mas as instituições melhoram bastante. E, afinal, o que fazer se da nata das nossas lideranças não se consegue manteiga? Ah, quanta nata azeda. 

19 de Julho de 2013 às 12h19

OLHA A ÉTICA AÍ, GENTE

Ao que parece, a Ética bateu asas do Brasil e deixou no seu lugar um vácuo que vem nos causando enormes prejuízos. Alguns mais pessimistas chegam até a afirmar que por aqui ela nunca fincou raízes. O certo é que, tanto da população em geral como das lideranças em particular, em qualquer nível que se observe, aqui, o desconhecimento do conceito de Ética chega às raias do absurdo. Um deputado carrega namorada, sogra, cachorro e papagaio pelo mundo todo, com passagens pagas pela Câmara dos Deputados, e fica por isso mesmo; outro esconde da Receita Federal um patrimônio avaliado em cerca de R$ 25 milhões e nada acontece; outro contrata empregados domésticos para sua casa e os lota em seu gabinete de deputado e a vida segue no mesmo diapasão; outros vendem suas passagens a membros do Judiciário e embolsam o dinheiro a título de complementação de salário e...

Todos sem exceção, ao apresentarem defesa ou emitirem nota à opinião pública, se dizem inocentes, uma vez que nos seus gestos nada haveria de ilegal. São atos que podem até não ser ilegais, mas, no mínimo, não têm lastro ético. Aí está, então, a grande questão, a grande fronteira a ser desvendada, descoberta, analisada: a da Ética. Pode um representante do povo, pode um funcionário público, pode um empresário de porte pisar na Ética e ficar tudo por isso mesmo? Ora, se todos fazem assim, então o buraco é mais embaixo! Há um ditado popular que diz que "ninguém dá o que não tem". Donde se conclui que a tais pessoas não se pode exigir atitudes éticas se elas não sabem que bicho é esse. Isso as inocenta? De modo algum! A constatação serve para que se olhe para todos os patamares da escala social e se conclua com todas as letras: o brasileiro não foi - nem está sendo - ensinado a respeito de Ética!

Afinal, com raríssimas exceções, qual o curso, qual a escola, qual a rede de ensino - em qualquer nível que seja - qual, enfim, o ente público ou privado que tem entre suas preocupações o ensino da Ética? Daí como se exigir que o brasileiro responda com Ética a assuntos de natureza Ética se essa matéria não tem espaço na sua mente? Então, por isso cessa a responsabilidade de todos? De jeito nenhum! O que se constata é que o assunto é gravíssimo e merece uma forte reflexão das autoridades e lideranças que se envolvem diretamente com a questão. O que se vê, também, é que o Brasil - e outras nações de regime democrático - vêm sendo bombardeadas já há algum tempo por uma gigantesca onda de relativização de valores. "Valores? Para que tê-los? Não me enchem a pança." É o que comumente se ouve por aí, num tipo de afirmação que beira a incivilidade e ao mais extremado cinismo.

Por sua vez, na inexistência de uma cultura que privilegie os valores, o vácuo é criado - e nele viceja a "lei da vantagem", do querer ganhar. Sempre. Pois, afinal, o que impede um homem de roubar, de matar, de fazer apodrecer normas, regras e princípios? A Ética, em primeiro lugar. A consciência de que limites existem e precisam ser preservados para a construção do bem comum. Na Bíblia, um livro de ensino da Ética por excelência, está escrito: "Tudo me é lícito; mas nem tudo me convém", numa permanente evocação à prática da Ética em função da existência do direito dos demais. E mais: a Ética precede à Lei - daí a enorme importância do seu ensino. É como diz aquele velho ditado: "É melhor prevenir do que remediar". Este é o valor que o "homo sapiens" aprendeu para se tornar um ser civilizado. O mais é barbárie, pilhagem, estupro das normas da boa e saudável convivência humana.  

05 de Julho de 2013 às 12h21

Por Que Carlinhos?

O brasileiro tem a mania de tratar palavras e nomes no diminutivo (Paulinho, Zezinho, Castelinho, Prainha, Rocinha…) ou no aumentativo (Ricardão, Rubão, Machadão, Gonzagão, jogão…). É uma demonstração de que o contexto que envolve aquele nome, no aumentativo ou no diminutivo, entrou para o terreno da intimidade, da afetividade, da rotina. Muitas vezes, o "inho" ou o "ão" carregam um pouco de gozação, de tom depreciativo, não deixando, porém, o caso em si, de fazer parte daquela fração de vida da população ligada a hábitos já debitados à rotina que o dia a dia estabelece - chova ou faça sol. Nesse sentido, nos últimos tempos, o brasileiro vem sendo bombardeado por uma chuva de denúncias envolvendo o nome do Senhor Carlos Augusto Ramos - mais conhecido por Carlinhos Cachoeira - e vários partidos políticos, personalidades, instituições e empresas dos mais diversos portes.

Nisso tudo, independente da dimensão das denúncias, causa espanto o escorrego que o nome "Carlos Augusto Ramos" deu para transpor-se ao terreno do diminutivo. Hoje, o gajo é conhecido nacionalmente por "Carlinhos". O pós-nome "Cachoeira" é outro mistério, uma vez que, das suas atividades, nada se assemelha ao significado do termo, a não ser o volume de suas práticas ilegais. Mas, por enquanto, atentemos para o paradoxo do diminutivo "Carlinhos". A realidade é que, diante do seu porte físico (o tal não é propriamente um homem pequeno), e em confronto com suas inúmeras atividades, o mais correto seria nominá-lo de "Carlão"! Pois, se há uma figura que mereça ultrapassar o limite que separa seu nome da grafia e da verbalização normal para o sonoro terreno do aumentativo, este é o Senhor Carlos Augusto Ramos. Ora, o homem é graúdo em tudo! Então, por que o diminutivo?

Por acaso, seria resultado de gestos de carinho de sua família desde os tempos de fraldas? Ou afago de companheiras do campo sentimental aconchegadas sob o seu vasto manto financeiro? Quem sabe, o nome venha da parceria benfazeja com amigos que o taxaram assim como gratidão pelos grandes resultados amealhados? Mistério… Cá com meus botões, eu fico a observar o contraste entre o porte dele como marginal - como homem de negócios que rompeu a fronteira da legalidade - e o nome levado ao diminutivo. E a razão do meu espanto é muito simples: como uma figura assim - que enreda em escândalos de toda ordem os mais altos escalões da administração pública; que envolve, numa tenebrosa cadeia de interesses inconfessáveis, pessoas importantes dos três poderes da República - pode ser chamada "Carlinhos"? De onde surgiu isso? Irônico, não? Para não dizer trágico.

Aliás, tomando Carlinhos como exemplo, como ficariam os nomes de vários e famosos meliantes da História no diminutivo. Imagine Nero sendo chamado de Nerinho; imagine Átila - o Huno, como Atilazinho; Lampião sendo conhecido por Lampiãozinho; Al Capone sendo Caponinho; PC Farias como PCzinho; Nicolau dos Santos como Nicolauzinho… Isso sem falar em outros bandidos envernizados, tão nocivos quanto, e cujos nomes sabemos de cor e salteado. Pela associação, podemos nos indagar se o Carlinhos é tão pernicioso assim - e a realidade aponta que é. Ou, por outra, como classificar alguém capaz de influenciar na eleição de governadores e parlamentares, na nomeação de desembargadores, de ministros, de planejar ousados golpes no coração do sistema produtivo? Por essas e outras, pelos tentaculares poderes e nefasta influência, um homem assim, convenhamos, é "ão". Não pode ser "inho

 

28 de Junho de 2013 às 15h15

CANIÇO AGITADO PELO VENTO

Um dos fortes objetivos de Jesus em relação aos apóstolos era a preparação deles para os tempos futuros nos quais não se faria mais presente em suas vidas - e que seriam fartos em traições, perseguições, julgamentos dissimulados e morte. Entretanto, ao longo da mútua convivência, um fato se estabelecera de tal forma que, predominando, poderia prejudicar o futuro trabalho do grupo: a excessiva dependência de todos a Jesus. Ocorrência natural àquela altura dos acontecimentos, uma vez serem eles homens comuns, ignorantes alguns, desprovidos, até então, de qualquer resquício de poder espiritual. E muito mais ainda em função de terem testemunhado episódios extraordinários, entre os quais a cura de cegos, leprosos, aleijados, a ressurreição de mortos, a conversão de ladrões, assassinos, prostitutas... Fatos a fazê-los ainda mais dependentes diante de convivência tão marcante.

Desapregá-los fisicamente de Jesus - mantendo-os, porém, fieis e alinhados espiritualmente - se fazia fundamental para o sucesso do empreendimento divino, mesmo se revelando missão de difícil execução. Tanto é que, após a crucificação, todos eles (com exceção de Judas, já morto àquela altura) trataram de se esconder das autoridades judaicas e romanas, pois lhes faltava a pessoa confiante, intensa, fascinante de Jesus, tornada imprescindível após três anos de convívio seguro e enriquecedor. Já sabedor das deficiências e fragilidades dos apóstolos, Jesus se antecipa aos fatos (Mateus 11.7b), ressaltando a importância do aprendizado da Palavra e da firme postura mental e espiritual dos agentes que Deus escolhera para divulgar ao mundo seu plano de salvação. E que, ausente Jesus, seriam eles os fieis e resolutos executores de tão importante missão. A arma? A Palavra. Apenas.

Empreitada, convenhamos, de fazer boquiaberto o mais crédulo entre os crédulos, uma vez viver-se uma circunstância em que somente pela força das armas se conseguiria acender em um povo a esperança da vinda de um novo tempo. Daí o que está registrado em Mateus: "Que saístes a ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento?" dizendo de pessoas que se dobram aos ventos das vicissitudes, das dificuldades. E que, aos primeiros sinais dos vendavais da vida, desistem, fraquejam, abandonam sonhos, projetos - deixando-os se esfarelar como capim feito seco pelo passar do tempo. Mais adiante, Jesus repete: "Mas, então, que fostes ver? Um profeta? Sim, vos digo eu, e muito mais do que profeta". Referia-se a João - o Batista, como exemplo de firmeza na visão, na fé, na concepção espiritual e no destemor com que enfrentara enormes desafios na execução da missão que lhe fora confiada.

Batizar Jesus? João alcançou esse objetivo. Pregar o Evangelho do Arrependimento? Ministrou-o com maestria. Ser o maior entre os nascidos de mulher? Esta qualificação o próprio Jesus lhe imputou. Destacar-se como profeta? Jesus também assim o distinguiu. No mesmo discurso Jesus enfatiza que "o Reino dos céus é tomado por esforço", referindo-se aos fariseus que impediam o livre acesso a Deus, por se atribuírem intermediários divinos e por infligir ao povo incontáveis sacrifícios - por Jesus já desautorizados. Significando também que a "tomada do Reino" se faz com permanente esforço individual, empreitada reservada, evidentemente, aos que não se dobram, nem se deixam engolfar pelas aflições da vida. Nem por heresias, modismos, relativismos, falsas doutrinas, nem ilusória erudição secular. Ih! Tempestade à vista! Oh! Guru também! Ih! Vem forte vendaval! Vai virar caniço? Vai se esfarelar?

 

21 de Junho de 2013 às 13h15

DEUS EXISTE. POR ISSO O HOMEM DE FERRO EXISTE

Desde o surgimento do primeiro homem, independente da visão criacionista ou evolucionista que envolve o tema, nunca deixou de existir interação entre o ser humano e a divindade. Independente de épocas, nomes, culturas, hábitos e estruturas político-sociais, o assunto sempre se fez presente na vida do homem, subsistindo até a fortes períodos de oposição à presença de uma pessoa de dimensão divina na rotina terrena. Mesmo o mais empedernido ateu, o mais encorpado descrente intui que existe algo a mais na existência do homem - de difícil ou mesmo de impossível explicação. Algo sobrenatural, muito além do Big Bang e da compreensão, atuou na origem do Universo - fato aceito por alguns, mesmo que de forma enviesada. Enquanto isso - embora formulando suas próprias respostas para tais fenômenos - o homem exercita uma verdadeira compulsão no sentido de buscar a imortalidade.

Em diferentes culturas, em longínquas civilizações, em recônditos miseráveis ou em ambientes sofisticados, o homem cultiva uma chama que arde em seu interior e que, extravasada de forma incivilizada - ou mesmo obedecendo a conveniências sociais - o recoloca no mesmo caminho: a busca pela imortalidade. Ou, por outra, o que leva um feiticeiro indígena a querer diferenciar-se dos demais, acumulando conhecimento que só ele tem acesso, senão o desejo de se tornar algo que o aproxime do divino? E o que faz ambientes cultos e letrados criar organismos culturais, a título de academias de letras, nos quais impera a norma dos sócios se autodenominarem imortais? Ou o que move o monarca que se designa O Rei Sol? Ou o cientista que pesquisa formas de combater a morte, através de fórmulas sem fim que venham prolongar a vida humana, fazendo-a, digamos, imorredoura? Como se vê...

Utilizando-se de bruxaria, de cultura, de poderio político, religioso ou militar, o homem vem tentando colocar-se acima do natural, buscando com sofreguidão um status que o faça imune à morte. Será este fenômeno algo casual, gratuito, de geração espontânea no psiquismo humano? Ou será que algo tão profundo, presença constante em pessoas, culturas e regiões tão díspares, ocorre de maneira semelhante ao nascimento da grama após as primeiras chuvas? Mistério... Nas histórias em quadrinhos, por exemplo, de onde vem o desejo dos criadores de ver seus heróis reverenciados como invencíveis..., como imortais? Mesmo sem ser conhecedor dos mistérios e enigmas que envolvem o universo de HQ, basta dar uma olhada no desempenho de seus heróis - aliás, super-heróis - para enxergar neles seres de atributos jamais encontráveis nos demais habitantes da Terra.

De onde vem, então, esse conhecimento que não se aprende na escola e que se manifesta em Flash Gordon, Batman, Homem Aranha, Super Homem, Homem de Ferro e tantos outros, alçando-os ao time (suprema dádiva!) dos imbatíveis, dos imortais? Ora, se o Homem de Ferro tem status de deus para seu criador, lógico que é reflexo do sonho do artista de se ver imortal! Além do mais, defendendo injustiçados, humildes e fragilizados? Prática tirada de onde? Não seria da essência do Evangelho de Jesus? Se os super-heróis posam de imortais e de deuses, inclusive na defesa dos mais fracos, de qual DNA se origina tal concepção? De qual fonte bebem seus inspiradores? Só pode ser do Deus verdadeiro, ora! Afinal, o homem é imagem e semelhança de Deus! Xeque mate no enigma: o Homem de Ferro só existe porque Deus existe! Ou melhor, Deus existe e fez o homem que criou o Homem de Ferro. Confere?  

 

14 de Junho de 2013 às 11h58

INTELIGÊNCIA E CARÁTER - O EMBATE

Pesquisas mais recentes sobre o funcionamento da mente humana, sobre os elementos que regem a formação da inteligência e suas várias formas de manifestação, demonstram não haver, necessariamente, nenhuma relação entre a inteligência e a moral. Os estudos, da mesma forma, concluem pela inexistência de conexão entre a inteligência e a ética, como também entre ela e o caráter. Nesse território ainda pouco vasculhado da mente, a conclusão a que se chega, lamentavelmente, é que o personagem de uma história, para ser inteligente, não terá, obrigatoriamente, de agir em sua comunidade como pessoa de moral, de caráter, de boa índole. Por tais estudos, a inteligência está desatrelada dos demais elementos que constituem a base do comportamento humano, para planar, como águia, acima dos valores e escolher o rumo indicado pela individualidade e pelo livre arbítrio.

Tais considerações são pertinentes pelo momento de verdadeira inversão de valores que se observa, praticados na vida das pessoas, independente do segmento social que se venha a analisar. Maliciosos, antiéticos e imorais são visíveis em todos os quadrantes a olho nu, sem a necessidade, para descobri-los, de sofisticados instrumentos de medição científica. De todo modo, a conclusão dos estudiosos vem a calhar, pois passa a estabelecer uma rigorosa conexão científica entre o resultado dos trabalhos acadêmicos e a realidade que se vive no dia a dia contemporâneo. E no que isso tudo resulta? Que conclusões, do ponto de vista prático, podemos tirar de tais observações? É que, se antes o homem, em sua grande maioria, agregava à inteligência fortes conceitos carregados de moral e de ética, atualmente posiciona-se numa direção contrária, separando-a e cultivando-a para a prática de delitos de toda ordem.

Se agora está explicado, cientificamente, que a inteligência corre por fora, desligada do caráter, da moral, da ética, nos trejeitos que articula diante dos embates diários da vida, está justificada, então, a onda de safadezas e malandragens que abarrota o noticiário e enche de vergonha, entre outros, os espaços mais nobres da rotina nacional. É corriqueiro, pois, notar-se o uso que se faz da inteligência a serviço dos valores mais mesquinhos, para, como isso, glorificar-se a máxima de que o negócio é levar vantagem - em tudo. Rigor exagerado no que afirmo? Gostaria demais que assim fosse. Gostaria, inclusive, de serem totalmente erradas as observações que faço em torno deste assunto e de outros que compõem o cotidiano humano. Entretanto, não se tapa o sol com a peneira. E o que fica em nós, inexoravelmente, diante da realidade que rola, é o gosto amargo da decepção, da impotência, do desengano.

E o caráter como é que fica? Pra que direção se inclina, afinal? Segundo o dicionário, o caráter é o conjunto de traços psicológicos, o modo de ser, de sentir e de agir do indivíduo. Já a inteligência é a capacidade de fazê-lo perspicaz, de fazê-lo aprender com rapidez, de adaptá-lo a situações adversas. Enfim, de resolver pepinos e propor soluções. Daí, logo se vê que a inteligência trava uma luta renhida entre devotar-se a causas nobres, tendo no caráter um bom parceiro, ou amolda-se de vez às exigências que afloram no contexto da tão apregoada modernidade. Para o caráter manter-se atrelado a princípios morais e éticos, com a inteligência se lambendo por vantagens imorais, não é tarefa fácil. Das duas uma: ou ele vence-a, subjuga-a - para permanecerem ambos num elevado padrão ético -- ou também embarca na gandaia.  Pois, como justificam - com cinismo - os tais inteligentes, resistir, quem há de? 

 

07 de Junho de 2013 às 16h12

TREMER? POR QUÊ?

Um episódio, dia desses, me deixou curioso. Vi alguém tremendo, arfando, nervoso por conta de uma determinada situação, com a qual, graças a Deus, eu não tive nenhum envolvimento. Fui apenas um privilegiado espectador da cena. Daí me dei conta de como é estranho o tremer das pessoas diante de dificuldades, de conflitos, de fortes emoções. Até parece, nessas situações, que o organismo humano age no sentido contrário ao da lógica. Ao invés de nos endurecer psicologicamente, de enrijecer nossa mente diante da necessidade premente do embate; ao invés de impor um rigoroso controle sobre nossas emoções, nos preparando para vencer o inimigo, seja ele qual for, nos põe a tremer, a balbuciar, a perder totalmente o domínio sobre o raciocínio e a tomada de decisões. Então, pensando daqui, pensando dacolá, descobri ser o tremer um companheiro originário e inseparável da ira e do medo.

Logicamente, falo do tremer que não está ligado à manifestação de doenças biológicas. Sabe-se de distúrbios neurológicos que levam a pessoa, por mais dócil que seja, a viver tremendo de maneira incontrolável. O tremer que relaciono aqui é o que vem da ira, da raiva, do ódio, do descontrole das emoções, e também do que se origina do medo, da ansiedade, da dúvida, da incerteza. Este é o pavor do desconhecido, do amanhã, dos desafios, e que leva o organismo a sinalizar, de forma clara e visível, que a carga sobre a pessoa passou dos limites - ou, no mínimo, que o problema, na origem de tudo, está mal administrado. O que se conclui é que o tremer é uma sinalização bastante evidente do momento em que o corpo, a estrutura física e psicológica da qual somos dotados, não tem mais como controlar a situação. E vê no fenômeno a única condição de sinalizar que se aproxima a instalação do caos.

A conseqüência, no médio e longo prazo, é a chegada da depressão, da covardia, da inoperância ao enfrentamento dos problemas do cotidiano. O tremer que advém do medo corrói as pessoas por dentro, tornando o seu viver insípido, fugidio, carregado de uma desesperança sem fim, cujo desfecho, muitas vezes, é a tentativa da morte através do suicídio. O outro tremer, o que advém da ira, do ódio, tem manifestação passageira, é mais ocasional. Suas conseqüências, no entanto, podem deixar marcas profundas e prejuízos irremediáveis na vida do irado e das pessoas que transitam ao seu redor. Más querenças, agressões, quebradeiras, amizades e relacionamentos desfeitos, cizânias, desuniões, são frutos do descontrole daí advindo. O destino final desses casos deságua nas UTI's dos hospitais, pelos acidentes cardiovasculares, ou nas delegacias de polícia, pelos homicídios daí decorrentes.

O tremer, enfim, não é um bom companheiro. Além de corroer por dentro, demonstra, quando explode exteriormente, a perda do controle da situação - com sua alta taxa de imprevisibilidade. E qual a solução? Receita pronta não existe. Todavia, é salutar evitar a instalação do extremo nas emoções e cultivar companhias e ambientes que não tragam sentimentos de conflito. Segundo a Bíblia, "um abismo puxa outra abismo", ou seja, um problema acarreta o surgimento de outro problema - de proporções maiores e de conseqüências inimagináveis. A Bíblia também nos exorta a "fugir da aparência do mal". Ou seja, é melhor evitá-lo do que confrontá-lo. Domínio próprio, outro instrumento poderoso, do qual fomos dotados interiormente para uso em situações de conflito, também se impõe ser exercitado. Com isso, o tremer poderá ser vencido. E vantagem maior: a qualidade de vida continuará a ser preservada.

 

31 de Maio de 2013 às 14h12

O CORRUTOR

Os países em geral, e o Brasil em particular, têm enfrentado verdadeiros terremotos em seus sistemas políticos por conta da corrução. Qual célula cancerosa infectando o corpo humano, a corrução se insere no contexto da administração pública, tornando-se praticamente impossível, a cada dia que passa, o combate à sua manifestação e às conseqüências dos seus atos. A imprensa tem denunciado o surgimento de focos de corrução, por menores que sejam, vivendo seu papel de guardiã do processo democrático. Mesmo assim, episódios dolorosos e de magnitude variada têm se repetido com freqüência cada vez maior na vida das nações, envolvendo, de roldão, governos, partidos políticos e até empresas privadas. O resultado? Renúncias, demissões, desonra - e morte até, conseqüências extremamente prejudiciais ao funcionamento das instituições.

Em todo esse processo tem ficado bem patente, bem visível, a pessoa do corruto. Do político, do alto funcionário público, principalmente dos que administram polpudos orçamentos, ou dos que estão posicionados bem no centro das grandes decisões. O corruto, aquele que aparece em primeiro plano quando a denúncia explode, vai para as primeiras páginas dos jornais, para o horário nobre dos grandes noticiários de tv, para as páginas centrais das grandes revistas, quando, na verdade, ele se constitui tão somente a ponta do iceberg, o porta-estrandarte de um grande esquema. Ou você imagina que um porta-estandarte sairia sozinho na avenida para defender as cores de sua escola? A investigação deveria ir mais além, ao cerne da questão. Mas não vai. Fica na periferia, na instância do jogo miúdo, no universo dos jogadores de pequeno porte. Dificilmente chega ao epicentro, ao coração do sistema - ao corrutor.

Interessante é observar, também, a sanha e a ira dos que acusam o corruto. Meses e meses ele é execrado, apontado, perseguido, acusado muitas vezes até pelo que não praticou. Enquanto isso, lendas, mitos, distorções vão se agregando à investigação do processo, criando, com o passar do tempo, dificuldades cada vez maiores para se chegar aonde todo mundo quer chegar: ao corrutor - aquele que deu início a tudo. Ou como se pode imaginar um funcionário subalterno intermediando negócios que envolvem milhões e milhões de dólares sem ter, atrás de si, a segurança e a garantia de que o proposto será fielmente cumprido? E também como receber alguém em uma negociação não estando seguro do poder que essa pessoa representa? Você negocia com quem não está autorizado para tanto?

Ah, o corrutor! Vive nas sombras, plantando, insinuando, se inserindo, doutrinando - e manchando todo lugar com a planta de seus pés. O tempo passa, os processos se avolumam, os corrutos aparecem e desaparecem no noticiário, o país segue seu caminho, mas o corrutor continua lá, impassível, invisível, empoleirado no poder, acobertado pelas circunstâncias. Seu objetivo é ganhar dinheiro - sempre. Para tanto, envolve pessoas, mente, distorce, adultera. Desvia a merenda de crianças pobres, os remédios dos idosos carentes e o leite de populações indefesas. De quebra, joga o país na rua da amargura e as instituições num redemoinho sem fim. Pensando bem, quem é tal figura? Um mero sabichão? Um fruto degenerado da natureza humana? Ou uma disfunção do orga-nismo político? É difícil a conclusão. Do corrutor, lamentavelmente, não se sabe quase nada. Somente as conseqüências daninhas da sua "lucrativa" atividade.

 

24 de Maio de 2013 às 12h56

A VITÓRIA (MUITAS VEZES) VEM DE LONGE

Um homem muito sábio falou certa vez que o suicida ao buscar a morte não está propriamente querendo colocar um ponto final na sua existência. Com seu gesto, está, na verdade, procurando desesperadamente uma saída, um novo ambiente onde possa continuar os seus dias. Um novo lugar onde possa se situar longe das angústias, dos problemas que o estão atingindo com magnitude tal a ponto de instigá-lo a querer exterminar a própria vida. Por esse raciocínio, ao suicida não está faltando o desejo de viver. Acima do sentimento de morte se sobrepõe a vontade ardente, sobre-humana, irracional até, de buscar uma saída, uma porta que lhe ponha em contato com uma nova realidade de vida. Deixando de lado nessa questão aspectos filosóficos, religiosos e sociais, o que essas pessoas adquiriram, na verdade, foi uma noção equi-vocada de que o tempo e o espaço para elas acabaram, deixaram de ocorrer.

É como se, em linguagem militar, o campo de manobra do comandante não existisse mais. Ou por outra, é como se ele não tivesse mais nenhum espaço para operar com o seu exército em razão do maior poderio do inimigo. Em circunstâncias assim o que fazer? Para alguns é chegado o caos, o término de tudo; para outros, apesar das dificuldades, ainda há tempo de buscar alternativas, de retirar da mente o direcionamento que apontará para inúmeros outros caminhos. No caso militar, a rendição pode ser uma saída, uma operação que poderá embalar sonhos de vitórias futuras - apesar do clima de derrota se fazer tão presente. A História está repleta de casos e exemplos de grandes personagens que se tornaram grandes personagens pela busca incessante de novas saídas, de novos rumos, mesmo quando a realidade presente sinalizava para o fim, para a derrota, para a morte até.

Já o problema do suicida é que a sua luta se trava noutro plano. Num patamar, lamentavelmente, sem volta. Super dimensionando a extensão dos seus problemas, de seus traumas, de suas desconexões, o suicida lenta e inexoravelmente se encaminha para um beco sem saída, deixando de lançar o olhar para novos relacionamentos, novos horizontes - de onde poderá descortinar uma outra dimensão para suas dores. Deixando, assim, de vislumbrar as inúmeras soluções que existem para seus problemas. É o que os psicoterapeutas indicam como "fechar a janela da inteligência" - um eufemismo que significa fechar os arquivos do cérebro, da memória, torná-los inacessíveis para as incontáveis alternativas que ali nós podemos buscar. Quer dizer, as soluções existem. Os arquivos do cérebro estão prontos para apontá-las. Resta a essas pessoas tomar uma atitude: buscar.

A diferença nas pessoas está, então, em crer ou não crer, em enxergar ou não além da sua própria realidade. O que dita as reações da grande maioria - e do suicida em particular - é o problema que está à sua frente. Dominador, torturador, inclemente. Churchill, por exemplo, foi um personagem maravilhoso no sentido de olhar muito além do seu próprio horizonte. Para onde Churchill direcionava o olhar que vislumbrava a vitória em uma guerra que tudo indicava perdida? A realidade era de dor, de sofrimento, de caos. Onde subsistia nele uma chama, uma visão, uma resistência que ninguém via - e que acabou por contagiar um país inteiro, um povo em sua quase totalidade? Churchill estava convicto de que a vitória viria de longe. Na verdade, seu olhar estava fixo num horizonte muito além do doloroso cenário de guerra.

 

17 de Maio de 2013 às 13h09

A IGREJA PODE SER MODERNIZADA?

Com a renúncia do Papa Bento XVI, e a conseqüente eleição de um novo mandatário na Igreja Católica Romana, voltaram a pipocar as velhas e lamentosas vozes que tentam, a todo custo, pressionar a Igreja no sentido da modernidade. Para estes parece até que os problemas da humanidade não serão resolvidos "se a Igreja não se modernizar". Estranho tudo isso. Onde já se viu Igreja se modernizar? Se as tentativas de modernidade se direcionam para alterar os princípios pelos quais a Igreja se move, estão perdendo tempo. Em primeiro lugar, é preciso que tais "experts" sejam sabedores que a Igreja é implantada, fincada, fundamentada, enraizada, alicerçada nos princípios estabelecidos por Jesus Cristo. Seu funcionamento, portanto, independe dessa discussão. São questões espirituais, imateriais, inacessíveis a propostas que busquem enlaçar a Igreja em um "contexto reformista mundano".

Quem trata desses assuntos, sem a devida autoridade e conhecimento, precisa saber que a Igreja não atua segundo o pensar humano, muito menos segundo a visão e objetivos de movimentos que surgem ao bel prazer de grupos, partidos políticos, ONGs e associações de qualquer natureza. Afinal, a Igreja não é deste mundo, embora por aqui esteja. Ora, se a Igreja é de Jesus - e ele afirmou categoricamente "eu não sou deste mundo, como eles (a Igreja) também não o são" - como querer misturar no mesmo entendimento a Igreja Dele com desejos seculares? Além de paradoxal, isso é inadmissível! Se não vejamos: será possível modernizar o amor, o perdão, a salvação, a santidade, a fé, a compreensão, a humildade, a tolerância…? Como fazer para tornar modernos princípios eternizados pelos ensinamentos de Jesus - e em vigor desde que o homem habita a face da Terra?

De estarrecer nisso tudo é vermos teólogos se juntando a coros de personalidades famosas, ateus, místicos, líderes políticos… (gente, enfim, sem o menor conhecimento sobre o assunto), arrotando sapiência (distorcida) e entendimento (enviesado) sobre tema de natureza imutável - e do qual não entendem bulhufas. Bradam, arreganham os dentes pelas mudanças ditas modernas (porém de todo impensáveis) no discurso e no posicionamento da Igreja. Ora, essa modernização vem ocorrendo normalmente através do tempo - onde é possível ocorrer. O apóstolo Paulo evangelizava a pé, a cavalo; hoje os missionários se utilizam de carro, de ônibus, de navio, de trem… Portanto, fazendo uso de modernos meios de locomoção. Por outro lado, é intenso e visível, em todas as partes do mundo, o trabalho de evangelização pelo rádio, pela tv, pela mídia impressa, pela internet. Isso é modernismo ou não?

Hoje, os templos já atendem os ditames da modernidade com ar condicionado, som de qualidade, data show, instrumentos musicais sofisticados, além de mudanças no governo e na arquitetura. Modernidade, cara pálida, modernidade… Querer que a Igreja vá além disso é tentar enquadrá-la numa categoria à qual ela não pertence, pois a Igreja não é deste mundo. É parte inamovível do Reino de Cristo. E quem Nele passa a crer o faz sabedor dessa realidade. Afinal, "quem ama as coisas desse mundo não é de Deus". Muitos que tentam jogar a Igreja na vala comum do mundanismo o fazem por ignorância, por desconhecimento da Palavra. Outros, porém, agem conscientemente na defesa de interesses cujo propósito é o de desvirtuar, secularizar a obra de Jesus - e tal intento jamais será alcançado. Aliás, sobre a Igreja, Ele próprio sentenciou "… e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela".

 

10 de Maio de 2013 às 11h37

O SILÊNCIO DE ADÃO

O silêncio é uma atitude estranha. Na maioria das vezes, apresenta-se como demonstração de humildade, de submissão, de renúncia. Em outras, deixa transparecer o verniz da covardia, da omissão. Mas não deixa de ser um comportamento contraditório, polêmico até. Jesus, por exemplo, deu conotações edificantes ao silêncio. Utilizando-se dele, deixou Pilatos maravilhado e seus acusadores totalmente desnorteados, sem terem o que dizer. Calado, ele eternizou um momento em que o esperado, de sua parte, era que falasse, argumentasse, se defendesse das acusações injustas que lhe imputavam. Do episódio saiu engrandecido. O seu silêncio rasga os séculos até os dias de hoje como elemento de sabedoria, de renúncia, de negação de si mesmo. Já outros personagens… Estes, pelo silêncio, fugiram do desconforto de falar e deram péssimo testemunho com essa atitude.

Um livro de um escritor cristão trata do assunto de forma interessante. Com o título "O Silêncio de Adão", ele trata da paralisia cerebral e da inércia comportamental que acomete a grande maioria dos homens nos cruciais momentos de decisão. E constata que duas atitudes se destacam no universo masculino. A primeira delas é o silêncio simplesmente. Covarde, omisso, pegajoso - e, o que é pior, contagiante. A segunda atitude se traduz na incorporação, pelo homem, da figura do machão, que, não tendo o que falar, não tendo destreza mental para argumentar, opta pelo clássico gesto de usar da violência, de esmurrar a mesa. Em ambas as situações ele dá adeus ao diálogo e fecha a porta ao desabrochar de uma nova realidade.

Com este enfoque, "O Silêncio de Adão" trata, enfim, da inclinação histórica que o homem vem apresentando através dos tempos para fugir de suas responsabilidades. O primeiro grande exemplo que o livro apresenta é o de Adão. Sim, o Adão da Bíblia, o primeiro homem. Pela narrativa bíblica, Deus fez de Adão o detentor de todo o plano divino para a humanidade. Só exigiu que Adão e Eva, ela criada posteriormente, não comessem da árvore do bem e do mal. A exigência foi feita especificamente a Adão. Certamente já sabendo disso, a serpente procura Eva para tentá-la na desobediência a Deus, convencendo-a a comer do fruto da árvore. O interessante é que Adão estava presente ao episódio e em nenhum momento se pronunciou contrário ao assédio da serpente a Eva. Fez pior. Além de se omitir, de se calar, concordou com a mulher e comeu do fruto da árvore proibida. Porque Adão se calou? Porque não esbravejou contra a invasão da serpente ao território mental de Eva, terreno que, pelas instruções claras de Deus, teria que preservar? Também através de outro exemplo bíblico, o livro mostra um homem que se utilizou da truculência para resolver uma situação que tinha tudo para ser equacionada pelo diálogo. Trata-se de Caim, o assassino de Abel. Na narrativa bíblica consta apenas um convite de Caim a Abel para irem, juntos, ao campo. Lá, ele matou o irmão sem dar nenhuma chance ao diálogo. Foi a típica atitude de quem, não tendo disposição para se utilizar da fala, preferiu dar "um murro na mesa" para deixar bem claro que o mais forte fisicamente tinha o controle da situação. Será?

Esse comportamento também pode ser facilmente observado nos dias de hoje. No casamento, então, nem se fala. Quantos lares desfeitos, destruídos pela fuga, pela covardia, pela indisposição de falar, de dialogar, de enfrentar, da parte do homem, situações de conflito. Pelo exemplo de Adão, nessas ocasiões, só resta, ao universo masculino, duas soluções: ou se cala, se omite e vai embora, consumando a separação, ou dá um murro na mesa e vence a situação pela truculência, pela violência, pela lei do mais forte. E vence? Será vitorioso um homem que só sabe resolver suas questões pela violência, pela força? Essa, lamentavelmente, é a herança que o primeiro homem nos deixou.  

26 de Abril de 2013 às 12h19

SER CHIQUE

Creio que, com raras exceções, todas as pessoas querem ser chiques. E, com a penetração planetária dos veículos de comunicação acontecendo mais do que nunca no dia a dia das populações – principalmente das mais carentes – reforçando, enaltecendo, estabelecendo a necessidade, a obrigatoriedade de todos se transformarem em chiques, de se darem bem, de serem bem sucedidos, essa questão virou uma paranóia universal. Daí que, a cada dia que passa, mais se cristaliza essa onda, essa aspiração coletiva. Mas, o que é ser chique, afinal? Será um bom negócio lutar para se alcançar este objetivo, essa posição? Ou será melhor nem se dá atenção a estas coisas, torcendo o nariz para assuntos de tal natureza? Para a grande maioria das pessoas – e de acordo com o conceito da palavra fixado pelos tempos atuais – chique é, primeiramente, ser refinado, andar na moda, ter acesso ao que é bom...

Manter amizade com pessoas importantes, freqüentar restaurantes sofisticados, ter conhecimento sobre as bebidas que entram nos guias indicativos das grandes revistas, comentar o livro que lidera a lista dos best-sellers, conhecer detalhes da vida das grandes personalidades, está por dentro das grandes transações do meio empresarial, saber da intimidade da vida dos políticos de renome, citar autores endeusados pela mídia, fazer trejeitos repuxando bem os S e os R das palavras... Como se vê, a lista é grande e poderá se tornar até enfadonha. Coincidentemente, li, dias atrás, entrevista de uma esfuziante celebridade, a francesa Cécile Bonnefond, presidente da Veuve Clicquot Ponsardin, fabricante do chiquérrimo champagne Veuve Clicquot, sobre esta e outras questões. Deixando de lado as outras, mantive-me atento, na entrevista, à sentença de sua autoria sobre o que é ser chique.

A resposta de Cécile Bonnefond me deixou surpreso e encantado. Afinal, para uma mulher rica, bem sucedida, acostumada a desfilar seu charme e currículo profissional nos mais refinados ambientes do mundo, nada mais natural que ela também ratificasse o que significa ser chique de acordo com os conceitos emitidos atualmente. Nada disso. Segundo ela, tchan, tchan, tchan, tchan, ser chique é: “Saber ser adequado nas diversas situações”. Sacou? Agora, digo como aquele locutor esportivo: “Pelas barbas do profeta! Que bonito! Que lance, o de Cécile!” Pois é. De acordo com ela, ser chique não é necessariamente ser rico, não é obrigatoriamente ser culto, nem ter amizades importantes, nem freqüentar lugares refinados, muito menos saber das picuinhas que preenchem a vida das celebridades. Ser chique, enfim, é saber se portar dignamente na vida – mesmo nas situações mais desafiadoras.

Ser chique é ser parlamentar, por exemplo, sem se envolver em falcatruas. Ser chique é presidir o Senado Federal sem deixar atrás de si um rastro de lama. Ser chique é ocupar o posto de ministro sem receber propina. Ser chique é dirigir a escola e ser apontado pelos alunos e seus pais como exemplo a ser seguido. Ser chique é administrar os recursos públicos com eficiência e responsabilidade – e dar conta até dos centavos. Ser chique é cultivar a humildade, a sensatez, a serenidade, além do respeito ao próximo. Ser chique é suportar a injustiça, o desamor, a desatenção, sem revidar na mesma moeda. Ser chique é ocupar uma posição de liderança e lutar para que os que estão mais abaixo tenham a chance de sonhar com o posto mais acima. Ser chique é nunca precisar dar um murro na mesa para os outros lhe seguirem. É fácil? Não, não é. Mas que é chique ser chique – ah, isso é.   

  

19 de Abril de 2013 às 12h12

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO!

Esta é uma das citações mais conhecidas da Bíblia. Faz parte de um dos mais belos momentos vividos pelos discípulos na companhia de Jesus. A essência de seu discurso envolvia a questão da ansiedade das pessoas, já naquele tempo, com a sobrevivência, com o vestir, o ter, o exibir. Na sua palavra, Jesus exortava os presentes no sentido de não se angustiarem tanto com as necessidades do dia a dia. Muito sabiamente, Jesus já preparava as pessoas daquele tempo - e dos tempos atuais - a respeito da importância de preservar sua qualidade de vida, não permitindo a ocupação da mente com pesos em excesso nem com uma configuração de vida super avaliada nas coisas materiais. Aliás, Jesus também deu uma certa importância às demandas materiais de nossas vidas, deixando bem claro, porém, de que nossa preocupação com essas coisas deveria caminhar até um certo limite. A partir daí...

As palavras de Jesus lastreiam também uma afirmação de fé. No momento em que fez essa afirmação era verão na Palestina e nos campos, rigorosamente, não havia lírio algum. Jesus tencionava, assim, puxar pela mente das pessoas, fazendo-as lembrar de que, apesar da geografia árida, seca que elas tinham diante de si, existia sempre a perspectiva de um tempo de beleza, de fartura, de provisão. Ou por outra: mesmo quando a vida está em baixa, com predominância da dor, da incerteza, da amargura, existe sempre a perspectiva de surgir o outro lado da medalha. E, através da fé, um novo tempo poderá ser alcançado. À frente de Jesus as pessoas estavam confusas. Como enxergar lírios belíssimos, de uma textura luxuriante, em meio à secura de um período de verão? Ou como enxergar uma nova realidade de vida diante da escravidão materializada na presença do senhorio romano?

"Olhai os lírios do campo!" Ao fazer tal afirmativa, Jesus queria enlarguecer nossa visão, ampliar nossos horizontes. Sabe-se que no campo existem armadilhas contra a vida. As aves de rapina, os répteis, os rigores do inverno, o calor inclemente do verão. Os predadores, os animais de grande porte, as ervas daninhas... Apesar disso tudo, os lírios também surgem, emoldurando com sua beleza uma nova realidade. O problema é quando o campo - em síntese, na ótica de Jesus, uma alegoria da vida, do mundo - é visualizado somente através das grossas lentes do negativismo gratuito. Apesar de todas as adversidades da vida, há sempre a presença de algo belo a ser visto, focalizado, priorizado. E que, diante de um vastíssimo leque de sentimentos que a vida nos impõe, tais como o egoísmo, o individualismo, a soberba, a arrogância, há sempre a chance de cultivarmos o belo, o frutífero, o substancial, o edificante.

Ao que tudo indica, a planta que Jesus nomeou em seu discurso como lírio é hoje conhecida com o nome científico de "anemone coronária". Tinha uma haste de uns 40 centímetros e pétalas vermelhas, púrpuras, azuis, róseas ou brancas. Era uma planta de floração comum na região, florescendo próxima ao tempo da colheita do feno. Já era usada em larga escala na decoração dos ambientes requintados, bem como nas casas simples dos moradores do campo. Era, por assim dizer, um referencial de beleza, de nobreza, de excelência decorativa. Uma planta que realmente fazia a diferença. É nesse ponto que quero destacar o eixo sobre o qual gira o ensinamento de Jesus.  


JM